Incertezas, inquietações, interrogações

 

Pois então, 2020 é fato. Nada mudou, é certo. Mas a possibilidade de alterar alguns números, apenas dois, acendeu uma luzinha tímida de esperança na passagem de ano. Luz que se apagou logo ali adiante – no alvorecer do dia já cansado depois dos excessos e da euforia tradicional da festa.

Há algum tempo já não faço planos. E procuro não criar expectativas. Também já não priorizo a organização, mesmo carregando o rótulo de pessoa organizada. As surpresas da gangorra da vida, para o bem e para o mal, foram/são tantas que fui abrindo mão de coisas que acreditava serem importantes para seguir com mais leveza. Quando menos se espera, um acontecimento nos paralisa, angustia, enlouquece. Arranca as certezas mais banais. Rouba nossa tranquilidade.

O tempo é de incertezas, sob os mais diversos aspectos. Se entendêssemos minimamente a fragilidade da condição humana, não seríamos tão ingênuos nem tão prepotentes. Pelo contrário. Seríamos gentis, humildes, solidários, firmes. Exerceríamos verdadeiramente o que chamamos de humanidade. Mas essa delicadeza nos foi roubada pela rudeza dos dias.

O tempo é de inquietações. Algumas tão internas, carregadas do medo de perder e de uma emoção avassaladora. Outras, estruturadas na consciência do ser social e político que somos. O meu tempo, neste momento, é feito de indignação e tristeza. É muito difícil, para quem viveu e lutou nos ásperos anos da ditadura militar, o enfrentamento com a degradação moral que se impõe hoje no Brasil. Ver a ignorância ocupar o lugar da sabedoria. E, consequentemente, acompanhar a negação explícita da cultura, da arte, da educação, do conhecimento, conquistas que dão asas aos voos e nos fazem seres livres e críticos. É duro suportar a arrogância e a soberba do poder medíocre e corrosivo do Brasil atual pisoteando nossos sonhos.

O tempo é de muitas interrogações. O que leva algumas pessoas a sentir uma superioridade tão raivosa e cruel? O que leva quem está no comando a fazer a apologia da violência, autorizar a destruição do meio ambiente e a morte de quem reage e diz não? Por que insuflar o preconceito e retirar direitos de quem já vive praticamente com o mínimo?  Por que querem um povo subjugado, sem opinião e sem dignidade? O que está dado é o resultado de ambições desmedidas, excesso de poder, dinheiro em demasia, cargos e salários milionários que compactuam com a corrupção para manter privilégios, uma camada social que ainda almeja a casa grande para ser servida pela senzala.

O tempo é de discursos medíocres, discussões bizarras nas redes sociais e aplausos para a imbecilidade explícita, enquanto o mundo desaba sobre nossas cabeças. E seguimos anestesiados, apáticos diante de tanta insanidade.

2019 chega ao fim deixando fortes rastros de ódio e intolerância

 

O que vem por aí?

Enquanto os podres poderes lavam as mãos – e seguem com as mãos sujas – assistimos, praticamente sem voz e com poucas representações fortes e dignas, o aniquilamento de conquistas sociais significativas. Atônitos, estamos diante de um país sequestrado. E experimentamos um dos maiores e mais cruéis retrocessos da nossa história recente. Instituições da República falidas. Executivo, Legislativo e Judiciário ocupados por senhores de carreira, alienados e pouco comprometidos com as questões urgentes da vida do povo. Senadores e deputados federais no berço esplêndido da ilha da fantasia conhecida como Brasília. Assim como deputados estaduais e vereadores. Cada turma do seu jeito. Em Porto Alegre, além de reivindicar um aumento de 30%, os vereadores aprovaram o projeto Escola sem Partido, o que significa aprovar a censura, que nos espreita. Somos seres políticos, portanto o “sem” já define um partido, seja ele qual for.

Na esfera econômica, o triste destaque dos últimos dias é uma empresa que descaradamente faz chantagem, sonega impostos, além de assediar e intimidar moralmente seus funcionários. Mas ainda não basta. Agora, o proprietário discursa contra direitos básicos das pessoas, como acessibilidade e inclusão, e mantém a soberba graças aos favores trocados com quem detém o poder. Um toma lá, dá cá deplorável.

