O que somos? O que queremos?

O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, capazes de ver o outro, crescer no convívio com a diversidade, respeitar limites? Reconhecer, acolher, dividir, entender? O que nos joga fora dos trilhos?

O núcleo familiar é o ponto de partida. A boa convivência nesse núcleo torna natural a sua extensão saudável. Os amigos e a escola. O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença.

Depois vem o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo com amor, vida afora, independentemente das raízes biológicas.

Nesse círculo ampliado, que agrega as diversas famílias que alimentam nosso ser, construímos nosso estar no mundo com o equilíbrio necessário para abrir as asas, voar e ancorar aqui, lá, acolá. E voltar, se for o caso. É um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. Nessa trama, às vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes e predadores, porque esquecemos que só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender, arriscar, errar e tentar sem medo novos voos.

Quero dizer, então, que me dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos cheios de retórica, tão perfeitos e plenos de soluções mágicas, nesses tempos de um Brasil sem rosto, que massacra sua gente, especialmente os trabalhadores. Um Brasil que detona suas riquezas naturais em nome de uma economia imposta pelo capitalismo estrangeiro mais predatório e primário que já enfrentamos. Só se ouvem respostas prontas e acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. Nenhum olhar verdadeiro para a miséria que o país vive hoje. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?

O bem e o mal

A falta de diversidade, de diálogo e de uma conversa franca assusta. Pois enquanto polarizamos e nos perdemos em discussões inúteis, a violência cola nas nossas ruas, portas e janelas. A intolerância absurda – se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo, mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus – gera conflitos banais desnecessários. Antes de buscar informação, de procurar saber o que realmente acontece, acusamos, usando o pequeno podre poder que nos cabe. Dane-se qualquer sentido ético, reflexivo, humanista.

A engrenagem do bem e do mal é simplista e cruel. Ancorada no senso comum, tem uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca. Fazemos parte de um denso coletivo capaz da maior generosidade e da maior maldade. Estamos sempre entre a cruz e a espada, tentando salvar a pele e buscando culpados. Perdemos a capacidade de olhar com olhos livres, não contaminados, para os males que nos afligem. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Somos feitos de infinitos sentimentos Podemos ser tudo em pouco tempo. Contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesar e medir as atitudes. Agir planejadamente. Ou jogar tudo pelos ares. Somos o que podemos ser diante do imponderável. Mas desconhecer a nossa história política e compactuar com discursos escravagistas e preconceituosos é inaceitável.

Hora do voto – dessa hora tenho medo

A propósito das eleições que já estão no ar, lembro um comentário recente da minha amiga Tânia Carvalho no facebook: “Estamos entre os indecisos e ressentidos. A fertilidade dos idiotas está em alta! Não deixem que o ressentimento ganhe as eleições”.

Pois é! Nas mais variadas esferas, há visíveis manipulações de quem detém o poder. A corrupção não encolheu suas garras. Há disfarces e conchavos de toda ordem. Os políticos de carreira seguem na luta para manter seus privilégios. A paisagem parece ser a de sempre, plena de discursos pomposos, promessas inviáveis, nenhuma análise palpável em sintonia com a dura realidade que o país oferece ao seu povo. Em alguns momentos, ouvindo os candidatos, com a pouca paciência que me resta, sinto um distanciamento muito grande. Ou me vejo como uma perfeita idiota, em busca de alguma voz que faça sentido. Quem percebe o inquietante desencanto permeando quase tudo?

Volto, então, há um texto que já publiquei aqui há dois anos, impulsionada pelo desejo de respirar ares mais leves e puros.

O jeito é não acomodar o olhar. É esticá-lo para além dos botões, janelas, esquinas, ruas, avenidas, becos, em busca de um rasgo de esperança. OK! As cidades desgovernadas e povoadas de uma miséria assustadora não oferecem nenhum alento. Muito menos o país que perdeu o rumo pelas mãos traiçoeiras de golpistas. Mas o mantra é não desanimar. Organizar o delírio. Perseguir o equilíbrio. Entre o caos e uma possível ordem, alguma coisa há de fazer sentido. Mais uma vez, a arte me socorre.

“Linhas Paralelas”, do mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, a ação política na prática, aqui, lá, acolá.

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria dos versos do poeta, que encontrei na “Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira – para crianças de qualquer idade”, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhoto (Casa da Palavra), me faz ruminar o fazer político como é, e como não queremos.

