Pra onde ir?

Há um sentimento devastador no ar. Um desânimo. Um cansaço. Um desencanto. Uma embriaguez que entorpece os sentidos, o corpo e a alma. Um vazio. Um medo. Uma tristeza. Um esperar pelo que já não é. E não vai voltar.

Há um reacender do preconceito, que sinto a cada andar pelas ruas. Olhares invasivos. Curiosidade desmedida. Risos disfarçados. Deboche. Piadas entre dentes. E o que mais inquieta e entristece é que essa discriminação vem de jovens normalmente bem vestidos, descolados, que andam em grupos.  Então, canto baixinho, quase como um lamento, a música de Caetano Veloso, “Dom de Iludir” – “Não me olhe / Como se a polícia andasse atrás de mim”. E sigo, mesmo que não tão forte e cheia de coragem como gostaria de seguir.

A pergunta é: O que está acontecendo, justamente agora, quando acessibilidade e inclusão são temas muito discutidos, que estão na pauta das escolas, das instituições, das famílias, da mídia? Justamente agora, quando conseguimos encarar o preconceito sem meias palavras?

É possível entender, apesar da indignação que esta tentativa de entendimento provoca. Quando nos damos conta de que há hoje no Brasil uma autorização explícita que não está voltada para a empatia, a resposta está dada. Para onde nos leva? Certamente não é para o diálogo e para uma convivência harmoniosa. Muito pelo contrário. O caminho é a barbárie, o armamento, o ódio. Acirra o que há de mais desumano nos humanos, o irracional. Precisamos mesmo nos defender uns dos outros? Andar como se nossas vidas fossem feitas de inimigos?

Estamos sem freio. Perdemos o rumo na tão festejada era da tecnologia, que faz automóveis voarem, possibilita investigações extraordinárias, conecta e vigia todo mundo, mas não consegue deter o mal estar do nosso dia a dia. Perdemos o sentido do humano, o olhar acolhedor, a solidariedade. No que estamos nos transformando? O que queremos? Por que queremos? Para onde vamos? Qual o sentido do nosso andar?

É um andar que tropeça em uma população miserável e triste, que anda pelas ruas, cresce assustadoramente, e fingimos não ver. Ou nos defendemos desta visão porque não suportamos. Olhares e corpos cansados, perdidos, famintos, enlouquecidos, jogados nas calçadas ou puxando carroças pesadas, em uma cidade bonita, ancorada por um rio imenso, com um pôr do sol maravilhoso. Cidade que parece ter perdido a noção do que chamamos de humanidade.

Sabemos que nem todos os que estão atirados pelos becos querem dali sair. Mas sabemos também que há muitos que precisam apenas de uma palavra, de um gesto, de uma nova oportunidade ou de alguém que os estimule a retomar o que largaram pelo caminho. A cidade que vejo hoje abandonou seus encantos, sua sensibilidade, suas ruas esquisitas cantadas pelo poeta e estampa uma pobreza nunca antes vista pelos meus olhos. Pisou nos versos, esqueceu as rimas e já não sabe da sua gente.

Um grito preso na garganta

Os anos 1980 ficaram conhecidos como a década perdida. Saímos de uma ditadura cruel, que perseguiu, censurou, torturou e matou sem piedade, e mergulhamos em uma “abertura lenta, gradual e irrestrita” proposta pelo ditador Ernesto Geisel. Panos quentes no passado autoritário. Melhor não falar. Melhor, ainda, negar. Mas uma grande pressão popular gerou o movimento Diretas Já e o que se conseguiu foi uma esfarrapada eleição indireta, com Tancredo Neves na linha de frente, que adoeceu e não chegou a assumir. Morreu em 21 de abril de 1985. Seu vice José Sarney, que sempre estava ao lado do poder, não importava de onde viesse, articulando e negociando, assumiu a presidência. Dívida externa infinita, inflação altíssima, economia conturbada. E vieram os planos para salvar o país – Cruzado, Bresser, Verão. Até que apareceu o milagroso Caçador de Marajás, Fernando Collor de Melo, capa da Revista Veja. O discurso, moralista e salvador, prometia colocar ordem na casa. E como gostamos de acreditar no conto da carochinha, elegemos o senhor da caça. Deu no que deu!

É mais ou menos desta época a crônica que segue.