Já na esfera ambiental o que acontece na Amazônia escancara o descaso com o nosso patrimônio natural maior, nosso presente e nosso futuro. “A Amazônia é questão de vida ou morte. Precisamos lutar por ela”, escreveu recentemente a jornalista Eliane Brum, ao compartilhar um texto de Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do The Guardian, que ressaltou: “Não são brancos que estão morrendo, como de hábito, pelo menos não ainda. São os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e também agricultores familiares. Sei muito bem que a situação do país toda é terrível. Mas na Amazônia, é onde estão os interesses de Bolsonaro e seus amigos”. A integridade da nossa terra está nas mãos de governos que não se importam com a preservação, repudiam a diversidade e estimulam a violência.

O que está em jogo? Os direitos básicos de um povo muito sofrido – liberdade de expressão, justiça social, educação, saúde, segurança. A nossa dignidade e a nossa autonomia entregues para indivíduos sem escrúpulos. E boa parte da imprensa, como de hábito, segue unilateral, escorregadia, incapaz de uma análise plural, reflexiva e profunda.

Sob o ponto de vista pessoal, minhas dores inevitavelmente misturam-se às dores da sociedade. E nessa fusão de sentimentos vou percebendo, aos solavancos, o tanto que tiraram dos seres políticos e sociais que somos. Todos nós. As marcas são profundas. Necessitamos urgentemente de olhares sensíveis, de fluidez, de sabedoria, de uma humanidade que o poder que nos sufoca desconhece.

Sei que a época é de aliviar as tensões de um ano difícil, de um desmonte nunca antes imaginado, para viver com serenidade os rituais de passagem tão necessários. Sei que é preciso respirar profundamente entre familiares e amigos e brindar a vida com alegria. É fundamental seguir olhando para o outro com afeto, entre risos, abraços, lágrimas e brincadeiras, com a certeza de que é possível a mudança que sonhamos. Sem radicalismos e sem alimentar mágoas, buscar a harmonia, respeitando as diferenças que nos constituem.

O bando que hoje entrega o país ao capitalismo mais sórdido, resultado de um pacto fascista articulado por políticos e uma elite sem escrúpulos, é insaciável. Esse bando nos quer submissos e covardes. Nunca saberemos o quanto ainda vão sugar de todos nós. Os ataques à educação, à ciência, às artes, ao conhecimento e aos direitos das pessoas com deficiência não cessam e é uma maneira de nos tornar vulneráveis como cidadãos. Sem cultura, sem análise, sem reflexão, sem acolhimento, com ataques sistemáticos aos movimentos sociais, e com a desestruturação do ensino, o que temos pela frente é a ausência de pensamento crítico. Um povo sem história e sem memória é mais fácil de subjugar. A eliminação de direitos fundamentais interfere diretamente na formação de indivíduos livres, responsáveis e éticos.

Para fechar um ano duro, sombrio, de perdas nunca antes imaginadas, e em nome da minha saudável rebeldia, recuso a polaridade que não leva a lugar nenhum. Precisamos da palavra que nos coloque novamente em sintonia para divergir e buscar a mudança como seres civilizados que somos. Precisamos do olho no olho, do debate a céu aberto, livres do ódio insano autorizado, que contamina as redes sociais e as nossas relações com o mundo ao redor, plantando mentiras para nos desestruturar.

Apesar do cenário obscuro que vejo estampado no horizonte, meu desejo é que 2020 nos livre da ignorância que tomou conta do Brasil e nos devolva o prazer do conhecimento, a garra, a esperança, a capacidade de lutar pelos nossos sonhos. Recuperar a delicadeza perdida é o que me move neste momento polarizado, de tanto ódio. Quero de volta a nossa humanidade avassaladora e diversa, tão ameaçada neste cotidiano irracional. Quero a humanidade transgressora, libertária, saudável, solidária e rebelde no que tem de mais genuína, múltipla, íntegra e despojada.

Que país é este? Um desabafo!

Que país é este que autoriza a violência, a tirania e a crueldade?  Que país é este que só tem olhos para o mercado e o lucro? Que país é este que vira as costas para a população carente, explorada e intimidada diante da truculência de quem deveria garantir a segurança? Que país é este que mata índios, negros e pobres e torna ainda mais precária a vida de quem já não tem quase nada? Que país é este que mantém um governo tóxico que liberou, em menos de um ano de mandato, o uso de 400 produtos venenosos, além de tantos outros venenos que nos contaminam cotidianamente?

Que estado é este em que livros são encaminhados para virar papel higiênico? Que estado é este que só pensa em privatização? Que estado é este que mantém os salários atrasados, parcelados, e tenta há 48 meses normalizar o que não é normal? Que governo é este que ainda quer tirar do funcionalismo benefícios adquiridos, como o percentual de insalubridade, entre tantas outras medidas de um pacote salvador, que só salva os já salvos?

