Um grito preso na garganta

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Saímos de uma ditadura cruel, que perseguiu, censurou, torturou e matou sem piedade, e mergulhamos em uma “abertura lenta, gradual e irrestrita” proposta pelo ditador Ernesto Geisel. Panos quentes no passado autoritário. Melhor não falar. Melhor, ainda, negar. Mas uma grande pressão popular gerou o movimento Diretas Já e o que se conseguiu foi uma esfarrapada eleição indireta, com Tancredo Neves na linha de frente, que adoeceu e não chegou a assumir. Morreu em 21 de abril de 1985. Seu vice José Sarney, que sempre estava ao lado do poder, não importava de onde viesse, articulando e negociando, assumiu a presidência. Dívida externa infinita, inflação altíssima, economia conturbada. E vieram os planos para salvar o país – Cruzado, Bresser, Verão. Até que apareceu o milagroso Caçador de Marajás, Fernando Collor de Melo, capa da Revista Veja. O discurso, moralista e salvador, prometia colocar ordem na casa. E como gostamos de acreditar no conto da carochinha, elegemos o senhor da caça. Deu no que deu!

É mais ou menos desta época a crônica que segue.

Um grito preso na garganta

A noite avança inquietante. Talvez porque seja domingo e as ruas estão quase desertas. Faz frio e a cidade se recolheu cedo. Nem os bêbados cruzam na sua confusão de pernas em busca de um porto seguro. Nem os contumazes frequentadores dos bares da madrugada, em busca de um papo para disfarçar a solidão.

A noite avança misteriosa. Quase sinistra no silêncio pesado das suas esquinas vazias. Os poucos sinais de vida despontam de algumas janelas iluminadas e da minha respiração tensa, que nunca senti tão forte. Caminho espreitando os tantos espaços em minha volta. Medrosamente. É um tempo de guerra, fria, surda, contida, dolorosa. E tenho um grito preso na garganta, que esperava se diluísse com os novos tempos. Mas não! Segue preso e quase me sufoca.

E lá vem a lembrança de uma canção, de Caetano Veloso, mais uma – “eu tenho um beijo preso na garganta / eu tenho um jeito de quem não se espanta / eu tenho corações fora do peito”.

A esperança alimentou em mim a certeza de mudança, mas os novos tempos chegaram velhos e corrompidos. Aninharam-se na mesma cama do poder prostituído e se encolheram diante do desafio de jogar o jogo da verdade e recomeçar fora dos alicerces que sustentavam a corrupção e a mediocridade.

A noite avança escura e triste. E eu caminho apreensiva, como se um batalhão de fantasmas me perseguisse. Não os adoráveis fantasmas da fantasia infantil. Os fantasmas da vida real, que impediram a mudança. E agora querem impedir que se questione, se fale, se diga não. Querem nos calar, instalados solidamente na farsa que insistem em chamar de democracia.

A noite avança inexoravelmente. E a manhã que não chega nunca!

Que outro jeito? Eu vou!

Uma crônica escrita em junho de 1987, que me parece muito atual.

Nem tudo estava tão certo naquela tarde fria aparentemente serena e azul. Qualquer coisa mexia e remexia por dentro, feito um bicho que se debate dentro de um vidro, numa última tentativa de liberdade. Feito um pé num sapato apertado. Um cisco no olho. Formigamento.

Andava de um lado para o outro. Estonteada. Perdeu a conta das vezes em que virou e revirou o disco, que nem ouvia, no aparelho de som. Roía e olhava as unhas. Nervosamente. Entre uma tentativa e outra de respirar forte. Na realidade, nada estava fora de lugar. As vinte e quatro horas do dia corriam normais. Precisas. Alterar o ritmo do relógio não seria mesmo uma solução. Que outro jeito?

