Que país é o Brasil?

Nos anos 80, a banda brasileira de rock Legião Urbana cantava/perguntava, no terceiro álbum, lançado em 1987, que país é este? – “Terceiro mundo, se for / Piada no exterior / Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão”.

Pouco depois, no disco Ideologia, lançado em 1988, Cazuza desafiava o país em uma canção chamada Brasil – “Brasil mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim / Brasil, qual é teu negócio / O nome do teu sócio / Confia em mim”.

Os jovens dos anos 1980 jamais imaginaram que as músicas, cantadas com tanto entusiasmo em uma época, seriam ainda atuais em 2019. As mesmas questões se colocam, mas soam de um jeito estranho, em um cenário cruel, absurdo, sarcástico, impiedoso e vulgar.  Como escreveu Eliane Brum na sua coluna recente no El País “em apenas dois meses de Governo, o Brasil se tornou o laboratório do novo autoritarismo”.

Não há “planejamento, nem por projetos, não por estudos e cálculos bem fundamentados nem por amplos debates com a sociedade, mas sim pelos urros de quem pode urrar nas redes sociais”. (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/06/opinion/1551904505_351681.html).

O Brasil mergulhou no ódio. Não há alteridade. Não há empatia. Há, sim, uma polarização calcada no poder, na ignorância, no deboche. Estamos diante de um movimento devastador pela apropriação e supressão de direitos já adquiridos. Tudo em nome da salvação do país, dos estados, dos municípios, como se o cidadão comum fosse o responsável pela corrupção e pelo desvio de verbas que deveriam ter sido aplicadas em saúde, educação, segurança, mas não foram. Como se o rombo da previdência fosse tão somente um problema dos aposentados e não das grandes empresas e corporações que sonegam, sempre sonegaram, e passam ilesas, lamentando o custo de um trabalhador que as faz produzir, existir e ganhar muito e muito mais. E o que dizer dos salários nababescos do alto clero político e do judiciário, cheios de penduricalhos, auxílios de todo tipo – moradia, alimentação, paletó, gravata e tantas outras benesses que nós, da plebe rude, desconhecemos.

Mas ainda é pouco. O Congresso Nacional e seus frequentadores eventuais, que acumulam assessores e bajuladores com salários polpudos, segue esbanjando promessas e dinheiro público para garantir alianças nefastas e votos nas próximas eleições. E assim sacramentar por mais quatro anos a sua permanência na escandalosa “Ilha da Fantasia” do Planalto Central, “onde uma criança / sorridente, feia e morta / estende a mão”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mas ninguém vê essa miséria. Assim como ninguém viu/avaliou a dor de um avô na prisão ao saber da morte do neto.

O Brasil é hoje uma terra que se tornou impermeável ao sofrimento do outro, mas se abriu vergonhosa e generosamente às fanfarronices daqueles que legislam em causa própria. Da mesma maneira, agem muitos parlamentares espalhados pelas assembleias legislativas dos estados e pelas câmaras de vereadores dos municípios. Diariamente, brotam escândalos desses templos onde desfilam políticos teoricamente eleitos para representar a população e colocar ordem na casa. E os escândalos rolam de lá para cá, multiplicam-se, espantam, provocam algum barulho, mas são logo abafados. Nada acontece. Um que outro é penalizado e ponto. O baile segue ao gosto do freguês e das tramas muito bem tramadas para manter privilégios.

Vivemos em um Brasil que subtrai direitos como quem troca de camisa. Um país que coloca militares nas escolas e ignora professores. Mais: ordena que se cante o hino nacional na abertura do ano letivo e se leia uma carta que termina com o bordão de campanha do presidente eleito. E, equivocadamente, prega a escola sem partido. Será que sabe mesmo o que está dizendo?

Um país que acirra a divisão de classes e não tem vergonha de declarar que o acesso às universidades é para intelectual. Um país que minimiza sua história, suas origens, a memória e o conhecimento do povo, mas estimula a posse de armas. Um país que autoriza a violência, censura a arte e o carnaval, e dá voz a quem nada entende de cultura e da questão social. Um país que tem no poder uma família que festeja a morte de uma criança só porque esta criança é neta do presidente Lula, desafeto do clã.