É nosso direito e dever acompanhar e participar da administração pública, conhecer cada projeto dos governos no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno em que vivemos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e boeiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças nas leis trabalhistas, na educação e na saúde, a reutilização dos espaços, a urbanização.

Cada ação deveria valorizar a vida, a inclusão, a acessibilidade, a cidadania. Mas, definitivamente, não é assim. As atitudes dos administradores seriam fundamentais se as almas não fossem tão pequenas!

A política partidária praticada no Brasil é velha e torpe. Tem caráter autoritário, redutor e revanchista. Desmantela ao invés de construir. É mais predatória do que civilizadora. Mais empresarial do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Simplesmente acomoda os eleitos e seus apadrinhados no poder para não abrir mão dos privilégios.

Em 1968, o artista plástico Hélio Oiticica, em carta para a pintora e escultora Lygia Clark, já sinalizava: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. Comentário que diz muito do momento que vivemos.

Hora do voto

“Desta hora, sim, tenho medo”, diz a canção “Anoitecer”, de José Miguel Wisnik.

O momento é delicado e o jogo egocêntrico. Estamos mergulhados na superficialidade e na mesquinharia da pequena política eleitoreira. Poucos parecem interessados em olhar de frente para as ações ou omissões que geram desigualdade, degradação, miséria, abandono, violência, medo. Poucos falam em uma nova política, livre das amarras dos conchavos e da corrupção, tenha ela o tamanho que tiver. Muito poucos!

Mesmo assim, e apesar de todas as falcatruas, ainda aposto no voto. É um meio de manifestar nosso desejo de um governo conduzido por homens íntegros. Um governo que não tenha medo da diversidade, da nossa capacidade de pensar, da nossa criatividade, da memória que nos constitui, da arte que nos representa, do aprendizado múltiplo e libertário. Um governo voltado para a inclusão, que não nos roube direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

A descontinuidade necessária

É necessário refletir sobre os meandros, as dobras e os descaminhos desses tempos sombrios pré-eleitorais. Interrogar-se sobre os excessos e as faltas, a miséria que cresce assustadoramente e a opulência soberba que reina absoluta. Precisamos olhar para os vazios e os acúmulos, questionar as generalizações e as promessas vãs. Desacomodar as certezas de vozes e discursos que carregam soluções como num passe de mágica.

Deixar a vida avançar como está é a catástrofe total, assumida. É a negação de tudo o que buscamos e fizemos até aqui – nosso trabalho, nossas esperanças, nossas lutas, nossa crença na possibilidade de um mundo justo. Não podemos anestesiar nossos sonhos. É imprescindível abrir outros horizontes. Descontinuar os caminhos que já não servem. Dar adeus ao demasiado. Buscar o necessário. Sair do tempo-máquina, do tempo-automação, para entrar no tempo-humano. Criar novas utopias. Partir para a reinvenção. Porque só o ato criativo pode colocar em cena a possibilidade do desenho de outra geografia.

Pra onde ir? Por quê? A utopia nos permite sonhar outros mundos. Fazer algo na contracorrente. Abrir um buraco no cotidiano.

Vivo me perguntando o tempo todo o porquê de tanta velocidade, se no caminho há tanto para ver, observar, aprender, deixar para trás. Tempo, tempo, tempo! Segurança, diversidade, espaço, sossego, respeito ao meio ambiente, respiração, convivência. Esses são os luxos do futuro.

Uma proposição artística pode impulsionar o pensamento e nos fazer ver além do que a vida nos mostra. A arte resiste às formas instituídas, esculpe outras dimensões, aponta outras paisagens. Por isso, a criatividade assusta. Manter o que está aí, repetir, repetir e repetir o já dito é mais tranquilo. Reagir, sair da massificação e do pensamento único, inquieta. O efeito do encontro múltiplo, de muitas vozes e dissonâncias, é poderoso porque traz embutido a diversidade, a incerteza, o desejo, essenciais para uma tomada de decisão democrática, plural. Carrega o desconhecido.  A verdade é cheia de lacunas. A narrativa completa é uma mentira. Uma só opção não oferece escolha. Precisamos de encruzilhadas. A dúvida, a troca, a curiosidade são substanciais. Só uma mente arrogante sabe tudo. A gente só é o que a gente é a partir do outro. A condição humana é em essência imperfeita.

