Caminhos incertos em meio ao terremoto

A Copa do Mundo está aí e o entusiasmo não é o mesmo. As eleições estão chegando e tudo o que se vê é uma polarização doentia. Vamos encerrar um ciclo obscuro para entrar em tempos mais luminosos? Ou não? O que está vindo por aí?

Para além de qualquer movimento, o tempo é de apreensão, cansaço e quase nada de reflexão.  O campo está minado. A política que domina o poder é elitista, soberba, cheia de retórica, absurdamente mesquinha e incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da “salvação do país”, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação, da saúde, da cultura e ignoram conquistas sociais.

Querem salvar o Brasil para quem?

A pergunta parece não importar. O que o governo mais impopular da nossa história precisa nesse momento é responder, pelo menos, à minoria que o sustenta. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população. Mas está pronto para bater em quem protesta nas ruas, justamente aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo”. A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que ainda é possível a mudança, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Sob o ponto de vista da acessibilidade e do respeito pelo que é público, basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Pisos táteis mal colocados, rebaixamento de calçadas mal feitas.  É visível a deterioração dos espaços públicos.

A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação e da cultura anda a passos largos.

Querem acabar com tudo.

Educação e Arte, grandes ameaças…

Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, ao mesmo tempo em que divertem e espalham alegria, são ameaças. Por isso devem ser combatidos e, se possível, eliminados pelo governo. A sociedade está doente, triste, vazia de valores e do entusiasmo genuíno, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

Precisamos ser vigilantes e responsáveis! Cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito. Vamos zelar pelo nosso bem estar, a alegria, o lazer, a arte que nos alimenta. Olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.

Tempos exacerbados

A exacerbação dos dias de hoje é avassaladora. Inquieta e provoca medo. Vem por todos os lados. À esquerda e à direita. Para o bem e para o mal. Não há mais sossego. Muito menos reflexão. Não se relaxa. Tudo é para ontem. Tudo é intempestivo. Tudo vira um debate sem fim e sem sentido. Criamos um distanciamento assustador de uma conversa natural. Há que se ter opinião sobre tudo. Desaprendemos o diálogo, o bate papo leve e solto, sem amarras. Há que se condenar. Ou absolver. Há que se dominar. Não acatar. Há que se ter recompensa, mesmo fazendo o justo, o que é de direito e dever do cidadão de bem. Há que ser dono da verdade.

Nessa roda viva crucial, a vontade de ser uma “metamorfose ambulante” e não “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, como diz a canção de Raul Seixas, certamente é libertadora. “Dizer o oposto do que eu disse antes”. Observar o processo. Não embarcar em qualquer carona, qualquer ideia, qualquer discurso. Cultivar o tempo, exigir mais, aprofundar o pensamento, solidificar as relações, buscar respostas possíveis para uma realidade complexa. Sair fora da superficialidade, das respostas prontas e das falsas facilidades das redes sociais. O imediatismo não leva a nada. Não resolve. Não sedimenta. Não cria raízes. Mas é dele que nos alimentamos!

Depois de alguns dias completamente caseiros por conta de uma crise alérgica respiratória profunda, saí para a rua, ainda zonza, no final da manhã da última quarta-feira, 9 de maio – para a tão necessária terapia. Tomei um ônibus. E o que vi e ouvi em poucas quadras, em pé, ao lado do motorista, mais uma vez me deu a dimensão do nosso estado de exacerbação, loucura e insensatez, do recrudescimento das relações, da pressa, da falta de respeito, do descaso com o outro.

Um casal de velhos, na faixa dos 80 anos, ambos com a respiração difícil, truncada, entra no ônibus. Ninguém dá o lugar. Dou o meu. Um jovem, envergonhado, levanta e oferece o lugar onde estava sentado, bem em frente de um cartaz que dizia: “acentos preferenciais para idosos, pessoas com deficiência, mães com criança no colo”.

Na rua, as pessoas atravessando em frente ao ônibus, sem olhar, arriscando a própria vida e a de tantos outros. Carros cortando o caminho do ônibus, afrontosamente. Freadas bruscas do motorista, que não tinha saída, quase me derrubam. Ele pede desculpas e comenta: o trânsito nunca esteve tão desregulado. Completo: e as pessoas também.

O mundo nunca esteve tão desregulado, sigo pensando. Mas quem não usa transporte público, não anda pelas ruas, não precisa de centros de saúde populares, não trabalha de sol a sol, não tem filhos em escolas públicas, não passa pelo centro nevrálgico das cidades, não vê o desespero cotidiano. A miséria se espalhando, a sujeira amontoada, a velhice maltratada, a educação minimizada, a saúde sem recursos, as crianças abandonadas, as paradas de ônibus entupidas de gente, os ônibus abarrotados, o destempero generalizado.