Um grito preso na garganta

A noite avança inquietante. Talvez porque seja domingo e as ruas estão quase desertas. Faz frio e a cidade se recolheu cedo. Nem os bêbados cruzam na sua confusão de pernas em busca de um porto seguro. Nem os contumazes frequentadores dos bares da madrugada, em busca de um papo para disfarçar a solidão.

A noite avança misteriosa. Quase sinistra no silêncio pesado das suas esquinas vazias. Os poucos sinais de vida despontam de algumas janelas iluminadas e da minha respiração tensa, que nunca senti tão forte. Caminho espreitando os tantos espaços em minha volta. Medrosamente. É um tempo de guerra, fria, surda, contida, dolorosa. E tenho um grito preso na garganta, que esperava se diluísse com os novos tempos. Mas não! Segue preso e quase me sufoca.

E lá vem a lembrança de uma canção, de Caetano Veloso, mais uma – “eu tenho um beijo preso na garganta / eu tenho um jeito de quem não se espanta / eu tenho corações fora do peito”.

A esperança alimentou em mim a certeza de mudança, mas os novos tempos chegaram velhos e corrompidos. Aninharam-se na mesma cama do poder prostituído e se encolheram diante do desafio de jogar o jogo da verdade e recomeçar fora dos alicerces que sustentavam a corrupção e a mediocridade.

A noite avança escura e triste. E eu caminho apreensiva, como se um batalhão de fantasmas me perseguisse. Não os adoráveis fantasmas da fantasia infantil. Os fantasmas da vida real, que impediram a mudança. E agora querem impedir que se questione, se fale, se diga não. Querem nos calar, instalados solidamente na farsa que insistem em chamar de democracia.

A noite avança inexoravelmente. E a manhã que não chega nunca!

Entre dores e delícias

Há dias de desencanto, bem difíceis, em que olhamos sem filtro para a miséria física e moral que nos cerca e ficamos especialmente vulneráveis – “e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água”.

Há dias em que não entendemos o movimento do mundo ao redor e só desejamos um pouco de paz de espírito – “a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Há dias e noites em que os noticiários da tradicional e conservadora mídia brasileira estampam um jogo político tão sórdido, na voz de parlamentares tão mesquinhos, que o desejo que nos pega profundamente é o de ir embora – o que não seria uma solução. Mas o que mais assusta, em se tratando de meios de comunicação e formadores de opinião, é a ausência de uma análise profunda dos fatos, a partir de vários pontos de vista.  O viés é um só, pesado e medido.

Há dias em que a pergunta que não quer calar é: O que fazem vereadores, deputados e senadores eleitos pelo povo? A minha resposta, lamentavelmente, é “vivem muito bem, obrigado, com polpudos salários, inúmeros assessores e incontáveis visitas às bases eleitorais”. E ainda nos envergonham com projetos absurdos. Temos o deputado que sugere incluir doce de leite na merenda escolar. Ou a solicitação insana do senador em prisão domiciliar querendo passar férias no Caribe. É o vale-tudo que reina absoluto na ilha da fantasia no Planalto Central do país e suas subsidiárias.

Há dias em que o melhor é não pensar e cantar bem alto e em bom tom para todos ouvirem – “vai passar”.

Há dias em que os ombros não suportam as dores da alma, mas essa dor pode ser muito particular, relacionada à sensibilidade e à vivência de cada indivíduo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sei da minha!

Há dias em que não encontramos consolo. Mesmo assim, a vida segue no seu ritmo. Não paramos.

Mas, de repente, encontramos no meio do caminho um pequeno café, quase escondido. Os olhares dos proprietários, mãe e filho, são acolhedores. Há respeito. Há dignidade. Há alegria.

Então, ali sento para almoçar com calma e tomo um expressinho de sobremesa. Tudo muito devagar. As nuvens escuras vão se dissipando. O início da tarde já não parece tão sombrio. E o céu vai ficando cada vez mais azul.

Leio uma entrevista do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que ele diz: “Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes”. Leio outra entrevista, essa do israelense David Grossman, falando sobre a capacidade da literatura de expandir nosso universo interno: “Abra um livro para compreender seus inimigos”.

Pequenos gestos e leituras me mostram que a humanidade não vai sucumbir. A vida cotidiana é feita desses tantos retalhos que aquecem a alma, trazem conhecimento, alimentam o espírito e espalham confiança.

Então, sigo.

Observação – Citação das canções “Gota d´água”, “Roda Viva” e “Vai passar” de Chico Buarque e “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso.