Portanto, um país que perdeu a alma, a dignidade, o jeito de olhar para sua gente e acolher. Um país que ignora a diferença, a diversidade, o pensamento crítico e vê tudo pela ótica equivocada do que chama de ideologia de esquerda. Como se ideologia fosse uma demanda só de quem se opõe ao governo, não um conceito amplo que define posições políticas e sociais de um modo geral.

E sobram homenagens a quem apoiou o golpe militar e a ditadores assassinos como Adolf Hitler e Alfredo Stroessner, governos hediondos, responsáveis por torturas e desaparecimentos.

Que triste país é este? Que cara tem esse Brasil?

Precisamos nos ver existindo – Abrindo frestas

Não há como não pensar nos invisíveis deste Brasil continental, país que tão pouco vê, cuida, dá importância e entende sua gente. Essa gente que trabalha duro e cria, com a sua labuta cotidiana, os alicerces para o crescimento de um país que não os considera. Não procuro respostas para esta constatação. Até porque quando chegam são vazias, protocolares, às vezes piedosas, cumpridoras da burocracia. Apenas. Penso pela necessidade de entender a razão de um existir absurdamente na contramão.

De repente, saltam da minha memória publicações e exposições instigantes, que li e vi, sobre essas vidas à margem e, ao mesmo tempo, no centro nevrálgico de tudo. São iniciativas que dão visibilidade e um lugar para pessoas comuns, juntando e tecendo fios da condição humana, sem caricatura, sem maquiagem, sem estereótipos. Estão aí! Para democratizar a comunicação, combater o preconceito, desacomodar olhares e a nossa, por momentos, distraída consciência crítica.

Frestas para a visibilidade necessária

Começo por “A vida que ninguém vê”, série de reportagens da jornalista Eliane Brum publicadas em 1999 no jornal Zero Hora. Ao se aventurar pelo avesso do jornalismo padrão que persegue o sensacionalismo, a fama, a superação, o escândalo e a tragédia, Eliane mergulhou com rara sensibilidade no dia a dia de pessoas esquecidas para revelar a singularidade de suas vidas invisíveis e tão ricas. A série conquistou, em 2006, o Prêmio Esso Regional e se transformou em livro, lançado pela Editora Arquipélago. Recomendação da autora no final: “Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe”.

Em 2011, me deparei com “Passageiro do fim do dia”, do escritor Rubens Figueiredo, romance que fala de uma maioria invisível que povoa a periferia pobre das metrópoles, sujeita a tudo, especialmente à injustiça sistemática que gera violência, sonhos demolidos, desejos frustrados, esquecimento, massacres. Publicado pela Cia das Letras, foi considerado o melhor livro daquele ano.

Em 2012, acompanhei o lançamento de “Mulheres perdidas e achadas – histórias para acordar”, projeto editorial da Alice/Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, organizado por Rosina Duarte e Maíra Brum Reick, com uma bela edição de arte de Rosana Pozzobon. São três pequenos livros, muito originais: um Folhetim, com histórias de prostitutas; um Almanaque, que traz a sabedoria de mulheres vividas do interior, “uma espécie de degustação da cultura feminina gaúcha”, e um Bloco de Cartas escritas por presidiárias com o nome de Pombo-Correio.

Em 2014, o livro e a exposição fotográfica “Arquipélago” de Cristiano Sant´Anna revelam o cotidiano da comunidade de pescadores de Arquipélago, bairro esquecido de Porto Alegre, formado por 16 ilhas. O trabalho deu visibilidade a um povo que vive de frente para o rio, enfrenta as cheias com naturalidade e pesca para viver. Com um formato ousado, o livro é uma edição da Pubblicato.

Foto do livo "Arquipélago", de Cristiano Sant'Anna
Foto do livo “Arquipélago”, de Cristiano Sant’Anna

No final de 2016, uma exposição chamada TODAS SÃO TODAS reuniu 30 fotos de 11 mulheres com deficiência, que posaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. Iniciativa do Grupo Inclusivas, em parceria com o Coletivo Feminino Plural, a mostra busca instigar a reflexão sobre o lugar delegado a essas mulheres e contribuir para um novo olhar através do seu protagonismo. Estamos todas na torcida para que a exposição volte.

Outros fragmentos de um mesmo cotidiano. Da série Acessibilidade para quê?

“Se não nos movermos, o mundo encolherá para além do imaginável. Não só no lá distante. Mas aqui. (Tudo agora é um grande aqui.)” – Jornalista Eliane Brum, na coluna desta semana para o El País, O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?, onde fala sobre o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte e o extermínio cultural de povos indígenas, agravado com a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun.

