Intensidades. Brilho nos olhos. Faces

Semana intensa, inquietante, misto de esperança e desesperança, com picos de nem tudo está perdido e acho que tudo vai dar certo.

Brilho nos olhos                                                                                                    

Participei, no dia 23 de novembro, do TEDxYouth@PAS, evento organizado pelos alunos da Pan American School de Porto Alegre. No encontro, os convidados tinham até 18 minutos para dividir experiências com o público, crianças, jovens, pais, professores. O ilustrador Cadu, Carlos Augusto Pessoa de Brum, deixou dois recados fundamentais: “Desafie preconceitos”. “A arte salva”. A ONG Sol Maior, antes da apresentação do seu grupo musical, sublinhou o que disse Cadu: “Música e dança são agentes de transformação. A arte agrega valor à vida de jovens vulneráveis socialmente”.

Falei sobre meu cotidiano com o nanismo. E comecei fazendo algumas perguntas: Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? O que sentem quando encontram um anão? Que sentimentos afloram? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? No final, uma menina me procurou para responder minha pergunta. Disse: “Eu sinto orgulho porque os anões não se escondem”. Os olhos daquela garotada brilhando, atentos, somados a essa resposta, salvaram o meu dia. Reacenderam a esperança.

Na minha fala, citei a afirmação do jornalista Luiz Antônio Araújo, em artigo no jornal Zero Hora (28 de julho de 2014): “Ser anão não é para qualquer um”. E lembrei do anão Umberto do livro infantil A história mais triste do mundo, do psicanalista e escritor Mário Corso – “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

Contei pequenas histórias pessoais e enfatizei que é sob o eco do preconceito e da tal “raça pura”, perseguida pelos nazistas, que nós, os diferentes, os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, como escreveu Araújo, ainda vivemos.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 24.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 23.

Faces                                                                                                                                  

Um dia depois do TEDx, fui gravar uma entrevista para o programa “Faces” da TVE. Reencontrei amigos e profissionais que trabalham para além das adversidades em um espaço público que é de todos nós. Foi comovente o que vi, ouvi, falei.

Impossível, ali, naquele espaço em que trabalhei quatro anos, não ver com lucidez a indigência política, o absurdo que é propor fechar a TVE e a FM Cultura. Onde estão os olhares sensíveis, criativos, humanos? “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. Enquanto isso, vamos encarando esse admirável mundo “normal”, de políticos primários que impõem um desmonte nunca visto. Não conseguem ver na crise a possibilidade de sair do institucional, inventar, reinventar, facilitar, mudar. Apenas buscam culpados e penalizam os já penalizados. A desesperança bate!

A vida dói e pulsa                                                                                                        

Volto a dizer que necessitamos de olhares livres, não contaminados e viciados, para ir e vir com dignidade. Não queremos favores, benemerência, nem mãos na cabeça, fingir que está tudo bem, muito menos minimizar os problemas, desconhecer e negar a realidade. Queremos cidadania, direitos preservados, participação, independência e políticos capazes de ver o outro, dialogar e não fechar as portas da chamada “casa do povo”. Que casa?

Tenho convicção de que a arte salva e que a cultura nos dá identidade. Acredito na educação para a diferença, sem mordaça, e na riqueza da diversidade que constitui os indivíduos.

Para onde vamos com essa política que desconhece tudo isso?

 

A busca pelas margens que ampliam o olhar

Muitas palavras me movem. E algumas, como diversidade e inclusão, pedem olhares mais livres. Não viciados, não domesticados ou menos contaminados. Olhares compridos que conseguem se encantar com a poesia “cheia de desperdícios” de Manoel de Barros, sem saber a razão.

“Dou respeito às coisas desimportantes / e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade / das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.”
(O apanhador de desperdícios, do livro Memórias Inventadas – A Infância).

Vivo buscando esse olhar em poemas, pequenas frases, textos e ações para que a vida cotidiana seja mais fácil, democrática e plural. E para me encher de leveza e esperança.

