O fazer político – busco respostas!

É tão bom quando a gente encontra eco na fala do outro e se vê fazendo parte de uma tribo com desejos comuns – democracia e direitos humanos, sob o signo da diversidade. É o que eu gostaria de viver na aldeia que habito. E vivi no dia 29 de setembro, momento que vai para a história mundial, liderado pelas mulheres. Um eco sinalizando mudanças, transformando pessoas e o modo de fazer política.

Mas hoje vivo sob o signo da incerteza e do medo em relação ao futuro da minha cidade, do meu estado e do meu país, em relação ao ir e vir cotidiano de pessoas que ousam pensar diferente. Especialmente neste momento em que o ódio e o repúdio à diversidade tomam conta dos discursos de quem vai governar o país.

O que os candidatos que entraram na reta final das campanhas políticas óbvias, com discursos ultrapassados e cheios de clichês, disseram concretamente sobre diversidade? Sobre uma educação inclusiva, capaz de acolher todas as diferenças, físicas, mentais, intelectuais, comportamentais e sociais? Sobre as crianças e jovens abandonados? Sobre a marginalidade, o preconceito e a criminalidade, que só aumentam? Sobre esse momento delicado que enfrentamos no Brasil?

Temos instituições, empresas, associações de bairros, comunidades organizadas e comunidades inteiras à deriva, enclausuradas, ameaçadas, jogadas às traças. E temos um Executivo, um Judiciário e um Legislativo, muito bem pagos, envolvidos em denúncias de corrupção, sem respostas para nossos anseios e sofrimentos, que só fazem defender-se usando a força que detêm.

Enquanto isso, os podres poderes se agigantam e ferem, inexoravelmente, a ética, os sonhos e a confiança de cada um de nós.  Egos inflados e ocos mergulham nas picuinhas político-partidárias e a mesquinharia domina os debates. Ou os embates!

O que sempre me inquietou, e hoje me inquieta ainda mais, é a dificuldade que os políticos de plantão e os postulantes a qualquer cargo (porque infelizmente é um cargo!), de vereador a presidente, têm de conversar e agir em nome de uma causa maior, que envolva a vida, o bem estar e os direitos dos cidadãos.

Quem está no poder, pelo partido X, e perde as eleições para o partido Y, transforma-se em vilão, enquanto o vencedor assume com sua vara mágica de solução para qualquer problema. Um e outro só conseguem cumprir os encontros protocolares de passagem do cetro. O resto são farpas! Estabelecem uma relação de mão única, primária, e subestimam os eleitores, o que é inadmissível em um século tecnológico, de comunicação avassaladora, onde tudo se vê e tudo se sabe.

Aquele que assume, com o bolso cheio de soluções, não dá conta do que prometeu, mas não se responsabiliza. A culpa é sempre do outro. E a ladainha segue até o final do mandato. A cena se repete de quatro em quatro anos, de partido para partido, de candidato para candidato e, assim, indefinidamente. Muito poucos abrem mão da possibilidade de se candidatar várias vezes ou dos cargos já conquistados. Por quê?

Apesar dos discursos queixosos, que apontam para o caos, querem o poder. Alguma grande vantagem certamente todos têm!

É impossível que uns só acertem e outros só errem e que um governo, por mais equivocado e ruim, não contabilize nenhum acerto. Por que não reconhecer os méritos? Por que não dar continuidade às ações que tiveram bons resultados na administração anterior? Por que não somar? Por que essa voracidade em destruir o outro e o que ele fez? Por que só governar com e para os seus? Por que não uma coalizão ética?

Por que ninguém tem coragem de mudar, de fazer diferente, de romper com as velhas formas corruptas? Por que a maioria que se candidata não sabe exatamente a que veio? Por que são tão poucos hoje os líderes que surgem da militância estudantil, social e política? Por que inventar candidatos, buscando comunicadores populares que dominam os microfones, mas nada entendem do fazer político e da questão social? O que realmente mobiliza partidos, candidatos, eleitores e políticos?

