Estamos todos nus

“O Brasil está nu. E isso não é uma performance artística”, escreveu recentemente a jornalista e ativista Nanni Rios, proprietária da Livraria Baleia, em Porto Alegre. Estamos nus e desgovernados. Traduzindo: Sem governo! Despencando? Ladeira abaixo? É bem provável. O medo e a insegurança reverberam por todos os espaços, independente de classe social – abastados, médios e pobres. E ecoam especialmente entre os mais velhos, os já doentes, os mais pobres, os que vivem do trabalho informal, única fonte de renda da maioria da população. Assim como ainda reverbera o egoísmo absurdo daqueles que se jogaram nos supermercados e abarrotaram carrinhos com alimentos e produtos de limpeza. E a ganância de empresários desprovidos de empatia. Mas temos antídotos. E a solidariedade vai se manifestando de um jeito forte, acolhedor, comovente, a distância, como está prescristo – Fique em Casa. É necessário agir com rapidez e firmeza para evitar o caos. Por isso, muita atenção navegantes desta nau desorientada: Cuidem-se. Impossível confiar em um governo que consegue ser mais nefasto do que os regimes fascista e nazista, que contaminaram a Europa e o mundo no século XX.

Quando médicos especialistas da área de infectologia no mundo inteiro pediam que as pessoas evitassem aglomerações, o governo brasileiro minimizou. Espaços culturais fecharam. Artistas cancelaram apresentações. Shoppings restringiram a entrada de pessoas. Voos foram cancelados. Mesmo assim, contrariando todas as normas, o presidente desdenhou, tratando o caso como histeria. E ainda foi para as ruas, com a sua irresponsabilidade e arrogância, tão peculiares, apertar a mão de eleitores, tão sem noção quanto ele.

Quando as vozes consequentes do país provaram que não havia paranoia nem exagero nas medidas urgentes que precisavam ser tomadas, as vozes do governo continuaram desconsiderando a possibilidade de pandemia. E o presidente pontuou com uma declaração estapafúrdia: “Se eu resolvi apertar a mão do povo, é um direito meu, eu vim do povo. Uma maneira de mostrar que estou junto com eles na alegria e na tristeza. Se me contaminei, a responsabilidade é minha”. Responsabilidade? Não! Insanidade, sim. É óbvio que, se já estava contaminado, deve ter contaminado muita gente. Mas a soberba fala mais alto.

“Burrice mata”, escreveu o cineasta Jorge Furtado. E o panelaço veio. É real. O mundo está contaminado. E o governo, que assim como está não está, nunca se sabe, foi obrigado a mudar o tom do discurso. Cinicamente mostrou preocupação com o avanço da doença, sem dar o exemplo necessário de um chefe de estado.  Caiu a ficha? Não! Precisamos de medidas para conter o que vem por aí. Mas como confiar em quem não tem a mínima coerência, só tem olhos para a elite econômica, empresários e banqueiros, e brinca com a dor dos menos favorecidos? Como confiar em quem tem um filho desgovernado, cheio de razão e sem noção de diplomacia, que culpa a China por tudo?

O contágio, a partir dos cálculos estatísticos feitos até agora, vai aumentar muito ainda, o que certamente provocará pane no sistema de saúde se não forem tomadas medidas drásticas para contenção. Não há mais como negar. Está no ar. Está nas ruas. Está nas esquinas. Está nas nossas portas. Precisamos ficar isolados em nossas residências para evitar a propagação. Estamos vulneráveis, emocionalmente frágeis, e temos muitos exemplos no passado para rever e não repetir.

Logo, precisamos de uma Nação firme e bem posicionada, com uma estrutura forte na área da saúde para dar conta do que vem e proteger a população. Até o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, que é médico, deixou o período sabático e declarou: “Temos que revalorizar a política”, perplexo diante do péssimo exemplo do presidente, “com atitudes que desdenham de orientações mundiais, deseducam, prestam um desserviço”.

Como escreveu o ator e diretor de teatro Zé Adão Barbosa, precisamos de “um Estado que olhe para os trabalhadores informais, sem salário fixo, sem condições de trabalhar em casa, que não terão como manter seu sustento, e também para os artistas que vivem de seus espetáculos e de suas aulas sem outras fontes de renda, muitos sem casa própria. E a luz? E a internet? E o telefone? E a comida na mesa? Quem paga por isso sem trabalhar? Felizes dos que poderão ficar em casa sem prejudicar sua vida econômica e familiar. Por isso, juntamente com as indicações de cuidados e prevenções, pensemos em uma maneira de sermos solidários para com os que terão as vidas mais devastadas neste momento caótico”.

E a população das vilas abandonadas, sem saneamento básico, sem recursos, sem nada? E a população de rua, sem guarida? Cuidem-se navegantes desta nau desgovernada!

O jornalista Rafael Guimaraens questionou a atuação política e a vida pública de um presidente que já homenageou assassinos como Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra. Que já declarou que a ditadura deveria ter matado mais 20 mil e que tortura é cascata. Que quer distribuir armas à população. Que propõe acabar com os redutores de velocidade no trânsito. Que quer acabar com o Mais Médicos. Que estimula a violência em todos os níveis com suas falas racistas, machistas e homofóbicas que estimulam o assassinato de jovens negros, da comunidade LGBT e o feminicídio. E agora, diante de uma das maiores crises que o mundo já enfrentou, coloca-se ao lado do poder econômico mais voraz, lança medida que beneficia os empresários e vira as costas para o povo trabalhador.

O que pensar e dizer diante de tanto desrespeito pelo outro? Penso e digo que a irresponsabilidade diante da pandemia do coronavirus é crime, que temos um presidente de comportamento psicopata, vulgar, fixado em enviar recadinhos pela rede social, que só olha para os seus milicianos, despreza quem não lhe faz a corte e agora deu para se elogiar.

E me pergunto: Diante do quadro político trágico que aí está o que vamos fazer? O que vai fazer o Congresso Nacional? O que pensam os deputados? Teremos condições de eleger pessoas honestas? Qual a responsabilidade de quem sonha com lideranças sérias? Precisamos radicalizar? E a esquerda o que propõe? Seremos atropelados mais uma vez?

A situação que está posta é grave. A turbulência está só começando. Questões econômicas, sociais e trabalhistas preocupantes estão emergindo e vão explodir. Trabalhadores de carteira assinada, que estão trabalhando de casa e cuidando dos filhos porque não tem escola, já estão assoberbados, cumprindo uma carga horária desumana. Não há limite e poucos empregadores se dão conta que o regime é de escravidão. Onde está a conscientização dos que discursam pelo respeito ao trabalhador? Será que a pandemia veio para fazer o mundo repensar prioridades, lideranças, destino? E para fazer com que cada um de nós reflita sobre a maneira como nos relacionamos com quem presta serviço, seja quem for? A escravidão acabou mesmo? Infelizmente, não. E o Brasil está cheio de tristes exemplos.

Pois agora estamos todos enjaulados e certamente este pode ser um bom momento para pensar, repensar e questionar nossas relações – pessoais, profissionais, políticas. É possível estabelecer parâmetros cristalinos e humanitários voltados verdadeiramente para o respeito e a responsabilidade social? Tenho muitas dúvidas, mas a minha luta é esta.