Pão e Direitos Humanos

Comecei a falar e a escrever sobre acessibilidade e inclusão no blog Isso não é comum para suportar uma dor avassaladora. Acabei atravessando fantasmas e fronteiras internas e externas jamais imaginadas. E, naturalmente, fui dando voz a uma série de outras questões, vitais para a dignidade humana, que me inquietavam e ainda me inquietam muito. De certa maneira, preenchi um grande vazio ao falar de temas que poucos falavam e ao perceber que minha escrita ecoava e ecoa de um jeito surpreendente. Assim como ecoam tantas vozes plurais Brasil afora.

Tive certeza dessas vozes e desses ecos ao participar do Seminário Inclusão: Direito das Pessoas com Deficiência, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro, organizado pela Práxis Sistêmica, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD) da OAB/RJ e com a Escola da AGU. Ao lado de pessoas cegas e com baixa visão, jovens com autismo, pais e mães de crianças diferentes, falei, mais uma vez, sobre esse tema tão necessário e especial para todos nós que buscamos a diversidade. Foi uma jornada emocionante, de muitas trocas, aprendizagem, respeito, afeto, empatia, que fez diferença no meu cotidiano. Conheci pessoas incríveis, que lutam com lucidez e leveza. E tive esclarecimentos precisos e preciosos sobre os direitos da pessoa com deficiência, agora tão vulneráveis, correndo o risco de serem banidos pelo governo eleito, que pode acabar com tudo o que já se conquistou.

“A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana”, escreveu alguém que desconheço, mas quem vai assumir ministérios e cargos no Brasil 2019 parece não entender ou não se interessa mesmo pela diversidade, seja ela qual for.

Em novembro, li também a reportagem da jornalista Clara Clock sobre inclusão no Jornal Extra Classe. Poucos, na mídia, trataram o assunto com tanta seriedade e reflexão. Ali estão colocadas, sem sensacionalismo ou vitimismo, as informações necessárias sobre a questão da deficiência e da inserção no mercado de trabalho. Quero destacar um depoimento que está na matéria e é esclarecedor, o de Paulo Fernando Soares, que foi perdendo paulatinamente a visão ao descobrir, aos 16 anos, um tumor no nervo ótico. Aos 20 anos estava cego. E na seleção para um estágio em Psicologia surpreendeu a supervisora, que achou que ele não daria conta do serviço. “Entre todos os candidatos, só eu consegui responder as perguntas e fui selecionado”, diz ele na matéria. E seguiu comentando: “A gente tem que estar sempre provando que é capaz”. “Deveríamos falar de diversidade desde o ensino básico, sensibilizando e conscientizando que as pessoas com deficiência não são um problema”.

Portanto, é fundamental lutarmos pelos nossos direitos e enfrentarmos os posicionamentos e discursos retrógrados. E é fundamental insistirmos no “Nada sobre nós, sem nós”. Não falem por nós. Não façam por nós. Não decidam por nós. Não nos olhem com olhos contaminados, como se fôssemos incapazes. Antes de tudo, exerçam a alteridade. Coloquem-se no nosso lugar. Perguntem. Ouçam o que temos a dizer. Não nos proíbam de fazer. E respeitem o nosso jeito. Nossas vidas, a sua e a nossa, vão ficar melhores, mais fáceis, mais verdadeiras, mais solidárias.

Podemos dividir nossas tristezas e alegrias, possibilidades e impossibilidades, fracassos e sucessos, sonhos e decepções e seremos inteiros nas nossas interações. Sem mágoas ou ressentimentos. Nossa humanidade é maior do que qualquer atitude excludente. A diversidade que experimentaremos juntos abrirá muitos caminhos. Novas configurações. Novos paradigmas. Outros padrões. A hierarquia radicalmente vertical não se sustenta. Precisamos da horizontalidade, do movimento, da rebeldia, dos vários lados que nos formam. Precisamos dar voz aos tantos que somos. Ninguém fica por muito tempo em um lugar autoritário. São tantos e tão ricos os caminhos que podemos trilhar e os que certamente poderemos abrir como seres libertários que somos.  Não podemos desistir.

Em 2018 participei como palestrante em sete eventos, voltados para qualidade de vida, responsabilidade social e sustentabilidade, inclusão e acessibilidade, discriminação e direitos das pessoas com deficiência, comunicação, desigualdades e políticas públicas, direitos humanos. Um velho ditado diz que quando se fala muito em pão é porque o pão está em falta. Pois está! Pão e direitos, fundamentais para a sobrevivência e a dignidade humanas.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

A seguir minha fala no IV Seminário Criança na Mídia: Tempos de Discriminação e Direitos Humanos – FEEVALE/Novo Hamburgo, em 17 de outubro

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir é necessário.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não temos respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece, não nos vê.

Agradeço à Saraí e aos organizadores deste Seminário por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão e Direitos Humanos. É necessário refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante.