Lavou o rosto mais uma vez. Examinou-se mais alguns segundos no espelho. Tanto cansaço. Na pele, nos olhos, na vida. Sacudiu a cabeça, os ombros, o pó. Passou um batom rápido. Pronto. Se tem que ser, que seja! Pegou a bolsa. Verificou se a casa estava bem fechada. Olhou o gás. Desligou o toca-disco e foi caminhando corredor afora em direção à porta da rua. Mas havia outras portas. Instintivamente, cantarolou baixinho a música “Gothan City”, de Jards Macalé e Capinam, mais dois malditos que ousavam desafiar o coro dos contentes, – “Cuidado, há um morcego na porta principal / Cuidado, há um abismo na portal principal”.

Para além das portas, cruzando a rua serena e azul, mexida e remexida, no centro do burburinho, mais parecia um ser em contramão. Ia, enquanto todos vinham. Ou paravam no meio do caminho. Instintivamente Lembrou o poema de Carlos Drummond de Andrade – “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra”. Seguia. E se debatia. Já não apenas interiormente. Agora tudo era muito visível. Cabeça, tronco e membros. Pernas ao infinito. Ação e reação. A certeza de que nada estava certo. Muito menos ela que esperneava exausta entre os braços cruzados, apontando para o morcego na porta principal.

A rua parecia não ter fim. E ela andava, repetindo como um mantra: Se tem que ser, que seja agora! O tempo esgotou. Instintivamente Repetiu inúmeras vezes os versos de “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso – “Eu vou / Por que não, por que não? / Por que não, por que não? Por que não, por que não?”. E foi!

Entre dores e delícias

Há dias de desencanto, bem difíceis, em que olhamos sem filtro para a miséria física e moral que nos cerca e ficamos especialmente vulneráveis – “e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água”.

Há dias em que não entendemos o movimento do mundo ao redor e só desejamos um pouco de paz de espírito – “a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Há dias e noites em que os noticiários da tradicional e conservadora mídia brasileira estampam um jogo político tão sórdido, na voz de parlamentares tão mesquinhos, que o desejo que nos pega profundamente é o de ir embora – o que não seria uma solução. Mas o que mais assusta, em se tratando de meios de comunicação e formadores de opinião, é a ausência de uma análise profunda dos fatos, a partir de vários pontos de vista.  O viés é um só, pesado e medido.

Há dias em que a pergunta que não quer calar é: O que fazem vereadores, deputados e senadores eleitos pelo povo? A minha resposta, lamentavelmente, é “vivem muito bem, obrigado, com polpudos salários, inúmeros assessores e incontáveis visitas às bases eleitorais”. E ainda nos envergonham com projetos absurdos. Temos o deputado que sugere incluir doce de leite na merenda escolar. Ou a solicitação insana do senador em prisão domiciliar querendo passar férias no Caribe. É o vale-tudo que reina absoluto na ilha da fantasia no Planalto Central do país e suas subsidiárias.

Há dias em que o melhor é não pensar e cantar bem alto e em bom tom para todos ouvirem – “vai passar”.

Há dias em que os ombros não suportam as dores da alma, mas essa dor pode ser muito particular, relacionada à sensibilidade e à vivência de cada indivíduo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sei da minha!

Há dias em que não encontramos consolo. Mesmo assim, a vida segue no seu ritmo. Não paramos.

Mas, de repente, encontramos no meio do caminho um pequeno café, quase escondido. Os olhares dos proprietários, mãe e filho, são acolhedores. Há respeito. Há dignidade. Há alegria.

Então, ali sento para almoçar com calma e tomo um expressinho de sobremesa. Tudo muito devagar. As nuvens escuras vão se dissipando. O início da tarde já não parece tão sombrio. E o céu vai ficando cada vez mais azul.

Leio uma entrevista do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que ele diz: “Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes”. Leio outra entrevista, essa do israelense David Grossman, falando sobre a capacidade da literatura de expandir nosso universo interno: “Abra um livro para compreender seus inimigos”.

Pequenos gestos e leituras me mostram que a humanidade não vai sucumbir. A vida cotidiana é feita desses tantos retalhos que aquecem a alma, trazem conhecimento, alimentam o espírito e espalham confiança.

Então, sigo.

Observação – Citação das canções “Gota d´água”, “Roda Viva” e “Vai passar” de Chico Buarque e “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso.