Não tenho respostas, mas lamentavelmente tenho algumas certezas: São bem poucos os que têm ideais humanistas e pensam no bem comum ao assumir uma candidatura ou qualquer cargo político.

Diferença, Inclusão, Acessibilidade

Seminário Inclusão: Direitos das Pessoas com Deficiência

23 de novembro de 2018 – Rio de Janeiro

Minha fala no Painel Inclusão e Acessibilidade

Diferença, inclusão, acessibilidade

 – debate urgente em tempos de desmonte –

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora, 2014), o psicanalista e escritor gaúcho Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir e respeitar são atitudes necessárias.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não há respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece e insiste em não nos ver.

Agradeço aos organizadores deste Seminário, especialmente ao Marcos Bliacheris por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão. É fundamental refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante. Questões que envolvem direitos, políticas públicas, leis, mas dependem especialmente de sensibilidade.

Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht com o título “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase do carioca João Filgueiras Lima, também arquiteto: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente, porque regulam, oferecem alguma garantia, apontam a preocupação da sociedade, mas raramente são colocadas em prática com a seriedade que a situação pede.

Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, apenas cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença. Pouco ou nada entendem e não conseguem colocar-se no lugar do outro e mudar a regra, se o momento pede.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionais e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher e de ousar.

Historicamente, a formação de grupos humanos sempre apontou para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre os integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem vindos e outros repudiados. A sociedade reserva um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim, admitimos uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Por isso, precisamos fazer essa travessia e eliminar o fantasma cruel da exclusão. Precisamos falar sobre a diferença e o impacto que provoca. Enfrentar o preconceito que carregamos é não ter medo das palavras. Só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos seculares e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às pessoas, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão são combustíveis para o preconceito porque se conformam à mensagem já instituída: Cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, grupos LGBTs, população indígena, quilombolas, pobres e toda e qualquer pessoa que apresente alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas.

Nossa experiência cotidiana deixa isso muito claro. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende, assim como o anão divertindo as pessoas, de forma grotesca ou mágica.

Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de nos olhar de outro jeito, falar e acolher.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeiras. Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã. Precisamos de espaços para trabalhar a cidadania e a crítica. Precisamos de sujeitos conscientes, comprometidos com a valorização da vida, do humano. Precisamos desacomodar certezas sacralizadas porque só a partir da incerteza, da dúvida, do questionamento que crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência.

Só a educação para a diversidade vai libertar o excluído, freando o seu impulso primeiro de calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos, instaurando a desordem cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque tem um comportamento diverso, oriundo de diversas questões. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Submete-se, acomodado, ou resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção aos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta. O preconceito está enraizado em cada um de nós e se revela de todas as maneiras, especialmente através da linguagem. Portanto, a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela respeito ou discriminação. Nesse contexto, as pessoas que têm uma deficiência ficam muito vulneráveis e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou pelo tipo de comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa.

Precisamos refletir sobre nossos papéis. Não podemos contribuir para a criação de estereótipos. Não é a pessoa com deficiência que deve simplesmente descobrir maneiras de se adaptar. Ou se transformar em vítima, heroína, guerreira a ser admirada em busca de aceitação. A sociedade tem seus deveres e precisa cumpri-los. Não podemos também cair nas artimanhas da superação. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para uma vida solidária. SEM SUPERAÇÃO!

Nossa luta é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o abuso de autoridade, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características.

“A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. Não precisamos “matar um leão por dia” para viver em harmonia com nossa deficiência no meio social em que estamos inseridos. Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, sem cair em velhos clichês? No estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada e, ao fazerem isso, apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

É preciso falar. É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas, especialmente das crianças. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que devem andar em harmonia, respeitando direitos, deveres, opiniões. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluir, então? Por que penalizar aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro. O eu sem o tu não existe.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”.

Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com as nossas dificuldades, as nossas aptidões, a nossa sabedoria e os nossos sonhos. Muito obrigada!