Chamando o sol

araucaria
Fotos de José Walter de Castro Alves

Assim como as estações do ano, a chuva e o sol são essenciais para o equilíbrio da natureza e da humanidade. Neste inverno atípico, tão obscuro como tudo o que anda acontecendo no mundo, a ausência da luz solar interfere diretamente no cotidiano, no humor e no comportamento das pessoas.

O sol ilumina. Espalha luz e brilho. Aquece o corpo e a alma. Tira o mofo da casa interna e da casa externa. Acaricia. Nos tira das alcovas. Chama para a rua, para as praças, para as caminhadas, para os encontros, o convívio ao ar livre, as bergamotas saboreadas no pátio.

Diante do que estamos vivendo, da insanidade sem medidas e do poder que exala autoritarismo, toma conta de mim o medo de que esses governos desgovernados, que assaltaram o país, sem o mínimo pudor, queiram privatizar essa delícia que a natureza oferece com tanta delicadeza. Com requintes de barbarismo, a privatização mira suas garras na água, um dos maiores bens públicos. E já destruíram tantas esperanças, que tudo é possível. As criaturas que detêm o poder são soberbas e, ao mesmo tempo, rasas, mínimas, medíocres que podem até pensar, não duvido, em encontrar na privatização do sol uma solução maquiavélica: uma forma de fazer a população pagar caro pelos raios abençoados que chegam sem pedir licença. Invadem nossas janelas democraticamente, sem perguntar a condição social.

Com o sol, o coração apertado se alarga. Com o sol, os olhares se espraiam no céu azul. Com o sol, os raios multicoloridos invadem a terra e impulsionam a vida. Com o sol, as boas energias se acendem.

Vem sol! Fica sol!

lago

ilhas

Limites da tecnologia

O discurso tecnológico e os avanços do festejado mundo virtual às vezes me parecem barbaramente incompatíveis com a miséria física e moral desses tempos obscuros. A tão apregoada evolução não combina com um país hoje cruel e mesquinho, que nos joga em uma miséria de valores éticos, potencializada pelas redes sociais, que geram uma polarização sem medidas. Falo isso porque há um fosso enorme entre as pessoas. Mesmo com os tantos talentos que temos ao redor, os tantos recursos disponíveis e as infinitas facilidades de comunicação, a qualidade de vida é mínima, as periferias empobrecem e se marginalizam cada vez mais, enquanto políticos sem escrúpulos e elites soberbas continuam acumulando capital e poder.

A educação, única forma de oferecer autonomia, raízes e possibilidades de voos a crianças e jovens, está à deriva, sem recursos, sucateada. Os professores são desprezados pelos governos. Enquanto os juízes ganham todo tipo de penduricalhos em salários já polpudos, os mestres têm parcos salários e enfrentam escolas sem as mínimas condições para exercer a tão necessária função de ensinar.

Paralelamente, a lei trabalhista passa por reformas que abalam a sua essência e o Ministério do Trabalho está nas mãos de senhores de reconhecido caráter corrupto. A saúde, por sua vez já tão precária, sofre abusos de todo tipo, como as ameaças de dar fim ao SUS, o abandono de centros que atendem a população mais carente, a superlotação dos hospitais e a falta de verbas. A insegurança assusta e o abandono das cidades é um fato. Só ouvimos queixas dos governos que, sem um rasgo de criatividade e invenção, repetem incessantemente o discurso da falta de verbas. E, em ano político, abusam das negociatas para manter privilégios. A corrupção avança e o dinheiro que falta é visto logo ali, desviado, nas mãos de quem não precisa, sem o mínimo controle.

Quem realmente está preocupado em resolver os problemas que a população enfrenta cotidianamente?

Se o uso da tecnologia não consegue contribuir minimamente para a mudança deste triste panorama, criaremos um fosso imenso em um mundo cada vez mais verticalizado, reduzido a pequenos celulares de última geração. Isso porque esses são os valores que vigoram na sociedade de hoje. Uma sociedade vertical, incapaz de melhorar o mundo porque aprisionou o olhar, eliminou a horizontalidade e, assim, eliminou também a possibilidade de olhar em todas as direções. Uma sociedade que esqueceu que somos humanos e multifacetados, portanto, vulneráveis.

Uma bela entrevista com Paulo Flores, ator, diretor e fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, no Caderno DOC da ZH do final de semana de 16 e 17 de junho de 2018, toca neste tema com sabedoria. “Vivemos em um mundo eletrônico, nos comunicamos através desses meios, não nos encontramos. Onde está o olho no olho? A vivacidade das expressões?”, pergunta ele.

