Vai passar!

Vai passar. A expressão que virou mantra neste tempo sombrio e inquietante de pandemia me faz lembrar a canção de Chico Buarque de Holanda. Composta em meados dos anos 1980, período conturbado em que vislumbrávamos o fim da cruel ditadura militar instaurada no Brasil no fatídico 31 de março de 1964, a música fala da nossa história ainda tão recente. Uma história cravada de injustiças, contradições, tortura e morte. E que neste início de 2020, se mostra tão ou mais injusta e contraditória.

As terras deslumbrantes descobertas por Pedro Álvares Cabral viraram colônia de Portugal. E seus donatários, os privilegiados de sempre, seguindo o exemplo do colonizador/doador, passaram a capturar negros na África para transformá-los em escravos. Arrancados da terra mãe, eles foram jogados nas mãos de gente sem escrúpulos que, por ser branca e poderosa, achava que podia tudo. Gente obcecada por uma perfeição discriminatória e alimentada por uma ambição desmedida que, assim como destrói o meio ambiente, dissemina preconceito de toda ordem.

“Aqui sambaram nossos ancestrais”. Marginalizados em um lugar que só os via como seres para servir, os negros foram obrigados a abrir mão das suas origens e da cultura que os constituía para atender os desejos do senhor dono da terra. “Erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”. Mas um dia perceberam que era possível subverter essa ordem. Entenderam que “tinham direito a uma alegria fugaz”. E fizeram dessa possibilidade uma grande luta pelo direito de ser e manter sua identidade.

Aos poucos, mesmo sem liberdade, retomaram suas vozes genuínas, seus cantos, seus tambores, suas danças, sua história, sua alegria. Excluídos das festas da casa grande, que abrigava, e abriga ainda hoje, a elite soberba, os escravos tomaram becos e ruelas com uma festa popular que acabou contagiando o país inteiro. E “que se chama carnaval”.

Mas a “terra brasilis” seguiu distraída – dominada por senhores sem escrúpulos, os donos do dinheiro – sem entender “que era subtraída em tenebrosas transações”. A elite econômica, desumana e sem freios, que se formou seguiu impávida a liturgia da escravidão, ancorada em discursos hipócritas. O que ficou escancarado em alguns momentos da pandemia do coronavírus. Ao atender aos apelos do presidente insano, alguns empresários manifestaram o desejo de ver seus empregados trabalhando, ignorando determinações dos governos dos estados e municípios.

Apesar das vozes da Organização Mundial da Saúde, de cientistas, pesquisadores e médicos, o poder financeiro tentou falar mais alto, mas recuou. E o poder político, nas mãos de indecisos, sem preparo para comandar um país que vive uma crise sem precedentes na história mundial, assinou embaixo. Para mudar de postura logo depois. Já não há dúvidas. Vivemos uma situação complexa, que exige discernimento, respeito e maturidade de todos os lados. Já não há espaço para brigas político-partidárias. Assim como também não há dúvidas de que estamos diante de um governo incapaz de olhar para a população. Em momento algum, o outro coube neste olhar.

O Brasil, os trabalhadores, as mulheres, a gente comum, o povo, nós todos estamos nas canções de Chico Buarque, compositor que tão bem fala da nossa história, dos tempos inocentes em que víamos a banda passar, passando pelo exílio e o sofrimento imposto pela ditadura militar, pelas diretas já, pela nossa jovem democracia, hoje tão sucateada – https://www.ouvirmusica.com.br/chico-buarque/77259/

E lá me vem outra canção, lembrada recentemente por Jorge Furtado – “Pessoa Nefasta”, de Gilberto Gil – “Tu, pessoa nefasta / Vê se afasta teu mal / Teu astral que se arrasta tão baixo no chão / Tu, pessoa nefasta / Tens a aura da besta / Essa alma bissexta, essa cara de cão”. Vai passar!

Mas é carnaval!

Sempre fui carnavalesca. Do salão da Sociedade Cruzeiro em São Francisco de Paula, à Praça Castro Alves em Salvador/Bahia, ao som das marchinhas de bandas do interior ou dos trios elétricos na cidade grande.

Quem sabe ainda teremos a chance, como escreveu e cantou Vinícius de Moraes, de “viver e brincar outros carnavais / com a beleza / dos velhos carnavais / que marchas tão lindas / e o povo cantando / seu canto de paz”. Não sou saudosista, mas adoraria tomar as ruas com um canto de paz, celebrando a vida em um país digno, que respeita sua gente.