Perdemos a decência, o respeito pelo outro, a possibilidade de um diálogo aberto, o desejo de viver em harmonia na diversidade.

Diante desta aniquilação de direitos em nome de uma “crise fiscal” e da desumanização da vida a cada minuto, lembro o que escreveu o ator, diretor e produtor Rodrigo Pena, em agosto de 2019, na revista Joyce Pascowitch: “Como projeto de nação, sociedade, nunca fomos tão ridículos”. E mais uma vez ouço a voz do poeta João Cabral de Melo Neto: “não há guarda-chuva contra o mundo”.

Falta dinheiro? Falta. É desorganização dos governos e do poder público de um modo geral? É. O Estado está falido? Está. O desvio de verbas é uma realidade? É. O uso é equivocado? É. De quem é a responsabilidade? Da máquina administrativa inchada, do excesso de funcionários, do custo do que é público, como educação, saúde, assistência social e previdência, dizem os donos do poder, que só sabem jogar a culpa da falência nos trabalhadores, por conta dos salários e das vantagens que recebem. Sempre a velha e equivocada retórica. É bom que se diga que direito social não é mercadoria e que a solução não está na adoção de modelos comprovadamente fracassados.

A política neoliberal do estado mínimo aniquila conquistas e direitos fundamentais da população, amplia a desigualdade, estimula ainda mais a concentração de riqueza e poder nas mãos de muito poucos, agrava os problemas, gera altos índices de criminalidade, queda dos índices de educação e de qualidade de vida. Mas os governos insistem. Partidos, políticos, empresários e seus asseclas de um modo geral não querem sair de suas bolhas. São incapazes de um pacto decente pela nação e só pensam em vender tudo, liquidar com o patrimônio. Privatizar, privatizar, privatizar é a ladainha de sempre, potencializando o pior do neoliberalismo, a desumanidade.

Pelo viés das forças políticas conservadoras, autoritárias e preconceituosas, dos liberais que defendem o capital a qualquer custo, os empresários e o mercado não têm responsabilidade pelo que aí está. As empresas seguem protegidas e sonegando seus impostos milionários. E os políticos só têm olhos para seus umbigos. Não abrem mão de campanhas escandalosas, onde o dinheiro brota de todos os lados, para assumir o comando de um município, de um estado, de um país. Ou virar senador, deputado, vereador. Não têm vergonha de rifar cargos, encobrir falcatruas e tirar verba da saúde e da educação para engordar o fundo eleitoral. Discursam nos palanques como salvadores da pátria. Arrancam da cartola soluções milagrosas e fazem promessas mirabolantes. Depois de eleitos, passam quatro anos fazendo projetos estapafúrdios e inúteis, lamentando exaustivamente a falta de dinheiro e se eximindo de qualquer responsabilidade concreta.

Por que se candidatam? Que fascínio é este pelo comando de estruturas falidas? Que vantagens levam, afinal, para encarar tantas dificuldades? Os discursos até podem parecer ingênuos, mas não há ingenuidade nesta bolha onde tudo ou quase tudo se compra. Há, sim, esperteza, ganância e descaso com as pessoas. Portanto, os discursos são cínicos. Desumanos. Primários. É um deboche tanta queixa e tanta falsidade, enquanto a população espera um projeto positivo, por mínimo que seja.

Se tanto batalham para ser prefeito, vereador, governador, deputado, senador, presidente, para ocupar qualquer cargo, é porque querem fazer algo que valha a pena. Na minha santa ingenuidade, algo que contribua com o desenvolvimento sustentável, com a educação, a saúde pública e o bem estar de uma comunidade.

Que nada! É apenas o poder pelo poder que move esta gente. E, claro, as benesses que o poder gera e que nós pagamos.

Todos os que aí estão em seus postos, muito bem pagos, de líderes salvadores da pátria sabiam o que estavam assumindo ao se candidatar. Sabiam das suas responsabilidades com os votos que receberam. Ao trabalhar para serem eleitos não deveriam ter consciência da árdua tarefa que os aguardava e honrar a dimensão do cargo? Aquele ou aquela que se candidata, faz campanha, acordos, alianças, viaja o país inteiro, não deveria pecar pelo descaso. Até porque ninguém é ingênuo nesta seara.  Por que, então, o ridículo discurso da penúria, cheio de ameaças, repetido exaustivamente do Oiapoque ao Chui, depois de eleitos? É patético. E seria cômico se não fosse trágico.