Voltando a falar de inclusão

No dia 10 de agosto deste ano o jornal Zero Hora publicou artigo meu com o título “Voltando a Falar de Inclusão”. Trago agora o texto para o blog porque o tema está longe de se esgotar. Pelo olhar de quem se preocupa com o outro e com a questão social, inclusão é uma busca sem fim – contra o abandono da maioria da população brasileira, jogada na miséria. Velhos, jovens e crianças esquecidos nas ruas, drogados e desprezados, ou em abrigos sem condições. Invisíveis para uma sociedade pautada pelo lucro desenfreado, com políticos sem caráter e uma elite preconceituosa, separatista e cruel, que sustenta o desgoverno. Não importam mais a história, a memória, a cultura, o desejo, o sonho, a singularidade, a diversidade, a arte.

O Brasil deste momento é um exemplo doloroso de exclusão dos que já não têm nada e vivem na miséria quase absoluta, dos que se diferenciam, dos que não se adaptam ao autoritarismo e ousam buscar democracia e liberdade. Nosso país escancarou a violência sem medidas e se abre para o armamento e a inclusão dos que já têm demais e querem mais e mais e mais. Quase não se vê mais aquela chama de esperança a impulsionar a vida.

Há um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que já não encontra guarida diante da profunda crise ética, política, humana em que mergulhamos. Crise que fez renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho, discriminatório e torpe, e deu asas a uma extrema-direita fascista, racista, intolerante, violenta, avessa à diversidade de comportamentos, opiniões, e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contamina o país de norte a sul, mas não abriu mão do podre poder. Há quem lhe dê guarida! Sustentada por empresários, partidos e seus vassalos submissos, mesquinhos e covardes, segue mantendo seus domínios e comprando apoio. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas dos governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas, ignorando questões vitais para o desenvolvimento real, como investimentos em educação, saúde, trabalho digno e saneamento básico.

Há uma devastação moral orquestrada por políticos sem caráter, indivíduos oportunistas e por uma lamentável mídia de mão única, voraz, autoritária, incapaz de análises mais profundas e amplas, focadas na realidade e na diversidade, que faz um antijornalismo. Por sua vez, o poder econômico ignora solenemente os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Quero lembrar, mais uma vez, pequenas atitudes dos bancos, que dizem muito do perfil do mundo financeiro quando está diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

Poucos falam sobre o assunto e a mídia só tangencia, não questiona. Bancos/banqueiros disfarçam sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana, que é absurdamente evidente. Fui proibida, por exemplo, de fotografar as minhas artes e manhas em busca da independência necessária para dar conta da vida e acessar minha conta. Alcançar um caixa eletrônico, por exemplo.

É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de cada um de nós. Falo de governos e empresários que ditam leis e regras, mas são incapazes de olhar fora do seu quadrado. E nossas vozes não ecoam. Ninguém escuta.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.   

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu peça a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

São inúmeros os olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos inevitavelmente tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? Melhor que os invisíveis permaneçam invisíveis.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

A seguir minha fala no IV Seminário Criança na Mídia: Tempos de Discriminação e Direitos Humanos – FEEVALE/Novo Hamburgo, em 17 de outubro

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir é necessário.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não temos respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece, não nos vê.

Agradeço à Saraí e aos organizadores deste Seminário por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão e Direitos Humanos. É necessário refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante.

Insisto em falar e escrever sobre acessibilidade e inclusão na busca de respostas para questões que envolvem leis, políticas públicas e, especialmente, sensibilidade. Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase que ela cita, do também arquiteto João Filgueiras Lima: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente. Regulam, oferecem garantias, apontam a preocupação da sociedade. Mas não bastam! Fundamental é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de mudar a regra, se a situação pede. Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher, de ousar.

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados.

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim se criou uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Temos casos recentes de crianças com Síndrome de Down e Autismo que tiveram matrícula negada em escolas. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo.