Quem vive protegido por altos salários, legislando em causa própria, mergulhado no “favorzinho” – uma proprina aqui, outra lá adiante – usando e abusando do dinheiro público que deveria estar na educação e na saúde, não tem olhos para o povo. Ou melhor, só vê o povo em época de eleições, quando as promessas jorram e tudo, milagrosamente, parece ter solução. Minha esperança é que esses tempos exacerbados acendam algumas luzes e as pessoas analisem a trajetória de cada candidato antes de votar, sem cair na “lengua-lengua barata” e virar vassalo, o que custa tão caro depois.

Temos aí um cidadão acima de qualquer suspeita para votar?

Tristicidade

Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

O olhar agudo de Leandro Selister escancara o abandono e o mal-estar de um porto que esqueceu a alegria e largou sua gente ao deus-dará. E quem anda de olhos, sensibilidade e peito aberto pelos becos e esquinas de Porto Alegre hoje não tem como não ver e sofrer com a miséria e a precariedade que proliferam assustadoramente, estampadas em cada canto. É abandono e mal-estar, como mostra o artista visual no projeto Tristicidade – cartografias do abandono e da (in)visibilidade.

O que fizemos, pergunta ele?

Em dezembro deste ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos.

Pouco antes, teremos eleições gerais no Brasil.

O que faremos com o nosso voto?

Como viver impunemente diante do desemprego, da fome, de pessoas que andam por aí e se alimentam nas latas de lixo, dormem nas calçadas, das ruas sujas e esburacadas, de uma cidade desamparada? Esses e tantos outros questionamentos inquietantes levaram Leandro Selister a registrar em fotografia a triste realidade da capital gaúcha, que se agrava assustadoramente, e não é apenas nossa, mas do Brasil e do mundo.

Tristicidade é uma denúncia, um alerta para que as pessoas despertem, pressionem os governos para juntos pensar em alternativas. Mostra o que não queremos ver e fazemos de conta que não é da nossa conta. Mas é! Somos todos responsáveis, sim. Vivemos em uma comunidade e olhar para o outro é fundamental.

"Tristicidade", de Leandro Selister
“Tristicidade”, de Leandro Selister

Para dar vazão a essa angústia, Leandro Selister criou uma palavra – definindo-a como um verbete de dicionário: “Tristicidade. 1. Qualidade ou estado de desilusão em relação aos acontecimentos do cotidiano; abandono, mal-estar”. O projeto começou em janeiro deste ano a partir de uma conta específica criada no Instagram, @tristicidade, onde as imagens estão sendo compartilhadas. A partir da exposição INSULARES, o projeto convidou as pessoas a participarem também com registros próprios de sua visão da cidade a partir desse tema.

O desdobramento do projeto levou o artista para um quarto de hotel no Centro Histórico da cidade, em um sábado do início de abril. Ali ele ficou 24 horas fotografando o que via pelas ruas. Em uma entrevista para o site de Roger Lerina, que publicou em primeira mão uma galeria com as fotos captadas nessa jornada pela miséria urbana porto-alegrense, ele desabafou : “Foi uma das experiências mais tristes da minha vida. Imagina o que eu senti ficando 24 horas acordado, percorrendo as ruas da cidade e registrando a fome, a miséria, pessoas drogadas, dormindo no chão, comendo em latas de lixo, famílias de ambulantes com crianças pequenas, homens, mulheres, crianças…  É um quadro desesperador e que precisa ser revertido, senão as pessoas vão morrer e nós vamos assistir a isso tudo. É impossível viver em um mundo assim. Chegamos ao fundo do poço mesmo.”

O movimento tem na sua essência o desejo de mostrar aos governantes que o mundo não é bem aquele que eles estão noticiando. E que não é esse o mundo que queremos!

Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

Participe do projeto postando no Instagram como está a tua cidade utilizando a hashtag #tristicidade. #tristicidade #declaraçãouniversaldosdireitoshumanos #MUAC

A arte e as artimanhas que nos salvam

Já escrevi em algum momento que o jeito é esticar o olhar para além dos nossos umbigos, botões, janelas, esquinas, ruas, cidades em busca de luz, horizontes limpos, esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Dar um trato na ansiedade. Buscar um equilíbrio razoável entre o caos e uma possível ordem que faça sentido. E lá vem a arte mais uma vez a me socorrer.

O mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, o que é o cotidiano político, aqui, lá, acolá, em “Linhas Paralelas”:

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria desses singelos versos é o retrato da política que não serve. A política do desconhecimento e do descaso.

Por isso, a importância de acompanhar e participar da administração pública no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno das nossas residências, na rua em que vivemos. É nosso direito e dever conhecer os projetos e ações dos governos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e de bueiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços públicos, a acessibilidade, a urbanização.

"Ao ar livre", por Tamar Matsafi
“Ao ar livre”, por Tamar Matsafi

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, escreveu Fernando Pessoa. Mas a política praticada hoje no Brasil não tem alma. É mais predatória do que civilizadora. Mais escusa do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais pessoal do que coletiva. Simplesmente acomoda os seus eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. E lá em 1968, Hélio Oiticica, em carta para Lygia Clark, já percebia isso: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. O comentário diz muito dessa geleia geral que vivemos.

O ano é de eleições e copa do mundo. Hora do voto.