Limites da tecnologia

O discurso tecnológico e os avanços do festejado mundo virtual às vezes me parecem barbaramente incompatíveis com a miséria física e moral desses tempos obscuros. A tão apregoada evolução não combina com um país hoje cruel e mesquinho, que nos joga em uma miséria de valores éticos, potencializada pelas redes sociais, que geram uma polarização sem medidas. Falo isso porque há um fosso enorme entre as pessoas. Mesmo com os tantos talentos que temos ao redor, os tantos recursos disponíveis e as infinitas facilidades de comunicação, a qualidade de vida é mínima, as periferias empobrecem e se marginalizam cada vez mais, enquanto políticos sem escrúpulos e elites soberbas continuam acumulando capital e poder.

A educação, única forma de oferecer autonomia, raízes e possibilidades de voos a crianças e jovens, está à deriva, sem recursos, sucateada. Os professores são desprezados pelos governos. Enquanto os juízes ganham todo tipo de penduricalhos em salários já polpudos, os mestres têm parcos salários e enfrentam escolas sem as mínimas condições para exercer a tão necessária função de ensinar.

Paralelamente, a lei trabalhista passa por reformas que abalam a sua essência e o Ministério do Trabalho está nas mãos de senhores de reconhecido caráter corrupto. A saúde, por sua vez já tão precária, sofre abusos de todo tipo, como as ameaças de dar fim ao SUS, o abandono de centros que atendem a população mais carente, a superlotação dos hospitais e a falta de verbas. A insegurança assusta e o abandono das cidades é um fato. Só ouvimos queixas dos governos que, sem um rasgo de criatividade e invenção, repetem incessantemente o discurso da falta de verbas. E, em ano político, abusam das negociatas para manter privilégios. A corrupção avança e o dinheiro que falta é visto logo ali, desviado, nas mãos de quem não precisa, sem o mínimo controle.

Quem realmente está preocupado em resolver os problemas que a população enfrenta cotidianamente?

Se o uso da tecnologia não consegue contribuir minimamente para a mudança deste triste panorama, criaremos um fosso imenso em um mundo cada vez mais verticalizado, reduzido a pequenos celulares de última geração. Isso porque esses são os valores que vigoram na sociedade de hoje. Uma sociedade vertical, incapaz de melhorar o mundo porque aprisionou o olhar, eliminou a horizontalidade e, assim, eliminou também a possibilidade de olhar em todas as direções. Uma sociedade que esqueceu que somos humanos e multifacetados, portanto, vulneráveis.

Uma bela entrevista com Paulo Flores, ator, diretor e fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, no Caderno DOC da ZH do final de semana de 16 e 17 de junho de 2018, toca neste tema com sabedoria. “Vivemos em um mundo eletrônico, nos comunicamos através desses meios, não nos encontramos. Onde está o olho no olho? A vivacidade das expressões?”, pergunta ele.

Onde está o corpo a corpo? Onde está a tribo? Onde estamos? O que queremos?

Ficam as perguntas para pensarmos. E responder.

Caminhos incertos em meio ao terremoto

A Copa do Mundo está aí e o entusiasmo não é o mesmo. As eleições estão chegando e tudo o que se vê é uma polarização doentia. Vamos encerrar um ciclo obscuro para entrar em tempos mais luminosos? Ou não? O que está vindo por aí?

Para além de qualquer movimento, o tempo é de apreensão, cansaço e quase nada de reflexão.  O campo está minado. A política que domina o poder é elitista, soberba, cheia de retórica, absurdamente mesquinha e incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da “salvação do país”, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação, da saúde, da cultura e ignoram conquistas sociais.

Querem salvar o Brasil para quem?

A pergunta parece não importar. O que o governo mais impopular da nossa história precisa nesse momento é responder, pelo menos, à minoria que o sustenta. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população. Mas está pronto para bater em quem protesta nas ruas, justamente aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo”. A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que ainda é possível a mudança, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Sob o ponto de vista da acessibilidade e do respeito pelo que é público, basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Pisos táteis mal colocados, rebaixamento de calçadas mal feitas.  É visível a deterioração dos espaços públicos.

A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação e da cultura anda a passos largos.

Querem acabar com tudo.