Onde está o corpo a corpo? Onde está a tribo? Onde estamos? O que queremos?

Ficam as perguntas para pensarmos. E responder.

Conversando sobre inclusão

No dia 27 de junho participei como palestrante do 18º Congresso de Stress da ISMA-BR, 20º Fórum Internacional de Qualidade de Vida no Trabalho, 10º Encontro Nacional de Qualidade de Vida na Segurança Pública, 10º Encontro Nacional de Qualidade de Vida no Serviço Público e 6º Encontro Nacional de Responsabilidade Social e Sustentabilidade, promovido pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR). Fui convidada por Marcos Bliacheris, um dos coordenadores, especializado em direito do Estado, advogado da União/AGU e autor de artigos sobre sustentabilidade e inclusão de pessoas com deficiência. A mediação foi do jornalista Léo Gerchmann. Entre inúmeros temas, o encontro falou de vida, trabalho, stress e saúde. Coube a nós falar sobre inclusão. Publico aqui a minha fala. Antes uma frase do escritor judeu ucraniano Vassili Grossman (1905-1964), citada por Marcos: “Tudo o que vive é único”.

Conversando sobre Inclusão

Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? Ou com pessoas que têm outra deficiência, se é que podemos chamar assim? O que sabem dessas pessoas? O que sentem ao encontrá-las? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? Vontade de rir? Vontade de brincar?

Para falar sobre inclusão não podemos fugir desse enfrentamento, dos sentimentos que afloram. É necessário olhar o preconceito de frente, porque existe e discrimina sem piedade. E todos queremos acolhimento. Por isso, falar sobre a diferença, encarando a fragilidade da condição humana me parece a melhor maneira de saudar a diversidade.

Falem. Não tenham medo do impacto das palavras. Encarem o preconceito que todos carregamos. Mas, especialmente, ouçam o que as pessoas diferentes têm a dizer sobre os males da discriminação. Só assim teremos condições de atravessar o fantasma cruel da exclusão. Historicamente, a sociedade reserva um lugar para as pessoas que fogem do padrão de normalidade instituído, como se fossem incapazes. Nesse lugar, os diferentes não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos. Só a fala, com atitude, vai nos tirar da invisibilidade.

Agradeço, portanto, ao Marcos Bliacheris e aos organizadores deste evento por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão. Refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença. Diferença que limita a inserção social e, por decorrência, a inserção no campo do trabalho, por conta de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua condição.

Falar sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com nanismo, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Entendi que era preciso desacomodar conceitos clássicos, já enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de pessoas hipoteticamente iguais, potencializando um debate para mudar a realidade.

Para além da eliminação de barreiras físicas, inclusão é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso. Portanto, não acomodem seus olhares! Aprendam a ver, a olhar com olhos livres.

Ao ignorar, excluir ou rotular uma pessoa, tomamos o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos, suas múltiplas possibilidades e capacidades. E é esse não querer ver, não querer falar, que alimenta a intolerância em todos os níveis. Não reagir aos discursos já dados, que segregam, é concordar com o preconceito.

A mudança só surge no momento em que há reação, em que as margens são extrapoladas. É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua deficiência. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social.

Cabe a nós seguir subvertendo essa ordem. Recusar os lugares determinados. Alertar e sensibilizar a população e os gestores públicos para as limitações das pessoas é um compromisso, assim como é um direito reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade.

Cabe aos educadores educar para a diversidade e estimular a inserção. acredito que uma educação voltada para a diferença é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. Considero vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, facilitar sua inserção no trabalho, o convívio com a equipe e não apenas jogá-la em uma função qualquer para cumprir a lei.

As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. Por acomodação e desconhecimento, perdem a chance de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, quebrar rotinas. Evoluir.

Cabe à imprensa sair do discurso da superação porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Insisto: o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos, que reconheçam, entendam e acolham a nossa diferença. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para o crescimento pessoal e profissional.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social.  Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha. Quem disse que não é possível?

Ver o outro para além de qualquer condição, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. Responder naturalmente à curiosidade, sem alimentar medos, fantasias, intolerância, ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos e queremos ser incluídos.

Caminhos incertos em meio ao terremoto

A Copa do Mundo está aí e o entusiasmo não é o mesmo. As eleições estão chegando e tudo o que se vê é uma polarização doentia. Vamos encerrar um ciclo obscuro para entrar em tempos mais luminosos? Ou não? O que está vindo por aí?

