Nossa insanidade cotidiana

 

Um país em que o governo brinca ironicamente de fazer “arminha” com os dedos é responsável, sim, pelo aumento da violência. Ao tratar com naturalidade o uso de armas por uma população que vive situações absurdamente desiguais – se olharmos para a base e para o topo da cruel pirâmide social – as autoridades máximas da nação viram as costas para os já abandonados, amedrontados, acuados. Portanto, vulneráveis, suscetíveis a atitudes por impulso. Ou para uma população que já não se choca com nada porque a barbárie, além de ocupar os noticiários de jornais, rádios e TVs, sem o mínimo contraponto, está na porta das suas casas. Está nas calçadas, nas ruas e vielas por onde andam e brincam seus filhos inocentes e sem proteção.

Soma-se a esta triste realidade, a loucura das redes sociais que julgam, condenam, destilam ódio e futilidades o tempo todo. Um tiro a mais, um tiro a menos, parece não fazer a mínima diferença nesse contexto de frases feitas, piadas indigestas, ofensas, preocupado apenas com o número e com a performance dos seguidores, onde as vozes da vaidade, do poder e da casa grande falam mais alto.

Um contexto que as canções de Chico Buarque sempre apontaram. Como “Gota d´água” – “E qualquer desatenção, faça não / pode ser a gota d´água”.  Ou como “Construção” – “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. E como “Deus lhe pague” – “Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir / Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair / Deus lhe pague”. E muito, muito mais! Basta pesquisar a obra deste compositor e cantor popular.

Assim vivem e morrem todos os dias no Brasil milhares de pessoas, vítimas do descaso, do abuso, da bala perdida, do tráfico de drogas.

É o mesmo país que já não se espanta com a morte de indígenas na Floresta Amazônica, o pulmão do mundo tão cobiçado pelo grande capital que só tem olhos para o lucro. Um lucro que vem acompanhado de excesso de poder, ambição, concentração de renda, acúmulo, injustiça e destruição. Danem-se as vítimas de incêndios criminosos, das chuvas avassaladoras que levam tudo e do inegável aquecimento global, essa invenção dos comunistas, segundo alguns dos “ilustres” pensadores da “nova” política brasileira.

Do alto da sua irresponsabilidade, o presidente diz que os “indígenas estão evoluindo e se tornando seres humanos iguais a nós”. Nós, quem? Uma clara demonstração de ignorância histórica, descaso e desconhecimento do papel relevante dos povos indígenas na nossa cultura e na preservação do meio ambiente. O presidente, que nada entende destas questões e nem quer entender, chegou a afirmar que “se puder, confino ambientalistas na Amazônia”, ao defender a regulamentação da mineração e exploração de energia em terras indígenas.

Coincidentemente é também o país que não reage e não combate com veemência o assassinato de negros, pobres, homossexuais, pessoas diferentes de um modo geral, e de mulheres que, pelas estatísticas, cresceu muito nos últimos anos. É aqui que ouvimos, mais uma vez, um presidente declarar de forma absurdamente preconceituosa que “uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil”. Afirmação que reforça a indigesta campanha de abstinência propagada pela nossa religiosa e tresloucada ministra da família, que não vou nomear.

É ainda o país de um presidente que debocha dos trabalhadores que estão desempregos e diz, cinicamente, que temos muitos privilégios e que, por isso, vai lançar o programa “minha primeira empresa” para quem reclama que não tem emprego.

Quem suporta tanto deboche?

Nada acontece por acaso. A banalização da violência não é um fato isolado e não se restringe aos morros cariocas, às favelas, à periferia dos grandes conglomerados urbanos. Ela está no cotidiano de cada um de nós inundado pela falta de perspectivas, pela vulnerabilidade do trabalho, pela miséria estampada nas ruas, pela morte de inocentes vítimas de balas perdidas ou não, pelos incêndios criminosos, pela discriminação racial, sexual, cultural, pelo preconceito de toda ordem.

A população que vive nas ruas em São Paulo, por exemplo, aumentou 53% em 4 anos. Hoje são 24 mil, 11,7 mil dormindo em abrigos e 12,6 jogadas nas calçadas ou sob os viadutos. E a Igreja Universal do Reino de Deus segue coagindo e seduzindo as pessoas com problemas financeiros e emocionais, que acabam doando o muito ou o pouco que têm para sair de crises. E acabam ficando sem nada, nas mãos de pastores e pastoras que fazem fortunas com a dor do outro.

Neste caldeirão dominado pela insanidade as questões vitais do país são expostas e discutidas irresponsavelmente nas redes pelo governo, seus seguidores e opositores. É um bate boca sem fim, onde um ofende o outro e nada mais. Desaprendemos tanto no ano que passou! Já não nos sobra tempo para refletir sobre a condição humana, reagir e provocar alguma mudança. E onde estão mesmo os eleitos que discursavam sobre respeito e dignidade?

Rotas perigosas apontam para o caos

 

Como se não bastasse tudo o que estamos vivendo, agora querem nos proibir de ajudar as pessoas na rua. A dica é: dar emprego e não esmola. Não entendi a mensagem. Até porque não tenho condições de oferecer trabalho a quem me aborda pela cidade. Seria maravilhoso se eu pudesse! Então, se tenho dinheiro, dou. Se estiver próxima de um supermercado ou bar, compro algo que ajude a amenizar a fome da pessoa que me pede. O aumento da pobreza é um fato indiscutível. A miséria nunca foi tão cruel, pelo menos para meus olhos sensíveis, que já viram tanto. Não há como negar. E ninguém pode me impedir de tentar amenizar a fome de um ser humano como eu.

