Acessibilidade para quê?

Volto a um texto que escrevi e publiquei neste blog em abril de 2015 para concluir que, institucionalmente falando, quase nada mudou. Mas a nossa luta está mais forte e mais consistente, o que me estimula neste novembro de 2019.

“ – Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?” – fala do anão Umberto no livro infantil A história mais triste do mundo (Bolacha Maria Editora, 2014), do psicanalista e escritor Mário Corso.

Tão simples quanto verdadeira! O tema é recorrente na minha vida: acessibilidade. Ao me deparar com questões assim, me vem a certeza de que ainda estamos distantes dessa possibilidade porque ela depende do olhar que vê o outro, coloca-se no lugar, acolhe. Percebe a diferença e entende que o problema não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos.

Se estivesse em um hospital, certamente o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelhos de pressão grandes em braços tão pequenos? Ninguém lembra. E quando é sugerido, lá vem o ponto de interrogação estampado nos rostos. Antes disso, já teve o riso disfarçado, a curiosidade, a dificuldade de lidar e tratar com naturalidade.

Experiência recente, e muito dolorosa, me mostrou que avançamos quase nada quando o assunto é acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com um adulto em um corpo tão pequeno? Praticamente não há respostas e nem quem as busque. Às vezes, tudo parece tão inatingível que a sensação é de que sempre seremos estrangeiros em busca de um espaço para viver com o mínimo de dignidade.

Ouse pedir um banquinho para alcançar na pia do banheiro em um hotel! Todos te olham como se estivesses pedindo uma cadeira com design assinado pelos irmãos Campana. Não importa quantas estrelas tenha o hotel, os rostos viram pontos de interrogação e a resposta é a mesma: Ah, não temos, vamos ver! Até aparecerem com uma caixa de maçã ou um engradado de bebidas, bem vulneráveis. Ou, ainda, com uma cadeira enorme, de dois braços, que ocupa o banheiro inteiro. Ou tu ou a cadeira. Ponto. Resolvido o problema.

Já escrevi muito sobre tudo isso e reafirmo: leis são necessárias. Regulam, dão garantias, sinalizam, acendem uma luz na escuridão: a sociedade está preocupada! Mas, antes de tudo, necessitamos de olhares sensíveis, criativos, humanos. Enquanto a burocracia discute a maçaneta ideal, como baixar balcões, como buscar verba para comprar uma escadinha, pegar um medidor de pressão infantil, enfim, como atender quem foge totalmente dos padrões dados e assimilados, a vida segue.

MAs instituições, públicas, privadas, independentes, sejam elas quais forem, enredam-se em regras, normas e detalhes na tentativa de facilitar um cotidiano que, via de regra, desconhecem e, assim, perdem a maravilhosa capacidade da improvisação. “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. E seguimos driblando esse admirável mundo “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade a possibilidade de sair dos espaços institucionalizados, inventar, reinventar, criar, facilitar, mudar.

Intensidades. Brilho nos olhos. Faces

Semana intensa, inquietante, misto de esperança e desesperança, com picos de nem tudo está perdido e acho que tudo vai dar certo.

Brilho nos olhos                                                                                                    

Participei, no dia 23 de novembro, do TEDxYouth@PAS, evento organizado pelos alunos da Pan American School de Porto Alegre. No encontro, os convidados tinham até 18 minutos para dividir experiências com o público, crianças, jovens, pais, professores. O ilustrador Cadu, Carlos Augusto Pessoa de Brum, deixou dois recados fundamentais: “Desafie preconceitos”. “A arte salva”. A ONG Sol Maior, antes da apresentação do seu grupo musical, sublinhou o que disse Cadu: “Música e dança são agentes de transformação. A arte agrega valor à vida de jovens vulneráveis socialmente”.