O que somos e porque somos

“Mas afinal, o que eu tenho? O que é isso que me faz ser quem eu sou? Uma coisa é certa: eu sou diferente e é essa diferença que me faz único. Eu não preciso ser consertado, eu não preciso ser igual a você”.

Os questionamentos e as reflexões trazidas pelo documentário Meu Nome É Daniel, dirigido e protagonizado por Daniel Gonçalves, 35 anos, deixam evidente o quanto o viés é a normalidade. As pessoas com deficiência enfrentam uma exigência de superação para serem devidamente aceitas e incorporadas em um meio social muitas vezes apático, que não vê a sua diferença. Ou que só percebe quando há um esforço de normalização.

O filme participou da sexta edição do Cine Caramelo (cinecaramelo.com.br) – Festival de Cinema Infanto-Juvenil que aborda questões relacionadas à acessibilidade e inclusão – em Porto Alegre, com a presença do diretor, homenageado no evento. Premiado no Festival Internacional de Cinema de Cartagena, na Colômbia, Meu Nome É Daniel está qualificado para disputar uma indicação ao Oscar. A previsão de estreia no circuito brasileiro é em agosto.

Ao mostrar a sua trajetória, a partir de uma deficiência rara, nunca diagnosticada, que afeta a coordenação motora, o diretor recusa o lugar-comum. Essa é a primeira vez, pelo menos no Brasil, que uma pessoa com deficiência faz um filme sobre sua vida. Na maioria das vezes, as pessoas com deficiência são retratadas por quem não tem uma deficiência. Para o diretor, “assumir esse lugar de fala é uma coisa muito importante”.

Segundo Daniel, o que me remete para muitos textos já publicados aqui neste blog, as pessoas com deficiência costumam ser representadas sob dois prismas. Ou como coitadas e incapazes ou, no outro extremo, como heroínas. Ao mitificar o personagem, diz o diretor, a sociedade comete um grande equívoco porque faz dele uma figura inalcançável. Por isso, procurou evitar esse tratamento no filme. Na cena em que tenta fritar um ovo, dispensou a música de fundo para não estimular uma emoção fácil. Na montagem, deixou de fora depoimentos de pessoas que não eram da família e que o tratavam como herói. “Minha vida não foi mais difícil do que a de uma pessoa sem deficiência. Acho que foi diferente. De certa forma, se todos tivessem acesso às coisas que eu tive, provavelmente também estariam no lugar em que eu estou ou, pelo menos, fora desse lugar invisível, onde normalmente as pessoas com deficiência estão”, ponderou.

Para a escritora gaúcha Lau Patrón, que participou de um bate-papo sobre inclusão com o diretor em Porto Alegre, as pessoas com deficiência aparecem muito pouco nas produções culturais – ainda mais se considerarmos que 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Lau é publicitária, mãe de João, sete anos, que tem a rara Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica, e autora do livro “71 Leões” (Belas Letras, 2018), história sobre maternidade, dor e renascimento. Para ela, os filmes abusam dos clichês. “A pessoa vira o exemplo para os outros se sentirem bem com as próprias vidas. Mandam um vídeo no grupo do WhatsApp de uma menina, que não tem uma das pernas, correndo. E colocam: Se ela consegue, qual é a tua desculpa para não correr hoje?”. “Nossas vidas não podem ser instrumento para os outros se sentirem de bem com a vida deles. Isso é muito cruel”, diz Lau.

Segundo Lau, nem as mães de pessoas com deficiência escapam do lugar-comum nos roteiros. São normalmente retratadas como a “mãe guerreira”, que abdica de tudo. A expectativa é de que ela viva no sofrimento e, quando consegue sair dessa situação, acaba julgada, afirma a escritora. Daniel e Lau acreditam que o caminho para mudar esse cenário de estereótipos começa na concepção da obra e na formação da equipe, que deve priorizar a inclusão e a diversidade. “A gente precisa trazer essas pessoas para dentro, não tem mudança que não passe por isso. Diversidade é nossa força, não nossa fraqueza. Precisa ter diálogo para quebrar essa estúpida ideia do padrão que gera uma quantidade imensa de pessoas infelizes, que tentam se encaixar em caixinhas”.