Ausência e ressignificação no país da delicadeza perdida

No dia 5 de abril de 2015, um domingo de Páscoa, Marlene, minha irmã, com nanismo como eu, levantou asas rumo ao infinito. No dia 5 de abril de 2016 escrevi meu primeiro texto para este blog, com um título, inspirado em uma canção de Caetano Veloso, que diz muito sobre nós duas – “Dores e delícias de ser o que se é”. No dia 21 de abril de 2019, mais um domingo de Páscoa, faço aniversário. E este é meu post de número 100. As datas marcam, assim como a ausência e a saudade, que ainda trazem vestígios profundos de tristeza e fragilidade, mas também de coragem, alegria e ressignificação.

É certo que nesses quatro anos agucei minha sensibilidade e meu olhar para a condição humana, inexoravelmente complexa. Hoje entendo muito mais sobre os efeitos de perdas, afetos, respeito, cuidado com o outro e acolhimento. Entendo de parcerias e de amor, o que tenho da família, dos amigos e das crianças incríveis que me cercam, me sacodem e me renovam.

É certo que aprendo cotidianamente. Leio, ouço, observo, falo e escrevo muito. Compartilho uma vastidão de sentimentos. Recuso a radicalização. Choro. O ano de 2019 chegou sem dó, nem piedade e está exigindo muito de quem lutou, sonhou e acreditou que seria possível mudar o mundo, como eu. A esperança, às vezes, escapa pelas minhas mãos. O descaso explícito com os trabalhadores e com os aposentados, que perdem direitos a cada amanhecer, dói. Assim como dói a miséria das pessoas que andam pelas ruas arrastando suas vidas sem perspectiva, algumas refugiadas na loucura.

É fato que ando na contramão. Sempre andei. Mas o mundo ao redor mudou muito. Ficou intolerante, perverso e violento. É inegável o rastro fascista e exterminador que se espalha pelo país para nos amedrontar. É inegável a autorização da barbárie quando o chefe maior posa com gestos de arma. É inegável o desmonte da educação e o desconhecimento das condições de vida das famílias de baixa renda quando a proposta é que as crianças fiquem em casa em vez de ir para a escola. É inegável o fazer e o desfazer, a ordem e a contra ordem, o fascínio absurdo pelas manifestações irresponsáveis nas redes sociais. É inegável que os neoliberais têm muito medo da democracia, do pensamento libertário, de um povo que priorize a dignidade. O bem estar social não lhes interessa porque ainda acham que estão na casa grande e precisam da senzala.

Sobre o medo de um futuro que parecia tão nebuloso, Marlene e eu falamos muito em nossas conversas entre fevereiro e março de 2015, que em nenhum momento imaginei que seriam nossas últimas reflexões partilhadas. Conversávamos sobre tudo. Queríamos entender por que a diversidade de pensamento e comportamento era tão recusada – as tantas vozes dissonantes que buscavam pluralidade, igualdade de direitos, inclusão, acessibilidade, educação plena, cidadania. Nossos pressentimentos não eram bons, mas jamais pensamos em um Brasil que poderia chicotear e matar. E não acolher sua gente.

Hoje, nesses dias sombrios no país da delicadeza perdida, penso que efetivamente necessitamos sair das bolhas que nos sufocam e isolam. Recusar a polarização, as provocações e os discursos de ódio. Não entrar no jogo imposto pelo inimigo para nos dividir e fragilizar e, sim, buscar a união. Para além da banca de negociações medíocre e do toma lá, dá cá da política praticada hoje no Brasil em todas as esferas, é fundamental respeitar as divergências e lutar por um bem maior, a dignidade de cada um de nós.

Acessibilidade no Sarau Elétrico

A seguir, minhas leituras no Sarau Elétrico sobre Acessibilidade, na noite de 25 de setembro, conduzido por Kátia Suman e Diego Grando. E com a participação de Sidito Magnífico.

“Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – Frases da canção Dom de Iludir de Caetano Veloso que funcionam como um desafio para mim.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina artigo publicado no jornal Zero Hora em 28 de julho de 2014. Um belo texto! Ele lembra do primeiro anão que conheceu, ao escrever sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Quando li, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos poucos, segundo as estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande. Às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, muitos oriundos do universo das histórias infantis, passando pelo grotesco, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. A sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade e exigência. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade. Mas é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder alimenta uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por alguns políticos que querem ofender outros), “anão diplomático” (usado em discussões de políticas de relações exteriores). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados do baixo clero no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, já ouvi e ouço muita piada infame. Sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparada que eu esteja para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se os olhares curiosos, os dedos apontando, a invasão de privacidade, perguntas indiscretas e perversas, o riso, o toque desrespeitoso, os que nos ignoram nas filas, nos balcões, nos bancos.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou meus horizontes. Caminhada que teve a participação da arquiteta Flavia Boni Licht quando ela pediu que minha irmã e eu escrevêssemos sobre as dificuldades cotidianas enfrentadas por pessoas com nanismo para uma aula na faculdade. Uma proposta instigante que nos fez desacomodar conceitos clássicos, enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais. Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher. Por isso, aceitei o desafio do portal Sul21 e passei a escrever regularmente sobre essas questões no blog Isso não é comum.

Refletir coletivamente sobre o cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência, se é que podemos chamar assim, é cada vez mais necessário. A diferença exclui porque a sociedade, historicamente, sempre reservou um lugar para aqueles que fugiam dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro trabalhando como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Assim como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal!

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença, física, intelectual ou mental. Pessoas cegas, pessoas que andam em cadeiras de roda, crianças com Síndrome de Down e Autismo que têm matrícula negada em escolas regulares. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo. Não estamos preparados para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. E cada vez mais esse despreparo fica evidente

É o que nos cabe nesse latifúndio da dita normalidade. Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, do caráter criativo e inusitado das pessoas que está no encontro de suas múltiplas possibilidades e capacidades. Se não reagirmos aos discursos já dados, não desafiaremos nenhuma norma e não mudaremos nada.

Encarar a exclusão é tudo de ruim que ela provoca é tarefa urgente. O espanto necessário só vai surgir no momento em que as margens desse latifúndio que segrega forem extrapoladas. Mas há que se ter sabedoria! Às vezes, somos jogados em uma espécie de limbo. Viramos seres invisíveis pela dificuldade do enfrentamento. E há que se ter cuidado para não cair na vitimização, no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos e clichês. Há que se evitar os estereótipos e o discurso da superação. Não precisamos matar um leão por dia. Precisamos viver naturalmente com a nossa deficiência, falar sobre a diferença, encarar uma fragilidade que é da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade.

Cabe, portanto, a nós, com a nossa diferença, seguir subvertendo a ordem. Recusar os lugares determinados. É vital fazer com que a sociedade entenda as múltiplas possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Não somos coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com nossos limites, sonhos, aptidões, a nossa singularidade. Por que, então, não falar abertamente do que somos? Seres tão humanos quanto qualquer outro, com vontade de viver livres, leves e soltos. Volto a Caetano Veloso: “De perto ninguém é normal” – Vaca Profana.

Para encerrar, uma frase do escritor e jornalista russo Vassili Grossman, do livro Vida e destino, um épico moderno que faz uma análise das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial: “Em mais de um milhão de isbás (habitação característica dos camponeses do Norte da Europa e da Ásia, mais particularmente da Rússia, construída geralmente com madeira de pinheiro) russas de aldeia, não há, nem pode haver, duas que sejam exatamente iguais. Tudo o que vive é único. É impensável que sejam idênticas duas pessoas ou duas roseiras… Onde tentam, à força, fazer desaparecer suas singularidades e peculiaridades, a vida se extingue”.

Tudo dói!

“Tudo é singular / Dói / Tudo dói” – Canção “Tudo dói”, de Caetano Veloso.
Vivemos um tempo de censura, sim! E o mais grave, no meu entender, tempo de uma implacável autocensura. Não vou falar, não vou publicar, não vou comentar, não vou correr o risco de desafiar o coro dos contentes. Até porque as redes sociais, onde todo mundo pousa e julga, usam e abusam das interpretações grosseiras e medíocres, transformando tudo num debate insano e sem sentido. Aqueles que ousam manifestar um pensamento libertário através das artes visuais, do teatro, do cinema, da dança, das manifestações públicas, são muitas vezes interceptados ou condenados por um tribunal sem rosto. Um tribunal impulsionado pelo autoritarismo e pelo desrespeito aos direitos individuais dos cidadãos. O cenário que está posto é de desconforto, desconhecimento, ignorância, mesquinharia, preconceito, medo.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Quando a tua sensibilidade está à flor da pele, não há como não ver a dureza da vida. Quando olhar para o outro é um movimento inerente ao teu estar no mundo, não há como não desesperar. Quando a miséria física, social, moral e política é jogada na tua cara assim que colocas o pé na rua, não há como não chorar. Quando a fome fala mais alto e as crianças perdem a inocência em busca de qualquer guarida, é porque perdemos o mínimo sentido de humanidade. Quando a realidade se torna insuportável, a dor não cessa. Tudo dói!

