Não é pesadelo. É realidade

Não, não é um pesadelo. É o que é. Sem panos quentes. Na dura realidade de um país mergulhado no ódio, a insensatez dos inescrupulosos não dá trégua. A violência está autorizada, com passaporte carimbado por quem comanda a nação. Perdemos o sono. E está difícil sonhar.

Estamos em alerta. Acordados e de olhos arregalados diante das atitudes torpes, irresponsáveis, mesquinhas e machistas, que se tornaram cotidianas no país. Atitudes que humilham, ofendem, roubam nossos direitos e nos intimidam, sem o mínimo resquício de humanidade e respeito. O feminicídio aumenta. Pessoas com deficiência rejeitadas e ameaçadas de perder a lei que as protegem. A população LGBT condenada pelo conservadorismo estúpido. Os negros e os índios hostilizados. A educação, que considero um dos principais compromissos de um governo responsável, sem régua e compasso, ao sabor da ineficiência dos gestores.

A escancarada apologia da tortura e a supressão de direitos básicos mostram a cara de um Brasil que desconheço e que me assusta ao carregar uma brutal negação das conquistas de todos nós – a diversidade, as lutas das minorias, a democracia. O objetivo é empurrar toda pessoa que pense diferente ou apresente alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para a invisibilidade, o esquecimento, a não participação. Para uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A amarga discriminação imposta deriva da construção de um país e de uma ideia de normalidade sem fundamento algum.

Tempos sombrios

A realidade é cruel e não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa, que se vende com facilidade, decide os destinos do país com apetite voraz. Todos voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam por vias sórdidas e recheiam os bolsos de políticos de carreira e de empresários de plantão, prontos para garantir o lucro acima de qualquer coisa e não perder nada. Tudo é negociado. O poder, os cargos, as regalias, o silêncio, os apoios, as conveniências. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados são o alvo do momento, apontados como os responsáveis pela crise da previdência social. Não se fala da sonegação secular das grandes empresas. A solução? Encolher direitos trabalhistas, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Mas os políticos e a elite empresarial garantem que tudo é feito por uma causa nobre: Alinhar os descaminhos do Brasil e apoiar um governo que, ironicamente, não poupa esforços para privilegiar os militares e faz agrados para manter o judiciário sob sua guarda. O povo? Que vá trabalhar!

Tempos de desencanto

Quando comecei a escrever neste blog – com a proposta de refletir sobre inclusão, acessibilidade, preconceito, direitos humanos e os limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença – jamais pensei que teria pela frente tempos tão difíceis. Hoje, diante do desmonte que aí está e diante de um governo que acha que a Lei de Acessibilidade e Inclusão é uma bobagem, falar sobre estas questões se tornou ainda mais necessário. É fundamental reagir.

Tempos de não deixar passar

Reafirmo que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, o governo anula a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula a criatividade. Anula a democracia. Anula o humano. Enquanto os defensores dessa casta violenta, que se julga acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância. Por isso, mais do que nunca, vivemos tempos de resistência, de mostrar o que somos e a que viemos. É a soma das nossas tantas imperfeições que nos faz humanos, inquietos, lutadores, criativos e utópicos.

Não queremos apenas atrapalhar o trânsito. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como pessoas com direito à vida plena. Queremos autoridades que efetivamente nos representem, nos reconheçam e respeitem nossos sentimentos. Um governo que vê nos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família a caminho de um chá de bebê apenas um “lamentável incidente” não me representa. Que seres são esses que não se abalam com tamanha tragédia e seguem a brincar de fazer e desfazer pelas redes sociais, submissos aos caprichos do país mais poderoso, mais cruel e mais invasivo do planeta?

Tempo de Saudade

Dia desses me peguei cantando “Só cai quem voa”, do Nico Nicolaiewsky, canção que gosto demais. Marlene Teixeira, minha irmã, e eu ouvíamos muito, antes e depois da morte do Nico. Senti uma saudade louca dos dois e redescobri o texto abaixo, que escrevi em abril de 2014.