Leituras – entre a vida que se impõe e a vida possível

A vida que se impõe

Djamila Ribeiro abre o livro Quem tem medo do feminismo negro? (Cia das Letras, 2018) com um instigante ensaio sobre a sua vida. Ao se referir à infância e à adolescência, deixa evidente o silenciamento que sempre sofreu pela cor e pela condição social. Silêncio que só rompeu quando, aos 18 anos, foi trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, organização não governamental que possibilitou que ela estudasse temas relacionados a gênero e raça e tomasse contato com escritoras que a fizeram ter orgulho das suas raízes, como as ativistas sociais norte-americanas bell hooks (Gloria Jean Watkins), Alice Walker e Toni Morrison e a escritora brasileira Conceição Evaristo. A relação com a militância teve início bem mais cedo, quando ainda era criança, por influência do pai, estivador, militante e comunista. Um homem culto, mesmo com pouco estudo formal.

A caminhada de Djamila foi contra o que seria natural na sua condição. Em 2012 graduou-se em Filosofia e em 2015 tornou-se mestre em Filosofia Política, com ênfase em Teoria Feminista pela Universidade Federal de São Paulo/Unifesp. Sua tese compara Simone de Beauvoir e Judith Butler ao feminismo negro. Filósofa, feminista, acadêmica e pesquisadora, Djamila hoje é conhecida no Brasil inteiro. Especialmente por seu ativismo e forte presença no ambiente digital, onde escreve sobre relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Para ela, é fundamental apropriar-se da internet como ferramenta na militância das mulheres negras porque a “mídia hegemônica costuma invisibilizá-las”.

Ludmila foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad. É presença marcante e requisitada em eventos internacionais que tratam das questões que defende. E se posiciona sempre, apesar dos riscos. Para ela, o assassinato chocante da vereadora Marielle Franco coloca em risco a vida das mulheres negras ativistas do Brasil, o que provoca medo, não desistência, nem covardia, porque não é possível cessar esta luta.

É autora também do livro O que é lugar de fala?(2017), que aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo para o conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da nossa história. Escreveu ainda o prefácio de Mulheres, raça e classe, da filósofa negra e feminista Angela Davis. Sua escrita e publicações pontuam o movimento negro e o movimento feminista negro no Brasil. Coordena a edição da coleção Feminismos Plurais, da editora Letramento no Brasil, com títulos como O racismo recreativo, onde o autor Adilson Moreira, doutor em Direito pela Universidade de Harvard, discute os nomes pejorativos dado a negros no Brasil, sob o disfarce da “brincadeira”. Para Ludmila, “resistimos, porque não temos outra opção, mas não dá para negar que estamos vivendo um período muito preocupante em relação à nossa segurança”. Segundo ela, o Brasil é o país que mais mata ativistas de direitos humanos no mundo.

A vida possível

A vida possível, a partir de um ambiente na maioria das vezes hostil e com poucas perspectivas. Uma vida que nasce marcada, em um bairro de periferia, empobrecido, com uma sentença da mãe: Se a sorte não te sorrir até os 45 anos, só vai te restar o destino das pessoas medíocres – “Não, não abaixe a cabeça, não desvie o olhar para as pontas dos seus sapatos gastos. Não há do que se envergonhar, os simples são a maioria na Terra”.

Uma infância de perdas, traumas familiares, limitações sociais, lugares marcados. Não avance – “Você é só o filho do limpador de janelas, não devia ter esperado nada diferente”. Não há heróis, nem vilões. Não há esperança. Há o cotidiano em um ambiente de pobreza e limites já traçados – “Minha mãe e meu irmão, Tom, não se cansavam desse negócio de dividir a humanidade em duas partes incomensuravelmente díspares: uma grande maioria medíocre dominada por poucos privilegiados geniais”. Há a necessidade de sobreviver. Há vida real, que pulsa e aponta para o amadurecimento em meio a possível ascensão no submundo. É o que está dado.