Por isso, precisamos falar sobre a diferença com a criança, foco deste encontro. Enfrentar o preconceito que todos carregamos é não ter medo do impacto das palavras. Precisamos fazer essa travessia para eliminar o fantasma cruel da exclusão. E só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às crianças, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão alimentam o preconceito porque se conformam às mensagens socialmente instituídas: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, população LGBT, mulheres, índios, quilombolas, pobres e pessoas que apresentam alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, divertindo as pessoas. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de falar sobre diversidade. E ai dessas pessoas se ousarem extrapolar esses espaços!

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeira.

Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã.

Em uma entrevista para o portal Sul21, o jornalista Vitor Necchi diz que “as escolas, em todos os seus níveis, do fundamental ao superior, devem ser espaço de constituição da cidadania e de um pensamento elaborado que inspire sujeitos críticos e conscientes, sujeitos comprometidos com a valorização da vida”. “As escolas devem ser ambientes de reflexão sobre respeito à diversidade e de combate ao preconceito. As escolas não podem absorver a lógica das empresas e se firmarem sob valores como concorrência e meritocracia. E as universidades, em particular, precisam aprofundar o exercício da crítica e da pesquisa”. “O processo de ensino e de aprendizagem tem que desacomodar. A partir das incertezas, crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência”, afirma ele.

Só a educação para a diversidade vai barrar o impulso primeiro de todo o excluído, que é calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos e instaurar a desordem libertadora, cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque ousa ter um comportamento diverso, porque pensa, age e fala. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento – a casa grande e a senzala, o macho que dá ordens e a fêmea que obedece, a raça pura e a raça impura, os frutos da mistura de raças que gerou seres imperfeitos e por aí afora. Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção nos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta.  Uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo e o racismo, é cruel e impõe inúmeros limites.

Nesse contexto, as pessoas diferentes ficam muito vulneráveis. Acabam dependendo da bondade e disponibilidade das pessoas ditas “normais” e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar.

No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe às pessoas que têm uma diferença alertar e sensibilizar a sociedade para as suas limitações e reivindicar direitos e políticas públicas que priorizem a inclusão e a acessibilidade porque este é um dever do Estado.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de inventar, reinventar, mudar, quebrar rotinas.

É a partir desta realidade que proponho pensar o papel dos meios de comunicação porque, de um modo geral, eles se pautam pelo sensacionalismo, contribuindo para a criação de estereótipos. Se não tem superação, não tem notícia. Conclusão: É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Cabe, portanto, à mídia, formadora (ou deformadora?) de opinião, sair do discurso da superação, naõ alimentar mitos, nem transformar as pessoas com deficiência em vítimas, heróis ou guerreiras a serem admiradas. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Cabe à imprensa questionar governos e empresas, pressionar pelo cumprimento das leis, investigar, cuidar da linguagem, usando a terminologia correta, proposta pelas pessoas com deficiência que colaboraram na construção do tratado de Direitos Humanos, que é a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. E a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela o respeito ou a discriminação.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO!

A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características. “A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. É o famoso “matar um leão por dia”.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada. E ao fazerem isso apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas. E especialmente das crianças, repito, por sua ingenuidade. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”. Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade, as nossas aptidões e os nossos sonhos.

Acessibilidade no Sarau Elétrico

A seguir, minhas leituras no Sarau Elétrico sobre Acessibilidade, na noite de 25 de setembro, conduzido por Kátia Suman e Diego Grando. E com a participação de Sidito Magnífico.

“Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – Frases da canção Dom de Iludir de Caetano Veloso que funcionam como um desafio para mim.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina artigo publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014. Um belo texto! Ele lembra do primeiro anão que conheceu, ao escrever sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Quando li, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos poucos, segundo as estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande. Às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, muitos oriundos do universo das histórias infantis, passando pelo grotesco, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. A sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade e exigência. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade. Mas é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder alimenta uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por alguns políticos que querem ofender outros), “anão diplomático” (usado em discussões de políticas de relações exteriores). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados do baixo clero no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, já ouvi e ouço muita piada infame. Sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparada que eu esteja para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se os olhares curiosos, os dedos apontando, a invasão de privacidade, perguntas indiscretas e perversas, o riso, o toque desrespeitoso, os que nos ignoram nas filas, nos balcões, nos bancos.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Caminhada que teve a participação da arquiteta Flavia Boni Licht quando ela pediu que minha irmã e eu escrevêssemos sobre as dificuldades cotidianas enfrentadas por pessoas com nanismo para uma aula na faculdade. Uma proposta instigante que nos fez desacomodar conceitos clássicos, enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais. Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher. Por isso, aceitei o desafio do portal Sul21 e passei a escrever regularmente sobre essas questões no blog Isso não é comum.

