Ponto final no desabafo

 

“É árdua a luta contra o preconceito! Especialmente quando nos deparamos com o título da coluna de um articulista como Flávio Tavares. Está no jornal Zero Hora do último final de semana de 2019 (28 e 29 de dezembro), na página 21: ‘O ano ou um anão?’. A palavra anão não é sinônimo de algo torpe ou indigno. Não aceito o uso de uma condição física para expressar o que ele diz no artigo. E lamento que venha de um jornalista que eu respeito muito”. Este foi o desabafo que fiz no face em 28 de dezembro, depois de ler o texto do Flávio. Recebi inúmeras mensagens de apoio e ponderações.

A jornalista Marjori Michelin, com quem trabalhei no início das nossas vidas profissionais, ainda na TV Guaíba da família Caldas Júnior, sintetizou muito bem o que penso: “Lelei, querida, entre trocadilhos e “brincadeirinhas inocentes” vão se perpetuando absurdos, desinformações, ignorâncias, preconceitos e, vez por outra, canalhices. Falta de intenção não serve mais como desculpa, o gesto (palavra, aqui), diz tudo, explicita ideias e revela convicções ou, na melhor das hipóteses, revela o desinteresse e o descaso pela causa alheia, o que, por si só, já é bem desabonador”.

No dia 6 de janeiro de 2020, Flávio Tavares me enviou um e-mail: “Cara Lelei. Recebi de amigos, como o Francisco Marshall e a Jussara Porto, a cópia da tua avaliação em torno do meu artigo sobre o ano de 2019. Assim, por tudo o que és, pensas e ages, faço respeitosa observação sobre o que dizes. Em meu artigo, tentei apenas fazer um jogo de palavras em torno do aumentativo “ão” e aplicá-lo ao ano que passou. Não é feio ser anão e, assim, a palavra “anão” não é feia nem maldosa em si ou por si mesma. No caso do meu artigo, foi empregada apenas num jogo de palavras, significando algo pequeno num ano que não conseguiu levar adiante a punição do maior assalto público do Rio Grande, como é o caso da CEEE, até hoje em “segredo de justiça” e sem sentença. Enfim, não tentei acentuar nenhum dos torpes preconceitos ainda usuais, pois — como bem dizes no ‘face book’– “anão não é sinônimo de algo torpe e indigno”. Assim, no final do meu artigo de 29 de dezembro, ao escrever que resta saber “se 2019 foi um grande ano ou,apenas, um anão”, expressei apenas que foi um ano pequeno. Reitero meu respeitoso abraço por tudo o que és, pensas e ages, desejando-te um 2020 cheio de realizações”.

No dia 7, respondi: “Caro Flávio. Tenho muito respeito por ti e sou uma leitora dos teus artigos na ZH. Minha avaliação está ancorada em muitas piadas e observações que já ouvi, e ouço, nas ruas por conta do nanismo. Tenho como objetivo nos últimos anos reagir, fazer um contraponto, para que as pessoas fiquem atentas. Alguns usos de algumas palavras às vezes geram comentários muito desagradáveis. Tenho vários exemplos assinalados, desde a famosa expressão “anões do orçamento”. Na rua, em muitas ocasiões, fui chamada assim. Não é o caso do uso que fizeste. Escrevi até um artigo comentando, enviei para a ZH, mas não publicaram. Como estamos conversando sobre isso, o artigo segue abaixo. Agradeço muito o teu retorno. E que 2020 seja um bom ano pra todos nós! Abraço”.

Ano e Anão. Que paralelismo é este?

Se o desejo é mudar, vamos pensar sobre o preconceito que temos internalizado e se manifesta na fala, na escrita, nas atitudes cotidianas. O que nos leva a dar um sentido pejorativo à uma palavra para criticar um fato, uma pessoa, inferiorizar alguém, fazer uma piada? Quem tem uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é alvo de muitos comentários indignos. Tomo a palavra anão, muito usada de forma grotesca e indevida, para seguir meu raciocínio. O jornalista e articulista Flávio Tavares, que respeito muito, em recente artigo publicado no jornal Zero Hora, onde critica lamentáveis episódios ainda não resolvidos envolvendo a CEEE, colocou como título da coluna “O Ano ou o Anão”.

Sob o ponto de vista da ética, do humanismo, da liberdade e da diversidade, 2019 realmente não foi um grande ano. Pelo contrário, foi péssimo, mas não vejo sentido algum em classificá-lo como um ano anão. É desolador perceber, mais uma vez, que o nanismo ainda é visto de forma pejorativa, como sinônimo do que é indigno, torpe, pouco. E são muitos os usos indigestos. É o caso das expressões “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 1990, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI). Parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’.

O uso preconceituoso de algumas palavras está tão entranhado no inconsciente de todos nós que até parece normal. É o que sofrem as pessoas que têm alguma deficiência, e também negros, índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos”, carimbados e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe. Mas os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica. Portanto, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito. Sabemos da importância dessa discussão. É fundamental que venha e provoque reflexão.

Por mais que nós, pessoas com nanismo, tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões mais baixos, banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, campanhas pela inclusão e emprego, tudo ainda é precário e continuará sendo se o preconceito que carregamos, e está na palavra, não for combatido. Precisamos de respeito, acolhimento e de uma educação para a diversidade que nos constitui como seres plurais e únicos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades, é vital. A pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, hierarquizada, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Em nome de quê?

Lelei Teixeira

leleigira@gmail.com

   Porto Alegre, 30 de janeiro de 2019

Nanismo é uma condição física, não moral

Nanismo é uma condição física. Está relacionado à altura de um indivíduo, bem menor que a média, o que a genética e a medicina explicam muito bem. Portanto, não é um adjetivo. Muito menos uma palavra para depreciar ou julgar comportamentos, falas, posicionamentos ou uma expressão para acusar alguém por atitude mesquinha, medíocre, vulgar. Logo, não serve para definir a falta de moral que domina o Brasil. Não sou dada a radicalismos, nem apegada ao politicamente correto, mas às vezes alguns usos da palavra incomodam muito. Ora! Falta de moral não tem nada a ver com nanismo. Pode relacionar-se à falta de caráter, de limites, de respeito, enfim. Ao nanismo, não!

E mais uma vez reafirmo: Nada sobre nós sem nós!

Minha amiga Carla Abreu escreveu em um texto maravilhoso que “a pessoa com deficiência tem uma forma de viver diversa da padronizada, com demandas e enfrentamentos diferentes, mas nós não somos nem piores e nem melhores que outras pessoas, nem coitados e nem super-heróis, apenas pessoas que têm um modo de estar no mundo que, em algumas situações, é diferente da maioria”.

Aos desavisados, que desconhecem a força da palavra, recomendo darem uma olhadinha na incrível Cartilha Escola para Todos! Nanismo, que tem como objetivo primeiro uma sociedade inclusiva e justa e já está disponível para as escolas e instituições que tiverem interesse. A primeira edição, criada por um grupo liderado pela designer Vélvit Ferreira Severo, de Rio Grande/RS, mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. Trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.

Não podemos deixar que a palavra se transforme em sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e seja usada de forma pejorativa. Já escrevi sobre o assunto outras vezes, mas nunca é demais voltar ao tema quando depreciam a nossa condição de um jeito tão irresponsável. É o caso também de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, que chamou também de ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta”), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, a lamentável expressão “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

E tem muito mais, mas fico por aqui. Já está de bom tamanho a minha indignação.