– *A resposta enfática que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie deu ao jornalista R. Emmet Tyrell, editor-chefe da revista ‘American Spectator’, no programa BBC Newsnight, foi reconfortante. Ele negava que Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos, fosse racista, tentando minimizar a crítica da escritora. “Me desculpe, mas se você é um homem branco, você não pode definir o que é racismo”. “Isso não é sobre a sua opinião, o racismo é objetivamente real e Donald Trump tem reforçado essa realidade”, afirmou a autora de “Americanah” e “Sejamos Todos Feministas”. (Fonte: Carta Capital, por Ingrid Matuoka, em 15/11/2016).

"Racismo não", por Tamar Matsafi

“Racismo não”, por Tamar Matsafi

Sabemos que uma família homofóbica e preconceituosa pode tornar insustentável a relação com o filho/filha diferente, assim como uma sociedade intolerante pode fazer o mesmo. Muitos jovens, que lutam pela sua verdade e identidade, são estigmatizados. E, muitas vezes, pela opção sexual, nega-se a eles uma vida digna. São punidos por todos os lados, emocionalmente, socialmente e economicamente. “De 20 a 30% dos jovens em situação de rua no mundo são LGBT, essa é uma taxa superior à de LGBTs na sociedade”, afirma o coordenador do Departamento de Ciências Humanas e Educação da UFSCAR/Universidade Federal de São Carlos, São Paulo.

– *Por isso, a exposição Uma cidade pelas margens, que abre no dia 18 de novembro, 19h, no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, é muito bem vinda. Ao trazer o tema LGBTT para um espaço cultural público, os organizadores estimulam a inclusão e fazem uma ponte com a 20ª Parada Livre, que aconteceu recentemente, no dia 13 de novembro, aqui em Porto Alegre. O projeto, que coloca em evidência a trajetória de pessoas e organizações que lutaram pela visibilidade e pelo direito à diversidade na capital gaúcha, é resultado da parceria do Museu com o Nuances – Grupo pela livre expressão sexual; Liga Brasileira de Lésbicas do Rio Grande do Sul (LBL- RS); Curso de Graduação em Museologia, do Laboratório de Políticas Públicas Ações Coletivas e Saúde (LAPPACS) e com o Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIST), todos vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"Pela diversidade", por Tamar Matsafi

“Pela diversidade”, por Tamar Matsafi

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de dezembro e divide-se em dois eixos. A cartografia da cidade, sob a perspectiva LGBTT – sigla para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que identifica espaços de sociabilidade fundamentais para a construção dessa narrativa. E o destaque para a luta, a resistência, a conquista de direitos e os avanços nas questões jurídicas. A iniciativa prevê ainda duas mesas redondas e um Piquenique Cultural temático.

– *Piquenique inclusivo e lançamento do calendário Cada Mês um Mundo do Instituto Autismo & Vida/IA&V, dia 19 de novembro, das 15h às 19h, no Parque Getúlio Vargas/Capão do Corvo, em Canoas, soma-se às ações que acolhem, conscientizam e trazem esperança. A tarde promete ser animada, com muitas brincadeiras inclusivas.

O objetivo do calendário é valorizar as pessoas com autismo e suas famílias, que sofrem muito desgaste pelo seu comportamento diferente e pelas suas limitações, dando forma e cor a crianças que também sonham, têm planos, amigos, amores e dores. A partir de situações do cotidiano, convivendo e brincando com irmãos e irmãs, jogando bola, criou-se um mosaico de tipos físicos, condição social e familiar, para mostrar que o autismo está em todas as classes sociais, raças, credos e ideologias, e que há muita vida e amor em cada história.

O calendário traz 12 fotos de crianças sendo crianças, feitas pela fotógrafa Paloma Fantini, mãe de uma menina com autismo. Na contracapa, fotos de outras crianças e adolescentes, enviadas pelos pais. O valor arrecadado com a venda será revertido ao Instituto Autismo & Vida e utilizado em outras ações de conscientização sobre o autismo. O projeto foi idealizado por Diego Ambrózio e Samantha Konorath, assessorado e produzido pela TD8 Design e Comunicação e realizado pelo IA&V. (Fonte: http://www.autismoevida.org.br/).

 

O que faz a diferença quando o filho é estrangeiro

“Todo filho é, de certa maneira, estrangeiro para seus pais”. “Mas alguns são mais estrangeiros do que outros”. Essas são palavras do publicitário Gustavo Mini em uma corajosa e afetiva palestra, em setembro de 2015, sobre a sua relação com o filho, que tem Síndrome de Prader Willi. Na época, vi/ouvi várias vezes a apresentação do Mini, que está no youtube – https://www.youtube.com/watch?v=cgr3nHhpRJA. Sua fala, serena, mas contundente, ao mesmo tempo me encantava e inquietava.

Por alguma razão, voltei a ver/ouvir o Mini nesta semana, algumas vezes. Passado um tempo e somado ao que leio, vejo, ouço e me dou conta escrevendo no blog e participando de ações voltadas para acessibilidade e inclusão, sinto o encanto desmontar a inquietude. Assim como Mini buscou e encontrou na cultura pop uma maneira comovente de entender e reduzir a distância que se interpôs entre ele e o filho, a partir do diagnóstico médico, fazendo conexões surpreendentes, eu busquei na arte um jeito de me entender e viver entre as pessoas ditas “normais”, com a minha diferença. Às vezes, absurdamente estrangeira! E fico imaginando que meus pais, depois de ouvir do médico que minha irmã e eu tínhamos nanismo, o que não afetaria nosso desenvolvimento intelectual, apostaram na educação para tornar nossas vidas menos estranhas e mais leves e nos fazer independentes.

As dificuldades, físicas, mentais, intelectuais, cognitivas, qualquer que sejam, nos fazem estrangeiros, sim! Sempre há uma grande expectativa em relação ao filho que vai nascer. Filhos são pautados pela perfeição, especialmente nesses tempos contemporâneos, tão competitivos. Ao falar sobre a busca de caminhos para chegar ao filho, Mini mostra com naturalidade o quanto a diferença exige dos pais, das crianças, das famílias, sempre perseguindo algo que reduza as distâncias e aproxime.

“Me ajuda a olhar!”

"Pai me ajuda a olhar", por Tamar Matsafi

“Pai me ajuda a olhar”, por Tamar Matsafi

Diante do inexorável, é fundamental olhar, admitir, assimilar, quebrar tabus, abrir portas, construir pontes e estabelecer as conexões necessárias para as trocas possíveis e uma vida com o mínimo de preconceito e o máximo de inclusão, tranquilidade e conforto.

A não adequação, que perturba a ordem, exclui, inibe e acirra o preconceito, ao mesmo tempo rompe com o determinismo e as verdades absolutas. Ao produzir a dúvida, abre um universo de possibilidades, estimula o conhecimento, impulsiona a criatividade, aponta para a riqueza da diversidade e do inusitado e promove novos olhares. Restaura a utopia que nos faz caminhar firmes no contrafluxo, em direção à luz.

Essa é a grande batalha, não só dos pais que têm filhos diferentes, mas dos filhos que precisam entender o movimento dos pais, encarar o mundo lá fora e conviver com as limitações humanas diante de alguém que, definitivamente, não corresponde ao sonhado/planejado ou à vida como gostaríamos que fosse. São alguns dos muitos desafios de pais que precisam descobrir um meio de se comunicar com seus filhos estrangeiros, filhos esses que, por sua vez, precisam dessa conexão para viver.

Como a pequena história contada pelo escritor Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”, sobre o menino Diego, levado pelo pai para conhecer o mar. Foi uma longa caminhada. “E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!”.

Nanismo, mídia e preconceito

"I Encontro Estadual-sobre Nanismo"

“I Encontro Estadual-sobre Nanismo”

Mídia e Preconceito. Esse foi um dos temas do I Encontro Estadual sobre Nanismo, promovido pela Faders, que aconteceu em Porto Alegre no dia 3 de novembro. Participei ao lado de Amanda Sobuki, advogada com nanismo e do jornalista Manoel Soares. Saí com a certeza de que lançamos uma semente. Foi estimulante, foi produtivo, inquietou e emocionou. A seguir, um resumo da minha fala.