Refletir coletivamente sobre o cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é cada vez mais necessário. A diferença exclui porque a sociedade, historicamente, sempre reservou um lugar para aqueles que fugiam dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro trabalhando como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Assim como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal!

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença, física, intelectual ou mental. Pessoas cegas, pessoas que andam em cadeiras de roda, crianças com Síndrome de Down e Autismo que têm matrícula negada em escolas regulares. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo. Não estamos preparados para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. E cada vez mais esse despreparo fica evidente

É o que nos cabe nesse latifúndio da dita normalidade. Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado das pessoas que está no encontro de suas múltiplas possibilidades e capacidades. Se não reagirmos aos discursos já dados, não desafiaremos nenhuma norma e não mudaremos nada.

Encarar a exclusão é tudo de ruim que ela provoca é tarefa urgente. O espanto necessário só vai surgir no momento em que as margens desse latifúndio que segrega forem extrapoladas. Mas há que se ter sabedoria! Às vezes, somos jogados em uma espécie de limbo. Viramos seres invisíveis pela dificuldade do enfrentamento. E há que se ter cuidado para não cair na vitimização, no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos e clichês. Há que se evitar os estereótipos e o discurso da superação. Não precisamos matar um leão por dia. Precisamos viver naturalmente com a nossa deficiência, falar sobre a diferença, encarar uma fragilidade que é da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade.

Cabe, portanto, a nós, com a nossa diferença, seguir subvertendo a ordem. Recusar os lugares determinados. É vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Não somos coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com nossos limites, sonhos, aptidões, a nossa singularidade. Por que, então, não falar abertamente do que somos? Seres tão humanos quanto qualquer outro, com vontade de viver livres, leves e soltos. Volto a Caetano Veloso: “De perto ninguém é normal” – Vaca Profana.

Para encerrar, uma frase do escritor e jornalista russo Vassili Grossman, do livro Vida e destino, um épico moderno que faz uma análise das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial: “Em mais de um milhão de isbás (habitação característica dos camponeses do Norte da Europa e da Ásia, mais particularmente da Rússia, construída geralmente com madeira de pinheiro) russas de aldeia, não há, nem pode haver, duas que sejam exatamente iguais. Tudo o que vive é único. É impensável que sejam idênticas duas pessoas ou duas roseiras… Onde tentam, à força, fazer desaparecer suas singularidades e peculiaridades, a vida se extingue”.

Tudo dói!

“Tudo é singular / Dói / Tudo dói” – Canção “Tudo dói”, de Caetano Veloso.
Vivemos um tempo de censura, sim! E o mais grave, no meu entender, tempo de uma implacável autocensura. Não vou falar, não vou publicar, não vou comentar, não vou correr o risco de desafiar o coro dos contentes. Até porque as redes sociais, onde todo mundo pousa e julga, usam e abusam das interpretações grosseiras e medíocres, transformando tudo num debate insano e sem sentido. Aqueles que ousam manifestar um pensamento libertário através das artes visuais, do teatro, do cinema, da dança, das manifestações públicas, são muitas vezes interceptados ou condenados por um tribunal sem rosto. Um tribunal impulsionado pelo autoritarismo e pelo desrespeito aos direitos individuais dos cidadãos. O cenário que está posto é de desconforto, desconhecimento, ignorância, mesquinharia, preconceito, medo.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Quando a tua sensibilidade está à flor da pele, não há como não ver a dureza da vida. Quando olhar para o outro é um movimento inerente ao teu estar no mundo, não há como não desesperar. Quando a miséria física, social, moral e política é jogada na tua cara assim que colocas o pé na rua, não há como não chorar. Quando a fome fala mais alto e as crianças perdem a inocência em busca de qualquer guarida, é porque perdemos o mínimo sentido de humanidade. Quando a realidade se torna insuportável, a dor não cessa. Tudo dói!