Esta é a melancólica trajetória de Vico, que perde o pai e a mãe e vê o irmão ir embora, e seu encontro definitivo com o turco Farik no denso romance Cavalos e Armas (Pubblicato Editora, 2018) do jornalista e escritor Gustavo Machado. É uma história dura, feita de humanidade. Feita de gente que nasceu e vive no andar de baixo, onde toca a vida, do jeito possível – “Passar para o outro lado, passar para o outro andar. É uma ilusão. Sua mãe estava certa numa coisa apenas: dividir a vida em duas partes. Mas se você nasce em uma delas, nunca passa para a outra, por mais que tente, por mais que trabalhe. É como as coisas são”. Um romance comovente sobre a complexa condição humana.

Gustavo Machado também escreveu Sob o Céu de Agosto, já traduzido na Alemanha, e Marcha de Inverno.

Nanismo e perguntas inconvenientes

 

Desde que nos entendemos por gente, pelos três, quatro anos, Marlene, minha irmã, e eu ouvimos perguntas e comentários sobre nanismo. Na infância, nossos pais e avós tratavam de responder à curiosidade exacerbada, muitas vezes invasiva e sem sentido, das pessoas sobre nós e nossos corpos tão pequenos. Na adolescência, as perguntas nos incomodavam muito. E assim, por conta da timidez acompanhada de vergonha, nos recolhemos mais do que devíamos. Na juventude, não falávamos sobre o assunto e nos negávamos a responder qualquer interrogatório ou observação. Vivemos um silêncio quase absurdo sobre a nossa condição até fazermos a travessia do fantasma, amparadas pela psicanálise. Foi uma espécie de libertação.

“O sentimento de inadequação temperado com o desejo de transcendê-la tem sido uma narrativa comum entre os anões”, escreve Andrew Solomon no livro “Longe da Árvore – Pais, filhos e a busca da identidade” (Cia das Letras, 2012)

É por isso que hoje dou tanta importância à fala e aos movimentos das pessoas que têm alguma deficiência. Tenho convicção de que negar ou fazer de conta que a diferença não interfere no nosso estar no mundo e nas nossas emoções é nocivo. O silêncio faz mal e pode levar a uma solidão cruel. A fala organiza, dá coragem e alivia as dores provocadas pelo preconceito. Não quero dizer com isso que as perguntas não sejam, na maioria das vezes, abusivas, inconvenientes e carregadas de uma falta de sensibilidade e informação assustadoras. Especialmente em relação ao nanismo revelam total desconhecimento, discriminação disfarçada e um humor muito duvidoso.

“Ser percebido em sua própria essência como cômico é um fardo significativo” – Andrew Solomon

Os estereótipos são persistentes. A pessoa com nanismo, adulta, na companhia de alguém que não tem nanismo, ouve perguntas e comentários sobre a sua condição, que não são dirigidos a ela, quase sempre carregados de deboche e de uma morbidez doentia. Talvez até tenham alguma ingenuidade, mas é difícil acreditar que assim seja.

“Anões aparecem em show de aberrações, em competições de arremesso de anão e na pornografia”. “Há um voyeurismo coisificador. Prova de uma insensibilidade que vai além da exibida em relação a quase qualquer outro grupo deficiente” – Andrew Solomon

A seguir um pouco do que já ouvi e ainda ouço.

– Ela trabalha?
– Ela menstrua?

– Como ela nasceu assim? Tem mais anões na família?
– Ai que fofinha! Vontade de pegar no colo.
– Ela pinta as unhas, olha!
– Parece uma boneca, vontade de levar para casa. Posso?
– Deve ser bom ter um anão, pode pegar sempre no colo.
– Olha lá um anãozinho!
– Por que tu és tão pequena?

– Eu não sabia que alguém como você se divertia.

– Isso é tamanho de gente!

– Anão não morre.

– Levanta do chão!

-Como está a temperatura aí embaixo?

“Tratam os anões como se fossem propriedade pública e exigem que os pais os expliquem para o mundo” – Andrew Solomon

É por essas e outras tantas observações e perguntas que precisamos de uma dose diária de paciência, discernimento, compreensão e humanidade. Por isso, a fala, a informação, a discussão sobre preconceito e rejeição são tão necessárias. Mostrar que existimos, sim, e damos conta da vida, sim, mas precisamos de respeito, acessibilidade e inclusão. Como qualquer outra pessoa. Ignorar nossa identidade jamais nos dará proteção.