 “Sou poeta analfabeto, sou maluco, sou profeta, sou palhaço e sou cantor”

Conheci Nico Nicolaiewsky nos anos 1970. Éramos um bando de jovens inquietos, movidos pela arte, e viramos “tietes” de um grupo formado por Chaminé, Sílvio Marques, Gata, depois Pezão, e Nico. Piano, baixo, violão, bateria, às vezes acordeon. Chamava-se “Saracura”. Músicos, compositores, cantores, eles criavam e recriavam canções, levando para o palco talento, inventividade, alegria, o que nos encantava. Não perdíamos nenhum show. Claudio Levitan escreveu na época: “A música do Saracura são sons que vagueiam no cotidiano”. A banda foi considerada a melhor do ano de 1979!

Reservado, parecendo tímido, Nico se transformava no palco. Era o seu lugar! Aos poucos, percebemos que estávamos diante de um grande artista que, ao piano ou com o acordeon, sempre trazia uma novidade, emocionava e fazia rir com sua interpretação teatralizada das canções. “O Ébrio”, de Vicente Celestino, era uma delas, assim como o “Tango da Mãe”, do Levitan. Aí, em um dado instante, a banda se desfez. Lamentamos, vivemos a tristeza necessária e cada um seguiu seu caminho.

Não demorou muito, talvez em meados dos anos 1980, redescobrimos Nico em um pequeno show, quase um esquete, absolutamente sensacional, em um micropalco, no bar do IAB, ao lado de Claudio Levitan e Hique Gomes. Chamava-se “Tangos e Tragédias”. Criavam e reinventavam canções através de interpretações incríveis, líricas, irônicas, românticas, nostálgicas. Do cômico ao trágico, cada apresentação mostrava muito mais do que excelência musical. Naquele espaço minúsculo estavam artistas genuínos que pareciam ter saído do teatro de rua, do meio dos trovadores, da commedia dell’arte, do circo, das serestas, das bandas de interior, dos filmes de Chaplin, misturados ao novo. Como artesãos, teciam as mambembices maravilhosas do mundo da arte, especialmente da música, transitando entre o popular, o erudito, o cafona ou brega, o teatro, o cinema, a ópera, a dança, com leveza e paixão.

Engraçados e sérios, Nico e Hique sabiam como prender o público por todos os lados – pela qualidade da música que faziam, pelas performances inesperadas, pelo figurino, pela maquiagem, pela postura, ora sisuda, ora meio clown, ora meio seresteira, ora operística, um tanto românticos, outro tanto irônicos, singelos e grandiosos, com uma cumplicidade e um jeito de quem definitivamente estava ali para brincar, levando a arte que faziam com muita seriedade e prazer.

Tangos e Tragédias virou um fenômeno jamais visto no Rio Grande do Sul. Atravessou fronteiras. Em Porto Alegre, a consagrada temporada de janeiro no Theatro São Pedro era um frescor no verão escaldante da cidade. Mas eles jamais se entregaram ao sucesso fácil. Intrépidos e irreverentes, sempre garimpavam uma novidade para o espetáculo e, paralelamente, dedicavam-se a projetos artísticos individuais.

Foi assim que depois de três discos solo, em meio a apresentações Brasil afora, Nico mais uma vez nos surpreendeu com o show “Música de Camelô”. Revelou por inteiro sua alma de cantor-poeta-artista popular, capaz de criar, sem preconceitos. “Sensível, emotivo e poético, forte e rápido ao transfigurar a realidade numa gargalhada, com um riso que acariciava nossa dor e nos transportava para a vida”, na bela definição de Claudio Levitan.  (Lelei – 16 de abril de 2014)

Nico nos deixou em 7 de fevereiro de 2014, dia de uma profunda tristeza em que Marlene e eu revisitamos as suas criações e cantamos muito.

