Escrever é uma forma de resistência

Nestes tempos de desmonte e descaso com o outro, muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: É! Mas desistir seria desolador.

Pensar, escrever e conversar sobre acessibilidade, inclusão, deficiência, preconceito, direitos humanos é uma forma de resistência. É uma recusa aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento. É um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social. É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades do cotidiano e seguir firme porque a discriminação dói. E, além de doer, carrega um não avassalador. Afronta nossa sensibilidade, nosso desejo de acolhimento, nossa inteligência. Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Na maioria das vezes, os espaços só se abrem se, por alguma razão, a pessoa com deficiência assume um protagonismo qualquer e vira um exemplo de superação. Passa a ser ovacionada vida afora, como se sua existência só tivesse sentido a partir disso. Nada mais.

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa anônima com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. Em especial o olhar do outro, daquele que olha e a vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las. No sentido prático, o que realmente esses olhares fazem por nós, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

Fora do institucional, temos muitas organizações trabalhando, refletindo sobre estes assuntos, mas as frestas do cotidiano, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”, são violentas. Precisamos estar atentos ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala no Brasil hoje? Como não alertar as pessoas diante do vem por aí no campo da educação? Até porque quem assumiu o poder diz, em alto e bom tom, sem nenhum pudor, que acha desnecessária uma Lei de Acessibilidade e Inclusão. Afinal, criança com problema tem é que ficar em casa. Querem indivíduos ágeis, eficientes, perfeitos e servis, é claro.

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando. Diante deste cenário, nossa luta precisa de mais fôlego. Não podemos perder a possibilidade incrível de fazer o mundo avançar, ampliando os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. Já disse e repito: é na diversidade que está a grande riqueza humana.

Não somos regidos pela excelência, pela agilidade, pela produção em massa até o esgotamento físico e mental. Não estamos em competição. Não somos heróis, nem heroínas.  Reconhecemos nossos limites (todos temos limites!) e possibilidades e vamos ajustando a vida cotidiana a partir da nossa singularidade. Sem rótulos – “Pequena Grande Mulher”, “É nos pequenos frascos que se encontram as grandes essências”, ou outro qualquer. Não queremos compensação. Não queremos ser exemplo de nada. Está tudo certo, por exemplo, com os meus 1m10cm, minhas pernas curtas, meus braços pequenos e meus dedos gordinhos.

Queremos sim é que as pessoas nos respeitem, sem subestimar nosso jeito de ser. Recolham, por favor, os risos debochados, os dedos apontando, as mãos que nos tocam de qualquer jeito, as perguntas infames, as imitações ridículas, os olhares piedosos, o constrangimento e nos deixem passar.

Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.

Pão e Direitos Humanos

Comecei a falar e a escrever sobre acessibilidade e inclusão no blog Isso não é comum para suportar uma dor avassaladora. Acabei atravessando fantasmas e fronteiras internas e externas jamais imaginadas. E, naturalmente, fui dando voz a uma série de outras questões, vitais para a dignidade humana, que me inquietavam e ainda me inquietam muito. De certa maneira, preenchi um grande vazio ao falar de temas que poucos falavam e ao perceber que minha escrita ecoava e ecoa de um jeito surpreendente. Assim como ecoam tantas vozes plurais Brasil afora.

Tive certeza dessas vozes e desses ecos ao participar do Seminário Inclusão: Direito das Pessoas com Deficiência, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro, organizado pela Práxis Sistêmica, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD) da OAB/RJ e com a Escola da AGU. Ao lado de pessoas cegas e com baixa visão, jovens com autismo, pais e mães de crianças diferentes, falei, mais uma vez, sobre esse tema tão necessário e especial para todos nós que buscamos a diversidade. Foi uma jornada emocionante, de muitas trocas, aprendizagem, respeito, afeto, empatia, que fez diferença no meu cotidiano. Conheci pessoas incríveis, que lutam com lucidez e leveza. E tive esclarecimentos precisos e preciosos sobre os direitos da pessoa com deficiência, agora tão vulneráveis, correndo o risco de serem banidos pelo governo eleito, que pode acabar com tudo o que já se conquistou.

“A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana”, escreveu alguém que desconheço, mas quem vai assumir ministérios e cargos no Brasil 2019 parece não entender ou não se interessa mesmo pela diversidade, seja ela qual for.