A seguir boas lembranças de muitos carnavais.

Conheci o carnaval baiano, ápice do ciclo de festas que caracterizam o verão, nos anos 1970/1980. Lá passei os melhores carnavais da minha vida, encantada com a maior e mais popular festa de rua brasileira. Transbordando de euforia e molhados de suor e cerveja, todos brincavam espontaneamente ao som dos trios, afoxés, blocos e cordões.

Folia definida pelo sociólogo baiano Antônio Risério como “um baile imenso, colorido, feérico e frenético”, que se espalha pelos becos, praças, avenidas, orla e contagia até a mais empedernida das criaturas. Do Largo do Pelourinho, passando pelo Terreiro de Jesus, Praças da Sé, Castro Alves e Municipal, Avenida Sete de Setembro, até o Farol da Barra são mais de 15 quilômetros de chão totalmente tomado por uma massa enlouquecida. Um roteiro carnavalesco por onde cruzam os tipos mais incríveis, levados pela magia e pelo calor humano que tomam conta da cidade nesta época. Todos pulam, cantam, dançam, vivem o carnaval na sua plenitude, noite e dia, como se não houvesse amanhã.

Salvador foi descoberta pelo turismo na década de 1970 e se transformou num atraente polo no verão. Turistas, curiosos e curtidores, hippies e viajantes do Brasil e do mundo, chegavam lá a procura do paraíso perdido à beira mar ou de uma sonhada “capital do prazer”, onde tudo fosse permitido. Uma invasão que mudou a fisionomia da cidade. A anarquia, o delírio, a catarse geral provocada pelo carnaval, constituem a essência desta busca desenfreada.

Foi na Praça Castro Alves que vi, senti e participei intensamente do carnaval de rua de Salvador. Lá se juntavam artistas, intelectuais, turistas, comerciantes, homossexuais, mulheres, homens, velhos e jovens. Tipos física e socialmente diferentes que brincavam juntos como se sempre tivesse sido assim.

“A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”, canta Caetano Veloso, que define como poucos o espírito do carnaval baiano. Um espetáculo de rara beleza plástica e humana, pelo qual ninguém passa impunemente. Para Gilberto Gil, o carnaval é uma manifestação séria e complexa, “um espaço muito curto para a transfiguração, para a loucura, para a reconciliação total com a carne, que é ignorada o ano todo”. Há uma explosão total de vida. E todos os vícios e virtudes do ser humano fluem naturalmente. Afinal, tudo é permitido.

Além da conotação de festa popular e de prazer, o carnaval da Bahia, especialmente em Salvador, é uma vitoriosa afirmação cultural dos negros. São eles os responsáveis pela essência do carnaval. Proibidos de frequentar os salões do branco, pela condição de escravos, os negros dançavam e cantavam na rua, na tentativa de manter viva sua origem africana. Com graça, magia, sensualidade e muita pulsação, eles passavam noites inteiras entregues a rituais típicos das regiões de onde vinham.

E é nas ruas que pulsa a alma do carnaval baiano. E nas ruas estão os negros com seus blocos afros, o som ijexá, a percussão, o batuque, os metais dos afoxés, mostrando a autenticidade da sua arte, inteira e envolvente, apesar de todo tipo de repressão a que foi submetida. É uma exibição rica em originalidade, beleza e força, que flui através de uma coreografia harmoniosa. E todos são convidados a dançar.

Participação é a característica fundamental desta festa colorida, cheia de ritmo, que os negros levaram para as ruas e que hoje é de todo mundo. Com ou sem dinheiro. Com ou sem fantasia. O luxo, a pompa e a riqueza também podem fazer parte, mas não são características essenciais. O que importa são as pessoas que se deixam levar ruas afora, integrando-se deliberadamente no mais autêntico e democrático salão de baile do país.

