“Pauta Eficiente: Como abordar a deficiência na imprensa”

Trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social do baiano Ednilson Sacramento fala da linguagem utilizada quando o assunto é deficiência

Ednilson Sacramento faz a apresentação pública do seu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social/habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia/UFBA, em 29 de agosto. Com o título “Pauta Eficiente: Como abordar a deficiência na imprensa”, o trabalho teve a orientação da professora doutora Simone Terezinha Bortoliero e a banca examinadora é formada pela jornalista e ativista dos direitos humanos Mariene Maciel e pelo professor José Roberto Severino.

Ednilson é o primeiro estudante com deficiência visual a se formar em jornalismo pela UFBA. Sua pesquisa reúne termos e expressões comuns usadas por jornalistas quando o assunto é deficiência, a partir de depoimentos e documentos legais. O resultado é um guia de orientação sobre essas terminologias, com recomendações sobre os termos mais adequados, as expressões em desuso, como conduzir uma entrevista, fazer uma reportagem, além de notas sobre os variados tipos de deficiência e um banco de fontes para pesquisa. Informações: 71992 581961 (Ednilson) ednilsonsacramento@gmail.com pautaeficiente@gmail.com

Li o trabalho de Ednilson quando ele estava escrevendo. Gostei da maneira objetiva como conduzia o tema, ao mesmo tempo firme e delicado. O resultado é um guia eficiente, complementar aos clássicos manuais de redação, com orientações práticas, alertando para o que é recomendado e o que não é em entrevistas e reportagens sobre e com pessoas com deficiência. O objetivo é contribuir com repórteres, produtores, editores, apresentadores, formadores de opinião e demais profissionais da comunicação na construção e edição da notícia, evitando tratamentos inadequados e indelicados que contaminam o campo de representação desses sujeitos. Para sair do clichê e dos discursos prontos que enquadram as pessoas, todos precisamos dessa abertura para as questões que envolvem a deficiência.

A decisão de escrever, conta Ednilson, nasceu da observação de dois cenários: a ausência de conteúdos que abordem o tema na trajetória dos comunicadores e as matérias e reportagens publicadas, que não têm “o necessário diálogo ou análise crítica das novas abordagens e nomenclaturas pertinentes”. As referências sobre esse universo, quase esquecido, são pouquíssimas. Não há literatura e conteúdos afins nos currículos dos cursos de comunicação, nem nos órgãos de representação de classe, o que deixa os jornalistas solitários em sua missão. O trabalho defende o princípio de que as pessoas têm o direito de ser chamadas da forma que melhor desejam, pois deficiência é um conceito em constante construção. O autor convoca o Estado para a conversa, fazendo uma espécie de linha do tempo das terminologias adotadas ao longo da história do Brasil.

Uma pessoa não é definida por sua deficiência. Ednilson, como eu, acredita que “as pessoas com deficiência também querem ser cuidadas”, ao invés de mostrar força e superação o tempo todo. “Precisamos de espaço para que nos vejam para além da nossa deficiência”, como bem sinalizou a jornalista e audiodescritora Rosa Matsushita. Segundo Ednilson, “vivemos em uma sociedade que midiatizou o conhecimento e necessita dos meios de comunicação para revelar fragmentos da realidade”. E hoje é grande a influência desses meios. “A cultura e as atitudes sociais têm recebido forte impacto e esse cenário nos convoca a refletir sobre a oportunidade e urgência de pautarmos as singularidades presentes na sociedade”.

Crédito: Jonatan Rebouças

Crédito: Jonatan Rebouças

Nomenclaturas ao longo do tempo
Desde o Brasil Império se adotou nomenclaturas distintas. Thiago Helton Ribeiro, cadeirante que tem um blog no portal r7.com, publicou um estudo sobre a linha do tempo das terminologias e suas atualizações no país. De acordo com o estudo, termos como “aleijado”, “inválido”, “incapacitado”, “defeituoso”, “desvalido”, já constavam na Constituição de 1934. O termo “excepcional” foi adotado na Constituição de 1937 e repetido na Emenda Constitucional nº. 1 de 1969. A expressão “pessoa deficiente”, segundo o blog, veio com a Emenda Constitucional nº. 12 de 1978. A Carta Magna de 1988 trouxe a expressão “portadores de deficiência” e, com a adoção dessas terminologias estipuladas na legislação, a documentação oficial serviu de base para que a sociedade brasileira convivesse com essa nomenclatura até a edição de novos marcos legais.

No plano internacional, o emprego da palavra “pessoa” antes de “deficiente” só aconteceu em 1981, quando a ONU incluiu aqueles que tinham deficiência, igualando-os em direito e dignidade à maioria. A expressão “pessoa com deficiência”, adotada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (2015), fruto da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), foi a que ganhou maior acolhida no seio da comunidade internacional.

Débora Diniz, doutora em antropologia citada por Ednilson, afirma que “a deficiência não é mais uma simples expressão de uma lesão que impõe restrições à participação social de uma pessoa. Deficiência é um conceito complexo que reconhece o corpo com lesão, mas que também denuncia a estrutura social que oprime a pessoa deficiente. Assim como outras formas de opressão pelo corpo, como o sexismo ou o racismo, os estudos sobre deficiência descortinaram uma das ideologias mais opressoras de nossa vida social: a que humilha e segrega o corpo deficiente”.

A linguagem influi na maneira como as pessoas com deficiência são percebidas pela sociedade. É importante conhecer o significado embutido nas palavras. As expressões empregadas de maneira inapropriadas podem fazer com que as pessoas se sintam excluídas, representando uma barreira para a plena participação social. Palavras negativas como “vítima” ou “sofredor” reforçam os estereótipos de que as pessoas com deficiência são infelizes e dignas de compaixão, o que na maioria das vezes não confere.

As pessoas com deficiência têm família, virtudes e defeitos, vitórias e derrotas, trabalham e participam de atividades comunitárias, fazem sexo, querem respeito e buscam viver bem e em igualdade de condições. Como todo mundo. Reconhecer essa necessidade e adotar uma linguagem cada vez mais condizente com a singularidade de cada um é a senha para quem produz narrativas no campo da comunicação, bem como para todo cidadão que aposta em uma sociedade pautada na ética e na alteridade.