Em novembro, li também a reportagem da jornalista Clara Clock sobre inclusão no Jornal Extra Classe. Poucos, na mídia, trataram o assunto com tanta seriedade e reflexão. Ali estão colocadas, sem sensacionalismo ou vitimismo, as informações necessárias sobre a questão da deficiência e da inserção no mercado de trabalho. Quero destacar um depoimento que está na matéria e é esclarecedor, o de Paulo Fernando Soares, que foi perdendo paulatinamente a visão ao descobrir, aos 16 anos, um tumor no nervo ótico. Aos 20 anos estava cego. E na seleção para um estágio em Psicologia surpreendeu a supervisora, que achou que ele não daria conta do serviço. “Entre todos os candidatos, só eu consegui responder as perguntas e fui selecionado”, diz ele na matéria. E seguiu comentando: “A gente tem que estar sempre provando que é capaz”. “Deveríamos falar de diversidade desde o ensino básico, sensibilizando e conscientizando que as pessoas com deficiência não são um problema”.

Portanto, é fundamental lutarmos pelos nossos direitos e enfrentarmos os posicionamentos e discursos retrógrados. E é fundamental insistirmos no “Nada sobre nós, sem nós”. Não falem por nós. Não façam por nós. Não decidam por nós. Não nos olhem com olhos contaminados, como se fôssemos incapazes. Antes de tudo, exerçam a alteridade. Coloquem-se no nosso lugar. Perguntem. Ouçam o que temos a dizer. Não nos proíbam de fazer. E respeitem o nosso jeito. Nossas vidas, a sua e a nossa, vão ficar melhores, mais fáceis, mais verdadeiras, mais solidárias.

Podemos dividir nossas tristezas e alegrias, possibilidades e impossibilidades, fracassos e sucessos, sonhos e decepções e seremos inteiros nas nossas interações. Sem mágoas ou ressentimentos. Nossa humanidade é maior do que qualquer atitude excludente. A diversidade que experimentaremos juntos abrirá muitos caminhos. Novas configurações. Novos paradigmas. Outros padrões. A hierarquia radicalmente vertical não se sustenta. Precisamos da horizontalidade, do movimento, da rebeldia, dos vários lados que nos formam. Precisamos dar voz aos tantos que somos. Ninguém fica por muito tempo em um lugar autoritário. São tantos e tão ricos os caminhos que podemos trilhar e os que certamente poderemos abrir como seres libertários que somos.  Não podemos desistir.

Em 2018 participei como palestrante em sete eventos, voltados para qualidade de vida, responsabilidade social e sustentabilidade, inclusão e acessibilidade, discriminação e direitos das pessoas com deficiência, comunicação, desigualdades e políticas públicas, direitos humanos. Um velho ditado diz que quando se fala muito em pão é porque o pão está em falta. Pois está! Pão e direitos, fundamentais para a sobrevivência e a dignidade humanas.

Acessibilidade no Sarau Elétrico

A seguir, minhas leituras no Sarau Elétrico sobre Acessibilidade, na noite de 25 de setembro, conduzido por Kátia Suman e Diego Grando. E com a participação de Sidito Magnífico.

“Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – Frases da canção Dom de Iludir de Caetano Veloso que funcionam como um desafio para mim.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina artigo publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014. Um belo texto! Ele lembra do primeiro anão que conheceu, ao escrever sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Quando li, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos poucos, segundo as estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande. Às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, muitos oriundos do universo das histórias infantis, passando pelo grotesco, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. A sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade e exigência. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade. Mas é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder alimenta uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por alguns políticos que querem ofender outros), “anão diplomático” (usado em discussões de políticas de relações exteriores). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados do baixo clero no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, já ouvi e ouço muita piada infame. Sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparada que eu esteja para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se os olhares curiosos, os dedos apontando, a invasão de privacidade, perguntas indiscretas e perversas, o riso, o toque desrespeitoso, os que nos ignoram nas filas, nos balcões, nos bancos.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Caminhada que teve a participação da arquiteta Flavia Boni Licht quando ela pediu que minha irmã e eu escrevêssemos sobre as dificuldades cotidianas enfrentadas por pessoas com nanismo para uma aula na faculdade. Uma proposta instigante que nos fez desacomodar conceitos clássicos, enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais. Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher. Por isso, aceitei o desafio do portal Sul21 e passei a escrever regularmente sobre essas questões no blog Isso não é comum.

Refletir coletivamente sobre o cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é cada vez mais necessário. A diferença exclui porque a sociedade, historicamente, sempre reservou um lugar para aqueles que fugiam dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro trabalhando como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Assim como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal!

