Que país é este? Um desabafo!

Que país é este que autoriza a violência, a tirania e a crueldade?  Que país é este que só tem olhos para o mercado e o lucro? Que país é este que vira as costas para a população carente, explorada e intimidada diante da truculência de quem deveria garantir a segurança? Que país é este que mata índios, negros e pobres e torna ainda mais precária a vida de quem já não tem quase nada? Que país é este que mantém um governo tóxico que liberou, em menos de um ano de mandato, o uso de 400 produtos venenosos, além de tantos outros venenos que nos contaminam cotidianamente?

Que estado é este em que livros são encaminhados para virar papel higiênico? Que estado é este que só pensa em privatização? Que estado é este que mantém os salários atrasados, parcelados, e tenta há 48 meses normalizar o que não é normal? Que governo é este que ainda quer tirar do funcionalismo benefícios adquiridos, como o percentual de insalubridade, entre tantas outras medidas de um pacote salvador, que só salva os já salvos?

Perdemos a decência, o respeito pelo outro, a possibilidade de um diálogo aberto, o desejo de viver em harmonia na diversidade.

Diante desta aniquilação de direitos em nome de uma “crise fiscal” e da desumanização da vida a cada minuto, lembro o que escreveu o ator, diretor e produtor Rodrigo Pena, em agosto de 2019, na revista Joyce Pascowitch: “Como projeto de nação, sociedade, nunca fomos tão ridículos”. E mais uma vez ouço a voz do poeta João Cabral de Melo Neto: “não há guarda-chuva contra o mundo”.

Falta dinheiro? Falta. É desorganização dos governos e do poder público de um modo geral? É. O Estado está falido? Está. O desvio de verbas é uma realidade? É. O uso é equivocado? É. De quem é a responsabilidade? Da máquina administrativa inchada, do excesso de funcionários, do custo do que é público, como educação, saúde, assistência social e previdência, dizem os donos do poder, que só sabem jogar a culpa da falência nos trabalhadores, por conta dos salários e das vantagens que recebem. Sempre a velha e equivocada retórica. É bom que se diga que direito social não é mercadoria e que a solução não está na adoção de modelos comprovadamente fracassados.

A política neoliberal do estado mínimo aniquila conquistas e direitos fundamentais da população, amplia a desigualdade, estimula ainda mais a concentração de riqueza e poder nas mãos de muito poucos, agrava os problemas, gera altos índices de criminalidade, queda dos índices de educação e de qualidade de vida. Mas os governos insistem. Partidos, políticos, empresários e seus asseclas de um modo geral não querem sair de suas bolhas. São incapazes de um pacto decente pela nação e só pensam em vender tudo, liquidar com o patrimônio. Privatizar, privatizar, privatizar é a ladainha de sempre, potencializando o pior do neoliberalismo, a desumanidade.

Pelo viés das forças políticas conservadoras, autoritárias e preconceituosas, dos liberais que defendem o capital a qualquer custo, os empresários e o mercado não têm responsabilidade pelo que aí está. As empresas seguem protegidas e sonegando seus impostos milionários. E os políticos só têm olhos para seus umbigos. Não abrem mão de campanhas escandalosas, onde o dinheiro brota de todos os lados, para assumir o comando de um município, de um estado, de um país. Ou virar senador, deputado, vereador. Não têm vergonha de rifar cargos, encobrir falcatruas e tirar verba da saúde e da educação para engordar o fundo eleitoral. Discursam nos palanques como salvadores da pátria. Arrancam da cartola soluções milagrosas e fazem promessas mirabolantes. Depois de eleitos, passam quatro anos fazendo projetos estapafúrdios e inúteis, lamentando exaustivamente a falta de dinheiro e se eximindo de qualquer responsabilidade concreta.

Por que se candidatam? Que fascínio é este pelo comando de estruturas falidas? Que vantagens levam, afinal, para encarar tantas dificuldades? Os discursos até podem parecer ingênuos, mas não há ingenuidade nesta bolha onde tudo ou quase tudo se compra. Há, sim, esperteza, ganância e descaso com as pessoas. Portanto, os discursos são cínicos. Desumanos. Primários. É um deboche tanta queixa e tanta falsidade, enquanto a população espera um projeto positivo, por mínimo que seja.

Se tanto batalham para ser prefeito, vereador, governador, deputado, senador, presidente, para ocupar qualquer cargo, é porque querem fazer algo que valha a pena. Na minha santa ingenuidade, algo que contribua com o desenvolvimento sustentável, com a educação, a saúde pública e o bem estar de uma comunidade.

Que nada! É apenas o poder pelo poder que move esta gente. E, claro, as benesses que o poder gera e que nós pagamos.

Todos os que aí estão em seus postos, muito bem pagos, de líderes salvadores da pátria sabiam o que estavam assumindo ao se candidatar. Sabiam das suas responsabilidades com os votos que receberam. Ao trabalhar para serem eleitos não deveriam ter consciência da árdua tarefa que os aguardava e honrar a dimensão do cargo? Aquele ou aquela que se candidata, faz campanha, acordos, alianças, viaja o país inteiro, não deveria pecar pelo descaso. Até porque ninguém é ingênuo nesta seara.  Por que, então, o ridículo discurso da penúria, cheio de ameaças, repetido exaustivamente do Oiapoque ao Chui, depois de eleitos? É patético. E seria cômico se não fosse trágico.

O Fazer Cotidiano

Quero fazer aqui uma rápida reflexão sobre o trabalho a partir da perspectiva humanista. As observações consideram a minha trajetória como profissional, e como chefe que fui em alguns momentos da vida. No centro da cena, trabalhadores e a complexidade do fazer cotidiano.

Não há, em qualquer atividade, uma simples execução de algo, por mais mecânica que seja. Há a convocação de um indivíduo único. Há subjetividade. Há singularidade. O fazer, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo. É impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o indivíduo, sua história e suas escolhas. As pessoas é que fazem a diferença.

Mesmo que as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, essenciais para a sobrevivência e a organização, elas não eliminam a necessidade de cada um produzir o saber. O sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares e promove negociações entre o instituído e o inesperado. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como definitivas correm o risco de desconsiderar a vida que surge a todo instante. As determinações que chegam unicamente por imposições do meio exterior podem afetar a autoestima dos indivíduos e são nocivas à saúde.

E a saúde do trabalhador começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em que vive, em função de normas próprias, elaboradas por sua história, que ninguém pode tirar. Por isso, a necessidade de um olhar amplo e pluridisciplinar, capaz de ver o trabalho e a atitude humana de forma indissociável. Um depende do outro. Há que se considerar a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, o saber investido por cada na atividade que executa, a criatividade e o bem estar dos indivíduos no desenvolvimento de suas tarefas.

Sempre me encantou esta possibilidade, que aprendi com a linguista Marlene Teixeira, minha irmã, e suas pesquisas e estudos sobre linguagem e trabalho, a partir da Ergologia, disciplina desenvolvida pelos franceses Yves Schwartz, filósofo, e Pierre Trinquet, sociólogo. Eles analisam a atividade de trabalho com o foco no humano, questão a ser pensada profundamente diante das mudanças anunciadas com a nova Previdência Social, em pauta no Planalto Central do país, cada vez mais distante do Brasil real.