Que valores nos sobram depois de um sombrio primeiro turno, humanos ou monetários?

O que ficou do processo eleitoral e desse primeiro turno? O que revelam os votos em branco, os nulos e as dissidências? Estamos diante de um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que não encontrou guarida diante da profunda crise ética e política em que o Brasil mergulhou. Crise que faz renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho e torpe, e dá asas a uma extrema-direita intolerante, violenta, avessa à diversidade de opiniões e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contaminou o país de norte a sul, sustentada por empresários, partidos e vassalos de toda sorte. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas de governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas.

Há uma devastação orquestrada por políticos sem caráter e por uma lamentável mídia de mão única e incapaz de análises amplas e descomprometidas, que trazem nas mãos a hegemonia do poder econômico em detrimento de direitos sociais e trabalhistas de cidadãos do bem. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Mais uma vez, vou lembrar de uma pequena atitude dos bancos, que diz muito do perfil das instituições financeiras, quando estão diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

A intenção primeira era falar sobre o assunto a partir de imagens feitas nos locais, mas os bancos/banqueiros têm muito medo de mostrar a sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana. Então, fui proibida de fotografar as minhas artimanhas em busca da independência necessária para dar conta da vida. É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de todos nós, governos e empresários que ditam leis e regras.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.

"Banco necessário", por José Walter de Castro Alves

“Banco necessário”, por José Walter de Castro Alves

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades, o que considero grave. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu solicite a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

É claro que sempre encontro algum funcionário capaz de uma atitude fora do protocolo, mas normalmente ele não tem poder. Relembro dois episódios já publicados aqui.

Acessibilidade para quê?

Fragmento do absurdo cotidiano                                                                                 Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é comum nas instituições bancárias. Nem no “buraco” para colocar o celular, metais, moedas e outros objetos que possam barrar o meu acesso e, “desarmada”, ser autorizada a entrar. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Atrapalhado, ele grita: “O que a senhora tem na bolsa?”. A resposta é óbvia. Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Do lado onde estou, aparece outro guarda, que faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz: “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? (Postado em 26 de abril de 2016).

Fragmento da delicadeza cotidiana                                                                                 Há alguns anos, o guarda do Banrisul, onde tenho conta desde a década de 1980, depois de muito ouvir reivindicações minhas e da minha irmã (Marlene Teixeira, que enfrentava as mesmas dificuldades), afirmou que iria conseguir uma escada para acessarmos os caixas. Logo depois, para nosso espanto, sorrindo e feliz, ele nos apresentou uma escadinha ótima. De onde a gente menos espera, vem uma solução fora da norma, inclusiva e sensível. (Postado em 10 de maio de 2016).

"Escada, uma extensão necessária", por José Walter de Castro Alves

“Escada, uma extensão necessária”, por José Walter de Castro Alves

 

Pensando e repensando a cidade

– Em tempo de eleições, o espaço urbano deve estar no centro das reflexões –

 

Com a missão de colocar em pauta algumas ideias, opiniões e interpretações, sugerimos aos que querem legislar e governar a cidade um olhar mais agudo e analítico para o ambiente urbano, sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade, no sentido de repensá-lo em sintonia com as demais inquietações que mobilizam os moradores.

Porto Alegre e o Guaíba

O meio ambiente urbano, a qualidade de vida dos homens e o perfil das cidades na contemporaneidade são temas que ocupam o cotidiano das populações devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos hoje nas ruas. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são atualmente um bom lugar para se estar? É possível humanizá-las e transformá-las em espaços criativos, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver?

Vivemos em cidades cheias de conflitos criados por nós, habitantes, pelo poder público e pelo poder econômico, relacionados ao tratamento que damos aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta e que as cidades são de quem nelas vive.

Algumas ideias para o bom espaço público
Para o designer visual Vitor Mesquita, idealizador do projeto URBE, cuja revista conquistou o Prêmio Açorianos de Artes Visuais (Especial do Júri, 2013) e, por duas vezes, o Prêmio Abrigraf de Excelência Gráfica (2012 e 2913), a reflexão sobre o espaço urbano, no sentido de torná-lo mais criativo e convidativo ao convívio, está cada vez mais latente. “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas”.

Vitor destaca que os cidadãos estão preocupados com a sua cidade, com a revitalização de áreas deterioradas, com a ocupação de espaços. Prova disso é que o tema domina desde os noticiários do horário nobre e redes sociais até reuniões de moradores de bairros. “A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar.”

Nessa direção, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, um estudioso das cidades e da vida das pessoas nos grandes centros, referência mundial em desenho urbano e espaços públicos, levantou 12 critérios para o Bom Espaço Público. Dizem respeito a todos nós e, claro, aos governos e aos empresários que, na maioria das vezes, ignoram o público – o urbano e o humano – e exercem o poder em nome do lucro e do benefício de muito poucos. E se os gestores urbanos procurassem ouvir o que diz Gehl e adaptassem algumas de suas ideias aos espaços sob sua responsabilidade?

1 – Proteção contra o tráfego
2 – Segurança nos espaços públicos
3 – Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis
4 – Espaços para caminhar
5 – Espaços de permanência
6 – Lugares para sentar
7 – Possibilidade de observar
8 – Oportunidade de conversar
9 – Locais para se exercitar
10 – Escala humana
11 – Possibilidade de aproveitar o clima
12 – Boa experiência sensorial

Jan Gehl dá ainda cinco conselhos para cidades habitáveis, saudáveis, seguras e sustentáveis.

1. Parar de construir cidades pensando em “facilitar a vida dos automóveis”.
2. Fazer dos espaços públicos o foco dos projetos urbanos.
3. Projetar experiências multisensoriais.
4. Fazer com que o transporte público seja para todos.
5. Proibir o uso de automóveis.

A cidade e seu corpo – Por mais acessibilidade e inclusão

Em tempo de eleições municipais, abrimos aqui uma conversa sobre Porto Alegre, suas condições atuais, suas possibilidades e o futuro que ousamos sonhar. O que nos move é o desejo de viver em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, generosa e bonita.

Queremos participar desse momento com algumas ideias sobre o espaço urbano, contribuindo de alguma maneira para que os possíveis candidatos a prefeito e vereador façam a diferença necessária ao assumir essa grande responsabilidade que é administrar um município e dar voz aos cidadãos que nele habitam.

A inspiração para iniciar essa conversa vem do poema “O Mapa”, de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Mapa de Porto AlegreokOlhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.
Do seu corpo.
Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.
Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças.
Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.
Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.
De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.
De toda a forma e qualidade.
Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.
Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?
Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?
Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.
“Tanta nuança de paredes”.
Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas.
Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.
Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.
Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.
São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.
A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?
São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

“A cidade é para quem vive NELA ou para quem vive DELA?”
Essa é uma pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, pergunta que precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua importância.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?

Que essa seja uma conversa permanente, intensa e de trocas úteis para a anatomia do nosso corpo urbano!