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença, física, intelectual ou mental. Pessoas cegas, pessoas que andam em cadeiras de roda, crianças com Síndrome de Down e Autismo que têm matrícula negada em escolas regulares. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo. Não estamos preparados para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. E cada vez mais esse despreparo fica evidente

É o que nos cabe nesse latifúndio da dita normalidade. Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado das pessoas que está no encontro de suas múltiplas possibilidades e capacidades. Se não reagirmos aos discursos já dados, não desafiaremos nenhuma norma e não mudaremos nada.

Encarar a exclusão é tudo de ruim que ela provoca é tarefa urgente. O espanto necessário só vai surgir no momento em que as margens desse latifúndio que segrega forem extrapoladas. Mas há que se ter sabedoria! Às vezes, somos jogados em uma espécie de limbo. Viramos seres invisíveis pela dificuldade do enfrentamento. E há que se ter cuidado para não cair na vitimização, no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos e clichês. Há que se evitar os estereótipos e o discurso da superação. Não precisamos matar um leão por dia. Precisamos viver naturalmente com a nossa deficiência, falar sobre a diferença, encarar uma fragilidade que é da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade.

Cabe, portanto, a nós, com a nossa diferença, seguir subvertendo a ordem. Recusar os lugares determinados. É vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Não somos coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com nossos limites, sonhos, aptidões, a nossa singularidade. Por que, então, não falar abertamente do que somos? Seres tão humanos quanto qualquer outro, com vontade de viver livres, leves e soltos. Volto a Caetano Veloso: “De perto ninguém é normal” – Vaca Profana.

Para encerrar, uma frase do escritor e jornalista russo Vassili Grossman, do livro Vida e destino, um épico moderno que faz uma análise das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial: “Em mais de um milhão de isbás (habitação característica dos camponeses do Norte da Europa e da Ásia, mais particularmente da Rússia, construída geralmente com madeira de pinheiro) russas de aldeia, não há, nem pode haver, duas que sejam exatamente iguais. Tudo o que vive é único. É impensável que sejam idênticas duas pessoas ou duas roseiras… Onde tentam, à força, fazer desaparecer suas singularidades e peculiaridades, a vida se extingue”.

Conversando sobre inclusão

No dia 27 de junho participei como palestrante do 18º Congresso de Stress da ISMA-BR, 20º Fórum Internacional de Qualidade de Vida no Trabalho, 10º Encontro Nacional de Qualidade de Vida na Segurança Pública, 10º Encontro Nacional de Qualidade de Vida no Serviço Público e 6º Encontro Nacional de Responsabilidade Social e Sustentabilidade, promovido pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR). Fui convidada por Marcos Bliacheris, um dos coordenadores, especializado em direito do Estado, advogado da União/AGU e autor de artigos sobre sustentabilidade e inclusão de pessoas com deficiência. A mediação foi do jornalista Léo Gerchmann. Entre inúmeros temas, o encontro falou de vida, trabalho, stress e saúde. Coube a nós falar sobre inclusão. Publico aqui a minha fala. Antes uma frase do escritor judeu ucraniano Vassili Grossman (1905-1964), citada por Marcos: “Tudo o que vive é único”.

Conversando sobre Inclusão

Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? Ou com pessoas que têm outra deficiência, se é que podemos chamar assim? O que sabem dessas pessoas? O que sentem ao encontrá-las? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? Vontade de rir? Vontade de brincar?

Para falar sobre inclusão não podemos fugir desse enfrentamento, dos sentimentos que afloram. É necessário olhar o preconceito de frente, porque existe e discrimina sem piedade. E todos queremos acolhimento. Por isso, falar sobre a diferença, encarando a fragilidade da condição humana me parece a melhor maneira de saudar a diversidade.

Falem. Não tenham medo do impacto das palavras. Encarem o preconceito que todos carregamos. Mas, especialmente, ouçam o que as pessoas diferentes têm a dizer sobre os males da discriminação. Só assim teremos condições de atravessar o fantasma cruel da exclusão. Historicamente, a sociedade reserva um lugar para as pessoas que fogem do padrão de normalidade instituído, como se fossem incapazes. Nesse lugar, os diferentes não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos. Só a fala, com atitude, vai nos tirar da invisibilidade.

Agradeço, portanto, ao Marcos Bliacheris e aos organizadores deste evento por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão. Refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença. Diferença que limita a inserção social e, por decorrência, a inserção no campo do trabalho, por conta de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua condição.