Educação e Arte, grandes ameaças…

Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, ao mesmo tempo em que divertem e espalham alegria, são ameaças. Por isso devem ser combatidos e, se possível, eliminados pelo governo. A sociedade está doente, triste, vazia de valores e do entusiasmo genuíno, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

Precisamos ser vigilantes e responsáveis! Cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito. Vamos zelar pelo nosso bem estar, a alegria, o lazer, a arte que nos alimenta. Olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

É preciso remar contra a corrente

Na escuridão desses tempos, busco brechas luminosas para respirar. E me abastecer.

O texto de Mia Couto, enviado pela amiga Flavia Boni Licht, chegou como um presente, enchendo de luz o cotidiano. A escrita, lúcida e simples do escritor, dá voz ao que penso, apontando alguns equívocos da educação que vemos brotar hoje.

Para Mia, há muita preocupação com o fato dos jovens entrarem para a universidade com um fraco desempenho acadêmico, enquanto a preocupação maior deveria ser com o crescer sem referências morais. Há um discurso pelo empreendedorismo e pela liderança, como se toda uma geração estivesse destinada à vida política ou empresarial. Mas não há, segundo ele, interesse em preparar os filhos para serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo. E fazerem suas opções!

E segue: “Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações e que está bem patente nos vídeo clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem”.

E conclui: “É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.”

É preciso cultivar o conhecimento, a convivência e a reflexão

Ao tomar contato com o trabalho da Nova Acrópole, organização internacional de caráter filosófico, cultural e social, sem fins lucrativos, que completa 60 anos no mundo e 30 anos em Porto Alegre, fiquei surpresa e me senti instigada. Totalmente mantida por voluntários, a instituição orienta-se pela Filosofia, Cultura e Voluntariado, e sua atuação é pontuada pela independência de interesses políticos, religiosos ou financeiros. Há um comprometimento com a educação humanista em todos os cursos que oferece, nas atividades culturais e artísticas e nas ações sociais e ambientais. É um espaço singular de ação, reflexão e convivência.

O movimento, fundado em 1957, tem forte presença em mais de 60 países, com mais de 400 sedes, sempre cultivando o conhecimento individual e coletivo e a qualidade de vida a partir de uma visão universal voltada para a transformação. Além de Porto Alegre, a Nova Acrópole está presente em Caxias do Sul, Gravataí, São Leopoldo, Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Alegrete. Os associados voluntários participam de todas as atividades educacionais e culturais, que priorizam a ética, a filosofia à maneira clássica, a sociopolítica, filosofia da história, arte, cultura e voluntariado. As aulas, expositivas e práticas, estimulam, ao mesmo tempo, a reflexão e o uso do conhecimento no dia a dia para a construção de uma vida melhor.

É preciso que as palavras tenham mais força que as metralhadoras

“O homem morre em todos aqueles que se calam”. A frase é de Wole Soyinka, dramaturgo, poeta, ensaísta e professor nigeriano, primeiro africano Nobel de Literatura, uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre neste ano. É um guerreiro incansável, como Ogum, “sua divindade companheira”. A Escola de Poesia, que tem a obra do dramaturgo como referência em seus estudos, desenvolveu um projeto para homenagear sua passagem pela cidade – Escola de Poesia & Wole Soyinka – Para que as palavras tenham mais força que as metralhadoras. O ponto alto é o lançamento do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, no dia 18 de novembro, às 17h, na Tenda de Pasárgada, na Praça da Alfândega.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros.
Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros

O documentário mostra um pouco da vida e da obra de Soyinka e conta com a participação de artistas e integrantes da comunidade local que se articulam, de algum modo, com a ancestralidade africana, como o grupo musical Alabê Ôni, o grupo teatral Pretagô, e seu diretor Thiago Pirajira, o Africanamente Ponto de Cultura e Escola de Capoeira Angola, e seu Contramestre Guto, o poeta Ronald Augusto, o escritor Jeferson Tenório, o pintor Paulo Montiel, os escultores Jonas e Marcos, a Iyalorixá Sandrali de Oxum, a Iyalorixá Bete Omidewa, a artista visual Manuzita, a poeta e psicanalista Lúcia Bins Ely e a psicanalista e poeta argentina Marcela Villavella.

Wole Soyinka – A forja de Ogum foi produzido pela Escola de Poesia em coprodução com o Coletivo Catarse. Concepção, roteiro e direção da poeta Eliane Marques (Prêmio Açorianos de Literatura/2016) e do poeta e tradutor Adriano Migliavacca, estudioso da obra do nigeriano. Apoio de Gustavo Türck (documentarista e produtor audiovisual), Billy Valdez (operação de câmera) e Marcelo Cougo (operação de áudio). Documentação de Lúcia Bins Ely e Anelore Schumann. Pesquisa de imagens de Priscila Pasko.