Era uma vez uma ruazinha bucólica

A propósito da chuva da última sexta-feira, dia 3 de maio, que alagou a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, atualizo um texto que publiquei no blog no dia 21 de novembro de 2017.

Em uma rua, o retrato do abandono da cidade

Quando cheguei em Porto Alegre no início dos anos 1970, para ser mais precisa em março de 1971, a rua Xavier Ferreira era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo amigos arquitetos – onde fomos morar.

Pouco depois, o Zaffari instalou-se na Bordini, em terreno que dá fundos para a Xavier Ferreira, quase esquina com a 24 de Outubro. Os caminhões que abasteciam o supermercado (tão bem-vindo!) começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. Mas o movimento foi aumentando em todos os sentidos. O consumo cresceu, os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito, às vezes ocupando parte da calçada. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou enorme e já não cabia na rua tortuosa. Na época, fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico, como sempre, falou mais alto. Alteraram a metragem e nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, rua e calçada começaram a ganhar mais e mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes e assustadores. Até que na esquina da Xavier Ferreira com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Forçado Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto desde o início: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto nas campanhas políticas, promessas, eleições. E assim que a construção começou ficou evidente que teríamos inúmeros embates. A construtora colocava e acumulava todo o lixo da obra na calçada, apesar dos nossos veementes protestos. Fomos xingadas muitas vezes pelos engenheiros e operários.

Nossa sensação, estimulada pelo receio que tínhamos dos alagamentos na rua, era que algo não estava correto, mas definitivamente não éramos ouvidas. E a primavera do ano de 2005 não deu tréguas e veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada

Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sairmos de casa para trabalhar, Kixi Dalzotto e eu vimos muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fomos até a obra alertar os trabalhadores e pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava nos olhou com deboche. Insistimos, argumentamos, mas ele não se deu ao trabalho de nos ouvir e responder. Tomamos nosso rumo. Um pouco angustiadas.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e da quantidade de lixo acumulado na esquina, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo, como a Kixi e o José Walter de Castro Alves que moravam no térreo do edifício. Marlene, minha irmã, e eu morávamos no terceiro andar. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Caos e abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura de Porto Alegre, completamente perdida, querendo saber o que tinha acontecido. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. Kixi e Zé precisaram de uma reforma geral e saíram dali por um bom tempo. O Conduto passou por vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e há algumas abandonadas, tomadas pelo mato e pelo lixo. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto, buracos e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e muitas vezes entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim.  Acessibilidade zero. O único órgão do governo que atendia os moradores com presteza era o DMAE. E é assim ainda hoje. Até porque devem saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável na região. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente na tentativa de manter a tranquilidade e recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parcerias! E eu me pergunto desde 2005: Por que o Zaffari não adota a rua Xavier Ferreira que hoje mais parece o quintal abandonado e o estacionamento dos caminhões do supermercado? Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.

O Fazer Cotidiano

Quero fazer aqui uma rápida reflexão sobre o trabalho a partir da perspectiva humanista. As observações consideram a minha trajetória como profissional, e como chefe que fui em alguns momentos da vida. No centro da cena, trabalhadores e a complexidade do fazer cotidiano.

Não há, em qualquer atividade, uma simples execução de algo, por mais mecânica que seja. Há a convocação de um indivíduo único. Há subjetividade. Há singularidade. O fazer, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo. É impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o indivíduo, sua história e suas escolhas. As pessoas é que fazem a diferença.

Mesmo que as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, essenciais para a sobrevivência e a organização, elas não eliminam a necessidade de cada um produzir o saber. O sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares e promove negociações entre o instituído e o inesperado. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como definitivas correm o risco de desconsiderar a vida que surge a todo instante. As determinações que chegam unicamente por imposições do meio exterior podem afetar a autoestima dos indivíduos e são nocivas à saúde.

