Pão e Direitos Humanos

Comecei a falar e a escrever sobre acessibilidade e inclusão no blog Isso não é comum para suportar uma dor avassaladora. Acabei atravessando fantasmas e fronteiras internas e externas jamais imaginadas. E, naturalmente, fui dando voz a uma série de outras questões, vitais para a dignidade humana, que me inquietavam e ainda me inquietam muito. De certa maneira, preenchi um grande vazio ao falar de temas que poucos falavam e ao perceber que minha escrita ecoava e ecoa de um jeito surpreendente. Assim como ecoam tantas vozes plurais Brasil afora.

Tive certeza dessas vozes e desses ecos ao participar do Seminário Inclusão: Direito das Pessoas com Deficiência, no Rio de Janeiro, em 23 de novembro, organizado pela Práxis Sistêmica, em parceria com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD) da OAB/RJ e com a Escola da AGU. Ao lado de pessoas cegas e com baixa visão, jovens com autismo, pais e mães de crianças diferentes, falei, mais uma vez, sobre esse tema tão necessário e especial para todos nós que buscamos a diversidade. Foi uma jornada emocionante, de muitas trocas, aprendizagem, respeito, afeto, empatia, que fez diferença no meu cotidiano. Conheci pessoas incríveis, que lutam com lucidez e leveza. E tive esclarecimentos precisos e preciosos sobre os direitos da pessoa com deficiência, agora tão vulneráveis, correndo o risco de serem banidos pelo governo eleito, que pode acabar com tudo o que já se conquistou.

“A grandeza da existência humana é poder trabalhar com a pluralidade, é poder compreender nas diferenças o conjunto da igualdade humana”, escreveu alguém que desconheço, mas quem vai assumir ministérios e cargos no Brasil 2019 parece não entender ou não se interessa mesmo pela diversidade, seja ela qual for.

Em novembro, li também a reportagem da jornalista Clara Clock sobre inclusão no Jornal Extra Classe. Poucos, na mídia, trataram o assunto com tanta seriedade e reflexão. Ali estão colocadas, sem sensacionalismo ou vitimismo, as informações necessárias sobre a questão da deficiência e da inserção no mercado de trabalho. Quero destacar um depoimento que está na matéria e é esclarecedor, o de Paulo Fernando Soares, que foi perdendo paulatinamente a visão ao descobrir, aos 16 anos, um tumor no nervo ótico. Aos 20 anos estava cego. E na seleção para um estágio em Psicologia surpreendeu a supervisora, que achou que ele não daria conta do serviço. “Entre todos os candidatos, só eu consegui responder as perguntas e fui selecionado”, diz ele na matéria. E seguiu comentando: “A gente tem que estar sempre provando que é capaz”. “Deveríamos falar de diversidade desde o ensino básico, sensibilizando e conscientizando que as pessoas com deficiência não são um problema”.

Portanto, é fundamental lutarmos pelos nossos direitos e enfrentarmos os posicionamentos e discursos retrógrados. E é fundamental insistirmos no “Nada sobre nós, sem nós”. Não falem por nós. Não façam por nós. Não decidam por nós. Não nos olhem com olhos contaminados, como se fôssemos incapazes. Antes de tudo, exerçam a alteridade. Coloquem-se no nosso lugar. Perguntem. Ouçam o que temos a dizer. Não nos proíbam de fazer. E respeitem o nosso jeito. Nossas vidas, a sua e a nossa, vão ficar melhores, mais fáceis, mais verdadeiras, mais solidárias.

Podemos dividir nossas tristezas e alegrias, possibilidades e impossibilidades, fracassos e sucessos, sonhos e decepções e seremos inteiros nas nossas interações. Sem mágoas ou ressentimentos. Nossa humanidade é maior do que qualquer atitude excludente. A diversidade que experimentaremos juntos abrirá muitos caminhos. Novas configurações. Novos paradigmas. Outros padrões. A hierarquia radicalmente vertical não se sustenta. Precisamos da horizontalidade, do movimento, da rebeldia, dos vários lados que nos formam. Precisamos dar voz aos tantos que somos. Ninguém fica por muito tempo em um lugar autoritário. São tantos e tão ricos os caminhos que podemos trilhar e os que certamente poderemos abrir como seres libertários que somos.  Não podemos desistir.