Somos poucos, mas o impacto que provocamos é grande, às vezes, assustador.

Desde a antiguidade, marcados pelo estigma de garantir a diversão de outros, pelo grotesco, pela fantasia e pelos tantos mitos que correm por aí, chamamos a atenção. Da chacota vulgar à admiração, da hipervalorização à rejeição, vivemos entre opostos. E neste universo contraditório e pouco acolhedor, cavamos nosso lugar social.

Portanto, é vital romper com os espaços constituídos e cômodos, montados pelos discursos já dados sobre a nossa condição. Só quando a sociedade encarar a possibilidade da imperfeição, que não quer ver, é que a diferença será assimilada e percebida de outra maneira. O confronto é necessário para desorganizar a frágil ordem social e mostrar a vulnerabilidade da perfeição.

Cabe a nós, com a nossa diferença, recusar os papéis que nos são atribuídos, como o do bufão, da vítima ou do herói. É importante também prestar atenção no ganho secundário, que vem através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, espécie de salvaguarda que pode mascarar uma condição que precisa ser enfrentada a olho nu.

A mídia, o estereótipo e o nanismo.

A mídia, formadora de opinião para o bem e para o mal, tem um papel muito importante neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com dificuldade, não alimentar mitos, nem transformar as pessoas diferentes em vítimas, super-homem ou mulher-maravilha, guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a nossa condição. É necessário mostrar, instigar, fazer pensar, evitando o sensacionalismo e o desgastado discurso da superação, que não contribuem em nada para causa nenhuma.

Os anões são quase invisíveis e pouco lembrados pela sociedade, pelos governos e pela mídia como cidadãos e trabalhadores. É claro que temos boas reportagens. No dia 1º de novembro, o programa de Fátima Bernardes na TV Globo, veiculou uma entrevista com pessoas anãs, por conta do Primeiro Congresso Brasileiro sobre o Nanismo, na medida, sem apelos ou sensacionalismo. Mas esse tratamento não é comum. Em programas de rádio e TV, os comentários muitas vezes são cruéis e carregados de preconceito.

Por uma dessas falhas de memória, que Freud deve explicar, esqueci as datas, mas vale registrar. Comunicadores do programa Manhattan Connection, veiculado pelo GNT na época, fizeram comentários absolutamente infelizes e preconceituosos sobre os anões, o que acontece frequentemente com os apresentadores do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida. Só tratam do estereótipo, sem contraponto.

É o comportamento típico de profissionais que precisam ser interessantes o tempo todo para manter a audiência, fazendo humor a qualquer custo. Pela fala desses comunicadores, que buscam a gargalhada fácil, não é delegado ao anão um comportamento humano. Sem pensar ou questionar, ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

A palavra anão é também sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco. É o caso das expressões “salário com perna de anão”, “anão moral”, “anão diplomático”, “anões do orçamento”, “anões do poder”, que ratificam o preconceito. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Cabe a nós, saltar fora. Só assim construiremos relações mais humanas e agregadoras, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Para finalizar, relembro uma afirmação do jornalista Luiz Antônio Araujo no ótimo artigo publicado no jornal Zero Hora do dia 28 de julho de 2014, sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio: “Ser anão não é para qualquer um”. Segundo Araújo, o poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, escreve ele ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Assim se discrimina.

Ainda vivemos sob esse eco. E é contra essa subjugação que lutamos.

Sou teimosa e vivo. Sou teimosa e insisto.

O segundo turno das eleições está aí. Encerramos um ciclo? Ou coroamos a direita?
Para além de qualquer movimento, o tempo é de reflexão. As cartas estão dadas. O tabuleiro está na mesa. Mas o jogo começa em campo minado. A política elitista, soberba e cheia de retórica que nos apresentam é incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da salvação do país, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação e da saúde e ignoram conquistas sociais.