Marlene partiu em 5 de abril de 2015, dia em que fiquei dilacerada, sem chão. Mas a arte está aí para nos salvar, nos fazer tirar os pés do chão, voar, cair, levantar, voar – “Pois só cai quem voa / só quem tira os pés do chão”.

O Dicionário de Aldyr Garcia Schlee

Quando li o artigo de Paula Sperb em “Conte-me um conto, mas que seja lindo e feio como a vida” (ardotempo, 2019, Jaguarão/Pelotas), “o livro do sonho de Aldyr Garcia Schlee” (1934-2018), respirei fundo. Paula diz que “A literatura de Schlee transborda para a vida de quem lê”. E eu estava tomada pela literatura do escritor. Absorvia suas palavras, sentia o cheiro dos lugares e dos personagens. Suas dores, suas alegrias, suas vidas à margem – mergulhadas em rotinas previsíveis, solitárias, desgarradas, esquecidas no tempo, perdidas em lugarejos, às vezes desesperadas, às vezes desvairadas, sem eco, mas cheias de desejos e humanidade – pulsavam em mim, como se minhas fossem. E são. Inevitavelmente.

A obra de Schlee provoca uma turbulência de sentimentos cotidianos que comovem pelo não dito, pela simplicidade e pela dimensão da tragédia humana ali estampada, anunciada e silenciada. “A fala, quem a faz é o povo” e sua literatura é feita do povo.

No dia 20 de março, na cerimônia de lançamento do “Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense” (Fructos do Paiz, Pelotas, RS, 2019), no Palácio Piratini, ao colocar as mãos neste “trabalho de toda uma vida”, como ele mesmo definiu, senti um emaranhado de emoções. Além do orgulho de ter integrado a equipe de revisores desta obra fundamental, com a parceria do jornalista e amigo José Walter de Castro Alves. Foi um trabalho meticuloso, instigante e desafiador. Aprendemos muito e vivemos aquele momento incrível de satisfação e realização profissional. O dicionário tem o patrocínio da Braskem, através do financiamento do Pró-Cultura RS.

Crédito da foto: José Walter de Castro Alves

A cerimônia de lançamento foi simples e cheia de afeto. Schlee certamente não concordaria com tudo o que ali aconteceu. Mas foi uma maneira sensível e delicada de falar da sua longa pesquisa, da sua paixão, da sua trajetória impressionante pelo universo das palavras e das fronteiras. E, claro, possibilitar que as pessoas que estiveram sempre muito próximas dele falassem do escritor genuíno que é.

Em entrevista para o jornal Extra Classe, no final de outubro de 2018, ouvi dele: “Este dicionário que estou produzindo e que está quase no final é uma obra personalista. É o meu dicionário. Traz a minha perspectiva de mundo, o meu posicionamento sobre o processo cultural pampeano, sobre a cultura de uma região fronteiriça. Cada verbete é uma grande dissertação, mesmo sintético na sua escritura”.

A fronteira, para Schlee, é uma espécie de espelhismo. “Meu mundo literário está vinculado fortemente com esta fronteira, com o outro lado do rio, onde está o Uruguai. Não é uma terra só. É o outro lado. E eu ainda não entendi a diferença que há entre um lado e outro. É o mesmo lado. É onde a gente se vê, onde a gente se reconhece, onde a gente se espelha. Por isso, minha literatura é toda perpassada por esta marca”.

Especialista em literatura gaúcha e uruguaia, Schlee publicou mais de 15 livros, entre contos, ensaios e romances, e sua obra integra mais de seis antologias. Ele fazia questão de dizer que o foco principal da sua literatura sempre foi a identidade cultural que permeia as relações fronteiriças, os outros lados que pontuam as relações humanas na região. Foi por essa paixão que Schlee se dedicou durante muitos anos à produção e à finalização do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, obra de fôlego, em dois volumes, que ele assina sozinho e que, agora, chega ao público. Inicialmente será entregue para instituições de ensino, pesquisa e bibliotecas e depois ficará disponível para download.

