A poesia, a condição humana, a experiência que nos salva!

Tudo é tenso. Tudo treme. Tudo é ponto de interrogação. “A espera desespera”, escreve o poeta de “a vida das sobras”, Carlos Caramez. Não sabemos nada. O momento é de apreensão. A vida na ponta dos dedos. O coração aos pulos, com direito a um respiro/suspiro prolongado entre um baque e outro. Para não morrer da espera asfixiante. Essa é a condição. É o que nos sobra nos momentos cruciais.

E por falar em “a vida das sobras” (Editora Leitura XXI), o livro está nas livrarias de Porto Alegre. Recomendo! São poemas curtos, vigorosos e proféticos. Um alerta. Falam de uma geração que sonhou, se desesperou, lutou para voltar a sonhar e vê o sonho escapando pelas mãos. Há no tecido poético vozes de quem não desiste. O livro do jornalista e produtor cultural Carlos Caramez encerra a trilogia “poemas incuráveis”, formada por “Última Safra do Silêncio” (Mercado Aberto/1998 – Prêmio Açorianos de Literatura em 1999) e “Construção das Ruínas” (Leitura XXI). O site do poeta é https://www.carloscaramez.com/

a vida das sobras_____CarlosCaramez_Capa*
Diante da certeza de que “não há guarda-chuva contra o mundo”, como escreveu João Cabral de Melo Neto no poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, e da vulnerabilidade de todos nós, reafirmo: Sempre me comoveu e comove a condição humana. Hoje, com a maturidade, ainda mais. Diante do inexorável, aprendi que o que nos ampara é a solidariedade, o amor, a generosidade, o ver o outro na sua dimensão e a luta coletiva.
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Nos hospitais, de um modo geral, porteiros, auxiliares e pacientes me olham com um misto de pena, curiosidade, espanto e vários pontos de interrogação. São gentis. Não me dizem não. Minha figura, de alguma maneira, os comove. Se me comunico, peço alguma informação, aí tudo se transforma em admiração. E, claro, normalmente, liberam a pergunta que não quer calar, o que eu faço. Quando digo que sou jornalista o milagre se dá e os rostos se enchem de sorrisos. Jornalista? Não tenho dúvidas de que por trás dessas reações, às vezes tão absurdas, está uma grande incredulidade – como uma pessoa assim chegou nesse lugar?
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Em meio ao caos, o relato comovente da metamorfose de uma mãe aponta para a luminosidade. E nos salva! Com a palavra Flávia Berti Hoffmann, mãe de Bernardo, que tem nanismo.

Minha metamorfose sendo mãe!
“Eu já fui mãe que buscou os porquês quando soube que teria um filho com deficiência. Já fui mãe que sofreu por ter poucas informações sobre nanismo e por não saber como seria o futuro do Bernardo.
Sou mãe que quando saio na rua com meu filho, não passamos despercebidos, somos alvo de olhares curiosos e também carinhosos. Sou mãe que já escutou em alto e bom tom: “acho que ele tem um probleminha”
Já acreditei que o preconceito teria fim, hoje vejo que isso faz parte de alguns seres humanos, e esses, eu quero longe da minha vida.
Já me intitulei mãe especial, mãe abençoada, privilegiada e outras tantas.
Hoje sou inclusiva e informada, mas antes de tudo apenas MÃE!
Minha maior conquista? Não associar tudo que acontece, principalmente na vida do Bernardo, com a acondroplasia. Afinal de contas antes de qualquer rótulo, deficiência ou alteração genética, ele é uma criança.
Hoje posso dizer que, se tenho alguma missão na vida, é a missão de ser mãe e mostrar para ele que todos temos dificuldades, somos todos diferentes fisicamente, mas que o coração deve estar sempre cheio de sonhos e amor!”.

Bernardo*
Comunicação e Direitos Humanos
É estimulante também o convite que recebi da professora doutora Sarai Patricia Schmidt, do Curso de Comunicação da Feevale. Nesta segunda-feira, 22 de maio, às 19h30min, vou falar sobre Comunicação e Direitos Humanos para os alunos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da instituição.
Um debate necessário nesses tempos turbulentos. E, claro, um grande desafio. Comunicação e Direitos Humanos são universos que transitam por fronteiras muito vulneráveis. A pergunta é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, no estereótipo e na tão endeusada pela mídia superação?

 

Sou teimosa e vivo. Sou teimosa e insisto.

O segundo turno das eleições está aí. Encerramos um ciclo? Ou coroamos a direita?
Para além de qualquer movimento, o tempo é de reflexão. As cartas estão dadas. O tabuleiro está na mesa. Mas o jogo começa em campo minado. A política elitista, soberba e cheia de retórica que nos apresentam é incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da salvação do país, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação e da saúde e ignoram conquistas sociais.

"Emaranhado", por Tamar Matsafi

“Emaranhado”, por Tamar Matsafi

Querem salvar o país para quem mesmo?
Mas essa pergunta não importa. O que o governo precisa nesse momento de reuniões de alcova é responder à minoria que apita o jogo. Para não desagradar, faz das tripas coração, entre um farto banquete e outro, garantindo a aprovação de medidas impopulares. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população, mas está pronto para bater em manifestantes, justo aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo” e pela linguagem vulgar (leia-se Renan Calheiros). A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que o jogo não está perdido, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Dos pisos táteis e rebaixamento de calçadas – mal colocados e mal feitos, só para dar ares de acessibilidade – à deterioração dos espaços públicos, o que vemos dói. A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação anda a passos largos.

Inclusão para quê?
Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, divertem e espalham alegria, são ameaças. A sociedade está doente, vazia de valores e do entusiasmo verdadeiro, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

"E agora?", Por Tamar Matsafi

“E agora?”, Por Tamar Matsafi

Sejamos vigilantes e responsáveis! Vamos cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito, do bem estar, da alegria e do lazer, da arte que nos alimenta. Vamos olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

Não há porque estancar em meio ao tsunami que tenta frear nossos sonhos. Como escreveu o jornalista Nei Duclós, em Outubro*, livro de poesia lançado em 1975, que ganha edição comemorativa de 40 anos: “Apesar de tudo sou teimoso e vivo / Sou teimoso e insisto”.

“*Outubro é daqueles livros de resistência, de força e de lirismo, tudo a um só tempo, que traz o ideário de uma juventude que havia se formado na vigência da contracultura, debaixo de um brutal cerceamento de ideias e embalada pela tentativa de formação de uma identidade latino-americana. Volume antológico, desses clássicos já ao nascer, Outubro traz versos que soam viçosos ainda hoje (“Embora não acredites/ estou tão habitado/ que pareço um mar”)”. Trecho de texto da escritora Cíntia Moscovich, patrona da Feira do Livro de Porto Alegre deste ano, em sua coluna na Zero Hora.

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