2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.