"Mover-se", por Tamar Matsafi
“Mover-se”, por Tamar Matsafi

Precisamos nos mover para que a nossa capacidade de luta e a nossa esperança de uma vida digna na aldeia que habitamos não encolham. Por isso, insisto nas questões que se referem à acessibilidade e à inclusão e busco entendimento e respostas.

Aqui, pequenas histórias da vida cotidiana, como ela é, um jeito de mostrar concretamente o porquê da inquietude que me acompanha. Movimento necessário para sair do limbo onde insistem em nos jogar.

*Lojas Renner, rede gaúcha referência em roupas e acessórios.
Para mim, quase um deserto. Entro. Ninguém olha. Ninguém vê. Vasculho um pouco. Alcanço em alguns produtos apenas. Então, logo pergunto para um e outro atendente sobre tamanhos etc e tal. “Podes ver para mim?” Respostas monossilábicas. Nenhuma sugestão. Não se dão conta, mesmo que o meu tamanho grite “tenho dificuldades de encontrar roupa”, que na pergunta que faço está embutido um pedido de ajuda. E já saem para arrumar prateleiras, o que, me parece, é o que fazem o tempo todo. Por esses e outros dissabores, deixei de frequentar as lojas do centro de Porto Alegre e do Shopping Iguatemi.

O “sirva-se você mesma e vá para o caixa pagar”, explícito na atitude, não me serve. Assim como não me servem o Self Made Man ou o We Can. Necessito da interação, não apenas pelos meus 1m10cm de estatura. Gosto de parceria, de um olhar, de um sorriso, de uma gentileza, de um “posso te ajudar?”. Fazer o quê!

No dia 6 de fevereiro, voltei à loja, no Shopping Total. Tratamento ainda mais impessoal. A sensação que ficou é que as pessoas que estão ali para atender o público, todas muito jovens, são orientadas para não sorrir, não perguntar “quer uma ajuda”, não interagir de forma alguma. Que dirá perceber que estão diante de um ser humano com necessidades especiais. Continuam monossilábicas e parecem fazer de tudo para não serem solicitadas.

Quase robôs! Assim como alguns atendentes de bancos, de laboratórios de exames, de repartições públicas e privadas. Virou norma agora? Que orientação esses profissionais recebem? O atendimento deixou de ser a alma do negócio? A tal qualidade total tão apregoada pelo marketing das empresas desandou ou é isso mesmo?

"Perplexidade", por Tamar Matsafi
“Perplexidade”, por Tamar Matsafi

*Mercado Público de Porto Alegre, onde pulsa freneticamente o coração da cidade.
Adoro o entra e sai. O burburinho. As bancas. O café. A padaria. As histórias. As vidas que cruzam cotidianamente por ali. A diversidade. Mas definitivamente não é um lugar para mim. Se estou sozinha, então, melhor nem tentar. Não alcanço em nada. E as pessoas tomam conta dos balcões como se fossem perder a última oportunidade de compra se fizerem uma gentileza. Não dão espaço. Não dão trégua. Salve-se quem puder! Quando, por ventura, consigo acessar um atendente, sou muito bem tratada em qualquer uma das bancas. Mas até conseguir são muitos empurrões, muitas admirações, muita mão na cabeça e as inevitáveis, para não dizer lamentáveis, observações: “Ah, pensei que fosse uma criança”. “Que engraçadinha!”. Haja paciência.

*E volto ao transporte público.
Na Praça 15, ônibus para o bairro. Fila enorme. As pessoas se empurrando, como se o ônibus fosse fugir e deixá-las ali plantadas para sempre. Resisto à pressa, aos apertos e aos comentários desagradáveis até entrar, sentar e observar, calmamente.

E a saga continua. Linha 10, carro número 6480, bairro Auxiliadora rumo ao centro, mais ou menos 11h15min. Uma senhora de muleta tenta entrar. Larga a muleta para se segurar. Quem ajuda? Uma senhora bem mais velha que também necessita de cuidado. O motorista olha. A cobradora, sorridente, também olha. E pede agilidade – “um passinho mais a frente, por favor”.

Relaxo e me pergunto: De onde vem esta ansiedade toda, este medo de perder o lugar, esta insistência em não ver o outro? Perdemos mesmo a delicadeza? É urgente evitar o encolhimento humano.