Doutor em Ciências Humanas, Aldyr Garcia Schlee é um em muitos. Escritor, jornalista, tradutor, desenhista, professor universitário, ao longo da vida criou jornais, ganhou prêmios literários e jornalísticos, fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas/UCPel, de onde foi expulso durante o golpe militar de 1964, quando foi preso. Schlee criou ainda o uniforme verde amarelo da seleção brasileira de futebol. É natural de Jaguarão, cidade ligada a Rio Branco, no Uruguai, por uma ponte, e essa fronteira marcou profundamente sua vida e sua criação literária. Tanto que a ponte, em foto assinada pelo amigo Gilberto Perin, está estampada na capa de O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Editora Ardotempo, 152 páginas), lançado no dia 3 de novembro de 2018, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Margs, em plena Feira do Livro de Porto Alegre. Schlee morreu logo depois do lançamento, em 15 de novembro.

Escrever é uma forma de resistência

Nestes tempos de desmonte e descaso com o outro, muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: É! Mas desistir seria desolador.

Pensar, escrever e conversar sobre acessibilidade, inclusão, deficiência, preconceito, direitos humanos é uma forma de resistência. É uma recusa aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento. É um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social. É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades do cotidiano e seguir firme porque a discriminação dói. E, além de doer, carrega um não avassalador. Afronta nossa sensibilidade, nosso desejo de acolhimento, nossa inteligência. Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Na maioria das vezes, os espaços só se abrem se, por alguma razão, a pessoa com deficiência assume um protagonismo qualquer e vira um exemplo de superação. Passa a ser ovacionada vida afora, como se sua existência só tivesse sentido a partir disso. Nada mais.

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa anônima com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. Em especial o olhar do outro, daquele que olha e a vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las. No sentido prático, o que realmente esses olhares fazem por nós, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

Fora do institucional, temos muitas organizações trabalhando, refletindo sobre estes assuntos, mas as frestas do cotidiano, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”, são violentas. Precisamos estar atentos ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala no Brasil hoje? Como não alertar as pessoas diante do vem por aí no campo da educação? Até porque quem assumiu o poder diz, em alto e bom tom, sem nenhum pudor, que acha desnecessária uma Lei de Acessibilidade e Inclusão. Afinal, criança com problema tem é que ficar em casa. Querem indivíduos ágeis, eficientes, perfeitos e servis, é claro.

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando. Diante deste cenário, nossa luta precisa de mais fôlego. Não podemos perder a possibilidade incrível de fazer o mundo avançar, ampliando os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. Já disse e repito: é na diversidade que está a grande riqueza humana.

Não somos regidos pela excelência, pela agilidade, pela produção em massa até o esgotamento físico e mental. Não estamos em competição. Não somos heróis, nem heroínas.  Reconhecemos nossos limites (todos temos limites!) e possibilidades e vamos ajustando a vida cotidiana a partir da nossa singularidade. Sem rótulos – “Pequena Grande Mulher”, “É nos pequenos frascos que se encontram as grandes essências”, ou outro qualquer. Não queremos compensação. Não queremos ser exemplo de nada. Está tudo certo, por exemplo, com os meus 1m10cm, minhas pernas curtas, meus braços pequenos e meus dedos gordinhos.

Queremos sim é que as pessoas nos respeitem, sem subestimar nosso jeito de ser. Recolham, por favor, os risos debochados, os dedos apontando, as mãos que nos tocam de qualquer jeito, as perguntas infames, as imitações ridículas, os olhares piedosos, o constrangimento e nos deixem passar.

Que país é o Brasil?

Nos anos 80, a banda brasileira de rock Legião Urbana cantava/perguntava, no terceiro álbum, lançado em 1987, que país é este? – “Terceiro mundo, se for / Piada no exterior / Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão”.

Pouco depois, no disco Ideologia, lançado em 1988, Cazuza desafiava o país em uma canção chamada Brasil – “Brasil mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim / Brasil, qual é teu negócio / O nome do teu sócio / Confia em mim”.