Os antropólogos afirmam que o carnaval é o momento em que esquecemos a seriedade. É um espaço ritualístico onde as diferenças culturais, sociais e comportamentais se dissolvem. Pobres, ricos, homossexuais, machos, fêmeas, todos se irmanam na avenida. Em um país como o Brasil, onde uma minoria concentra poder e dinheiro e a maioria se debate na miséria, está cada vez mais difícil ignorar as diferenças. Mas no carnaval que brinquei nos anos 1970/1980 ainda era possível a ilusão de que somos todos irmãos. Que se dane a política, a crise, a desgraça cotidiana. Quem está na rua quer se entorpecer um pouco. E são milhares e milhares de pessoas que suspendem delirantemente o cotidiano para perder-se de alegria e liberdade. E volto à música de Caetano Veloso – “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. E o povo está vivo e faz a festa com brilho nos olhos. “Amanhã há de ser outro dia”, cantou Chico Buarque.

Nestas duas décadas, o carnaval de Salvador contava com a presença de homossexuais que vinham de todas as partes e aproveitavam a loucura geral para liberar sua opção sexual, tão reprimida e condenada pela sociedade. No início, a manifestação era disfarçada e eles saíam às ruas mascarados, dando um toque especial aos dias de folia. Aos poucos, foram conquistando espaço e já não precisavam se esconder. Tornaram-se comuns os desfiles das “bichas” na Praça Castro Alves. A escadaria era a passarela. Ali faziam o espetáculo, exibindo-se, tirando a roupa, mostrando em tom irônico que eram homens que desejavam homens e queriam manifestar seus sentimentos livremente.

Entre risos, espanto, agressão e afirmação, os gays se fizeram respeitar. Sem máscara, sem medo e sem bloqueios tomaram conta da Praça, das ruas, abraçando, beijando, amando ao som dos afoxés. Nos cinco dias de catarse coletiva, tudo parecia natural. O carnaval era terreno livre para o bem de todos.  E foi assim que comecei a entender a riqueza das diferenças. Salve o carnaval baiano!

Nossa insanidade cotidiana

 

Um país em que o governo brinca ironicamente de fazer “arminha” com os dedos é responsável, sim, pelo aumento da violência. Ao tratar com naturalidade o uso de armas por uma população que vive situações absurdamente desiguais – se olharmos para a base e para o topo da cruel pirâmide social – as autoridades máximas da nação viram as costas para os já abandonados, amedrontados, acuados. Portanto, vulneráveis, suscetíveis a atitudes por impulso. Ou para uma população que já não se choca com nada porque a barbárie, além de ocupar os noticiários de jornais, rádios e TVs, sem o mínimo contraponto, está na porta das suas casas. Está nas calçadas, nas ruas e vielas por onde andam e brincam seus filhos inocentes e sem proteção.

Soma-se a esta triste realidade, a loucura das redes sociais que julgam, condenam, destilam ódio e futilidades o tempo todo. Um tiro a mais, um tiro a menos, parece não fazer a mínima diferença nesse contexto de frases feitas, piadas indigestas, ofensas, preocupado apenas com o número e com a performance dos seguidores, onde as vozes da vaidade, do poder e da casa grande falam mais alto.

Um contexto que as canções de Chico Buarque sempre apontaram. Como “Gota d´água” – “E qualquer desatenção, faça não / pode ser a gota d´água”.  Ou como “Construção” – “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. E como “Deus lhe pague” – “Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir / Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair / Deus lhe pague”. E muito, muito mais! Basta pesquisar a obra deste compositor e cantor popular.

Assim vivem e morrem todos os dias no Brasil milhares de pessoas, vítimas do descaso, do abuso, da bala perdida, do tráfico de drogas.

É o mesmo país que já não se espanta com a morte de indígenas na Floresta Amazônica, o pulmão do mundo tão cobiçado pelo grande capital que só tem olhos para o lucro. Um lucro que vem acompanhado de excesso de poder, ambição, concentração de renda, acúmulo, injustiça e destruição. Danem-se as vítimas de incêndios criminosos, das chuvas avassaladoras que levam tudo e do inegável aquecimento global, essa invenção dos comunistas, segundo alguns dos “ilustres” pensadores da “nova” política brasileira.

Do alto da sua irresponsabilidade, o presidente diz que os “indígenas estão evoluindo e se tornando seres humanos iguais a nós”. Nós, quem? Uma clara demonstração de ignorância histórica, descaso e desconhecimento do papel relevante dos povos indígenas na nossa cultura e na preservação do meio ambiente. O presidente, que nada entende destas questões e nem quer entender, chegou a afirmar que “se puder, confino ambientalistas na Amazônia”, ao defender a regulamentação da mineração e exploração de energia em terras indígenas.

