Não é pesadelo. É realidade

Não, não é um pesadelo. É o que é. Sem panos quentes. Na dura realidade de um país mergulhado no ódio, a insensatez dos inescrupulosos não dá trégua. A violência está autorizada, com passaporte carimbado por quem comanda a nação. Perdemos o sono. E está difícil sonhar.

Estamos em alerta. Acordados e de olhos arregalados diante das atitudes torpes, irresponsáveis, mesquinhas e machistas, que se tornaram cotidianas no país. Atitudes que humilham, ofendem, roubam nossos direitos e nos intimidam, sem o mínimo resquício de humanidade e respeito. O feminicídio aumenta. Pessoas com deficiência rejeitadas e ameaçadas de perder a lei que as protegem. A população LGBT condenada pelo conservadorismo estúpido. Os negros e os índios hostilizados. A educação, que considero um dos principais compromissos de um governo responsável, sem régua e compasso, ao sabor da ineficiência dos gestores.

A escancarada apologia da tortura e a supressão de direitos básicos mostram a cara de um Brasil que desconheço e que me assusta ao carregar uma brutal negação das conquistas de todos nós – a diversidade, as lutas das minorias, a democracia. O objetivo é empurrar toda pessoa que pense diferente ou apresente alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para a invisibilidade, o esquecimento, a não participação. Para uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A amarga discriminação imposta deriva da construção de um país e de uma ideia de normalidade sem fundamento algum.

Tempos sombrios

A realidade é cruel e não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa, que se vende com facilidade, decide os destinos do país com apetite voraz. Todos voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam por vias sórdidas e recheiam os bolsos de políticos de carreira e de empresários de plantão, prontos para garantir o lucro acima de qualquer coisa e não perder nada. Tudo é negociado. O poder, os cargos, as regalias, o silêncio, os apoios, as conveniências. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados são o alvo do momento, apontados como os responsáveis pela crise da previdência social. Não se fala da sonegação secular das grandes empresas. A solução? Encolher direitos trabalhistas, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Mas os políticos e a elite empresarial garantem que tudo é feito por uma causa nobre: Alinhar os descaminhos do Brasil e apoiar um governo que, ironicamente, não poupa esforços para privilegiar os militares e faz agrados para manter o judiciário sob sua guarda. O povo? Que vá trabalhar!

Tempos de desencanto

Quando comecei a escrever neste blog – com a proposta de refletir sobre inclusão, acessibilidade, preconceito, direitos humanos e os limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença – jamais pensei que teria pela frente tempos tão difíceis. Hoje, diante do desmonte que aí está e diante de um governo que acha que a Lei de Acessibilidade e Inclusão é uma bobagem, falar sobre estas questões se tornou ainda mais necessário. É fundamental reagir.

Tempos de não deixar passar

Reafirmo que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, o governo anula a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula a criatividade. Anula a democracia. Anula o humano. Enquanto os defensores dessa casta violenta, que se julga acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância. Por isso, mais do que nunca, vivemos tempos de resistência, de mostrar o que somos e a que viemos. É a soma das nossas tantas imperfeições que nos faz humanos, inquietos, lutadores, criativos e utópicos.

Não queremos apenas atrapalhar o trânsito. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como pessoas com direito à vida plena. Queremos autoridades que efetivamente nos representem, nos reconheçam e respeitem nossos sentimentos. Um governo que vê nos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família a caminho de um chá de bebê apenas um “lamentável incidente” não me representa. Que seres são esses que não se abalam com tamanha tragédia e seguem a brincar de fazer e desfazer pelas redes sociais, submissos aos caprichos do país mais poderoso, mais cruel e mais invasivo do planeta?