Em 2018 participei como palestrante em sete eventos, voltados para qualidade de vida, responsabilidade social e sustentabilidade, inclusão e acessibilidade, discriminação e direitos das pessoas com deficiência, comunicação, desigualdades e políticas públicas, direitos humanos. Um velho ditado diz que quando se fala muito em pão é porque o pão está em falta. Pois está! Pão e direitos, fundamentais para a sobrevivência e a dignidade humanas.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

A seguir minha fala no IV Seminário Criança na Mídia: Tempos de Discriminação e Direitos Humanos – FEEVALE/Novo Hamburgo, em 17 de outubro

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir é necessário.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não temos respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece, não nos vê.

Agradeço à Saraí e aos organizadores deste Seminário por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão e Direitos Humanos. É necessário refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante.

Insisto em falar e escrever sobre acessibilidade e inclusão na busca de respostas para questões que envolvem leis, políticas públicas e, especialmente, sensibilidade. Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase que ela cita, do também arquiteto João Filgueiras Lima: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente. Regulam, oferecem garantias, apontam a preocupação da sociedade. Mas não bastam! Fundamental é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de mudar a regra, se a situação pede. Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher, de ousar.

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados.

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim se criou uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Temos casos recentes de crianças com Síndrome de Down e Autismo que tiveram matrícula negada em escolas. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo.

Por isso, precisamos falar sobre a diferença com a criança, foco deste encontro. Enfrentar o preconceito que todos carregamos é não ter medo do impacto das palavras. Precisamos fazer essa travessia para eliminar o fantasma cruel da exclusão. E só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às crianças, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão alimentam o preconceito porque se conformam às mensagens socialmente instituídas: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, população LGBT, mulheres, índios, quilombolas, pobres e pessoas que apresentam alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, divertindo as pessoas. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de falar sobre diversidade. E ai dessas pessoas se ousarem extrapolar esses espaços!

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeira.

Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã.

Em uma entrevista para o portal Sul21, o jornalista Vitor Necchi diz que “as escolas, em todos os seus níveis, do fundamental ao superior, devem ser espaço de constituição da cidadania e de um pensamento elaborado que inspire sujeitos críticos e conscientes, sujeitos comprometidos com a valorização da vida”. “As escolas devem ser ambientes de reflexão sobre respeito à diversidade e de combate ao preconceito. As escolas não podem absorver a lógica das empresas e se firmarem sob valores como concorrência e meritocracia. E as universidades, em particular, precisam aprofundar o exercício da crítica e da pesquisa”. “O processo de ensino e de aprendizagem tem que desacomodar. A partir das incertezas, crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência”, afirma ele.

Só a educação para a diversidade vai barrar o impulso primeiro de todo o excluído, que é calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos e instaurar a desordem libertadora, cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque ousa ter um comportamento diverso, porque pensa, age e fala. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento – a casa grande e a senzala, o macho que dá ordens e a fêmea que obedece, a raça pura e a raça impura, os frutos da mistura de raças que gerou seres imperfeitos e por aí afora. Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção nos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta.  Uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo e o racismo, é cruel e impõe inúmeros limites.

Nesse contexto, as pessoas diferentes ficam muito vulneráveis. Acabam dependendo da bondade e disponibilidade das pessoas ditas “normais” e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar.

No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe às pessoas que têm uma diferença alertar e sensibilizar a sociedade para as suas limitações e reivindicar direitos e políticas públicas que priorizem a inclusão e a acessibilidade porque este é um dever do Estado.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de inventar, reinventar, mudar, quebrar rotinas.

É a partir desta realidade que proponho pensar o papel dos meios de comunicação porque, de um modo geral, eles se pautam pelo sensacionalismo, contribuindo para a criação de estereótipos. Se não tem superação, não tem notícia. Conclusão: É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Cabe, portanto, à mídia, formadora (ou deformadora?) de opinião, sair do discurso da superação, naõ alimentar mitos, nem transformar as pessoas com deficiência em vítimas, heróis ou guerreiras a serem admiradas. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Cabe à imprensa questionar governos e empresas, pressionar pelo cumprimento das leis, investigar, cuidar da linguagem, usando a terminologia correta, proposta pelas pessoas com deficiência que colaboraram na construção do tratado de Direitos Humanos, que é a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. E a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela o respeito ou a discriminação.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO!

A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características. “A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. É o famoso “matar um leão por dia”.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada. E ao fazerem isso apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas. E especialmente das crianças, repito, por sua ingenuidade. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”. Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade, as nossas aptidões e os nossos sonhos.

