Ecos de uma semana difícil

Em meio a cenas triviais do cotidiano de quem tem uma dificuldade, as percepções são inquietantes. Há muitos “jeitinhos” de levar a vida neste vasto país desde que aqui ancoraram as caravelas de Cabral. E aí mora o perigo. As cenas principais que se desenham nas alcovas palacianas, gestadas no Planalto Central, têm requintes de injustiça. Para quem luta dia a dia por dignidade, esse Brasil de berços nada esplêndidos inquieta. As marcas sociais e culturais centenárias que nos fazem escravagistas e bajuladores do poder assustam.

Nas minhas andanças necessárias, sinto a cidade violenta, nervosa, os trabalhadores tensos e as pessoas nas ruas desesperançadas, sem a mínima tolerância. Consumindo. Consumindo-se.

Acessibilidade para quê?

"A fila tem que andar", por Tamar Matsafi

“A fila tem que andar”, por Tamar Matsafi

Linha T9, Auxiliadora, em direção ao Centro. Entro. Assim que piso no segundo degrau, o motorista arranca bruscamente. Vou me equilibrando como posso. Uma senhora ocupa quase todo o primeiro banco, reservado para pessoas com deficiência. Sento no pouco que sobra. Ela nem se mexe. Vou me segurando com dificuldade. E a criatura impassível. De repente se dá conta de que o ônibus chega onde quer descer, levanta rápido, quase me derruba e sai porta afora. Solidariedade é algo que desconhece.

Caixa Econômica Federal, agência da esquina das ruas 24 de Outubro e Quintino Bocaiúva. Do balcão, a moça me olha. E eu me estico. Ela segue impassível. E vou me virando. Até que estende um papel e uma caneta e pede que eu assine. Apoiada em quê? No ar? Parece sadismo, mas sei que não é. A atitude é típica de quem não vê o outro. Apenas cumpre o ritual de mais um dia cansativo de trabalho, mecanicamente.

Linha T5, Aeroporto, em direção ao bairro Floresta. Pego o ônibus na rua Venâncio Aires. Já lotado. Em seguida, entra uma moça. Espreme-se entre as pessoas e a sacola que carrega fica batendo no meu rosto, insistentemente. Olho, faço um pequeno gesto para afastar a sacola e ela, quase ofendida: “Não tenho controle sobre a bolsa, até porque todos me empurram nesse ônibus atrolhado”. E as queixas sobre a decadência do transporte público em Porto Alegre jorram.

No mesmo ônibus, uma menina de uns 4 anos me vê, puxa a avó pela mão e insiste: “Uma mulher pequena, olha, olha!”. Uma, duas, três vezes. A avó só consegue disfarçar. Não olha para a neta. Não me olha. Nenhum movimento para esclarecer o espanto da criança. Melhor ignorar do que encarar. Afinal, é só uma criança manifestando sua curiosidade natural.

É assim. Por todos os lados.

Enquanto isso, lá vai o Brasil, anulado, descendo a ladeira. Infelizmente, não a ladeira da canção de Moraes Moreira!

"Subindo a ladeira", por Tamar Matsafi

“Subindo a ladeira”, por Tamar Matsafi

Executivo, Legislativo e Judiciário mergulhados na lama.

Instituições da República ocupadas por políticos mesquinhos e sem caráter.

Mídia superficial, conivente, unilateral.

Contraponto para quê?

A ultraneoliberal PEC dos gastos é aprovada rapidamente por senadores oportunistas de um Congresso que perdeu o respeito pelos cidadãos que representa. Resultado de um pacto cruel entre políticos corruptos e elites nefastas. Grupos preocupados em manter os privilégios a qualquer custo entregam o futuro ao capitalismo financeiro mais sórdido. Condenam o país à dependência e a população à miséria e à ignorância.

O corte de investimentos em educação e pesquisa certamente vai tornar o Brasil menos autônomo no campo da ciência e da cultura, colocando os cidadãos a mercê de um ensino medíocre e descomprometido. No pacote do governo, reina a escola sem partido para gerar jovens sem voz.

O corte de verbas na saúde pública vai deixar a população mais carente, mais doente e vulnerável. Nesse jogo, as cartas ficam nas mãos dos planos privados. Os que têm como, pagam. Os que não têm, vão minguar nas filas. Simples assim!

Os podres poderes ignoram a liberdade de opinião, a diversidade, a justiça social, o debate, as conquistas de um povo que trabalha. E vai trabalhar muito mais com as novas regras da previdência social. Mas o governo lava suas mãos sujas.

Como lembrou o músico Raul Elwanger no simbólico 13 de dezembro de 2016: “Em 13 de dezembro de 1968, o Ato 5 enterrou nosso país em décadas de violência contra seu povo. Agora, a mesma casta predadora está destruindo o Brasil, com aventuras golpistas e totalitárias de grande perigo para todo cidadão e projeto econômico de misérias. Às vezes com a farda, às vezes com a toga, às vezes de gravata: sempre a mesma casta predadora. Colônia, escravidão, ditadura”.

A jornalista Bia Lopes alertou para os ventos que sopraram em Porto Alegre nesse mesmo dia 13: “Simbólico? Ventos fortes varrem o Brasil. Justo no 13 de dezembro, quando é lembrada a promulgação do AI 5, que deu início a um dos piores momentos da história brasileira, é aprovada a PEC da Morte. Ai de nós!”

Para finalizar, palavras de João Goulart: “Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo”. E de Nelson Mandela: “Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz”.

Alguém ouviu?