Falar sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com nanismo, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Entendi que era preciso desacomodar conceitos clássicos, já enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de pessoas hipoteticamente iguais, potencializando um debate para mudar a realidade.

Para além da eliminação de barreiras físicas, inclusão é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso. Portanto, não acomodem seus olhares! Aprendam a ver, a olhar com olhos livres.

Ao ignorar, excluir ou rotular uma pessoa, tomamos o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos, suas múltiplas possibilidades e capacidades. E é esse não querer ver, não querer falar, que alimenta a intolerância em todos os níveis. Não reagir aos discursos já dados, que segregam, é concordar com o preconceito.

A mudança só surge no momento em que há reação, em que as margens são extrapoladas. É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua deficiência. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social.

Cabe a nós seguir subvertendo essa ordem. Recusar os lugares determinados. Alertar e sensibilizar a população e os gestores públicos para as limitações das pessoas é um compromisso, assim como é um direito reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade.

Cabe aos educadores educar para a diversidade e estimular a inserção. acredito que uma educação voltada para a diferença é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo afeto, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. Considero vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, facilitar sua inserção no trabalho, o convívio com a equipe e não apenas jogá-la em uma função qualquer para cumprir a lei.

As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. Por acomodação e desconhecimento, perdem a chance de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, quebrar rotinas. Evoluir.

Cabe à imprensa sair do discurso da superação porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Insisto: o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos, que reconheçam, entendam e acolham a nossa diferença. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para o crescimento pessoal e profissional.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social.  Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir.

Nestes tempos permissivos, em que tudo pode ser dito e tudo pode ser feito, em que o bullying está no centro da cena, há que se dar limites para a insanidade humana, encarando toda a atitude que segrega, ofende, humilha. Quem disse que não é possível?

Ver o outro para além de qualquer condição, com sensibilidade e respeito, é transformador. Não podemos dar lugar ao desejo da invisibilidade como fuga das agressões preconceituosas. Responder naturalmente à curiosidade, sem alimentar medos, fantasias, intolerância, ou o que seja, é o princípio da visibilidade que traz a cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos e queremos ser incluídos.

O social, a acessibilidade e a inclusão no cotidiano da cidade

O discurso social, que hoje tem um viés voltado para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar o preconceito enfrentado por pessoas que têm uma deficiência ou um comportamento considerado “incomum”, corre sérios riscos de ser ofuscado pela onda obscurantista que se instalou no país. Em um mundo feito por e para pessoas “normais”, contaminado agora pelo conservadorismo, não podemos dar trégua aos olhares discriminatórios que rechaçam os direitos humanos.

Reivindicar políticas públicas que priorizem a inclusão e o respeito aos direitos e às limitações cotidianas de quem é jogado na miséria, tem uma deficiência ou um jeito de viver diverso da maioria são atitudes muito bem vindas sempre. Se forem impulsionadas de forma coletiva, sem violência, em sintonia com a administração municipal, as comunidades e o empresariado, melhor ainda.

Falar em acessibilidade no cotidiano das cidades é falar de forma ampla, com o foco no bem viver de todas as pessoas, como diz a arquiteta Flavia Boni Licht. Para ela, acessibilidade é “pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

Falar em inclusão e direitos humanos é falar de uma grande camada da população que vive à margem, rechaçada por políticas econômicas que as desconhecem, as empurram para a margem e as tratam como desqualificadas. Famílias pobres que são retiradas de qualquer jeito dos espaços urbanos que ocupam porque nada mais lhes restou e ali onde vivem vai se erguer um enorme empreendimento. Famílias que têm suas casas invadidas e filhos revistados pela polícia em paradas de ônibus, a caminho da escola, como se fossem bandidos.

Desconheço projetos sociais e de revitalização do espaço urbano voltados para a criação de ambientes acolhedores, seguros e integradores para quem vive nas periferias da cidade. Se existem, onde estão? Engavetados por conta de governos descomprometidos com o fazer coletivo, engolidos pela burocracia, pela falta de verba e pela voracidade das grandes empreiteiras?

Mas as barreiras, que impedem inúmeras vezes a paz de uma comunidade, estão aí para quem quiser ver, de toda a forma e qualidade. Não está contente? Vai lá e tira. Passa por cima. Pagando bem, por que não?

Há contradições? Claro que há! Ninguém é santo nesta paróquia. Mas há, especialmente, abuso de poder porque é inquestionável a força do dinheiro que compra tudo.

