Qual é o nosso lugar?

Quero falar de um livro necessário para um tempo em que a diversidade está tão ameaçada e o preconceito se insurge de um jeito cruel, “Na Minha Pele” (Editora Objetiva, 2017), do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos. Em 145 páginas, ele compartilha, com sabedoria e simplicidade, experiências e percepções de um homem negro em um Brasil que insiste na supremacia do branco. É crítico, sensível, corajoso, bem humorado, generoso e firme. Coloca o dedo na ferida sem vitimização.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Eu, que tenho nanismo e enfrento a discriminação cotidianamente, encontrei muitos pontos de conexão com a escrita de Lázaro. “Não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonha estar”, diz ele, rompendo com tantas falas preconceituosas que cercam a vida de pessoas que têm uma diferença e que a sociedade não gostaria de ver onde estão.

“A empregada doméstica é uma figura muito presente nos lares brasileiros. É quase da família, como se diz. Mas este é um não lugar – porque ela de certa forma abandona sua família e nunca entra na outra”. A afirmação me fez lembrar muito do filme “Que horas ela volta?”, da Anna Muylaert, que mostra o incômodo provocado pela filha da empregada que, ao chegar à casa dos patrões, coloca em questão a submissão da mãe.

Em outro trecho do livro, ele é ainda mais enfático: “Minha mente entorta quando penso no tanto que a mentalidade escravagista ainda molda as relações patrão/empregado”. E essa mentalidade não está restrita aos lares, está também nas escolas, em toda parte. “Estudar numa escola de classe média, em que eu era um dos pouquíssimos negros, não foi nada fácil”. “Era a época dos bailes de quinze anos e das primeiras festinhas sem adultos por perto e eu não podia me sentir mais rejeitado”. “Adotei então o papel de melhor amigo”, confessa o ator. E eu, para driblar o nanismo, adotei o papel da colega inteligente e generosa e, assim, participava do círculo dos ditos “normais”.

Lázaro identifica com precisão o discurso hipócrita de que o Brasil não é um país preconceituoso, que aqui não há racismo porque fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como ele sabe que a cor é motivo de discriminação diária. Assim como quem tem uma deficiência sabe que, em um momento ou outro, vai enfrentar restrições de todo tipo e olhares inquisidores e constrangedores. “Os olhares reais e os de soslaio”, “os subtextos que se percebem nas entrelinhas”, “os medos e as sutilezas do preconceito, a solidão”, diz ele. “Será que consigo vencê-los?”, pergunta. Uma pergunta difícil de responder.

A discriminação muitas vezes nos afeta, mas não chegamos a perceber o mal que nos faz. “Curiosamente”, comenta o ator, “tem gente que nos trata como se fôssemos personagens de contos de fada”. Com o nanismo vivo isso no cotidiano – duende, figura mítica, circense e por aí afora.

Como o protagonismo é dos brancos, a condição do branco não é um assunto porque corresponde à normalidade. Enquanto isso, o negro vai se dando conta da sua etnia e da rejeição a cada olhar que recebe. E esse olhar dificilmente é natural e acolhedor. Dependendo do lugar que o negro ocupa na sociedade, vem carregado de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de admiração, de pena.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Lázaro fala sobre o corpo e sobre a pele que habita. Fala de conflitos de opinião e das dores do racismo. Fala da necessidade do enfrentamento dessas questões e lembra que também é militância cuidar de si e buscar a harmonia nas relações. Para ele, “o Estado brasileiro deve se lançar ao desafio da refundação da unidade nacional, com a valorização da diversidade e com a efetiva consagração dos direitos de todos”.