Insisto em falar e escrever sobre acessibilidade e inclusão na busca de respostas para questões que envolvem leis, políticas públicas e, especialmente, sensibilidade. Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase que ela cita, do também arquiteto João Filgueiras Lima: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente. Regulam, oferecem garantias, apontam a preocupação da sociedade. Mas não bastam! Fundamental é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de mudar a regra, se a situação pede. Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher, de ousar.

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados.

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim se criou uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Temos casos recentes de crianças com Síndrome de Down e Autismo que tiveram matrícula negada em escolas. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo.

Por isso, precisamos falar sobre a diferença com a criança, foco deste encontro. Enfrentar o preconceito que todos carregamos é não ter medo do impacto das palavras. Precisamos fazer essa travessia para eliminar o fantasma cruel da exclusão. E só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às crianças, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão alimentam o preconceito porque se conformam às mensagens socialmente instituídas: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, população LGBT, mulheres, índios, quilombolas, pobres e pessoas que apresentam alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, divertindo as pessoas. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de falar sobre diversidade. E ai dessas pessoas se ousarem extrapolar esses espaços!

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeira.

Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã.

Em uma entrevista para o portal Sul21, o jornalista Vitor Necchi diz que “as escolas, em todos os seus níveis, do fundamental ao superior, devem ser espaço de constituição da cidadania e de um pensamento elaborado que inspire sujeitos críticos e conscientes, sujeitos comprometidos com a valorização da vida”. “As escolas devem ser ambientes de reflexão sobre respeito à diversidade e de combate ao preconceito. As escolas não podem absorver a lógica das empresas e se firmarem sob valores como concorrência e meritocracia. E as universidades, em particular, precisam aprofundar o exercício da crítica e da pesquisa”. “O processo de ensino e de aprendizagem tem que desacomodar. A partir das incertezas, crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência”, afirma ele.

Só a educação para a diversidade vai barrar o impulso primeiro de todo o excluído, que é calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos e instaurar a desordem libertadora, cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque ousa ter um comportamento diverso, porque pensa, age e fala. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento – a casa grande e a senzala, o macho que dá ordens e a fêmea que obedece, a raça pura e a raça impura, os frutos da mistura de raças que gerou seres imperfeitos e por aí afora. Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção nos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta.  Uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo e o racismo, é cruel e impõe inúmeros limites.

Nesse contexto, as pessoas diferentes ficam muito vulneráveis. Acabam dependendo da bondade e disponibilidade das pessoas ditas “normais” e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar.

No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe às pessoas que têm uma diferença alertar e sensibilizar a sociedade para as suas limitações e reivindicar direitos e políticas públicas que priorizem a inclusão e a acessibilidade porque este é um dever do Estado.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de inventar, reinventar, mudar, quebrar rotinas.

É a partir desta realidade que proponho pensar o papel dos meios de comunicação porque, de um modo geral, eles se pautam pelo sensacionalismo, contribuindo para a criação de estereótipos. Se não tem superação, não tem notícia. Conclusão: É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Cabe, portanto, à mídia, formadora (ou deformadora?) de opinião, sair do discurso da superação, naõ alimentar mitos, nem transformar as pessoas com deficiência em vítimas, heróis ou guerreiras a serem admiradas. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Cabe à imprensa questionar governos e empresas, pressionar pelo cumprimento das leis, investigar, cuidar da linguagem, usando a terminologia correta, proposta pelas pessoas com deficiência que colaboraram na construção do tratado de Direitos Humanos, que é a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. E a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela o respeito ou a discriminação.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO!

A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características. “A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. É o famoso “matar um leão por dia”.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada. E ao fazerem isso apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas. E especialmente das crianças, repito, por sua ingenuidade. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”. Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade, as nossas aptidões e os nossos sonhos.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

Possibilidade, uma  escada, por Tamar Matsafi
Possibilidade, uma escada, por Tamar Matsafi

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados. A sociedade trata de afastar aqueles que fogem aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada.

Assim se construiu uma teoria da normalidade, sem que se saiba exatamente de que modo e sob que fundamentos. Superficialmente, tem-se um padrão já inscrito na cultura a que todos, de algum modo, se conformam. Os que se afastam ou não correspondem sofrem vários tipos de discriminação.

A mensagem socialmente instituída é clara: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel para evitar o conflito. Essa é a condição para que negros, homossexuais, mulheres, índios, pobres, assim como pessoas que apresentam alguma deficiência, sejam aceitas. É necessário que cumpram os papéis que a ordem social historicamente lhes aponta. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de conviver com a diversidade e que, para aliviar sua culpa, reserva “generosamente” alguns espaços aos diferentes.

Excluídos, po Tamar Matsafi
Excluídos, po Tamar Matsafi

O impulso primeiro de todo o excluído é ocupar esses espaços, respondendo passivamente às expectativas. Não responder é recusar o lugar da vítima, do coitado, e assumir-se como sujeito diferente, capaz e com direitos, instaurando uma desordem necessária. Minha reflexão se faz justamente sobre esse deslocamento fundamental das imagens pré-construídas.