A dificuldade de ver com olhos livres

Um dos meus primeiros artigos sobre questões importantes para a vida de pessoas com nanismo falava sobre a difícil luta por inclusão e apontava para os tantos limites de uma sociedade minada de preconceitos. Foi em 2010, quando a palavra acessibilidade passou a ser muita usada, no sentido de alertar e sensibilizar a população, governos e instituições para o universo da deficiência física e mental. Para amenizar o que veio à tona, muitos projetos foram criados e a fala em defesa das pessoas com algum tipo de deficiência foi para as ruas. Além de ocupar palanques e tribunas, o assunto foi tema de amplas discussões em palestras, seminários, congressos, encontros e reportagens nos meios de comunicação.

O discurso em nome de quem precisava de acesso e inclusão estava na ordem do dia e apontava para muitas questões. Na época, tomei a palavra acessibilidade – difícil de dizer, difícil de escrever, difícil de entender, difícil de executar – para estimular a reflexão. O assunto, que perturbava olhares carregados daquela piedade mórbida que faz mal, colocava em discussão o direito a uma vida digna, menos complicada e mais humana. Direito de toda mulher, homem, criança, jovem e velho, não importa sua condição ou opção.

Como a importância desse debate é indiscutível, a mobilização foi grande. Muitos grupos se organizaram. As reivindicações aumentaram e algumas conquistas foram efetivadas, especialmente a autoestima de muita gente que se sentia discriminada. Mas é uma luta que não cessa. Precisamos estar sempre alertas. As adaptações físicas do meio, que a princípio pareciam fáceis de executar, ficaram, na sua maioria, no campo da promessa. Basta observar as instituições bancárias, de lucros homéricos e propagados aos quatro ventos. Não oferecem nem um mísero banquinho, no caso de pessoas com nanismo como eu, para um mínimo de independência. E quando solicitado, se espantam incrivelmente.

La Nana - Picasso, Paris, 1901
La Nana – Picasso, Paris, 1901

É por isso que repito, hoje com muito mais propriedade, que há algo vital a ser feito urgentemente para que a acessibilidade e a inclusão se tornem atitudes naturais: Educar para a diversidade que constitui cada um de nós como seres plurais e únicos. Educar para o respeito, a solidariedade e o acolhimento. Mostrar que a verdadeira riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades.

Por mais que tenhamos equipamentos urbanos acessíveis, rampas, calçadas, balcões, banheiros, elevadores e ônibus, campanhas pela inclusão, cotas, emprego, tudo ainda será precário se o preconceito, seja qual for – deficiência, cor da pele, opção sexual, classe social – persistir. Encarar as dificuldades cotidianas e a repercussão da diferença física, mental, monetária, religiosa, comportamental na sociedade em que vivemos nunca foi tarefa fácil. E hoje parece ainda mais cruel.

Para além do que é material, todo indivíduo precisa ser acolhido. Precisamos encarar essa incapacidade de ver o outro em todas as esferas da sociedade, tão sem escrúpulos. Não há nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo: ver com olhos livres – Oswald de Andrade. Poucos conseguem!

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bufão D. Sebastião de Morra, de Velázquez

Nanismo e a novela global

O que dizer de Estela, a personagem com nanismo da novela do horário nobre da TV Globo, interpretada pela atriz Juliana Caldas? Um equívoco? Procuro acompanhar sua história, mas, lamentavelmente, não me diz nada. Assim como não diz para muitas outras pessoas que, como eu, lutam contra o preconceito e batalham por inclusão e acessibilidade. Não pertencemos ao mesmo universo. E se perde uma oportunidade preciosa para discutir questões vitais do cotidiano de quem é discriminado.

A pergunta que fica é: o autor Walcyr Carrasco se perdeu ou queria isso mesmo?

A trama poderia ter muitos outros olhares para a personagem. Olhares mais densos, críticos e realistas. Para além de uma mãe megera e de uma jovem mimada e maltratada ao mesmo tempo. Para além do dinheiro que pode mascarar ou esconder a filha “monstrenga” e indesejada. Por que não tratar da rotina de uma pessoa com nanismo mostrando que tem vontade própria, toma conta da sua vida, trabalha, enfrenta inúmeros obstáculos, a discriminação, sofre, mas busca ajuda, tenta se entender e entender a reação do outro? Por que não aprofundar o tema retratando uma pessoa com deficiência que combate o preconceito, busca por seus direitos e amplia uma luta que é de tanta gente?

