Tudo dói!

“Tudo é singular / Dói / Tudo dói” – Canção “Tudo dói”, de Caetano Veloso.
Vivemos um tempo de censura, sim! E o mais grave, no meu entender, tempo de uma implacável autocensura. Não vou falar, não vou publicar, não vou comentar, não vou correr o risco de desafiar o coro dos contentes. Até porque as redes sociais, onde todo mundo pousa e julga, usam e abusam das interpretações grosseiras e medíocres, transformando tudo num debate insano e sem sentido. Aqueles que ousam manifestar um pensamento libertário através das artes visuais, do teatro, do cinema, da dança, das manifestações públicas, são muitas vezes interceptados ou condenados por um tribunal sem rosto. Um tribunal impulsionado pelo autoritarismo e pelo desrespeito aos direitos individuais dos cidadãos. O cenário que está posto é de desconforto, desconhecimento, ignorância, mesquinharia, preconceito, medo.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Quando a tua sensibilidade está à flor da pele, não há como não ver a dureza da vida. Quando olhar para o outro é um movimento inerente ao teu estar no mundo, não há como não desesperar. Quando a miséria física, social, moral e política é jogada na tua cara assim que colocas o pé na rua, não há como não chorar. Quando a fome fala mais alto e as crianças perdem a inocência em busca de qualquer guarida, é porque perdemos o mínimo sentido de humanidade. Quando a realidade se torna insuportável, a dor não cessa. Tudo dói!

Por José Walter de Castro Alves

Quando a meritocracia vira discurso, assinamos embaixo do “não tenho nada a ver com isso, eu consegui” e proclamamos uma razoável isenção. Não temos qualquer compromisso. O subemprego e o desemprego crescem. A miséria está escrachada nas esquinas. Mas certamente este é um movimento de vagabundos, de quem não quer trabalhar. E lá vamos nós para os refúgios confortáveis. Não temos nada a ver com isso. Somos únicos e tudo o que temos é fruto da educação que tivemos e da nossa bárbara competência. Como se a vida e o fazer cotidiano de cada um não estivessem indiscutivelmente ligados. Posso trabalhar em paz porque alguém faz a minha comida, cuida da minha casa, lava a minha roupa, atende meus filhos, cuida dos meus velhos. Tenho lazer garantido porque o meu salário permite. Saio de férias quando quero porque sou o meu patrão e tenho quem me ampare no trabalho.

Então é bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos com tanta facilidade? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que ainda não entendemos que não somos ninguém sem o outro? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo?

Mais uma vez, a arte a me socorrer!

“Eis o que eu aprendi / nesses vales / onde se afundam os poentes: / afinal tudo são luzes / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências” – Mia Couto no livro “Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra”.

A arte e as artimanhas que nos salvam

Já escrevi em algum momento que o jeito é esticar o olhar para além dos nossos umbigos, botões, janelas, esquinas, ruas, cidades em busca de luz, horizontes limpos, esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Dar um trato na ansiedade. Buscar um equilíbrio razoável entre o caos e uma possível ordem que faça sentido. E lá vem a arte mais uma vez a me socorrer.

O mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, o que é o cotidiano político, aqui, lá, acolá, em “Linhas Paralelas”:

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria desses singelos versos é o retrato da política que não serve. A política do desconhecimento e do descaso.

Por isso, a importância de acompanhar e participar da administração pública no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno das nossas residências, na rua em que vivemos. É nosso direito e dever conhecer os projetos e ações dos governos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e de bueiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços públicos, a acessibilidade, a urbanização.

"Ao ar livre", por Tamar Matsafi
“Ao ar livre”, por Tamar Matsafi

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, escreveu Fernando Pessoa. Mas a política praticada hoje no Brasil não tem alma. É mais predatória do que civilizadora. Mais escusa do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais pessoal do que coletiva. Simplesmente acomoda os seus eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. E lá em 1968, Hélio Oiticica, em carta para Lygia Clark, já percebia isso: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. O comentário diz muito dessa geleia geral que vivemos.