"Emaranhado", por Tamar Matsafi

“Emaranhado”, por Tamar Matsafi

Querem salvar o país para quem mesmo?
Mas essa pergunta não importa. O que o governo precisa nesse momento de reuniões de alcova é responder à minoria que apita o jogo. Para não desagradar, faz das tripas coração, entre um farto banquete e outro, garantindo a aprovação de medidas impopulares. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população, mas está pronto para bater em manifestantes, justo aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo” e pela linguagem vulgar (leia-se Renan Calheiros). A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que o jogo não está perdido, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Dos pisos táteis e rebaixamento de calçadas – mal colocados e mal feitos, só para dar ares de acessibilidade – à deterioração dos espaços públicos, o que vemos dói. A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação anda a passos largos.

Inclusão para quê?
Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, divertem e espalham alegria, são ameaças. A sociedade está doente, vazia de valores e do entusiasmo verdadeiro, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

"E agora?", Por Tamar Matsafi

“E agora?”, Por Tamar Matsafi

Sejamos vigilantes e responsáveis! Vamos cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito, do bem estar, da alegria e do lazer, da arte que nos alimenta. Vamos olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

Não há porque estancar em meio ao tsunami que tenta frear nossos sonhos. Como escreveu o jornalista Nei Duclós, em Outubro*, livro de poesia lançado em 1975, que ganha edição comemorativa de 40 anos: “Apesar de tudo sou teimoso e vivo / Sou teimoso e insisto”.

“*Outubro é daqueles livros de resistência, de força e de lirismo, tudo a um só tempo, que traz o ideário de uma juventude que havia se formado na vigência da contracultura, debaixo de um brutal cerceamento de ideias e embalada pela tentativa de formação de uma identidade latino-americana. Volume antológico, desses clássicos já ao nascer, Outubro traz versos que soam viçosos ainda hoje (“Embora não acredites/ estou tão habitado/ que pareço um mar”)”. Trecho de texto da escritora Cíntia Moscovich, patrona da Feira do Livro de Porto Alegre deste ano, em sua coluna na Zero Hora.

outubro_nei-duclos

As sombras que escurecem nosso tempo

“O Escuro do Nosso Tempo”. Esse é o nome de um seminário promovido pela Associação Psicanalítica de Porto Alegre, que tem a coordenação dos psicanalistas Lúcia Serrano e Robson Pereira e do crítico de cinema, filósofo, economista e psicanalista Enéas de Souza.

Faço essa referência porque esse título sempre me interessou. É instigante, sugestivo e, na minha percepção, diz muito do momento que vivemos na nossa aldeia, hoje tão precária. Vejo muita desesperança e o aprofundamento da descrença e da escuridão, provocados pela intolerância, a radicalização e o desrespeito que dominam as relações políticas e, consequentemente, pessoais. Faço inúmeras perguntas, para as quais são mínimas as respostas.

Proponho um olhar específico para o nosso quintal, com o foco na campanha para prefeito. Vamos observar e pensar sobre o que está em jogo nesta reta final. Violência, perseguições, ameaças, acusações, vingança, invasões. Qualquer que seja o motivo – se é que um dia saberemos – que provocou tiroteios em frente à sede de um partido, vistorias, incêndio em um departamento da prefeitura e uma morte brutal, já ultrapassamos, e muito, todos os limites do suportável.

"Tempo, tempo, tempo", por Tamar Matsafi

“Tempo, tempo, tempo”, por Tamar Matsafi

“E qualquer desatenção, faça, não! Pode ser a gota d´água” – Chico Buarque, compositor e escritor.

Dá para chamar esse desvario de campanha política? Abandonamos o SER e mergulhamos absurdamente na escuridão do TER, com o que há de mais deplorável sob o ponto de vista humano, que se alimenta do revanchismo, do autoritário e do jogo do poder pelo poder. E enquanto a disputa toma essa proporção assustadora, seguem as promessas vãs e as falas falsamente redentoras. Como se todos fôssemos idiotas, à margem de tudo.