Coincidentemente é também o país que não reage e não combate com veemência o assassinato de negros, pobres, homossexuais, pessoas diferentes de um modo geral, e de mulheres que, pelas estatísticas, cresceu muito nos últimos anos. É aqui que ouvimos, mais uma vez, um presidente declarar de forma absurdamente preconceituosa que “uma pessoa com HIV, além de ser um problema sério para ela, é uma despesa para todos no Brasil”. Afirmação que reforça a indigesta campanha de abstinência propagada pela nossa religiosa e tresloucada ministra da família, que não vou nomear.

É ainda o país de um presidente que debocha dos trabalhadores que estão desempregos e diz, cinicamente, que temos muitos privilégios e que, por isso, vai lançar o programa “minha primeira empresa” para quem reclama que não tem emprego.

Quem suporta tanto deboche?

Nada acontece por acaso. A banalização da violência não é um fato isolado e não se restringe aos morros cariocas, às favelas, à periferia dos grandes conglomerados urbanos. Ela está no cotidiano de cada um de nós inundado pela falta de perspectivas, pela vulnerabilidade do trabalho, pela miséria estampada nas ruas, pela morte de inocentes vítimas de balas perdidas ou não, pelos incêndios criminosos, pela discriminação racial, sexual, cultural, pelo preconceito de toda ordem.

A população que vive nas ruas em São Paulo, por exemplo, aumentou 53% em 4 anos. Hoje são 24 mil, 11,7 mil dormindo em abrigos e 12,6 jogadas nas calçadas ou sob os viadutos. E a Igreja Universal do Reino de Deus segue coagindo e seduzindo as pessoas com problemas financeiros e emocionais, que acabam doando o muito ou o pouco que têm para sair de crises. E acabam ficando sem nada, nas mãos de pastores e pastoras que fazem fortunas com a dor do outro.

Neste caldeirão dominado pela insanidade as questões vitais do país são expostas e discutidas irresponsavelmente nas redes pelo governo, seus seguidores e opositores. É um bate boca sem fim, onde um ofende o outro e nada mais. Desaprendemos tanto no ano que passou! Já não nos sobra tempo para refletir sobre a condição humana, reagir e provocar alguma mudança. E onde estão mesmo os eleitos que discursavam sobre respeito e dignidade?

Entre dores e delícias

Há dias de desencanto, bem difíceis, em que olhamos sem filtro para a miséria física e moral que nos cerca e ficamos especialmente vulneráveis – “e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água”.

Há dias em que não entendemos o movimento do mundo ao redor e só desejamos um pouco de paz de espírito – “a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu”.

Há dias e noites em que os noticiários da tradicional e conservadora mídia brasileira estampam um jogo político tão sórdido, na voz de parlamentares tão mesquinhos, que o desejo que nos pega profundamente é o de ir embora – o que não seria uma solução. Mas o que mais assusta, em se tratando de meios de comunicação e formadores de opinião, é a ausência de uma análise profunda dos fatos, a partir de vários pontos de vista.  O viés é um só, pesado e medido.

Há dias em que a pergunta que não quer calar é: O que fazem vereadores, deputados e senadores eleitos pelo povo? A minha resposta, lamentavelmente, é “vivem muito bem, obrigado, com polpudos salários, inúmeros assessores e incontáveis visitas às bases eleitorais”. E ainda nos envergonham com projetos absurdos. Temos o deputado que sugere incluir doce de leite na merenda escolar. Ou a solicitação insana do senador em prisão domiciliar querendo passar férias no Caribe. É o vale-tudo que reina absoluto na ilha da fantasia no Planalto Central do país e suas subsidiárias.

Há dias em que o melhor é não pensar e cantar bem alto e em bom tom para todos ouvirem – “vai passar”.

Há dias em que os ombros não suportam as dores da alma, mas essa dor pode ser muito particular, relacionada à sensibilidade e à vivência de cada indivíduo – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sei da minha!

Há dias em que não encontramos consolo. Mesmo assim, a vida segue no seu ritmo. Não paramos.

Mas, de repente, encontramos no meio do caminho um pequeno café, quase escondido. Os olhares dos proprietários, mãe e filho, são acolhedores. Há respeito. Há dignidade. Há alegria.