Não há como esconder o que está escancarado. E nenhuma maquiagem vai disfarçar o óbvio. A precarização do trabalho, da educação pública, da saúde e das políticas sociais é um fato. Teremos mais pobres, mais moradores de rua, mais papeleiros e mais indivíduos vulneráveis emocionalmente. Chamá-los simplesmente de vagabundos é negar a alteridade, é não ver o outro. O problema é muito mais grave e necessita de análise profunda, sem o banal viés classista ou político-partidário. A sociedade é responsável, sim. Somos todos responsáveis. E os políticos muito bem instalados e remunerados precisam ter respostas e soluções dignas para situações extremas como estas.

Afinal, é comum os governos oferecerem ajuda a empresários quando suas empresas estão falindo e precisam demitir funcionários para ter um respiro e recuperar perdas. A crise é palpável. O desemprego aumentou. Portanto, não sejamos hipócritas. Os discursos que taxam desempregados como preguiçosos é superficial, fascista. É claro que ninguém é santo nesta paróquia, nem no topo nem na base da pirâmide. Mas o fato concreto é que reformas como a trabalhista e da previdência atingem diretamente assalariados deste Brasil da delicadeza perdida. Como fica a autoestima de uma pessoa que, de repente, perde tudo? Não dá para esconder, muito menos ficar jogando a culpa, aleatoriamente, na população.

A maior prova de que o fascismo está na ordem dos dias foi dada recentemente, para quem quiser ver e ouvir, pelo agora ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Ao copiar no detalhe o discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, em um vídeo para comunicar um projeto aos artistas brasileiros, Alvim ratificou o autoritarismo de um governo sem escrúpulos, inspirado no nazismo. E não há ingenuidade nesta ação pensada/copiada e colocada em prática.

Atitude sintomática, não? Especialmente vinda do secretário de um governo que autoriza e faz uso cotidiano da violência, de forma simbólica e real, através de ameaças e atos concretos. Basta lembrar o que acontece na Amazônia – o desmatamento em nome de quem só pensa em destruir para enriquecer, a morte de indígenas que defendem suas terras, o descaso com o aquecimento global. Segundo dados do Inpe/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a área devastada na região chegou a 9.165,6 quilômetros quadrados, a maior devastação no bioma registrada nos últimos cinco anos.

E o que se espalha pelo resto do país, negando a multiplicidade cultural que nos constitui?

O recrudescimento do racismo, o assassinato de negros e mulheres, as ações contra a lei de acessibilidade e inclusão, os discursos que destilam ódio contra um educador como Paulo Freire, contra a comunidade LGBT ou contra a arte representada pela atriz Fernanda Montenegro. Alvim deixou muito claro na sua fala aprovada pelo presidente desta república usurpada que não há espaço para a diversidade no Brasil.

A triste série de absurdos que vamos vivendo cotidianamente aponta para o caos. E, como já escrevi aqui, estamos anestesiados. Onde se esconde a nossa capacidade de indignação? E nossas instituições o que fazem? E a classe política? Especialmente, os políticos de centro, centro esquerda e esquerda que não conseguem abrir mão de suas medíocres ambições pessoais e partidárias enquanto afundamos na lama fascista? Políticos sem grandeza suficiente para mobilizar a população e promover uma união avassaladora em nome da democracia que queremos. Só vejo este caminho, que me parece tão cristalino, para tirar o país desta rota assustadora.

O mínimo de atenção para algumas falas da cúpula de Brasília já mostra porque a rota é perigosa. Certamente todos já ouviram as desastradas colocações do ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ou do chanceler Ernesto Araújo. Ou a loucura explícita da ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, Damares Alves e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que parece nada entender da questão ambiental. E do ministro da Economia, Paulo Guedes, do ministro-chefe do Gabinete da Segurança Pública, general Augusto Heleno, entre outros.

O presidente já se referiu a torturadores como heróis ao elogiar Brilhante Ustra quando ainda era apenas um deputado que fazia manifestações histéricas e descontroladas no Parlamento. Já elogiou ditadores como Pinochet e Stroessner. Ofende grosseiramente quem lhe contesta, como fez com Maria do Rosário, com o presidente da França e faz quase todos os dias com a imprensa. Vê toda manifestação popular como terrorismo ou “coisa de comunista”. Já declarou que vai varrer do mapa os opositores políticos, expulsando-os do país, com o objetivo de fazer “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”. Chamou nordestinos de “Paraíba” e disse que todo cearense é “cabeçudo”. Já fez a apologia do trabalho infantil e faz pouco caso do trabalho escravo. No absurdo mais recente, diz que “esquerda não merece ser tratada como ‘pessoas normais’”. E não se cansa de fazer observações irresponsáveis sobre assuntos sérios nas suas indigestas redes sociais. Esperar o que do presidente de uma nação que se comporta assim? Não dá mais para fingir que nada está acontecendo. Ou, como canta Gonzaguinha, “não dá mais pra segurar, explode coração”.