O ano é de eleições e copa do mundo. Hora do voto.

“Dessa hora tenho medo”, diz uma canção de José Miguel Wisnik. O momento é delicado e o jogo cruel e egoísta. Estamos mesmo interessados em investigar as ações ou omissões que geram a degradação da vida, a desigualdade, a miséria, a violência, o medo? Ainda sonhamos em construir uma nova política, voltada para o bem comum, sem privilégios? Ou estamos mergulhados na superficialidade da pequena política eleitoreira?

Mas essa é a hora de manifestar o desejo de uma política contemporânea, feita por homens de bem. Uma política que não tenha medo do pensamento crítico, do aprendizado múltiplo, da diversidade, da memória, da arte, da liberdade, do nosso corpo e do nosso espírito, da criatividade. Uma política que não nos tire direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

É preciso remar contra a corrente

Na escuridão desses tempos, busco brechas luminosas para respirar. E me abastecer.

O texto de Mia Couto, enviado pela amiga Flavia Boni Licht, chegou como um presente, enchendo de luz o cotidiano. A escrita, lúcida e simples do escritor, dá voz ao que penso, apontando alguns equívocos da educação que vemos brotar hoje.

Para Mia, há muita preocupação com o fato dos jovens entrarem para a universidade com um fraco desempenho acadêmico, enquanto a preocupação maior deveria ser com o crescer sem referências morais. Há um discurso pelo empreendedorismo e pela liderança, como se toda uma geração estivesse destinada à vida política ou empresarial. Mas não há, segundo ele, interesse em preparar os filhos para serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo. E fazerem suas opções!

E segue: “Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações e que está bem patente nos vídeo clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem”.

E conclui: “É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.”

É preciso cultivar o conhecimento, a convivência e a reflexão

Ao tomar contato com o trabalho da Nova Acrópole, organização internacional de caráter filosófico, cultural e social, sem fins lucrativos, que completa 60 anos no mundo e 30 anos em Porto Alegre, fiquei surpresa e me senti instigada. Totalmente mantida por voluntários, a instituição orienta-se pela Filosofia, Cultura e Voluntariado, e sua atuação é pontuada pela independência de interesses políticos, religiosos ou financeiros. Há um comprometimento com a educação humanista em todos os cursos que oferece, nas atividades culturais e artísticas e nas ações sociais e ambientais. É um espaço singular de ação, reflexão e convivência.

O movimento, fundado em 1957, tem forte presença em mais de 60 países, com mais de 400 sedes, sempre cultivando o conhecimento individual e coletivo e a qualidade de vida a partir de uma visão universal voltada para a transformação. Além de Porto Alegre, a Nova Acrópole está presente em Caxias do Sul, Gravataí, São Leopoldo, Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Alegrete. Os associados voluntários participam de todas as atividades educacionais e culturais, que priorizam a ética, a filosofia à maneira clássica, a sociopolítica, filosofia da história, arte, cultura e voluntariado. As aulas, expositivas e práticas, estimulam, ao mesmo tempo, a reflexão e o uso do conhecimento no dia a dia para a construção de uma vida melhor.

É preciso que as palavras tenham mais força que as metralhadoras

“O homem morre em todos aqueles que se calam”. A frase é de Wole Soyinka, dramaturgo, poeta, ensaísta e professor nigeriano, primeiro africano Nobel de Literatura, uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre neste ano. É um guerreiro incansável, como Ogum, “sua divindade companheira”. A Escola de Poesia, que tem a obra do dramaturgo como referência em seus estudos, desenvolveu um projeto para homenagear sua passagem pela cidade – Escola de Poesia & Wole Soyinka – Para que as palavras tenham mais força que as metralhadoras. O ponto alto é o lançamento do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, no dia 18 de novembro, às 17h, na Tenda de Pasárgada, na Praça da Alfândega.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros.
Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros

O documentário mostra um pouco da vida e da obra de Soyinka e conta com a participação de artistas e integrantes da comunidade local que se articulam, de algum modo, com a ancestralidade africana, como o grupo musical Alabê Ôni, o grupo teatral Pretagô, e seu diretor Thiago Pirajira, o Africanamente Ponto de Cultura e Escola de Capoeira Angola, e seu Contramestre Guto, o poeta Ronald Augusto, o escritor Jeferson Tenório, o pintor Paulo Montiel, os escultores Jonas e Marcos, a Iyalorixá Sandrali de Oxum, a Iyalorixá Bete Omidewa, a artista visual Manuzita, a poeta e psicanalista Lúcia Bins Ely e a psicanalista e poeta argentina Marcela Villavella.

Wole Soyinka – A forja de Ogum foi produzido pela Escola de Poesia em coprodução com o Coletivo Catarse. Concepção, roteiro e direção da poeta Eliane Marques (Prêmio Açorianos de Literatura/2016) e do poeta e tradutor Adriano Migliavacca, estudioso da obra do nigeriano. Apoio de Gustavo Türck (documentarista e produtor audiovisual), Billy Valdez (operação de câmera) e Marcelo Cougo (operação de áudio). Documentação de Lúcia Bins Ely e Anelore Schumann. Pesquisa de imagens de Priscila Pasko.

Nesta época em que a arte está sendo tão abandonada pelos governos, é estimulante o que diz Soyinka: “O meu horizonte sobre a humanidade é ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma música, alguma ópera, e isso não tem nada a ver com a volátil condição humana, ou luta, ou algo assim. Isso me enriquece como ser humano”.

 

O que dizem de nós os seres do Habitat de Amaro Abreu

A vida pulsa para além das eleições, das promessas vãs, da indigência dos partidos e da política, do cotidiano difícil, dos nossos desejos de acessibilidade, inclusão, mudança. A vida pulsa na criação de quem ousa. Meu texto é sobre o livro de Amaro Abreu, Habitat, que será lançado no dia 15 de outubro, a partir das 16h, na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre.

habitat_capaO menino curioso, que conheci pequenininho no início dos anos 1990, cresceu. Quando o reencontrei, parou na minha frente um menino-homem, expressão carinhosa muito comum na Bahia para dizer, “a criança que você conheceu já não é mais a mesma”. Logo vi que não era, mas guardava muito do universo lúdico no jeito de olhar, de falar, no sorriso. A suavidade daquela infância que não nos abandona, especialmente quando nos revelamos através da arte.

Amaro Abreu por Amaro Abreu
Amaro Abreu por Amaro Abreu

Fomos conversando e descobri que o menino, hoje com 27 anos, já se aventurou pelo mundo. Articulado, criativo, observador, cheio de ideias, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Foi rabiscando a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários, compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis as criaturas inusitadas que cria.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Eu, que não o via há muito tempo, fiquei surpresa e encantada. Mais ainda quando ele me chamou para escrever sobre o seu trabalho no livro “Habitat”, um convite que me deixou incrivelmente feliz. Por ser quem é e pelos motivos que o levaram a me convidar. Amaro me falou que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Algo nos sintonizava. Quando me conectei com suas criações entendi. É que das suas mãos nascem figuras que dizem muito da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da vida vertiginosa que levamos e da liberdade que queremos.

Habitat, de Amaro Abreu
Habitat, de Amaro Abreu

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade, leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um universo vasto e inquieto, fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu “Habitat”.

Que segredos guardam essas figuras circenses, melancólicas, lúdicas, enraizadas, soltas, misto de tristeza e alegria, em um universo de paisagens oníricas? Saltitantes, à beira do abismo, amordaçadas, à espreita, olhos arregalados, despedaçadas e inteiras, genuínas na sua adorável imperfeição, querem dizer o que assim tão inconstantes?
Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, que somos. Humanos? Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que criamos. Habitável? Dizem das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar. Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada em busca de um final feliz.