Para além de qualquer movimento, o tempo é de apreensão, cansaço e quase nada de reflexão.  O campo está minado. A política que domina o poder é elitista, soberba, cheia de retórica, absurdamente mesquinha e incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da “salvação do país”, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação, da saúde, da cultura e ignoram conquistas sociais.

Querem salvar o Brasil para quem?

A pergunta parece não importar. O que o governo mais impopular da nossa história precisa nesse momento é responder, pelo menos, à minoria que o sustenta. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população. Mas está pronto para bater em quem protesta nas ruas, justamente aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo”. A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que ainda é possível a mudança, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Sob o ponto de vista da acessibilidade e do respeito pelo que é público, basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Pisos táteis mal colocados, rebaixamento de calçadas mal feitas.  É visível a deterioração dos espaços públicos.

A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação e da cultura anda a passos largos.

Querem acabar com tudo.

Educação e Arte, grandes ameaças…

Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, ao mesmo tempo em que divertem e espalham alegria, são ameaças. Por isso devem ser combatidos e, se possível, eliminados pelo governo. A sociedade está doente, triste, vazia de valores e do entusiasmo genuíno, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

Precisamos ser vigilantes e responsáveis! Cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito. Vamos zelar pelo nosso bem estar, a alegria, o lazer, a arte que nos alimenta. Olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

Qual é o nosso lugar?

Quero falar de um livro necessário para um tempo em que a diversidade está tão ameaçada e o preconceito se insurge de um jeito cruel, “Na Minha Pele” (Editora Objetiva, 2017), do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos. Em 145 páginas, ele compartilha, com sabedoria e simplicidade, experiências e percepções de um homem negro em um Brasil que insiste na supremacia do branco. É crítico, sensível, corajoso, bem humorado, generoso e firme. Coloca o dedo na ferida sem vitimização.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Eu, que tenho nanismo e enfrento a discriminação cotidianamente, encontrei muitos pontos de conexão com a escrita de Lázaro. “Não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonha estar”, diz ele, rompendo com tantas falas preconceituosas que cercam a vida de pessoas que têm uma diferença e que a sociedade não gostaria de ver onde estão.

“A empregada doméstica é uma figura muito presente nos lares brasileiros. É quase da família, como se diz. Mas este é um não lugar – porque ela de certa forma abandona sua família e nunca entra na outra”. A afirmação me fez lembrar muito do filme “Que horas ela volta?”, da Anna Muylaert, que mostra o incômodo provocado pela filha da empregada que, ao chegar à casa dos patrões, coloca em questão a submissão da mãe.

Em outro trecho do livro, ele é ainda mais enfático: “Minha mente entorta quando penso no tanto que a mentalidade escravagista ainda molda as relações patrão/empregado”. E essa mentalidade não está restrita aos lares, está também nas escolas, em toda parte. “Estudar numa escola de classe média, em que eu era um dos pouquíssimos negros, não foi nada fácil”. “Era a época dos bailes de quinze anos e das primeiras festinhas sem adultos por perto e eu não podia me sentir mais rejeitado”. “Adotei então o papel de melhor amigo”, confessa o ator. E eu, para driblar o nanismo, adotei o papel da colega inteligente e generosa e, assim, participava do círculo dos ditos “normais”.

Lázaro identifica com precisão o discurso hipócrita de que o Brasil não é um país preconceituoso, que aqui não há racismo porque fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como ele sabe que a cor é motivo de discriminação diária. Assim como quem tem uma deficiência sabe que, em um momento ou outro, vai enfrentar restrições de todo tipo e olhares inquisidores e constrangedores. “Os olhares reais e os de soslaio”, “os subtextos que se percebem nas entrelinhas”, “os medos e as sutilezas do preconceito, a solidão”, diz ele. “Será que consigo vencê-los?”, pergunta. Uma pergunta difícil de responder.

A discriminação muitas vezes nos afeta, mas não chegamos a perceber o mal que nos faz. “Curiosamente”, comenta o ator, “tem gente que nos trata como se fôssemos personagens de contos de fada”. Com o nanismo vivo isso no cotidiano – duende, figura mítica, circense e por aí afora.