Os jovens dos anos 1980 jamais imaginaram que as músicas, cantadas com tanto entusiasmo em uma época, seriam ainda atuais em 2019. As mesmas questões se colocam, mas soam de um jeito estranho, em um cenário cruel, absurdo, sarcástico, impiedoso e vulgar.  Como escreveu Eliane Brum na sua coluna recente no El País “em apenas dois meses de Governo, o Brasil se tornou o laboratório do novo autoritarismo”.

Não há “planejamento, nem por projetos, não por estudos e cálculos bem fundamentados nem por amplos debates com a sociedade, mas sim pelos urros de quem pode urrar nas redes sociais”. (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/06/opinion/1551904505_351681.html).

O Brasil mergulhou no ódio. Não há alteridade. Não há empatia. Há, sim, uma polarização calcada no poder, na ignorância, no deboche. Estamos diante de um movimento devastador pela apropriação e supressão de direitos já adquiridos. Tudo em nome da salvação do país, dos estados, dos municípios, como se o cidadão comum fosse o responsável pela corrupção e pelo desvio de verbas que deveriam ter sido aplicadas em saúde, educação, segurança, mas não foram. Como se o rombo da previdência fosse tão somente um problema dos aposentados e não das grandes empresas e corporações que sonegam, sempre sonegaram, e passam ilesas, lamentando o custo de um trabalhador que as faz produzir, existir e ganhar muito e muito mais. E o que dizer dos salários nababescos do alto clero político e do judiciário, cheios de penduricalhos, auxílios de todo tipo – moradia, alimentação, paletó, gravata e tantas outras benesses que nós, da plebe rude, desconhecemos.

Mas ainda é pouco. O Congresso Nacional e seus frequentadores eventuais, que acumulam assessores e bajuladores com salários polpudos, segue esbanjando promessas e dinheiro público para garantir alianças nefastas e votos nas próximas eleições. E assim sacramentar por mais quatro anos a sua permanência na escandalosa “Ilha da Fantasia” do Planalto Central, “onde uma criança / sorridente, feia e morta / estende a mão”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mas ninguém vê essa miséria. Assim como ninguém viu/avaliou a dor de um avô na prisão ao saber da morte do neto.

O Brasil é hoje uma terra que se tornou impermeável ao sofrimento do outro, mas se abriu vergonhosa e generosamente às fanfarronices daqueles que legislam em causa própria. Da mesma maneira, agem muitos parlamentares espalhados pelas assembleias legislativas dos estados e pelas câmaras de vereadores dos municípios. Diariamente, brotam escândalos desses templos onde desfilam políticos teoricamente eleitos para representar a população e colocar ordem na casa. E os escândalos rolam de lá para cá, multiplicam-se, espantam, provocam algum barulho, mas são logo abafados. Nada acontece. Um que outro é penalizado e ponto. O baile segue ao gosto do freguês e das tramas muito bem tramadas para manter privilégios.

Vivemos em um Brasil que subtrai direitos como quem troca de camisa. Um país que coloca militares nas escolas e ignora professores. Mais: ordena que se cante o hino nacional na abertura do ano letivo e se leia uma carta que termina com o bordão de campanha do presidente eleito. E, equivocadamente, prega a escola sem partido. Será que sabe mesmo o que está dizendo?

Um país que acirra a divisão de classes e não tem vergonha de declarar que o acesso às universidades é para intelectual. Um país que minimiza sua história, suas origens, a memória e o conhecimento do povo, mas estimula a posse de armas. Um país que autoriza a violência, censura a arte e o carnaval, e dá voz a quem nada entende de cultura e da questão social. Um país que tem no poder uma família que festeja a morte de uma criança só porque esta criança é neta do presidente Lula, desafeto do clã.

Portanto, um país que perdeu a alma, a dignidade, o jeito de olhar para sua gente e acolher. Um país que ignora a diferença, a diversidade, o pensamento crítico e vê tudo pela ótica equivocada do que chama de ideologia de esquerda. Como se ideologia fosse uma demanda só de quem se opõe ao governo, não um conceito amplo que define posições políticas e sociais de um modo geral.