Nesta época em que a arte está sendo tão abandonada pelos governos, é estimulante o que diz Soyinka: “O meu horizonte sobre a humanidade é ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma música, alguma ópera, e isso não tem nada a ver com a volátil condição humana, ou luta, ou algo assim. Isso me enriquece como ser humano”.

 

Oásis – uma homenagem às crianças

Temos oásis incrivelmente verdejantes e cheios de frutos em meio à secura deste deserto ético e moral que tenta minar a nossa crença no presente e no futuro. Oásis que iluminam o cotidiano e nos fazem acreditar que é possível fazer diferente. Um destes oásis passa pela educação infantil, fundamental para a formação de pessoas que contribuam efetivamente para a construção de um mundo melhor.

Conto aqui um pouco do oásis que encontrei em 2017.
A jornalista Cristina Pozzobon, com quem já fiz algumas boas aventuras na área editorial, me ligou e perguntou: Topas fazer o livro do Pato, uma escola infantil que faz 50 anos, com a Rosina (Duarte)? Imediatamente saltou da minha memória a escola onde estudaram os filhos de amigos muito queridos, desses para a vida toda: Custódio (Luiz Antônio Bolcato Custódio), arquiteto e Teresa (Maria Teresa Chaves Custódio), professora, pais da Bianca e do Miguel. A resposta foi sim, sem pestanejar. Não resisti e liguei em seguida para a família Custódio. Queria confirmar se a memória não me traía e contar a boa nova. Qual não foi a minha surpresa: Teresa começou a falar e chorou. De emoção, literalmente!

Que escola é essa? Fiquei ruminando. Até ser convocada para a primeira reunião com as fundadoras. Cheguei atrasada e a conversa corria solta e animada. A tarde voou e saí renovada, mais jovem do que nunca. E assim foi sucessivamente ao longo dos meses. E assim entendi o choro da minha amiga.

Ouvir Beth (Elizabeth Mariani) e Marcia (Marcia Palmira Sacco), as fundadoras do Pato, foi mágico pra mim nesse momento da vida. E ouvir Laura, Patrícia e Mônica confirmava a magia, sublinhada depois pelos depoimentos que fomos colhendo, Rosina e eu. Depoimentos que começaram em uma grande e catártica reunião na escola com muitos pais e ex-alunos que falaram emocionados e com muita alegria sobre o Pato. Depois, tive encontros incríveis em busca de mais depoimentos. Com a psicanalista Lucrécia Zavaschi, a psiquiatra e pediatra Geraldina Viçosa, a família Cohen com sua sacola de preciosidades, a família Loss que me esperava inteira na volta de uma mesa, Marta Saldanha, uma das fundadoras, e tantos outros que chegaram por e-mail, como o dos Grassi, por telefone, pelo whats, como o de Ana Flávia Baldisserotto. Tudo à flor da pele!

Foram sete meses de muito trabalho, muito afeto, muita adrenalina, muitas entrevistas, muita parceria, muita busca e muita ansiedade. Escritos e escritos. Revisões. Ajustes. Outras revisões. Mais escritos. Encontros com a Cris para seleção de fotos e para ver a proposta gráfica. Depoimentos de última hora. Uma enorme responsabilidade! Até o ponto final, que não é final, porque a história não se acaba. E tanta experiência, convicção, dedicação não cabem inteiros nessas amorosas 151 páginas.

pato

Pato – uma criança de 50 anos, o livro que conta um pouquinho desta escola que fez e faz a diferença na educação infantil, ficou pronto. Vê-lo assim acabado, todo bonito, cheio de lindas histórias e muita delicadeza, tão lúdico, é uma emoção indescritível. Emoção que, talvez, só eu, neste momento louco da minha vida, possa entender.
É um horizonte claro, cristalino. É um rasgo enorme de esperança, simplicidade e muito amor nestes tempos incertos e sombrios. Há quem trabalhe com afeto. Há quem priorize a criança. Há quem acredite na educação e tenha convicção de que é na infância que se afaga a essência do adulto que somos. Há muita luz nesse caminho.
Só tenho a agradecer por essa jornada. Conhecer as fundadoras e a equipe da escola e suas histórias me fizeram uma “patinha”. Simples assim!

Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.