Por José Walter de Castro Alves

Quando a meritocracia vira discurso, assinamos embaixo do “não tenho nada a ver com isso, eu consegui” e proclamamos uma razoável isenção. Não temos qualquer compromisso. O subemprego e o desemprego crescem. A miséria está escrachada nas esquinas. Mas certamente este é um movimento de vagabundos, de quem não quer trabalhar. E lá vamos nós para os refúgios confortáveis. Não temos nada a ver com isso. Somos únicos e tudo o que temos é fruto da educação que tivemos e da nossa bárbara competência. Como se a vida e o fazer cotidiano de cada um não estivessem indiscutivelmente ligados. Posso trabalhar em paz porque alguém faz a minha comida, cuida da minha casa, lava a minha roupa, atende meus filhos, cuida dos meus velhos. Tenho lazer garantido porque o meu salário permite. Saio de férias quando quero porque sou o meu patrão e tenho quem me ampare no trabalho.

Então é bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos com tanta facilidade? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que ainda não entendemos que não somos ninguém sem o outro? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo?

Mais uma vez, a arte a me socorrer!

“Eis o que eu aprendi / nesses vales / onde se afundam os poentes: / afinal tudo são luzes / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências” – Mia Couto no livro “Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra”.

O que somos? O que queremos?

O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, capazes de ver o outro, crescer no convívio com a diversidade, respeitar limites? Reconhecer, acolher, dividir, entender? O que nos joga fora dos trilhos?

O núcleo familiar é o ponto de partida. A boa convivência nesse núcleo torna natural a sua extensão saudável. Os amigos e a escola. O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença.

Depois vem o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo com amor, vida afora, independentemente das raízes biológicas.

Nesse círculo ampliado, que agrega as diversas famílias que alimentam nosso ser, construímos nosso estar no mundo com o equilíbrio necessário para abrir as asas, voar e ancorar aqui, lá, acolá. E voltar, se for o caso. É um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. Nessa trama, às vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes e predadores, porque esquecemos que só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender, arriscar, errar e tentar sem medo novos voos.

Quero dizer, então, que me dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos cheios de retórica, tão perfeitos e plenos de soluções mágicas, nesses tempos de um Brasil sem rosto, que massacra sua gente, especialmente os trabalhadores. Um Brasil que detona suas riquezas naturais em nome de uma economia imposta pelo capitalismo estrangeiro mais predatório e primário que já enfrentamos. Só se ouvem respostas prontas e acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. Nenhum olhar verdadeiro para a miséria que o país vive hoje. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?

O bem e o mal

A falta de diversidade, de diálogo e de uma conversa franca assusta. Pois enquanto polarizamos e nos perdemos em discussões inúteis, a violência cola nas nossas ruas, portas e janelas. A intolerância absurda – se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo, mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus – gera conflitos banais desnecessários. Antes de buscar informação, de procurar saber o que realmente acontece, acusamos, usando o pequeno podre poder que nos cabe. Dane-se qualquer sentido ético, reflexivo, humanista.

A engrenagem do bem e do mal é simplista e cruel. Ancorada no senso comum, tem uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca. Fazemos parte de um denso coletivo capaz da maior generosidade e da maior maldade. Estamos sempre entre a cruz e a espada, tentando salvar a pele e buscando culpados. Perdemos a capacidade de olhar com olhos livres, não contaminados, para os males que nos afligem. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Somos feitos de infinitos sentimentos Podemos ser tudo em pouco tempo. Contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesar e medir as atitudes. Agir planejadamente. Ou jogar tudo pelos ares. Somos o que podemos ser diante do imponderável. Mas desconhecer a nossa história política e compactuar com discursos escravagistas e preconceituosos é inaceitável.