Então, ali sento para almoçar com calma e tomo um expressinho de sobremesa. Tudo muito devagar. As nuvens escuras vão se dissipando. O início da tarde já não parece tão sombrio. E o céu vai ficando cada vez mais azul.

Leio uma entrevista do escritor angolano José Eduardo Agualusa em que ele diz: “Em tempos de construção de muros, os livros são nossas pontes”. Leio outra entrevista, essa do israelense David Grossman, falando sobre a capacidade da literatura de expandir nosso universo interno: “Abra um livro para compreender seus inimigos”.

Pequenos gestos e leituras me mostram que a humanidade não vai sucumbir. A vida cotidiana é feita desses tantos retalhos que aquecem a alma, trazem conhecimento, alimentam o espírito e espalham confiança.

Então, sigo.

Observação – Citação das canções “Gota d´água”, “Roda Viva” e “Vai passar” de Chico Buarque e “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso.

O cotidiano e o sonho que se distancia

Sempre ouvi dizer que quando um assunto vira tema de muitas conversas, discussões, artigos, encontros, enfim, é porque o seu conteúdo está em falta. Estamos, então, absurdamente carentes de respeito, direitos, liberdade. É sobre isso que falamos e escrevemos vertiginosamente. É o que lamentamos sem parar. É o que nos falta.

A diversidade humana segue espantando e a intolerância mostra suas garras afiadas nas situações mais cotidianas. Machuca. Fere. Os movimentos sociais, sempre tão estimulantes, são rechaçados e a força bruta dos governos se impõe com violência. Sem pudor.

Queremos a democracia e lutamos por igualdade e dignidade, em todas as esferas. Repudiamos todas as matrizes que alimentam o preconceito, ignoram nossa memória e roubam direitos básicos das pessoas. Nosso desejo genuíno e sensato é, ao mesmo tempo, incompatível com o Brasil de hoje.

Na estranha semana que passou, alguns acontecimentos deixaram evidente que ainda estamos longe do sonho de viver entre pessoas que respeitem outras pessoas e seu direito de ser quem são. E tristemente vemos o país se distanciando do mínimo de dignidade que uma nação precisa para acolher sua gente.

Memória da ditadura em risco

Mais uma ação nefasta do desgoverno federal é tema de reportagem do jornal Extra Classe online – http://www.extraclasse.org.br/edicoes/2017/08/nem-memoria-nem-verdade-nem-justica/. A prova de que Temer e seus aliados trabalham incessantemente por um Brasil sem rosto, uma educação sem memória e um povo subjugado porque quem não conhece sua história verdadeira é fácil de enganar/dominar.

A Comissão da Anistia, criada para ‘reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988’, corre sérios riscos, assim como as Comissões da Verdade, que trabalharam para recuperar essa memória. ‘Os anistiados não estão tendo suas portarias assinadas. Muitos estão com idade avançada, com doenças até de sequelas das torturas que sofreram, e não têm acesso à reparação. E outros não têm o processo apreciado porque a comissão não está funcionando’. A denúncia é feita por Moreira da Silva Filho, professor da Escola de Direito da PUCRS e do Pós-Graduação em Ciências Criminais. Antes da ruptura institucional em 2016, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, a Comissão estava também construindo políticas de memória’.

Homofobia em Porto Alegre

Celebração vira caso de polícia motivado por preconceito, na Associação Leopoldina Juvenil, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Marcos Vinicio Beccon e o namorado Raul Weiss foram vítimas de discriminação em uma festa de formatura. As pessoas se divertiam, tudo parecia normal, até que um beijo entre os dois desestabilizou a frágil harmonia da celebração. A intolerância brotou de todos os lados. Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu, mas a atitude é o retrato da covardia e do preconceito velado – “tudo bem ser gay, mas não aqui na minha festa”.

Comportamentos assim estão tão entranhados no inconsciente de todos nós que, às vezes, até soam como normais, mas não são! A presença de pessoas naturalmente livres, que não têm medo de assumir a sua condição, incomoda. Elas nos desafiam, especialmente se vivemos engavetados, de costas para a diversidade, consumindo sem críticas os discursos discriminatórios que já vêm prontos e tabelados. É necessário desmascarar a hipocrisia e desorganizar essa ordem social que alimenta o preconceito.

20883770_1464532716974437_1141768226_o

Chico Buarque crucificado e endeusado

A pergunta é: Por que Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, provoca tanto amor e tanto ódio? É tão difícil deixá-lo viver, amar, desamar, compor, descompor, escrever, ser politicamente correto ou incorreto? O que querem dele?