A possibilidade da reinvenção e do sonho, sem tragédias

No país do jeitinho, vamos, lamentavelmente, nos ajeitando. Assujeitando. O olhar enviesado para as pequenas dores latentes, físicas ou da alma. Parece que o importante é ir ultrapassando os obstáculos do cotidiano, em silêncio quase conformado, sem importunar ninguém.

Mas os abusos saltam e entram pelos olhos. Mesmo fechados. E, apesar do cansaço, reativamos a inquietação e a necessidade de não aceitar o que não nos pertence.

"A possibilidade da luz", por Tamar Matsafi
“A possibilidade da luz”, por Tamar Matsafi

A entrevista da professora e médica Izabel Maior, uma das pioneiras do movimento político das pessoas com deficiência no Brasil há mais de 30 anos, fez isso comigo. Mais uma vez, tive a certeza de que tudo anda muito devagar quando o assunto bate na cidadania, no direito de ir e vir e na independência possível. Mais uma vez, me dei conta de que é preciso atenção para não deixar o padrão de normalidade e o modelo de perfeição impostos colarem na gente e nos fazer, de uma forma ou de outra, alimentar a doença de uma sociedade que não vê o outro.

“Não vivemos no tempo das cavernas para eliminar pessoas com deficiência, mas essas pessoas ainda vivem segregadas”, enfatizou Izabel, a primeira pessoa com deficiência – uma lesão medular aos 22 anos – a comandar a Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Brasil (Fernando Henrique e Lula) . “O ser humano tem a capacidade de se reinventar, mas o desconhecimento do outro é um traço forte. Somos ainda muito resistentes a mudanças. Achamos que pessoas merecem rótulos, e muitos deles as inferiorizam”.

Izabel Maior - Divulgação Prêmio Claudia 2010
Izabel Maior – Divulgação Prêmio Claudia 2010

Ela falou sobre o tema “Deficiências e Diferenças”, no Café Filosófico da TV Cultura (https://www.youtube.com/watch?v=29JooQEOCvA – agosto de 2016), terceiro encontro da série “O valor das diferenças em um mundo compartilhado”, que teve a curadoria do psiquiatra e psicanalista Benilton Bezerra Júnior, doutor em Medicina Coletiva.

Se o Brasil tem hoje uma das legislações mais fortes em relação à pessoa com deficiência, deve-se, em grande parte, a luta incansável desta mulher, sua alma de ativista e seu olhar voltado para os mais vulneráveis entre os vulneráveis. Izabel Maior alia o conhecimento teórico de médica fisiatra, professora universitária com mestrado em Deficiência pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e especialização em Bioética pela Universidade de Brasília ao saber técnico de gestora pública. Reconhecida pela Organização dos Estados Americanos/OEA, lançou em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos o filme-documentário “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil”.

Foi nos anos 1970 que alguns movimentos coletivos tomaram vulto e mudaram o conceito de deficiência, que deixou o campo puramente biomédico e ganhou contornos sociopolíticos, de direito à diferença. Izabel defende o lema “nada sobre nós, sem nós” e diz que “não é o limite individual que determina a deficiência, mas sim as barreiras existentes no meio”. A atitude preconceituosa das pessoas, a arquitetura, o transporte público, a comunicação, a falta de acesso a bens e serviços, entre outras questões, travam a autonomia verdadeira.

E, então, lá vem o jeitinho. E seguimos fazendo do jeito que dá.

Mais de 15% da população mundial têm algum grau de limitação funcional e boa parte dessa grande minoria ainda enfrenta discriminação, invisibilidade e está isolada da convivência social. Não por desejo delas, já que a funcionalidade das pessoas, em um mundo com recursos tecnológicos para compensar os limites, não impede a convivência. Em sua fala, a médica se referiu à desconstrução dos problemas relacionados ao estigma, “que leva a não aceitação do outro como ele é. Não respeitamos pessoas que não sejam exatamente iguais”.

“Mas iguais a quê?” – essa é a pergunta.

A pessoa com deficiência tem que provar o tempo todo que é capaz. “É o famoso ‘matar um leão por dia” e a mídia não é uma aliada efetiva nessa luta. “Segue falando ‘o deficiente’, por exemplo, e ainda investe no sensacionalismo: se não tem superação, não tem notícia”. Para a médica, o imperativo da superação cria um desequilíbrio. É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

O recado é: “Mude você se quiser ser norma”.