Hora do voto – dessa hora tenho medo

A propósito das eleições que já estão no ar, lembro um comentário recente da minha amiga Tânia Carvalho no facebook: “Estamos entre os indecisos e ressentidos. A fertilidade dos idiotas está em alta! Não deixem que o ressentimento ganhe as eleições”.

Pois é! Nas mais variadas esferas, há visíveis manipulações de quem detém o poder. A corrupção não encolheu suas garras. Há disfarces e conchavos de toda ordem. Os políticos de carreira seguem na luta para manter seus privilégios. A paisagem parece ser a de sempre, plena de discursos pomposos, promessas inviáveis, nenhuma análise palpável em sintonia com a dura realidade que o país oferece ao seu povo. Em alguns momentos, ouvindo os candidatos, com a pouca paciência que me resta, sinto um distanciamento muito grande. Ou me vejo como uma perfeita idiota, em busca de alguma voz que faça sentido. Quem percebe o inquietante desencanto permeando quase tudo?

Volto, então, há um texto que já publiquei aqui há dois anos, impulsionada pelo desejo de respirar ares mais leves e puros.

O jeito é não acomodar o olhar. É esticá-lo para além dos botões, janelas, esquinas, ruas, avenidas, becos, em busca de um rasgo de esperança. OK! As cidades desgovernadas e povoadas de uma miséria assustadora não oferecem nenhum alento. Muito menos o país que perdeu o rumo pelas mãos traiçoeiras de golpistas. Mas o mantra é não desanimar. Organizar o delírio. Perseguir o equilíbrio. Entre o caos e uma possível ordem, alguma coisa há de fazer sentido. Mais uma vez, a arte me socorre.

“Linhas Paralelas”, do mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, a ação política na prática, aqui, lá, acolá.

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria dos versos do poeta, que encontrei na “Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira – para crianças de qualquer idade”, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhoto (Casa da Palavra), me faz ruminar o fazer político como é, e como não queremos.

É nosso direito e dever acompanhar e participar da administração pública, conhecer cada projeto dos governos no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno em que vivemos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e boeiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças nas leis trabalhistas, na educação e na saúde, a reutilização dos espaços, a urbanização.

Cada ação deveria valorizar a vida, a inclusão, a acessibilidade, a cidadania. Mas, definitivamente, não é assim. As atitudes dos administradores seriam fundamentais se as almas não fossem tão pequenas!

A política partidária praticada no Brasil é velha e torpe. Tem caráter autoritário, redutor e revanchista. Desmantela ao invés de construir. É mais predatória do que civilizadora. Mais empresarial do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Simplesmente acomoda os eleitos e seus apadrinhados no poder para não abrir mão dos privilégios.

Em 1968, o artista plástico Hélio Oiticica, em carta para a pintora e escultora Lygia Clark, já sinalizava: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. Comentário que diz muito do momento que vivemos.

Hora do voto

“Desta hora, sim, tenho medo”, diz a canção “Anoitecer”, de José Miguel Wisnik.

O momento é delicado e o jogo egocêntrico. Estamos mergulhados na superficialidade e na mesquinharia da pequena política eleitoreira. Poucos parecem interessados em olhar de frente para as ações ou omissões que geram desigualdade, degradação, miséria, abandono, violência, medo. Poucos falam em uma nova política, livre das amarras dos conchavos e da corrupção, tenha ela o tamanho que tiver. Muito poucos!

Mesmo assim, e apesar de todas as falcatruas, ainda aposto no voto. É um meio de manifestar nosso desejo de um governo conduzido por homens íntegros. Um governo que não tenha medo da diversidade, da nossa capacidade de pensar, da nossa criatividade, da memória que nos constitui, da arte que nos representa, do aprendizado múltiplo e libertário. Um governo voltado para a inclusão, que não nos roube direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

A descontinuidade necessária

É necessário refletir sobre os meandros, as dobras e os descaminhos desses tempos sombrios pré-eleitorais. Interrogar-se sobre os excessos e as faltas, a miséria que cresce assustadoramente e a opulência soberba que reina absoluta. Precisamos olhar para os vazios e os acúmulos, questionar as generalizações e as promessas vãs. Desacomodar as certezas de vozes e discursos que carregam soluções como num passe de mágica.