E sobram homenagens a quem apoiou o golpe militar e a ditadores assassinos como Adolf Hitler e Alfredo Stroessner, governos hediondos, responsáveis por torturas e desaparecimentos.

Que triste país é este? Que cara tem esse Brasil?

Férias, amigos, Bahia

Sempre gostei de férias, desde os tempos escolares, mesmo ficando em casa, o que era comum, sem perspectivas de algo muito novo no horizonte. Quando entrei para o mercado de trabalho e as férias precisavam ser solicitadas e autorizadas, eu procurava períodos que possibilitassem uma viagem, geralmente no verão. Planejava e juntava dinheiro para abrir as asas e voar.

Foi assim que entrei em um ônibus da Penha na rodoviária de Porto Alegre rumo a Salvador/Bahia, com uma parada estratégica de dois dias no Rio de Janeiro para descansar. Sentar ao lado da janela, olhar a paisagem, ler as placas que iam me localizando ao longo do caminho era uma emoção muito grande. Certamente não maior do que a emoção que tomou conta de mim quando pisei pela primeira vez no Pelourinho, em janeiro de 1974, e entrei no prédio de número 16. Lá morava meu primo/irmão Júlio, que dividia um apartamento com baianos que ficaram nas nossas vidas para sempre, João e Ronaldo. E os tantos outros que foram se somando, num ir e vir constante.

Marlene, minha irmã, que já havia morado em Salvador, levada pelo Júlio, foi quem me estimulou muito a fazer esta travessia. A casa era vertiginosa. Com esses amigos aprendi muito e me reconheci como uma pessoa que poderia andar pelo mundo, com o meu jeito singular, que provocava tanto estranhamento. Entendi o entusiasmo e o desejo da Marlene para que eu vivesse aquela experiência. A diferença, que constituía cada um de nós, era explícita. Foi a partir daí que entendemos um pouco mais da nossa condição de mulheres com nanismo, que poderiam ter uma vida plena. A diversidade, motivo de tantas lutas hoje, já fazia parte daquele ambiente de forma espontânea.

Vivíamos ingenuamente livres, leves e soltos, na contramão de uma ditadura feroz, que perseguia, torturava e matava quem ousasse pensar de um jeito que não o da voz cruel dos militares no poder. Pulamos atrás do trio elétrico de Dodô e Osmar. Cantamos com Caetano, Gil, Moraes Moreira e Baby Consuelo. Acompanhamos a preparação e a saída das baianas, a organização e o desfile dos Filhos de Gandhi, do bloco afro Ilê Aiyê, a criação do Olodum. Nos carnavais, brincamos e dançamos no espaço libertário da Praça Castro Alves, que “é do povo como o céu é do avião”.

Éramos de uma geração que pregava paz e amor e acampava na Aldeia Hippie de Arembepe. Uma geração que queria ser, não ter. E assim vivemos o que foi possível,voltando todos os anos à Bahia e trazendo os amigos para Porto Alegre e São Francisco de Paula sempre que dava. Até criamos um termo que nos definia – “baiúchos”.

Neste verão voltei à Bahia – Arembepe e Salvador – de férias e à flor da pele. Fiquei no apartamento do João, em cima do restaurante Mar Aberto. Um lugar onde Marlene e eu sempre ficávamos. A saudade pulsou forte, mas desta vez de uma forma serena. E fiquei bem. João estava comigo.

E lá estavam meus primos Júlio, Olita, Otília e Joene, que hoje têm uma hospedaria muito aconchegante e charmosa, a Casa das Águas. E lá estavam Ronaldo, Thierry, Luara e Narayan. Minha família baiana.

Arembepe é uma vila privilegiada que luta para manter a integridade do meio ambiente,uma luta necessária e urgente contra a ganância das grandes empresas que só pensam no concreto e no lucro fácil.