Como se constitui esse sujeito diferente? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, revolta-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas a seu respeito? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma aos padrões estabelecidos. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam prioritariamente pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é interessante, mas também pode mascarar o problema.

A questão pode ser vista por outro prisma. Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem, nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. É preciso muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

Pra onde ir, por Tamar Matsafi
Pra onde ir, por Tamar Matsafi

O que desejo aqui é alertar o sujeito excluído para a necessidade de vigiar os efeitos sobre ele próprio das noções que apreende e incorpora culturalmente desde um ponto de vista padronizado. Essas noções tendem a torná-lo intimamente suscetível ao que aparece como seu “defeito”, levando-o muitas vezes a concordar que está aquém do que realmente deveria ser.

O caso do estupro coletivo de uma jovem, recentemente, no Brasil, é um exemplo contundente do que falo. Muita gente culpa a menina pela violência absurda que sofreu.

Em uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo, as limitações são muitas. Nesse contexto, as pessoas dependem muito da solidariedade, da boa vontade, do bom humor e da disponibilidade dos outros e, claro, dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social, de gênero ou comportamento pode e deve impor o seu jeito de ser, subvertendo o estigma e a vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, essa discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos perdem espaço e importância no cenário nacional e praticamente já não têm nenhuma representação efetiva no governo que aí está.

Inclusão para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano 2

Subindo o morro, por Tamar Matsafi.
Subindo o morro, por Tamar Matsafi.

Por conta de tudo o que aconteceu de ilegítimo, abusivo e arbitrário no governo brasileiro desde a última semana, minha percepção diz que as políticas de inclusão, que ganharam representatividade nos últimos anos, estão seriamente ameaçadas, bem como a diversidade que nos constitui. A extinção dos Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, embutidos agora sob o comando do Ministério da Justiça, é tristemente simbólica. Assim como é simbolicamente triste o fim dos Ministérios da Cultura e das Comunicações.

O que ouvi recentemente em uma fila de supermercado revela muito do que pode vir por aí: “As mulheres e os negros devem ter direitos, é claro, desde que provem que têm capacidade. Se provarem, não precisarão de nenhuma instituição, ou o que seja, para se encostar e viver do dinheiro público”. Comentário, no mínimo, machista, racista e irresponsável de um senhor branco conversando com outro senhor branco. Os senhores da casa grande? Entre risos e deboches, davam asas ao preconceito, baseados no senso comum.

A julgar pelo ponto de vista desses cidadãos, os brancos de cabelos lisos, olhos claros, esguios e fortes, mais os tantos outros predicados da almejada “raça pura”, não necessitam mostrar competência. Já nascem com salvaguarda.

Mas afinal nós todos – independente de gênero, raça, cor, orientação sexual, tamanho, opinião, posição social – não deveríamos ser aceitos como somos, com nossas capacidades, limites e possibilidades?

Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.
Abrindo caminhos por Tamar Matsafi.

As pessoas que têm algum tipo de deficiência encaram muitas barreiras para viver dignamente, assumir uma atividade de trabalho e entrar no “fabuloso universo dos seres produtivos”. São olhadas de maneira estranha e muito questionadas. Para serem autorizadas, necessitam do que a sociedade chama de superação – palavra que, particularmente, não me agrada. Quem consegue emprego pela Lei de Cotas também enfrenta problemas de adequação e entendimento no ambiente de trabalho. E quando contestam, muitas vezes não são compreendidos. Simplificando a questão, parece que estar empregado é o que basta.

Os grupos normalmente têm dificuldade de encarar uma conversa franca sobre a deficiência, de um lado e de outro. Algumas empresas e alguns gestores não conseguem ver o profissional com sua deficiência e suas habilidades. Executam normas, leis, protocolos. Tudo está encaixado aqui e ali e parece impossível desfazer as caixas. A burocracia não suporta pensar fora do já estabelecido. A burocracia é cumpridora. Pouco analisa e pouco pensa. Apenas, enquadra.

Puxando a rede, por Tamar Matsafi
Puxando a rede, por Tamar Matsafi.

Mesmo assim tivemos muitos avanços. Consolidou-se uma rede de políticas públicas, com o apoio de grupos autônomos, voltada para o atendimento de pessoas vulneráveis socialmente, pessoas com deficiência e as que sofrem algum tipo de discriminação ou violência, no sentido de garantir seus direitos, a integridade e a liberdade de ir e vir.

Lamentavelmente, o cenário mudou. E diante do que está se desenhando no campo das decisões políticas do país, obscuro e retrógrado, é preciso estar atento e forte para garantir direitos sociais importantes conquistados nos últimos anos. Avanços que deram voz aos excluídos, abriram portas para o protagonismo das mulheres, garantiram vagas para os negros nas universidades e possibilitaram que jovens de famílias de baixa renda chegassem ao ensino superior não podem se perder. São conquistas libertárias que partem do entendimento de que a grande riqueza humana está na diversidade, nas trocas coletivas e nessa imensa rede multicultural que nos aproxima e fortalece. Não podemos nos acostumar com menos porque somos mais!