Estela vive fora do mundo real. Não se dedica a nada. Não estuda. Não sai. Não anda pelas ruas. Não tem amigos. Não se relaciona com ninguém de forma natural. Não reivindica. Não é crítica. Estela parece não ter vida interior. Não deseja. Não sonha. Não pensa. Não fala abertamente. Já mostrou em várias cenas dificuldade de lidar com o seu tamanho, mas não questiona este sentimento. E só acorda para a sua condição, vez que outra, quando a inconveniente cuidadora, se é que se pode chamar assim, faz um alerta. Em seguida, volta à sonolência.

Estela parece não se importar com o cotidiano, o que é inverossímil, pois já viveu sozinha na Europa. Quem sabe tinha por lá uma babá que supria tudo. Os possíveis romances que aparecem para ela na novela deveriam ser consequência de uma vida livre e natural e não o foco mal desenhado da sua história. Há tanto para mostrar sobre o dia a dia das pessoas com nanismo. E o que se vê na tela é uma jovem sem a mínima reflexão, que vive em uma bolha.

pedrojulianaeanderson
Foto divulgação

De um modo geral as pessoas com nanismo não se perdem em “mimimis”. Não acumulam recalques, não se importam se ganham “ursinhos”, miniaturas ou salto alto. Especialmente nos dias de hoje, criam grupos e promovem encontros para discutir questões importantes, como o preconceito e o reconhecimento de suas reivindicações. Lutam por dignidade e independência, o que passa necessariamente por respeito, inclusão e equipamentos urbanos adequados, fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não é o que se vê em “O outro lado do paraíso”, que reduz a quase nada o universo de Estela.

A novela tem muitos outros equívocos, como o tratamento que dá aos gays e aos negros, e é feita de clichês lamentáveis, mas fico por aqui.

 

Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.

 

Um ano do blog – descobertas e uma pequena história

Há um ano escrevo neste blog que, intuitivamente, ganhou o nome de “Isso não é comum”. Há um ano percebo que essa escrita foi me colocando em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Grupos formados por pessoas absolutamente incomuns, éticas, generosas e guerreiras na sua busca por direitos sociais, voz, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento.

A proposta de falar sobre o impacto da diferença, e do quanto ser diferente pode machucar e afastar do convívio, era um desejo que Marlene, minha irmã, e eu estávamos concretizando quando ela nos deixou. Queríamos entender os limites que o nanismo nos impôs e os limites de tantas outras pessoas com dificuldades marcantes que geram preconceito, segregam e intimidam. Queríamos refletir sobre um assunto que nos inquietava e estava nas nossas vidas desde que nascemos. Queríamos ampliar a discussão. Não deu tempo! Passei, então, a escrever muito, uma maneira de não desistir, seguir conversando com ela, preencher um vazio insuportável, não sucumbir.

Assim encarei este blog e publiquei o primeiro texto no dia em que fez um ano da morte da Marlene – 5 de abril de 2016. E, quase sem perceber, fui abrindo portas. Passei a conviver com pessoas que, como eu, são diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença é encarar a fragilidade da condição humana. E se contrapor ao preconceito de qualquer natureza é saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

Há um ano escrevi: “O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive”. E continuo.

"Solidão suave", por Tamar Matsafi
“Solidão suave”, por Tamar Matsafi

Pequena história de como criar jeitos de viver com leveza

“Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era a pergunta recorrente que nos fazíamos sempre que íamos sair para uma atividade que exigia de nós um pouco mais do que o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis. Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. Respondíamos uma para a outra: “Vai firme. Estás toda lorde”. E ríamos muito. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos muitos códigos. Muitas frases simbólicas. Cumplicidade deliciosa de uma convivência que fica carinhosamente e amorosamente na memória.

É assim que tenho lembrado da Marlene ultimamente – espirituosa, com um humor incrível, forte e delicada, precisa e acolhedora nos conflitos, com um olhar absurdamente sensível para a condição do outro. Aprendemos juntas, no dia a dia, esse olhar que, provavelmente, foi a nossa salvação.

“Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”.

Essa canção traduz o meu sentimento neste dia 5 de abril de 2017, dois anos da morte da Marlene. Ouvimos pela primeira vez no Theatro São Pedro, na voz de Celso Sim, em show do José Miguel Wisnik.

Aqui quem canta a versão de Arthur Nestrovski para “Serenata” é Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão (https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520). A música está no CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto bem humorado, muito bom, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que me conforta muito: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”. A música salva.