Em Salvador fiquei no apartamento do Pelourinho e com os amigos queridos Rita Chagas Ortiz e Freddy Ortiz, mais um pedaço dessa grande família, com quem fiz vários passeios e conheci o Mercado Iaô, da cantora Margareth Menezes. A emoção sempre me sacudindo.

O centro histórico, do Pelourinho até a Rua Chile, está lindo, com vários prédios restaurados e ocupados por redes hoteleiras poderosas, como o do jornal A Tarde, hoje sede do Hotel Fasano.

Lelei em frente ao prédio restaurado em Salvador

Foi muito bom ver a cidade renovada, bonita, com a arte pulsando forte através das várias manifestações genuínas, na rua, mostrando a força indiscutível da cultura negra.

Além da arte nas ruas, conferi um pouco da estimulante produção teatral baiana em três peças solo. No espaço de Aninha Franco, que ela define como “uma casa de encontros,de celebração da vida e da arte, porque sem arte é impossível sobreviver”, vi “Surf no Caos”, com a atriz Rita Assemany, uma reflexão contundente e atual sobre os caminhos da humanidade, que emociona, faz rir e bota a gente para pensar. E “R$ 1,99”, escrito,dirigido, produzido e interpretado por Ricardo Castro, também uma reflexão sobre o cotidiano brasileiro que diverte e inquieta. A casa de Aninha chama-se Republicanos e é realmente “um laboratório de ideias para fazer poesia, pensar, representar, comer e beber”, com uma biblioteca que tem um acervo de 14 mil livros, com muitas raridades.

No Teatro Módulo vi o diretor Fernando Guerreiro no palco em “Revele – Um Desabafo Cômico”, um rasga coração incrível, dinâmico, com texto, produção e direção dele. Todos os espetáculos são contundentes e bem humorados, falam do estado das coisas, da arte e dos artistas em um Brasil à deriva. E, ainda, Adriana Calcanhoto e Baby Consuelo no Teatro Castro Alves, mais o filme “Fevereiros”, documentário com Maria Bethânia no Espaço Glauber Rocha.

Foi um tempo incrível de relax, conhecimento, novas experiências, boas conversas e alegrias. Afetos e aconchegos que me fazem cantar com Milton Nascimento “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”. Ou poetar com Guimarães Rosa “amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado”.

Dor e Indignação

 

“Justiça para as vítimas”. “Punição aos responsáveis”. Essa é a promessa de empresários da Vale, do governo e das autoridades a cada manifestação e a cada entrevista sobre uma das maiores e mais tristes tragédias que vivemos desde sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, pouco depois do meio-dia.

Só que no Brasil não é assim!

Tragédias anunciadas, como a de Brumadinho, três anos depois de Mariana, escancaram a assustadora irresponsabilidade, indigência e oportunismo das relações políticas e empresariais. Não temos voz. Temos algozes. Vivemos em constante vulnerabilidade social. A lama que mata seres humanos, animais e o meio ambiente em Minas Gerais é movida pela soberba, pela ganância, pelos negócios escusos e pelo cinismo de quem detém o poder, de quem compactua e de quem só vê e só deseja o lucro, a qualquer custo – governos, políticos e empresários.

É assustadora a voracidade que conduz o comportamento desses senhores – um protegendo o outro para ganhar mais e mais. E de uma forma ou de outra, todos ganham muito, em detrimento do bem estar e da segurança de comunidades inteiras que trabalham para sustentar suas famílias. O fosso de negociatas é sem tamanho, em nome de licenças muito bem pagas e privilégios de toda ordem. Não há a mínima preocupação e respeito pelo outro.

Os governos não se comprometem com as camadas mais pobres da sociedade. É assustadora a frieza de quem conduz o negócio e de seus comparsas, sem olhar para os males que provocam. Mais assustador ainda é o apoio que lideranças políticas dão a esses atos ilícitos, em troca de votos e, claro, muito dinheiro para garantir seus podres poderes. Já são eleitos para isso, é certo!