“Dessa hora tenho medo”, diz uma canção de José Miguel Wisnik. O momento é delicado e o jogo cruel e egoísta. Estamos mesmo interessados em investigar as ações ou omissões que geram a degradação da vida, a desigualdade, a miséria, a violência, o medo? Ainda sonhamos em construir uma nova política, voltada para o bem comum, sem privilégios? Ou estamos mergulhados na superficialidade da pequena política eleitoreira?

Mas essa é a hora de manifestar o desejo de uma política contemporânea, feita por homens de bem. Uma política que não tenha medo do pensamento crítico, do aprendizado múltiplo, da diversidade, da memória, da arte, da liberdade, do nosso corpo e do nosso espírito, da criatividade. Uma política que não nos tire direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

Sou teimosa e vivo. Sou teimosa e insisto.

O segundo turno das eleições está aí. Encerramos um ciclo? Ou coroamos a direita?
Para além de qualquer movimento, o tempo é de reflexão. As cartas estão dadas. O tabuleiro está na mesa. Mas o jogo começa em campo minado. A política elitista, soberba e cheia de retórica que nos apresentam é incapaz de mínimas ações éticas e coletivas. As propostas saem de gabinetes fechados para responder a interesses pessoais e corporativos, na contramão da democracia. Em nome da salvação do país, minimizam direitos dos trabalhadores, tiram dinheiro da educação e da saúde e ignoram conquistas sociais.

"Emaranhado", por Tamar Matsafi
“Emaranhado”, por Tamar Matsafi

Querem salvar o país para quem mesmo?
Mas essa pergunta não importa. O que o governo precisa nesse momento de reuniões de alcova é responder à minoria que apita o jogo. Para não desagradar, faz das tripas coração, entre um farto banquete e outro, garantindo a aprovação de medidas impopulares. Enquanto isso, o aparato policial nas ruas não garante a segurança da população, mas está pronto para bater em manifestantes, justo aqueles que gritam contra o desmonte orquestrado.

Continuamos cerceados e amedrontados. O desrespeito e a impunidade reinam implacáveis, a partir do Planalto Central, o poderoso oásis da farra, hoje mais do que nunca regido pela máxima do “gosto-de-levar-vantagem-em-tudo” e pela linguagem vulgar (leia-se Renan Calheiros). A corrupção desvairada que tomou conta do Congresso Nacional criou muitas amarras e o destempero dos políticos para garantir privilégios se espalha país afora.

Nesse caldeirão, uma ponta de solidariedade, um rasgo de emoção, um respingo de sensibilidade é o que nos pega de jeito e nos faz acreditar que o jogo não está perdido, entre um flash e outro do sucateamento cruel. Há que ter esperança, sim, repetimos incessantemente. Mesmo que, do macro ao micro, quase nada vá bem. Basta uma volta na quadra e um rápido olhar para o estado das coisas. Dos pisos táteis e rebaixamento de calçadas – mal colocados e mal feitos, só para dar ares de acessibilidade – à deterioração dos espaços públicos, o que vemos dói. A violência explode nas ruas. Os serviços de saúde encolhem e as filas de espera crescem. O desmantelamento da educação anda a passos largos.

Inclusão para quê?
Não poderia ser diferente com um governo avesso ao cidadão que sabe dos seus direitos, reflete e ousa ter e manifestar sua opinião. É mais fácil dominar indivíduos sem rosto, mergulhados na indigência, na ignorância e no desespero. A educação libertária, a arte e os artistas que fazem pensar, divertem e espalham alegria, são ameaças. A sociedade está doente, vazia de valores e do entusiasmo verdadeiro, ligado aos impulsos mais sublimes do ser humano. Consequentemente, a democracia está fragilizada.

"E agora?", Por Tamar Matsafi
“E agora?”, Por Tamar Matsafi

Sejamos vigilantes e responsáveis! Vamos cuidar do nosso direito à vida com dignidade e respeito, do bem estar, da alegria e do lazer, da arte que nos alimenta. Vamos olhar para o outro, compartilhar, dividir, trocar. O poeta Carlos Drummond de Andrade disse certa vez: “É hora de recomeçar tudo de novo, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia do inseto que busca um caminho no meio do terremoto”.

Não há porque estancar em meio ao tsunami que tenta frear nossos sonhos. Como escreveu o jornalista Nei Duclós, em Outubro*, livro de poesia lançado em 1975, que ganha edição comemorativa de 40 anos: “Apesar de tudo sou teimoso e vivo / Sou teimoso e insisto”.

“*Outubro é daqueles livros de resistência, de força e de lirismo, tudo a um só tempo, que traz o ideário de uma juventude que havia se formado na vigência da contracultura, debaixo de um brutal cerceamento de ideias e embalada pela tentativa de formação de uma identidade latino-americana. Volume antológico, desses clássicos já ao nascer, Outubro traz versos que soam viçosos ainda hoje (“Embora não acredites/ estou tão habitado/ que pareço um mar”)”. Trecho de texto da escritora Cíntia Moscovich, patrona da Feira do Livro de Porto Alegre deste ano, em sua coluna na Zero Hora.

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