Por José Walter de Castro Alves

Quando a meritocracia vira discurso, assinamos embaixo do “não tenho nada a ver com isso, eu consegui” e proclamamos uma razoável isenção. Não temos qualquer compromisso. O subemprego e o desemprego crescem. A miséria está escrachada nas esquinas. Mas certamente este é um movimento de vagabundos, de quem não quer trabalhar. E lá vamos nós para os refúgios confortáveis. Não temos nada a ver com isso. Somos únicos e tudo o que temos é fruto da educação que tivemos e da nossa bárbara competência. Como se a vida e o fazer cotidiano de cada um não estivessem indiscutivelmente ligados. Posso trabalhar em paz porque alguém faz a minha comida, cuida da minha casa, lava a minha roupa, atende meus filhos, cuida dos meus velhos. Tenho lazer garantido porque o meu salário permite. Saio de férias quando quero porque sou o meu patrão e tenho quem me ampare no trabalho.

Então é bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos com tanta facilidade? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que ainda não entendemos que não somos ninguém sem o outro? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo?

Mais uma vez, a arte a me socorrer!

“Eis o que eu aprendi / nesses vales / onde se afundam os poentes: / afinal tudo são luzes / e a gente se acende é nos outros. / A vida é um fogo, / nós somos suas breves incandescências” – Mia Couto no livro “Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra”.

Tudo dói!

Caetano Veloso tem uma canção chamada “Tudo dói”, quase um lamento, que inquieta como o mal estar e a aflição que vejo estampados por aí.

O canto de Caetano é certeiro. Tudo dói.

A radicalização grita. Os ares estão pesados. Os humores destemperados. E a vida cotidiana à mercê da violência. Nem a leveza natural, comum na entrada do outono, se fez sentir. A deterioração parece ter tomado conta de tudo, física e espiritualmente. A miséria explode nas esquinas como nunca, assim como a loucura de seres que andam sem rumo.

Dói ver o Brasil comandado por uma ralé política que compra tudo e se protege no foro privilegiado. A turma do baixo clero, da negociata, do favorzinho, do deixa pra lá, dos encontros furtivos se lambuza enquanto a dignidade do país vai ladeira abaixo.

Dói ver as pessoas sem perspectivas. Dói perceber os olhos esbugalhados e perdidos, que traduzem o desespero pelo abandono. Dói ver crescer nas ruas o número de mães, crianças e adolescentes pedindo dinheiro e comida. Dói ver o papeleiro puxar conversa, mas antes pedir desculpas pela abordagem dizendo que não é bandido – “Não tenha medo de mim, moça, tô fazendo o meu trabalho honestamente. Não faço mal a ninguém, gosto de conversar”.

Dói sentir medo de uma pessoa que se aproxima e que é gente como a gente. Dói ver a incapacidade do olho no olho. Dói perceber que quase já não temos condições de uma conversa franca, educada, gentil. Dói o impulso de fugir.

Dói a ausência de governos decentes e políticas públicas que realmente façam a diferença. Dói a falta de comprometimento de quem foi eleito há pouco tempo e de quem congelou no poder há anos e lá vive muito bem com benesses e discursos retrógrados. Dói o voto por causas próprias e não pelo coletivo. Dói ver que a corrupção espalhou-se como praga. Dói pensar que chegamos ao fundo do poço.

O que estamos fazendo com o processo civilizatório que construímos tão arduamente?

DÓI!

Mas é o que está posto.

Há uma distância intransponível entre a população, o poder público e o poder financeiro.  Não falamos a mesma linguagem. Não temos as mesmas aspirações. Não fazemos parte dos planos de quem está no comando da nação. Somos, na verdade, a pedra no caminho, o cisco no olho, o desconforto. Somos a voz dissonante de uma cidade, de um estado e de um país com políticos que acham que a livre manifestação de cidadania se resolve com relho ou chicote. Para quem governam esses senhores e senhoras que desconhecem direitos mínimos dos que constroem a vida cotidianamente com o seu trabalho?