O recuo das águas mostra descaso com a natureza

O que dizer do lixo que ficou escancarado às margens do Guaíba com o recuo das águas? Definitivamente, temos discurso, mas não temos prática. Cobramos das autoridades, mas não participamos. Não cuidamos do mínimo necessário para a vida saudável que tanto queremos. Os governos são indigestos, sim. E a população – eu, tu, ele, nós, vós, eles – é hipócrita. Prega, cobra, mas nada faz. Até quando?

Não, não é um pesadelo

Em busca de horizontesjpg
Em busca de horizontes, por Tamar Matsafi

É real. E estamos bem acordados, de olhos bem abertos diante de atitudes ultrajantes, torpes, machistas, que humilham, ofendem, roubam direitos, intimidam, sem qualquer resquício de humanidade e respeito. Estupro coletivo de uma jovem indefesa por 33 homens. Crianças com deficiência rejeitadas em escolas particulares. Movimento LGBT condenado por núcleos conservadores e por religiosos. Negros hostilizados. Índios dizimados. Agressão disseminada em espaços voltados para a educação.
A escancarada apologia da tortura e do estupro, a violência e a supressão de direitos básicos trazem na sua essência uma brutal reação à diversidade e às conquistas das minorias, que são conquistas de todos nós. O objetivo é empurrar toda pessoa que apresenta alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para um lugar de esquecimento, de não participação, uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A discriminação que nos é imposta vem da construção de uma teoria da normalidade sem fundamento algum.
Tempos sombrios.

“Joga pedra na Geni! / Joga pedra na Geni! / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque.

Não, não é um pesadelo. É o que é. Perdemos o sono e está difícil sonhar.
A realidade cruel não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa decide os destinos do país com olhos vorazes voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam pelas vias mais sórdidas, compram silêncio, poder, conveniência e recheiam instituições financeiras e bolsos já fartamente recheados. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados parecem ser os únicos responsáveis pela crise da previdência social. E é recomendável encolher direitos, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Tudo para alinhar os descaminhos do Brasil.
Tempos de desencanto.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Índios e padres e bichas, negros e mulheres / E adolescentes fazem o carnaval / Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Morrer e matar de fome, de raiva e de sede / São tantas vezes gestos naturais”. “Podres poderes”, de Caetano Veloso.

Construção2jpg
Construção, por Tamar Matsafi

Quando lancei este blog com a proposta de refletir sobre exclusão, preconceito e limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença, não imaginei que teria pela frente dias tão vertiginosos. Falar sobre estas questões me parece ainda mais necessário diante de tudo o que está acontecendo. Lamentavelmente, para uma sociedade que se mostra incapaz de encarar e assimilar a diversidade, em razão de suas aspirações perfeccionistas, é muito mais fácil mascarar, ignorar, eliminar.Tempos de não deixar passar.

“E se acabou no chão feito um pacote flácido / Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. “Construção”, de Chico Buarque.

Reafirmo e quero deixar claro que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, anula-se a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula-se a criatividade. Anula-se a democracia. Anula-se o humano.
Enquanto os defensores dessa casta, representada pela tal “raça pura” acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância.
O psicanalista Robson de Freitas Pereira, no artigo “Pra não dizer que não falei de flores”, publicado no Sul21, em que comenta a Noite dos Museus de Porto Alegre, refere-se ao discurso da intolerância como uma tentativa de “expulsar do próprio corpo a diferença e a fragilidade”.

Temos pressa3jpg
Temos pressa, Tamar Matsafi

Volto a dizer que a soma de tantas imperfeições é o que nos faz gente e nos torna infinitamente inquietos e utópicos. Não queremos apenas atrapalhar o trânsito “feito um pacote tímido”. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como seres humanos com direito à vida plena.
Queremos conversar civilizadamente sobre o que somos. E volto ao texto do Robson. “Tentar expulsar, eliminar o que nos angustia é impossível – Freud já nos interpretou: não somos pacíficos por natureza, civilizar é lidar com a angústia e fazer com que as palavras tenham mais valor que a espada, o revólver ou a estupidez”.
Tempos de não desistir.

“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa”. “O Pulso”, de Marcelo Fromer, Tony Bellotto e Arnaldo Antunes.