Respeito, autorização, fiscalização, ética, transparência são palavras não gratas para tais senhores, e seus asseclas, que insistem em manter a casa grande e a senzala. Ninguém ouve as pessoas sensatas, os técnicos, as organizações da sociedade civil que alertam para os perigos. E agora ficamos sabendo que foram muitos os alertas sobre os perigos. Mas só foram ouvidas as cartas marcadas. É triste. É desolador. Dói muito olhar para este Brasil que abandona sua gente, suas origens, suas florestas maravilhosas, ricas em flora e fauna, conhecidas como o pulmão do mundo, em nome do lucro excessivo de tão poucos.

O que fazer com a nossa indignação?

Cartilha Escola para todos! Nanismo

Lançamento dia 27 de janeiro, 21h, na 46ª Feira do Livro Da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a Cartilha Escola para Todos! Nanismo vai ser lançada neste domingo, 27 de janeiro, às 21h, na Feira do Livro de Rio Grande, onde pode ser adquirida até o dia 3 de fevereiro pelo valor de R$ 8,00. Com o objetivo de contribuir para uma sociedade inclusiva e justa, a publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. E trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.  A cartilha foi apresentada em uma audiência pública para a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, representantes do MEC e do senador Romário Faria, em junho de 2018, com o apoio do senador Paulo Paim. A proposta é que os municípios conheçam o projeto, abracem a ideia e distribuam nas suas escolas.

Vélvit Ferreira Severo, designer gráfica de Rio Grande/RS, mãe de Théo Severo Huckembeck, está na linha de frente do projeto e diz que “felicidade é o nome deste momento”. Ela contou com a contribuição de um grupo muito especial para chegar até aqui – Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Maria Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Djarlles Pierote. Somos Todos Gigantes. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas/RS. Familiares e amigos. Pessoas que convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm ou porque conhecem muitas pessoas que têm. Gente guerreira que, há mais de dois anos, se juntou para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Conheça este projeto e leve para seu município.

Escola para todos: Nanismo
Cartilhananismo@gmail.com
WhatsApp 53 99124.6632

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Em 15 de abril de 2018, publiquei um texto sobre a Cartilha no meu blog. A seguir um trecho: É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Reflexos do baile neoliberal em Porto Alegre e Paris

Pelo olhar fotográfico do jornalista José Walter de Castro Alves, em Porto Alegre, e da arquiteta Flavia Boni Licht, em Paris.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Dormindo na rua – Paris, 2019”, por Flavia Boni Licht

E pelas palavras da produtora cultural Valência Lousada, em 21 de janeiro de 2019 – “Palavras ausentes no vocabulário do atual governo: cidadania, políticas públicas, educação, igualdade, cultura, ética, miscigenação, trabalhadores, liberdade, desenvolvimento, proteção ambiental. E palavras que andam pálidas de exaustão: disciplina, armas, Deus, militarização, vagabundo, corrupção, bandido, doutrinação, agronegócio, cidadão de bem, isso daí”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris – 2019”, de Flavia Boni Litcht

E da cantora Cida Moreira, também em 21 de janeiro de 2019 – “Tenho evitado falar do momento político, por todas as razões, a começar por respeito a mim mesma, sendo fiel às minhas decisões. Mas hoje não consegui deixar de pensar que estamos de muitas formas desesperados com o que estamos vendo acontecer. É um limbo tenebroso onde as poucas esperanças afundam dia a dia. É a fala de uma brasileira comum, mas consciente. Não me vitimizo, mas não tenho como dizer o que tem sido viver estes dias horrendos, piorados por este calor infernal que maltrata a todos. As ruas estão cheias de brasileiros maltratados e tristes. A visão cotidiana disso tudo apequena meu coração e a minha vida. Um teatro pobre, falido, mentiroso, que deixa nossa bandeira aviltada e com escarro de um cretino que não merece ter nas mãos um símbolo fundamental do nosso país e de nós todos”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris 2019”, por Flavia Boni Licht

Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.