Como o protagonismo é dos brancos, a condição do branco não é um assunto porque corresponde à normalidade. Enquanto isso, o negro vai se dando conta da sua etnia e da rejeição a cada olhar que recebe. E esse olhar dificilmente é natural e acolhedor. Dependendo do lugar que o negro ocupa na sociedade, vem carregado de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de admiração, de pena.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Lázaro fala sobre o corpo e sobre a pele que habita. Fala de conflitos de opinião e das dores do racismo. Fala da necessidade do enfrentamento dessas questões e lembra que também é militância cuidar de si e buscar a harmonia nas relações. Para ele, “o Estado brasileiro deve se lançar ao desafio da refundação da unidade nacional, com a valorização da diversidade e com a efetiva consagração dos direitos de todos”.

 

2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.

Tempos exacerbados

A exacerbação dos dias de hoje é avassaladora. Inquieta e provoca medo. Vem por todos os lados. À esquerda e à direita. Para o bem e para o mal. Não há mais sossego. Muito menos reflexão. Não se relaxa. Tudo é para ontem. Tudo é intempestivo. Tudo vira um debate sem fim e sem sentido. Criamos um distanciamento assustador de uma conversa natural. Há que se ter opinião sobre tudo. Desaprendemos o diálogo, o bate papo leve e solto, sem amarras. Há que se condenar. Ou absolver. Há que se dominar. Não acatar. Há que se ter recompensa, mesmo fazendo o justo, o que é de direito e dever do cidadão de bem. Há que ser dono da verdade.

Nessa roda viva crucial, a vontade de ser uma “metamorfose ambulante” e não “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, como diz a canção de Raul Seixas, certamente é libertadora. “Dizer o oposto do que eu disse antes”. Observar o processo. Não embarcar em qualquer carona, qualquer ideia, qualquer discurso. Cultivar o tempo, exigir mais, aprofundar o pensamento, solidificar as relações, buscar respostas possíveis para uma realidade complexa. Sair fora da superficialidade, das respostas prontas e das falsas facilidades das redes sociais. O imediatismo não leva a nada. Não resolve. Não sedimenta. Não cria raízes. Mas é dele que nos alimentamos!

Depois de alguns dias completamente caseiros por conta de uma crise alérgica respiratória profunda, saí para a rua, ainda zonza, no final da manhã da última quarta-feira, 9 de maio – para a tão necessária terapia. Tomei um ônibus. E o que vi e ouvi em poucas quadras, em pé, ao lado do motorista, mais uma vez me deu a dimensão do nosso estado de exacerbação, loucura e insensatez, do recrudescimento das relações, da pressa, da falta de respeito, do descaso com o outro.

Um casal de velhos, na faixa dos 80 anos, ambos com a respiração difícil, truncada, entra no ônibus. Ninguém dá o lugar. Dou o meu. Um jovem, envergonhado, levanta e oferece o lugar onde estava sentado, bem em frente de um cartaz que dizia: “acentos preferenciais para idosos, pessoas com deficiência, mães com criança no colo”.

Na rua, as pessoas atravessando em frente ao ônibus, sem olhar, arriscando a própria vida e a de tantos outros. Carros cortando o caminho do ônibus, afrontosamente. Freadas bruscas do motorista, que não tinha saída, quase me derrubam. Ele pede desculpas e comenta: o trânsito nunca esteve tão desregulado. Completo: e as pessoas também.

O mundo nunca esteve tão desregulado, sigo pensando. Mas quem não usa transporte público, não anda pelas ruas, não precisa de centros de saúde populares, não trabalha de sol a sol, não tem filhos em escolas públicas, não passa pelo centro nevrálgico das cidades, não vê o desespero cotidiano. A miséria se espalhando, a sujeira amontoada, a velhice maltratada, a educação minimizada, a saúde sem recursos, as crianças abandonadas, as paradas de ônibus entupidas de gente, os ônibus abarrotados, o destempero generalizado.

Quem vive protegido por altos salários, legislando em causa própria, mergulhado no “favorzinho” – uma proprina aqui, outra lá adiante – usando e abusando do dinheiro público que deveria estar na educação e na saúde, não tem olhos para o povo. Ou melhor, só vê o povo em época de eleições, quando as promessas jorram e tudo, milagrosamente, parece ter solução. Minha esperança é que esses tempos exacerbados acendam algumas luzes e as pessoas analisem a trajetória de cada candidato antes de votar, sem cair na “lengua-lengua barata” e virar vassalo, o que custa tão caro depois.

Temos aí um cidadão acima de qualquer suspeita para votar?