E a saúde do trabalhador começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em que vive, em função de normas próprias, elaboradas por sua história, que ninguém pode tirar. Por isso, a necessidade de um olhar amplo e pluridisciplinar, capaz de ver o trabalho e a atitude humana de forma indissociável. Um depende do outro. Há que se considerar a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, o saber investido por cada na atividade que executa, a criatividade e o bem estar dos indivíduos no desenvolvimento de suas tarefas.

Sempre me encantou esta possibilidade, que aprendi com a linguista Marlene Teixeira, minha irmã, e suas pesquisas e estudos sobre linguagem e trabalho, a partir da Ergologia, disciplina desenvolvida pelos franceses Yves Schwartz, filósofo, e Pierre Trinquet, sociólogo. Eles analisam a atividade de trabalho com o foco no humano, questão a ser pensada profundamente diante das mudanças anunciadas com a nova Previdência Social, em pauta no Planalto Central do país, cada vez mais distante do Brasil real.

Ausência e ressignificação no país da delicadeza perdida

No dia 5 de abril de 2015, um domingo de Páscoa, Marlene, minha irmã, com nanismo como eu, levantou asas rumo ao infinito. No dia 5 de abril de 2016 escrevi meu primeiro texto para este blog, com um título, inspirado em uma canção de Caetano Veloso, que diz muito sobre nós duas – “Dores e delícias de ser o que se é”. No dia 21 de abril de 2019, mais um domingo de Páscoa, faço aniversário. E este é meu post de número 100. As datas marcam, assim como a ausência e a saudade, que ainda trazem vestígios profundos de tristeza e fragilidade, mas também de coragem, alegria e ressignificação.

É certo que nesses quatro anos agucei minha sensibilidade e meu olhar para a condição humana, inexoravelmente complexa. Hoje entendo muito mais sobre os efeitos de perdas, afetos, respeito, cuidado com o outro e acolhimento. Entendo de parcerias e de amor, o que tenho da família, dos amigos e das crianças incríveis que me cercam, me sacodem e me renovam.

É certo que aprendo cotidianamente. Leio, ouço, observo, falo e escrevo muito. Compartilho uma vastidão de sentimentos. Recuso a radicalização. Choro. O ano de 2019 chegou sem dó, nem piedade e está exigindo muito de quem lutou, sonhou e acreditou que seria possível mudar o mundo, como eu. A esperança, às vezes, escapa pelas minhas mãos. O descaso explícito com os trabalhadores e com os aposentados, que perdem direitos a cada amanhecer, dói. Assim como dói a miséria das pessoas que andam pelas ruas arrastando suas vidas sem perspectiva, algumas refugiadas na loucura.

É fato que ando na contramão. Sempre andei. Mas o mundo ao redor mudou muito. Ficou intolerante, perverso e violento. É inegável o rastro fascista e exterminador que se espalha pelo país para nos amedrontar. É inegável a autorização da barbárie quando o chefe maior posa com gestos de arma. É inegável o desmonte da educação e o desconhecimento das condições de vida das famílias de baixa renda quando a proposta é que as crianças fiquem em casa em vez de ir para a escola. É inegável o fazer e o desfazer, a ordem e a contra ordem, o fascínio absurdo pelas manifestações irresponsáveis nas redes sociais. É inegável que os neoliberais têm muito medo da democracia, do pensamento libertário, de um povo que priorize a dignidade. O bem estar social não lhes interessa porque ainda acham que estão na casa grande e precisam da senzala.

Sobre o medo de um futuro que parecia tão nebuloso, Marlene e eu falamos muito em nossas conversas entre fevereiro e março de 2015, que em nenhum momento imaginei que seriam nossas últimas reflexões partilhadas. Conversávamos sobre tudo. Queríamos entender por que a diversidade de pensamento e comportamento era tão recusada – as tantas vozes dissonantes que buscavam pluralidade, igualdade de direitos, inclusão, acessibilidade, educação plena, cidadania. Nossos pressentimentos não eram bons, mas jamais pensamos em um Brasil que poderia chicotear e matar. E não acolher sua gente.