Onde está a autoridade? Quem vai ocupar esse lugar tão desejado, que deveria ser reservado aos que vêm para revolucionar a prática política? Quem vai sentar na cadeira vazia de valores e restaurar a dignidade? Quem vai trabalhar pelo bem comum? Quem vai apresentar e discutir projetos viáveis com as comunidades? Quem vai nos devolver o direito de ir e vir com segurança, saúde e leveza? Quem vai tornar a cidade mais acolhedora e inclusiva? Quem vai garantir educação e arte libertárias para crianças e jovens? Quem realmente vai governar para a população e não para um círculo restrito e mesquinho, respondendo a interesses políticos e financeiros duvidosos e usurpadores?

“É preciso olhar nos olhos da tragédia para dominá-la” – Oduvaldo Vianna Filho, autor e ator de teatro.

Quem vai olhar? Quem vai nos tirar dessa ordem obsoleta e provocar a necessária suspensão no cotidiano doído dos que sempre perdem? Quem vai nos devolver a possibilidade da utopia? Quem vai caminhar no contrafluxo do conservadorismo? Quem será capaz de torcer a curva da vida e apontar outros caminhos?

Quem?
Diariamente somos engolidos pelo espanto e pela burocratização da vida, que contamina nossa energia e controla nosso já escasso e desgastado tempo. Esse miserável tempo cartão ponto, que impõe uma infinidade de normas, minimiza talentos, escraviza e rouba a criatividade. Necessitamos de atos corajosos, generosos e lúcidos, contra a corrente da hipocrisia, da acomodação e do fazer sem compromisso.

A democracia é prática difícil. Gera incertezas. Escancara limites. Aponta para um universo de possibilidades. Descortina problemas complexos que dependem de muitas variáveis, de discernimento e da vontade de mudar. Encoraja o debate público de ideias. Estimula a humildade e o respeito pelas diferenças. Exige que se abra mão de verdades cristalizadas, de privilégios, das máscaras e do saber arrogante. Pede outros saberes que se descobrem no cotidiano, fora dos gabinetes e dos discursos prontos. O saber da vivência nas ruas, nos locais de trabalho, nos espaços públicos. O saber de quem olha, respeita e compartilha a vida com o outro. Até chegar ao saber maior, que é ver o outro por inteiro e trabalhar coletivamente.

"O que nos une", por Tamar Matsafi

“O que nos une”, por Tamar Matsafi

Só quem consegue sair da sua bolha egoísta e ver o outro “com os olhos livres”, fora desse grotesco podium de competições insanas e do poder a qualquer custo, é capaz de governar para uma comunidade de cidadãos diversos, carentes de respeito, melhores condições de vida, igualdade de direitos, identidade, autoestima.

Quem?

O que dizem de nós os seres do Habitat de Amaro Abreu

A vida pulsa para além das eleições, das promessas vãs, da indigência dos partidos e da política, do cotidiano difícil, dos nossos desejos de acessibilidade, inclusão, mudança. A vida pulsa na criação de quem ousa. Meu texto é sobre o livro de Amaro Abreu, Habitat, que será lançado no dia 15 de outubro, a partir das 16h, na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre.

habitat_capaO menino curioso, que conheci pequenininho no início dos anos 1990, cresceu. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum na Bahia para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas guardava muito do universo lúdico no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que não nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Amaro Abreu por Amaro Abreu

Amaro Abreu por Amaro Abreu

Fomos conversando e descobri que o menino, hoje com 27 anos, já se aventurou pelo mundo. Articulado, criativo, observador, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários, compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre o seu trabalho no livro “Habitat”, um convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é e pelos motivos que o levaram a me convidar. Amaro me falou que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Algo nos sintonizava. Quando me conectei com suas criações entendi. É que das suas mãos nascem figuras que dizem muito da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da vida vertiginosa que levamos e da liberdade que queremos.

Habitat, de Amaro Abreu

Habitat, de Amaro Abreu

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu “Habitat”.

Que segredos guardam essas figuras circenses, melancólicas, lúdicas, enraizadas, soltas, misto de tristeza e alegria, em um universo de paisagens oníricas? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçadas, à espreita, olhos arregalados, despedaçadas e inteiras, genuínas na sua adorável imperfeição, querem dizer o que assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos? Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que criamos. Habitável? Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar. Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.