A sociedade só vai mudar quando admitir a discriminação, principalmente em relação a pessoas com deficiência, que fazem parte de outras minorias. “Eu, por exemplo, sou uma pessoa com deficiência, mulher, na terceira idade”, salientou Izabel. Sobre as cotas, ela foi enfática. Só existem porque existe discriminação, mas a maior barreira ainda é o mercado de trabalho. “Quando se fala em cota, não significa que a pessoa vai passar com qualquer nota. A entrevista (de emprego) ainda é a prova de que a discriminação existe. A lei de cotas é uma maneira de contornar isso”. Ela criticou também os resultados práticos da lei de inclusão. “É preciso fiscalizar a sua aplicação”.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir da sua diferença, do seu jeito de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. A luta dos cidadãos é a mesma. “É contra a discriminação, é contra o apartheid, é contra a falta de oportunidades, é contra a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando”.

“Ainda bem que os nossos sonhos permanecem”.

"Ver o outro", por Tamar Matsafi
“Ver o outro”, por Tamar Matsafi

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

Possibilidade, uma  escada, por Tamar Matsafi
Possibilidade, uma escada, por Tamar Matsafi

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados. A sociedade trata de afastar aqueles que fogem aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada.

Assim se construiu uma teoria da normalidade, sem que se saiba exatamente de que modo e sob que fundamentos. Superficialmente, tem-se um padrão já inscrito na cultura a que todos, de algum modo, se conformam. Os que se afastam ou não correspondem sofrem vários tipos de discriminação.

A mensagem socialmente instituída é clara: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel para evitar o conflito. Essa é a condição para que negros, homossexuais, mulheres, índios, pobres, assim como pessoas que apresentam alguma deficiência, sejam aceitas. É necessário que cumpram os papéis que a ordem social historicamente lhes aponta. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de conviver com a diversidade e que, para aliviar sua culpa, reserva “generosamente” alguns espaços aos diferentes.

Excluídos, po Tamar Matsafi
Excluídos, po Tamar Matsafi

O impulso primeiro de todo o excluído é ocupar esses espaços, respondendo passivamente às expectativas. Não responder é recusar o lugar da vítima, do coitado, e assumir-se como sujeito diferente, capaz e com direitos, instaurando uma desordem necessária. Minha reflexão se faz justamente sobre esse deslocamento fundamental das imagens pré-construídas.

Como se constitui esse sujeito diferente? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, revolta-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas a seu respeito? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma aos padrões estabelecidos. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam prioritariamente pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é interessante, mas também pode mascarar o problema.

A questão pode ser vista por outro prisma. Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem, nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. É preciso muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

Pra onde ir, por Tamar Matsafi
Pra onde ir, por Tamar Matsafi

O que desejo aqui é alertar o sujeito excluído para a necessidade de vigiar os efeitos sobre ele próprio das noções que apreende e incorpora culturalmente desde um ponto de vista padronizado. Essas noções tendem a torná-lo intimamente suscetível ao que aparece como seu “defeito”, levando-o muitas vezes a concordar que está aquém do que realmente deveria ser.

O caso do estupro coletivo de uma jovem, recentemente, no Brasil, é um exemplo contundente do que falo. Muita gente culpa a menina pela violência absurda que sofreu.

Em uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo, as limitações são muitas. Nesse contexto, as pessoas dependem muito da solidariedade, da boa vontade, do bom humor e da disponibilidade dos outros e, claro, dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social, de gênero ou comportamento pode e deve impor o seu jeito de ser, subvertendo o estigma e a vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, essa discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos perdem espaço e importância no cenário nacional e praticamente já não têm nenhuma representação efetiva no governo que aí está.

Não é para qualquer um – Orçamento, diplomacia, moral e anões

Chegando lá, por Tamar Matsafi
Chegando lá, por Tamar Matsafi

O que uma coisa tem a ver com a outra? Explico.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina um artigo publicado no jornal Zero Hora no dia 28 de julho de 2014. Um belo texto em que ele lembra do primeiro anão que conheceu e escreve sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Ao ler, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos muito poucos, segundo velhas estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande e, às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, passando pelo grotesco, pelo universo das histórias infantis, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. E repito: a sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa, indigesta. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, andando pelas ruas, já ouvi e ouço muita piada infame. E não sou apegada ao politicamente correto.  De modo geral, encaro essas situações com bom humor. Acontece que tais expressões, ao apontar o que há de pior no cenário político deteriorado do país, acabam ratificando o preconceito. São sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparados que estejamos para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade, é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”.

Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.