Hoje, nesses dias sombrios no país da delicadeza perdida, penso que efetivamente necessitamos sair das bolhas que nos sufocam e isolam. Recusar a polarização, as provocações e os discursos de ódio. Não entrar no jogo imposto pelo inimigo para nos dividir e fragilizar e, sim, buscar a união. Para além da banca de negociações medíocre e do toma lá, dá cá da política praticada hoje no Brasil em todas as esferas, é fundamental respeitar as divergências e lutar por um bem maior, a dignidade de cada um de nós.

Não é pesadelo. É realidade

Não, não é um pesadelo. É o que é. Sem panos quentes. Na dura realidade de um país mergulhado no ódio, a insensatez dos inescrupulosos não dá trégua. A violência está autorizada, com passaporte carimbado por quem comanda a nação. Perdemos o sono. E está difícil sonhar.

Estamos em alerta. Acordados e de olhos arregalados diante das atitudes torpes, irresponsáveis, mesquinhas e machistas, que se tornaram cotidianas no país. Atitudes que humilham, ofendem, roubam nossos direitos e nos intimidam, sem o mínimo resquício de humanidade e respeito. O feminicídio aumenta. Pessoas com deficiência rejeitadas e ameaçadas de perder a lei que as protegem. A população LGBT condenada pelo conservadorismo estúpido. Os negros e os índios hostilizados. A educação, que considero um dos principais compromissos de um governo responsável, sem régua e compasso, ao sabor da ineficiência dos gestores.

A escancarada apologia da tortura e a supressão de direitos básicos mostram a cara de um Brasil que desconheço e que me assusta ao carregar uma brutal negação das conquistas de todos nós – a diversidade, as lutas das minorias, a democracia. O objetivo é empurrar toda pessoa que pense diferente ou apresente alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para a invisibilidade, o esquecimento, a não participação. Para uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A amarga discriminação imposta deriva da construção de um país e de uma ideia de normalidade sem fundamento algum.

Tempos sombrios

A realidade é cruel e não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa, que se vende com facilidade, decide os destinos do país com apetite voraz. Todos voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam por vias sórdidas e recheiam os bolsos de políticos de carreira e de empresários de plantão, prontos para garantir o lucro acima de qualquer coisa e não perder nada. Tudo é negociado. O poder, os cargos, as regalias, o silêncio, os apoios, as conveniências. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados são o alvo do momento, apontados como os responsáveis pela crise da previdência social. Não se fala da sonegação secular das grandes empresas. A solução? Encolher direitos trabalhistas, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Mas os políticos e a elite empresarial garantem que tudo é feito por uma causa nobre: Alinhar os descaminhos do Brasil e apoiar um governo que, ironicamente, não poupa esforços para privilegiar os militares e faz agrados para manter o judiciário sob sua guarda. O povo? Que vá trabalhar!

Tempos de desencanto

Quando comecei a escrever neste blog – com a proposta de refletir sobre inclusão, acessibilidade, preconceito, direitos humanos e os limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença – jamais pensei que teria pela frente tempos tão difíceis. Hoje, diante do desmonte que aí está e diante de um governo que acha que a Lei de Acessibilidade e Inclusão é uma bobagem, falar sobre estas questões se tornou ainda mais necessário. É fundamental reagir.

Tempos de não deixar passar

Reafirmo que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, o governo anula a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula a criatividade. Anula a democracia. Anula o humano. Enquanto os defensores dessa casta violenta, que se julga acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância. Por isso, mais do que nunca, vivemos tempos de resistência, de mostrar o que somos e a que viemos. É a soma das nossas tantas imperfeições que nos faz humanos, inquietos, lutadores, criativos e utópicos.

Não queremos apenas atrapalhar o trânsito. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como pessoas com direito à vida plena. Queremos autoridades que efetivamente nos representem, nos reconheçam e respeitem nossos sentimentos. Um governo que vê nos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família a caminho de um chá de bebê apenas um “lamentável incidente” não me representa. Que seres são esses que não se abalam com tamanha tragédia e seguem a brincar de fazer e desfazer pelas redes sociais, submissos aos caprichos do país mais poderoso, mais cruel e mais invasivo do planeta?