O que temos hoje são governos que mostram um descaso absurdo pelo bem comum, pelo patrimônio e pelas riquezas naturais do país. Governos guiados por uma minoria que detém o poder financeiro e joga em causa própria. Uma elite gananciosa, escravocrata, que não abre mãos dos seus privilégios, que se inquieta com a redução da desigualdade, com qualquer tipo de projeto libertário, sonha com a volta da senzala e pisa no pouco que nos resta de dignidade.

Quem dá mais?

O que nos levou a esse retrocesso brutal?

DÓI!

Até quando?

Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi
“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi
“O avesso”, por Tamar Matsafi

Não, não é um pesadelo

Em busca de horizontesjpg
Em busca de horizontes, por Tamar Matsafi

É real. E estamos bem acordados, de olhos bem abertos diante de atitudes ultrajantes, torpes, machistas, que humilham, ofendem, roubam direitos, intimidam, sem qualquer resquício de humanidade e respeito. Estupro coletivo de uma jovem indefesa por 33 homens. Crianças com deficiência rejeitadas em escolas particulares. Movimento LGBT condenado por núcleos conservadores e por religiosos. Negros hostilizados. Índios dizimados. Agressão disseminada em espaços voltados para a educação.
A escancarada apologia da tortura e do estupro, a violência e a supressão de direitos básicos trazem na sua essência uma brutal reação à diversidade e às conquistas das minorias, que são conquistas de todos nós. O objetivo é empurrar toda pessoa que apresenta alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para um lugar de esquecimento, de não participação, uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A discriminação que nos é imposta vem da construção de uma teoria da normalidade sem fundamento algum.
Tempos sombrios.

“Joga pedra na Geni! / Joga pedra na Geni! / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque.

Não, não é um pesadelo. É o que é. Perdemos o sono e está difícil sonhar.
A realidade cruel não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa decide os destinos do país com olhos vorazes voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam pelas vias mais sórdidas, compram silêncio, poder, conveniência e recheiam instituições financeiras e bolsos já fartamente recheados. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados parecem ser os únicos responsáveis pela crise da previdência social. E é recomendável encolher direitos, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Tudo para alinhar os descaminhos do Brasil.
Tempos de desencanto.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Índios e padres e bichas, negros e mulheres / E adolescentes fazem o carnaval / Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Morrer e matar de fome, de raiva e de sede / São tantas vezes gestos naturais”. “Podres poderes”, de Caetano Veloso.

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Construção, por Tamar Matsafi

Quando lancei este blog com a proposta de refletir sobre exclusão, preconceito e limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença, não imaginei que teria pela frente dias tão vertiginosos. Falar sobre estas questões me parece ainda mais necessário diante de tudo o que está acontecendo. Lamentavelmente, para uma sociedade que se mostra incapaz de encarar e assimilar a diversidade, em razão de suas aspirações perfeccionistas, é muito mais fácil mascarar, ignorar, eliminar.Tempos de não deixar passar.

“E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. “Construção”, de Chico Buarque.

Reafirmo e quero deixar claro que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, anula-se a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula-se a criatividade. Anula-se a democracia. Anula-se o humano.
Enquanto os defensores dessa casta, representada pela tal “raça pura” acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância.
O psicanalista Robson de Freitas Pereira, no artigo “Pra não dizer que não falei de flores”, publicado no Sul21, em que comenta a Noite dos Museus de Porto Alegre, refere-se ao discurso da intolerância como uma tentativa de “expulsar do próprio corpo a diferença e a fragilidade”.

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Temos pressa, Tamar Matsafi

Volto a dizer que a soma de tantas imperfeições é o que nos faz gente e nos torna infinitamente inquietos e utópicos. Não queremos apenas atrapalhar o trânsito “feito um pacote tímido”. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como seres humanos com direito à vida plena.
Queremos conversar civilizadamente sobre o que somos. E volto ao texto do Robson. “Tentar expulsar, eliminar o que nos angustia é impossível – Freud já nos interpretou: não somos pacíficos por natureza, civilizar é lidar com a angústia e fazer com que as palavras tenham mais valor que a espada, o revólver ou a estupidez”.
Tempos de não desistir.

“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa”. “O Pulso”, de Marcelo Fromer, Tony Bellotto e Arnaldo Antunes.