Que valores nos sobram depois de um sombrio primeiro turno, humanos ou monetários?

O que ficou do processo eleitoral e desse primeiro turno? O que revelam os votos em branco, os nulos e as dissidências? Estamos diante de um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que não encontrou guarida diante da profunda crise ética e política em que o Brasil mergulhou. Crise que faz renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho e torpe, e dá asas a uma extrema-direita intolerante, violenta, avessa à diversidade de opiniões e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contaminou o país de norte a sul, sustentada por empresários, partidos e vassalos de toda sorte. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas de governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas.

Há uma devastação orquestrada por políticos sem caráter e por uma lamentável mídia de mão única e incapaz de análises amplas e descomprometidas, que trazem nas mãos a hegemonia do poder econômico em detrimento de direitos sociais e trabalhistas de cidadãos do bem. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Mais uma vez, vou lembrar de uma pequena atitude dos bancos, que diz muito do perfil das instituições financeiras, quando estão diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

A intenção primeira era falar sobre o assunto a partir de imagens feitas nos locais, mas os bancos/banqueiros têm muito medo de mostrar a sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana. Então, fui proibida de fotografar as minhas artimanhas em busca da independência necessária para dar conta da vida. É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de todos nós, governos e empresários que ditam leis e regras.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.

"Banco necessário", por José Walter de Castro Alves

“Banco necessário”, por José Walter de Castro Alves

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades, o que considero grave. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu solicite a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

É claro que sempre encontro algum funcionário capaz de uma atitude fora do protocolo, mas normalmente ele não tem poder. Relembro dois episódios já publicados aqui.

Acessibilidade para quê?

Fragmento do absurdo cotidiano                                                                                 Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é comum nas instituições bancárias. Nem no “buraco” para colocar o celular, metais, moedas e outros objetos que possam barrar o meu acesso e, “desarmada”, ser autorizada a entrar. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Atrapalhado, ele grita: “O que a senhora tem na bolsa?”. A resposta é óbvia. Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Do lado onde estou, aparece outro guarda, que faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz: “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? (Postado em 26 de abril de 2016).

Fragmento da delicadeza cotidiana                                                                                 Há alguns anos, o guarda do Banrisul, onde tenho conta desde a década de 1980, depois de muito ouvir reivindicações minhas e da minha irmã (Marlene Teixeira, que enfrentava as mesmas dificuldades), afirmou que iria conseguir uma escada para acessarmos os caixas. Logo depois, para nosso espanto, sorrindo e feliz, ele nos apresentou uma escadinha ótima. De onde a gente menos espera, vem uma solução fora da norma, inclusiva e sensível. (Postado em 10 de maio de 2016).

"Escada, uma extensão necessária", por José Walter de Castro Alves

“Escada, uma extensão necessária”, por José Walter de Castro Alves

 

Lucidez poética – Hora do voto

Há um inquietante desencanto permeando quase tudo. O jeito é esticar o olhar para além dos botões, janelas, esquinas, ruas, cidade, em busca de um rasgo de esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Perseguir o equilíbrio. Entre o caos e uma possível ordem, alguma coisa há de fazer sentido. Mais uma vez, a arte me socorre.

“Linhas Paralelas”, do mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, a ação política na prática, aqui, lá, acolá.

Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estradas pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá.
Porque lá não tem escola.

"As obras", por Tamar Matsafi

“As obras”, por Tamar Matsafi

A sabedoria dos versos do poeta, que encontrei na “Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira – para crianças de qualquer idade”, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhoto (Casa da Palavra), me fez ruminar o fazer político como é e como não o queremos.

É nosso direito e dever acompanhar e participar da administração pública, conhecer cada projeto dos governos no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno em que vivemos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e boeiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços, a urbanização.

Cada ação deveria valorizar a vida e a cidadania. Mas, definitivamente, não é assim. As atitudes dos administradores seriam fundamentais se as almas não fossem tão pequenas!