Falei sobre meu cotidiano com o nanismo. E comecei fazendo algumas perguntas: Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? O que sentem quando encontram um anão? Que sentimentos afloram? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? No final, uma menina me procurou para responder minha pergunta. Disse: “Eu sinto orgulho porque os anões não se escondem”. Os olhos daquela garotada brilhando, atentos, somados a essa resposta, salvaram o meu dia. Reacenderam a esperança.

Na minha fala, citei a afirmação do jornalista Luiz Antônio Araújo, em artigo no jornal Zero Hora (28 de julho de 2014): “Ser anão não é para qualquer um”. E lembrei do anão Umberto do livro infantil A história mais triste do mundo, do psicanalista e escritor Mário Corso – “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

Contei pequenas histórias pessoais e enfatizei que é sob o eco do preconceito e da tal “raça pura”, perseguida pelos nazistas, que nós, os diferentes, os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, como escreveu Araújo, ainda vivemos.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 24.
Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 23.

Faces                                                                                                                                  

Um dia depois do TEDx, fui gravar uma entrevista para o programa “Faces” da TVE. Reencontrei amigos e profissionais que trabalham para além das adversidades em um espaço público que é de todos nós. Foi comovente o que vi, ouvi, falei.

Impossível, ali, naquele espaço em que trabalhei quatro anos, não ver com lucidez a indigência política, o absurdo que é propor fechar a TVE e a FM Cultura. Onde estão os olhares sensíveis, criativos, humanos? “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. Enquanto isso, vamos encarando esse admirável mundo “normal”, de políticos primários que impõem um desmonte nunca visto. Não conseguem ver na crise a possibilidade de sair do institucional, inventar, reinventar, facilitar, mudar. Apenas buscam culpados e penalizam os já penalizados. A desesperança bate!

A vida dói e pulsa                                                                                                        

Volto a dizer que necessitamos de olhares livres, não contaminados e viciados, para ir e vir com dignidade. Não queremos favores, benemerência, nem mãos na cabeça, fingir que está tudo bem, muito menos minimizar os problemas, desconhecer e negar a realidade. Queremos cidadania, direitos preservados, participação, independência e políticos capazes de ver o outro, dialogar e não fechar as portas da chamada “casa do povo”. Que casa?

Tenho convicção de que a arte salva e que a cultura nos dá identidade. Acredito na educação para a diferença, sem mordaça, e na riqueza da diversidade que constitui os indivíduos.

Para onde vamos com essa política que desconhece tudo isso?

 

Esse mundo dos diferentes! Por mais atitudes

Por Tamar Matsafi
Por Tamar Matsafi

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

 Ao dar voz ao anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra, mais uma vez, o quanto uma pessoa com dificuldades específicas depende do olhar e da atitude do outro e o quanto incluir não se resolve apenas com leis.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com um adulto em um corpo tão pequeno? As perguntas espantam e quase não se tem respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que insiste em não nos reconhecer.

Ouse, então, pedir um banco para alcançar na pia do banheiro de um hotel! Não importa quantas estrelas, o espanto é de quem parece ouvir alguém pedindo uma cadeira com design dos irmãos Campana e a resposta, quase sempre é: Não temos! Até aparecerem com uma caixa de maçã ou um engradado de bebidas. Ou, ainda, com uma cadeira de dois braços, que ocupa todo o banheiro. A situação se repete em instituições financeiras, balcões de atendimento e por aí afora.

Insisto em escrever sobre isso e estou sempre buscando respostas para questões que envolvem leis, acessibilidade e inclusão. Ao reler, recentemente, um artigo da arquiteta Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, uma afirmação do também arquiteto João Filgueiras Lima chamou minha atenção: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um.”

A frase sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos e tudo o que é criado para colocar uma certa ordem na vida dos humanos. Leis são necessárias. Regulam, dão garantias. Apontam a preocupação da sociedade. Mas fundamental mesmo é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro e mudar a regra, se a situação pede. Empresas e instituições, públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma deficiência.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo “normal”. Um mundo tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares sensíveis, capazes de ver o invisível, acolher e ousar.

 Por Tamar Matsafi
Por Tamar Matsafi