Deixar a vida avançar como está é a catástrofe total, assumida. É a negação de tudo o que buscamos e fizemos até aqui – nosso trabalho, nossas esperanças, nossas lutas, nossa crença na possibilidade de um mundo justo. Não podemos anestesiar nossos sonhos. É imprescindível abrir outros horizontes. Descontinuar os caminhos que já não servem. Dar adeus ao demasiado. Buscar o necessário. Sair do tempo-máquina, do tempo-automação, para entrar no tempo-humano. Criar novas utopias. Partir para a reinvenção. Porque só o ato criativo pode colocar em cena a possibilidade do desenho de outra geografia.

Pra onde ir? Por quê? A utopia nos permite sonhar outros mundos. Fazer algo na contracorrente. Abrir um buraco no cotidiano.

Vivo me perguntando o tempo todo o porquê de tanta velocidade, se no caminho há tanto para ver, observar, aprender, deixar para trás. Tempo, tempo, tempo! Segurança, diversidade, espaço, sossego, respeito ao meio ambiente, respiração, convivência. Esses são os luxos do futuro.

Uma proposição artística pode impulsionar o pensamento e nos fazer ver além do que a vida nos mostra. A arte resiste às formas instituídas, esculpe outras dimensões, aponta outras paisagens. Por isso, a criatividade assusta. Manter o que está aí, repetir, repetir e repetir o já dito é mais tranquilo. Reagir, sair da massificação e do pensamento único, inquieta. O efeito do encontro múltiplo, de muitas vozes e dissonâncias, é poderoso porque traz embutido a diversidade, a incerteza, o desejo, essenciais para uma tomada de decisão democrática, plural. Carrega o desconhecido.  A verdade é cheia de lacunas. A narrativa completa é uma mentira. Uma só opção não oferece escolha. Precisamos de encruzilhadas. A dúvida, a troca, a curiosidade são substanciais. Só uma mente arrogante sabe tudo. A gente só é o que a gente é a partir do outro. A condição humana é em essência imperfeita.

Chamando o sol

araucaria
Fotos de José Walter de Castro Alves

Assim como as estações do ano, a chuva e o sol são essenciais para o equilíbrio da natureza e da humanidade. Neste inverno atípico, tão obscuro como tudo o que anda acontecendo no mundo, a ausência da luz solar interfere diretamente no cotidiano, no humor e no comportamento das pessoas.

O sol ilumina. Espalha luz e brilho. Aquece o corpo e a alma. Tira o mofo da casa interna e da casa externa. Acaricia. Nos tira das alcovas. Chama para a rua, para as praças, para as caminhadas, para os encontros, o convívio ao ar livre, as bergamotas saboreadas no pátio.

Diante do que estamos vivendo, da insanidade sem medidas e do poder que exala autoritarismo, toma conta de mim o medo de que esses governos desgovernados, que assaltaram o país, sem o mínimo pudor, queiram privatizar essa delícia que a natureza oferece com tanta delicadeza. Com requintes de barbarismo, a privatização mira suas garras na água, um dos maiores bens públicos. E já destruíram tantas esperanças, que tudo é possível. As criaturas que detêm o poder são soberbas e, ao mesmo tempo, rasas, mínimas, medíocres que podem até pensar, não duvido, em encontrar na privatização do sol uma solução maquiavélica: uma forma de fazer a população pagar caro pelos raios abençoados que chegam sem pedir licença. Invadem nossas janelas democraticamente, sem perguntar a condição social.

Com o sol, o coração apertado se alarga. Com o sol, os olhares se espraiam no céu azul. Com o sol, os raios multicoloridos invadem a terra e impulsionam a vida. Com o sol, as boas energias se acendem.

Vem sol! Fica sol!

lago

ilhas