A política partidária praticada no Brasil é velha. Tem caráter autoritário, redutor e revanchista. Desmantela ao invés de construir. É mais predatória do que civilizadora. Mais empresarial do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Simplesmente acomoda os eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. Em 1968, o artista plástico Hélio Oiticica, em carta para a pintora e escultora Lygia Clark, já sinalizava: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. Comentário que diz muito do momento que vivemos.

Hora do voto
“Desta hora, sim, tenho medo”, diz a canção “Anoitecer”, de José Miguel Wisnik.

O momento é delicado e o jogo egocêntrico. Estamos mergulhados na superficialidade e na mesquinharia da pequena política eleitoreira. Poucos parecem interessados em olhar de frente para as ações ou omissões que geram desigualdade, degradação, miséria, abandono, violência, medo. Poucos falam em uma nova política, livre das amarras da corrupção, tenha ela o tamanho que tiver. Muito poucos!

Mesmo assim, e apesar de todas as falcatruas, ainda aposto no voto. É um meio de manifestar nosso desejo de um governo conduzido por homens íntegros. Um governo que não tenha medo da diversidade, da nossa capacidade de pensar, da nossa criatividade, da memória que nos constitui, da arte que nos representa, do aprendizado múltiplo e libertário. Um governo voltado para a inclusão, que reconheça a diversidade e não nos roube direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

"O repouso dos guerreiros", por Tamar Matsafi

“O repouso dos guerreiros”, por Tamar Matsafi

Entre o bem e o mal, a perfeição que paralisa e a imperfeição que dá asas

Se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo. Mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus. Assim, organizo o poder que me cabe. Dane-se a ética!

Essa engrenagem cruel, que coloco aqui de forma tosca, para mostrar que ainda vivemos polarizados, divididos entre o bem e o mal, diz muito da humanidade. Parte de uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca.

Esse denso coletivo humano que formamos é capaz de uma generosidade absurda e de uma maldade na mesma medida. Assim como tenta o equilíbrio entre a cruz e a espada. Nem lá nem cá, salvando a pele, simplesmente. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Amamos para sempre e odiamos de forma igual. Ou não amamos, nem odiamos. Preferimos o meio termo. Somos tão imprevisíveis e loucos quanto prováveis, burocráticos e normativos. Inusitados e óbvios. Criativos e banais.

Podemos nos corromper por muito pouco, assim como não abrimos mão da honestidade mesmo que nos ofereçam o ouro do mundo. Ou escolhemos a neutralidade e servimos a todos os senhores.

"Seguranca", por Tamar Matsafi

“Seguranca”, por Tamar Matsafi

Somos contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Somos também objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesamos e medimos nossas atitudes, agimos premeditadamente, assim como jogamos tudo pelos ares. Encantadores e desprezíveis.

Libertários e escravagistas. Guerreiros e pacíficos. Tiranos e democratas. Sonhadores e realistas. Vadios e trabalhadores. Mocinhos e bandidos.
Somos feitos de infinitos sentimentos, só não somos essa polarização simplista que divide o mundo entre o bem e o mal. Somos o que podemos ser diante do imponderável.

O que detém o nosso desejo?
O que nos forma? O que nos joga fora dos trilhos? O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, que vivem coletivamente, respeitando limites? O que nos torna capazes de ver o outro? Reconhecer, acolher, dividir, entender?

O núcleo familiar é o ninho, o aconchego que nos dá limite, o ponto de partida. A convivência saudável nesse núcleo torna natural a sua extensão. Os amigos e a escola.

O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas, na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença. O crescer no convívio com a diversidade.

"Lazer", por Tamar Matsafi

“Lazer”, por Tamar Matsafi

Depois, o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo, amorosamente, vida afora.

É nesse círculo que construímos o nosso estar no mundo, um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. É desse círculo ampliado, biológico ou não, que alimentamos nosso ser e tiramos o equilíbrio necessário para abrir as asas. É nessa trama que, por vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes, autoritários, sem limites, predadores. Perfeição que paralisa, porque só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender e arriscar sempre novos voos.

Quero dizer, então, que dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos tão perfeitos nesses tempos de um Brasil quase sem rosto. Só se ouvem respostas prontas, soluções mágicas, acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?