Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano

Há sempre um desejo de ser olhada e quem sabe admirada sem o “mas” que se interfere no cotidiano, desajeitado e sem modos, dando asas a um olhar interno crítico, muitas vezes cruel. Que olhar é esse que de dentro de mim me espreita? Os olhares todos do mundo são prolongamentos desse olhar primeiro, fundador, inquietante? Será que vem da relação que estabelecemos com esses olhares estranhos, invasores, a autorização para o ingresso efetivo no universo dos chamados “normais”? Há um quê indecifrável nesse “mas” que ergue barreiras, aprisiona e celebra a intolerância, acobertado pela feliz possibilidade de ignorarmos o que não queremos ver.

Grades, por Tamar Matsafi

Grades, por Tamar Matsafi

Eles vinham conversando animadamente pela calçada. Jovens, muito jovens. Quando me viram, pararam, trocaram olhares e caíram numa gargalhada farta, debochada e infindável. Fazer o quê? A vida é mesmo assim! Expressão que aprendi com um amigo muito querido. Ou, assim é a vida! – como dizia um rapaz que fazia consertos no meu apartamento.

Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é muito comum nas instituições bancárias. Nem no buraco para colocar o celular e os metais todos para depois, desarmada, ser autorizada a passar pela porta giratória. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Ele, atrapalhado, grita, “o que a senhora tem na bolsa?”. A resposta, óbvia: celular, agenda, caneta, carteira, chave, colírio… Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Finalmente, do lado onde estou, aparece outro guarda. Admirado, faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade, inclusão, dificuldade, qualquer coisa neste sentido. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê?

Em um prédio, no centro de Porto Alegre. Cheguei, dei bom dia e pedi: “Por favor, podes chamar o elevador porque não alcanço no botão?” Sem levantar a cabeça para me olhar, ele respondeu, automaticamente: “Fique à vontade!”. Eu: “Ahn!?” E falei um pouco mais alto, com firmeza. Ele, com uma rabiada de olho na minha direção, resmungou um “ah!”, levantou com o celular em punho, foi até o elevador, tocou no botão e já ia voltar quando expliquei: “Por favor, preciso que o senhor toque no botão de dentro também. Vou no 10º andar e o painel é muito alto”. Ele parou, olhos grudados no celular, até o elevador chegar. Tocou. E voltou para o seu brinquedinho. Nenhum rasgo de olhar um pouco humano! Muitos porteiros de prédios da contemporaneidade distraem suas longas horas de trabalho mergulhados no vasto universo descortinado pelos celulares. Isso é fato. E ponto!

Dores e delícias de ser o que se é

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Lelei e MarleneA proposta é compartilhar neste espaço ideias, experiências, sonhos e inquietações, no sentido de refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença marcante. Diferença que exclui e provoca o preconceito, limite triste de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. Encarar a exclusão é tarefa difícil porque todo ser humano busca o acolhimento. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos ou clichês. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada que, às vezes, é jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável pela dificuldade do enfrentamento. Em resumo, é fundamental evitar os estereótipos. Por isso, falar da diferença, encarando a fragilidade da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade, é desafio necessário e urgente.

É o que queremos aqui neste blog que nasceu de muitas conversas instigantes. Especialmente do estímulo da arquiteta Flavia Boni Licht, que provocou meu encontro com a jornalista Núbia Silveira, mais adiante com Carmen Crochemore, diretora executiva do portal Sul21 e, recentemente, com o editor Milton Ribeiro. E, claro, do apoio de amigos que acompanham tudo com entusiasmo.

O desejo de falar sobre o impacto da diferença e do quanto o convívio é duro muitas vezes já fazia parte das muitas conversas que Marlene, minha irmã, e eu tínhamos quase cotidianamente. Encarar uma vida a ser vivida com o nanismo, portanto cheia de limites, em uma época em que não se falava em inclusão e acessibilidade, foi desafiador desde a infância. Ainda é! E para mim é muito emocionante que este blog seja lançado justamente no dia 5 de abril de 2016, quando faz um ano da morte da Marlene.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou nossos horizontes. Quando Flavia me pediu para escrever algo sobre as dificuldades enfrentadas pelos anões no dia a dia, nosso interesse aumentou. A proposta desacomodava conceitos clássicos, enraizados, e apontava para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais – tudo o que queríamos para potencializar um debate que já estava nas nossas vidas há muito tempo.

Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso em algum momento e anotei em um dos tantos blocos que carrego comigo.

O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive.