Quando escrever é resistir

Minha fala no encontro com alunos das professoras Sabrina Vier e Márcia Lopes Duarte, na Unisinos, em 4 de setembro. Uma noite de muita emoção, muita troca e muito afeto, a partir do tema “A escrita como um ato de inscrição”.

Estou diante de um desafio. Não me sinto autorizada ou, melhor, não me sinto segura para falar sobre um tema tão vasto e tão profundo. Mas me sinto à vontade, pela experiência adquirida vida afora, para afirmar que escrever é resistir, que a palavra liberta. O professor, sociólogo e crítico literário Antônio Cândido diz, em um texto sobre literatura que “pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo, a literatura nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”. E na literatura está a palavra. Está escrita.

Sou uma leitora de tudo o que me cai nas mãos desde os tempos de escola. E sempre gostei muito de escrever. Fui uma escritora de cartas para os amigos. Minhas agendas eram verdadeiros diários do cotidiano. Quando entrei para o jornalismo essa necessidade virou trabalho, o que sempre fiz com prazer. Tenho o hábito de carregar um bloquinho e uma caneta na bolsa porque, invariavelmente, vou usar. Os horizontes que descortinei através da leitura e da escrita abriram muitas portas na minha vida, externas e internas.

Acredito que escrevemos por inúmeras razões, mas a escrita é para mim uma espécie de tábua de salvação, de amparo, de norte. Faz ecoar vozes que poderiam me sufocar, logo me faz respirar. É um impulso para a vida lá fora. Uma espécie de válvula de escape, entre a realidade e o delírio, por onde transita uma inquietação/interrogação sobre a condição humana, sobre o fim inevitável e o desejo de permanência.

Escrevo “para suportar o buraco, para criar sentido ao que não tem sentido, para não matar e para não morrer, para desacomodar”. Esta afirmação é da jornalista Eliane Brum, repórter e escritora que consegue traduzir em palavras, com sensibilidade rara, esses tempos sombrios.

“As palavras ancoram por um momento”. Portanto, a escrita é uma forma de resistência e de afirmação. É uma maneira de nos vermos existindo. É o que fazemos para não enlouquecer, muitas vezes.

Foi a dor avassaladora que senti ao perder minha irmã que me levou a escrever vertiginosamente. Como uma maneira de não desistir, de preencher um vazio insuportável, de não sucumbir. Um ano depois da morte da Marlene, professora do curso de Letras da Unisinos, que tinha nanismo como eu, publiquei meu primeiro texto no blog isso não é comum, do site Sul21.

Quase sem perceber, fui abrindo portas. Tomei contato com pessoas que, como eu, eram diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença que me constitui é encarar a fragilidade da condição humana. É contrapor-se ao preconceito de qualquer natureza. É saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

A escrita pode vir de muitas maneiras. Do que não entendemos. De uma preocupação com os caminhos/descaminhos da humanidade. Da constatação de que o poder é corrosivo. Da triste certeza de que a destruição da natureza é real. De inúmeras questões que pontuam o cotidiano, o nosso tempo. Ou todos os tempos. Ou de uma necessidade de desbravar espaços interiores, dores escondidas, revelar segredos da alma. Sempre na tentativa de entender/absorver a realidade, o que está fora, a vida que nos escapa a todo momento. O que virá, entre um assombro e outro.

Pode ser uma recusa ao que está dado, aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento ou explicar o inexplicável. Pode ser um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social.

É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades e seguir firme, apesar da dor. É assumir o protagonismo da nossa condição, a nossa singularidade diante do olhar do outro, daquele que te olha e te vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las.

É assumir um lugar de fala, Fora do institucional, como escreve a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”. É estar atenta às frestas do cotidiano e ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala, de escrita, no Brasil atual? Como não alertar as pessoas diante do que está aí, do desmonte premeditado no campo da educação e da arte?

Muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão, preconceito, direitos humanos, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: Não! Desistir seria desolador. E a escrita me organiza e me desafia.

Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. No sentido prático, o que realmente esses olhares veem, querem, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando como peste.

Diante deste cenário, a escrita se torna vital. Não podemos perder a possibilidade de usar a nossa voz, que está na palavra, para ampliar os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. É na diversidade que está a grande riqueza humana.

Ler, por exemplo, a coluna de Eliane Brum semanalmente é um exercício fundamental para reorganizar ideias, certezas e incertezas sobre a humanidade que habita em nós, para sentir e promover a alteridade, acolher, coexistir, respeitar, cuidar, amar todas as vidas.

A escrita de Eliane, também chamada de jornalismo literário, possibilita uma experiência de empatia incomum, quase impossível no jornalismo tradicional, comprometido com a impossível verdade dos fatos. Sem contraponto!

Portanto, a escrita, a palavra, é fundamental para narrar, contar um fato, resistir e interferir nos caminhos da história, possibilitando a vida e o sonho.

Precisamos de mais bibliotecas nas escolas públicas. E precisamos entender que bibliotecas não são apenas lugares onde se guardam livros. São espaços vivos, de convivência, de descobertas, de promoção de leitura, de conversas, de compartilhamento de ideias que ampliam nossos horizontes, de formação de leitores para além do que circula pelas mídias sociais, tão carregadas de ódio e preconceitos.

A possibilidade da expressão natural através da escrita, da posse e do uso da palavra, nos dá a chance de exercer a cidadania, de sermos sujeitos ativos do mundo que habitamos, de nos ver existindo e reconhecer o outro, a humanidade que nos é comum e, assim, promover naturalmente o cuidado com a vida, todas as vidas. Segundo o professor Luiz Percival Leme Britto, doutor em Linguística, pesquisador e formador de professores da Universidade Federal do Oeste do Pará, que atua na área de Educação e Linguagem, “sem a posse da palavra não há liberdade possível”. Portanto, é urgente que tomemos a palavra. É urgente que cada um se inscreva como sujeito responsável por seus atos e pelo meio social onde vive. Não somos ilhas.

Que país é o Brasil?

Nos anos 80, a banda brasileira de rock Legião Urbana cantava/perguntava, no terceiro álbum, lançado em 1987, que país é este? – “Terceiro mundo, se for / Piada no exterior / Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão”.

Pouco depois, no disco Ideologia, lançado em 1988, Cazuza desafiava o país em uma canção chamada Brasil – “Brasil mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim / Brasil, qual é teu negócio / O nome do teu sócio / Confia em mim”.

Os jovens dos anos 1980 jamais imaginaram que as músicas, cantadas com tanto entusiasmo em uma época, seriam ainda atuais em 2019. As mesmas questões se colocam, mas soam de um jeito estranho, em um cenário cruel, absurdo, sarcástico, impiedoso e vulgar.  Como escreveu Eliane Brum na sua coluna recente no El País “em apenas dois meses de Governo, o Brasil se tornou o laboratório do novo autoritarismo”.

Não há “planejamento, nem por projetos, não por estudos e cálculos bem fundamentados nem por amplos debates com a sociedade, mas sim pelos urros de quem pode urrar nas redes sociais”. (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/06/opinion/1551904505_351681.html).

O Brasil mergulhou no ódio. Não há alteridade. Não há empatia. Há, sim, uma polarização calcada no poder, na ignorância, no deboche. Estamos diante de um movimento devastador pela apropriação e supressão de direitos já adquiridos. Tudo em nome da salvação do país, dos estados, dos municípios, como se o cidadão comum fosse o responsável pela corrupção e pelo desvio de verbas que deveriam ter sido aplicadas em saúde, educação, segurança, mas não foram. Como se o rombo da previdência fosse tão somente um problema dos aposentados e não das grandes empresas e corporações que sonegam, sempre sonegaram, e passam ilesas, lamentando o custo de um trabalhador que as faz produzir, existir e ganhar muito e muito mais. E o que dizer dos salários nababescos do alto clero político e do judiciário, cheios de penduricalhos, auxílios de todo tipo – moradia, alimentação, paletó, gravata e tantas outras benesses que nós, da plebe rude, desconhecemos.

Mas ainda é pouco. O Congresso Nacional e seus frequentadores eventuais, que acumulam assessores e bajuladores com salários polpudos, segue esbanjando promessas e dinheiro público para garantir alianças nefastas e votos nas próximas eleições. E assim sacramentar por mais quatro anos a sua permanência na escandalosa “Ilha da Fantasia” do Planalto Central, “onde uma criança / sorridente, feia e morta / estende a mão”, como diz a canção de Caetano Veloso. Mas ninguém vê essa miséria. Assim como ninguém viu/avaliou a dor de um avô na prisão ao saber da morte do neto.

O Brasil é hoje uma terra que se tornou impermeável ao sofrimento do outro, mas se abriu vergonhosa e generosamente às fanfarronices daqueles que legislam em causa própria. Da mesma maneira, agem muitos parlamentares espalhados pelas assembleias legislativas dos estados e pelas câmaras de vereadores dos municípios. Diariamente, brotam escândalos desses templos onde desfilam políticos teoricamente eleitos para representar a população e colocar ordem na casa. E os escândalos rolam de lá para cá, multiplicam-se, espantam, provocam algum barulho, mas são logo abafados. Nada acontece. Um que outro é penalizado e ponto. O baile segue ao gosto do freguês e das tramas muito bem tramadas para manter privilégios.

Vivemos em um Brasil que subtrai direitos como quem troca de camisa. Um país que coloca militares nas escolas e ignora professores. Mais: ordena que se cante o hino nacional na abertura do ano letivo e se leia uma carta que termina com o bordão de campanha do presidente eleito. E, equivocadamente, prega a escola sem partido. Será que sabe mesmo o que está dizendo?

Um país que acirra a divisão de classes e não tem vergonha de declarar que o acesso às universidades é para intelectual. Um país que minimiza sua história, suas origens, a memória e o conhecimento do povo, mas estimula a posse de armas. Um país que autoriza a violência, censura a arte e o carnaval, e dá voz a quem nada entende de cultura e da questão social. Um país que tem no poder uma família que festeja a morte de uma criança só porque esta criança é neta do presidente Lula, desafeto do clã.

Portanto, um país que perdeu a alma, a dignidade, o jeito de olhar para sua gente e acolher. Um país que ignora a diferença, a diversidade, o pensamento crítico e vê tudo pela ótica equivocada do que chama de ideologia de esquerda. Como se ideologia fosse uma demanda só de quem se opõe ao governo, não um conceito amplo que define posições políticas e sociais de um modo geral.

E sobram homenagens a quem apoiou o golpe militar e a ditadores assassinos como Adolf Hitler e Alfredo Stroessner, governos hediondos, responsáveis por torturas e desaparecimentos.

Que triste país é este? Que cara tem esse Brasil?

Precisamos nos ver existindo – Abrindo frestas

Não há como não pensar nos invisíveis deste Brasil continental, país que tão pouco vê, cuida, dá importância e entende sua gente. Essa gente que trabalha duro e cria, com a sua labuta cotidiana, os alicerces para o crescimento de um país que não os considera. Não procuro respostas para esta constatação. Até porque quando chegam são vazias, protocolares, às vezes piedosas, cumpridoras da burocracia. Apenas. Penso pela necessidade de entender a razão de um existir absurdamente na contramão.

De repente, saltam da minha memória publicações e exposições instigantes, que li e vi, sobre essas vidas à margem e, ao mesmo tempo, no centro nevrálgico de tudo. São iniciativas que dão visibilidade e um lugar para pessoas comuns, juntando e tecendo fios da condição humana, sem caricatura, sem maquiagem, sem estereótipos. Estão aí! Para democratizar a comunicação, combater o preconceito, desacomodar olhares e a nossa, por momentos, distraída consciência crítica.

Frestas para a visibilidade necessária

Começo por “A vida que ninguém vê”, série de reportagens da jornalista Eliane Brum publicadas em 1999 no jornal Zero Hora. Ao se aventurar pelo avesso do jornalismo padrão que persegue o sensacionalismo, a fama, a superação, o escândalo e a tragédia, Eliane mergulhou com rara sensibilidade no dia a dia de pessoas esquecidas para revelar a singularidade de suas vidas invisíveis e tão ricas. A série conquistou, em 2006, o Prêmio Esso Regional e se transformou em livro, lançado pela Editora Arquipélago. Recomendação da autora no final: “Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe”.

Em 2011, me deparei com “Passageiro do fim do dia”, do escritor Rubens Figueiredo, romance que fala de uma maioria invisível que povoa a periferia pobre das metrópoles, sujeita a tudo, especialmente à injustiça sistemática que gera violência, sonhos demolidos, desejos frustrados, esquecimento, massacres. Publicado pela Cia das Letras, foi considerado o melhor livro daquele ano.

Em 2012, acompanhei o lançamento de “Mulheres perdidas e achadas – histórias para acordar”, projeto editorial da Alice/Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, organizado por Rosina Duarte e Maíra Brum Reick, com uma bela edição de arte de Rosana Pozzobon. São três pequenos livros, muito originais: um Folhetim, com histórias de prostitutas; um Almanaque, que traz a sabedoria de mulheres vividas do interior, “uma espécie de degustação da cultura feminina gaúcha”, e um Bloco de Cartas escritas por presidiárias com o nome de Pombo-Correio.

Em 2014, o livro e a exposição fotográfica “Arquipélago” de Cristiano Sant´Anna revelam o cotidiano da comunidade de pescadores de Arquipélago, bairro esquecido de Porto Alegre, formado por 16 ilhas. O trabalho deu visibilidade a um povo que vive de frente para o rio, enfrenta as cheias com naturalidade e pesca para viver. Com um formato ousado, o livro é uma edição da Pubblicato.

Foto do livo "Arquipélago", de Cristiano Sant'Anna
Foto do livo “Arquipélago”, de Cristiano Sant’Anna

No final de 2016, uma exposição chamada TODAS SÃO TODAS reuniu 30 fotos de 11 mulheres com deficiência, que posaram de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. Iniciativa do Grupo Inclusivas, em parceria com o Coletivo Feminino Plural, a mostra busca instigar a reflexão sobre o lugar delegado a essas mulheres e contribuir para um novo olhar através do seu protagonismo. Estamos todas na torcida para que a exposição volte.

Outros fragmentos de um mesmo cotidiano. Da série Acessibilidade para quê?

“Se não nos movermos, o mundo encolherá para além do imaginável. Não só no lá distante. Mas aqui. (Tudo agora é um grande aqui.)” – Jornalista Eliane Brum, na coluna desta semana para o El País, O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?, onde fala sobre o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte e o extermínio cultural de povos indígenas, agravado com a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun.

"Mover-se", por Tamar Matsafi
“Mover-se”, por Tamar Matsafi

Precisamos nos mover para que a nossa capacidade de luta e a nossa esperança de uma vida digna na aldeia que habitamos não encolham. Por isso, insisto nas questões que se referem à acessibilidade e à inclusão e busco entendimento e respostas.

Aqui, pequenas histórias da vida cotidiana, como ela é, um jeito de mostrar concretamente o porquê da inquietude que me acompanha. Movimento necessário para sair do limbo onde insistem em nos jogar.

*Lojas Renner, rede gaúcha referência em roupas e acessórios.
Para mim, quase um deserto. Entro. Ninguém olha. Ninguém vê. Vasculho um pouco. Alcanço em alguns produtos apenas. Então, logo pergunto para um e outro atendente sobre tamanhos etc e tal. “Podes ver para mim?” Respostas monossilábicas. Nenhuma sugestão. Não se dão conta, mesmo que o meu tamanho grite “tenho dificuldades de encontrar roupa”, que na pergunta que faço está embutido um pedido de ajuda. E já saem para arrumar prateleiras, o que, me parece, é o que fazem o tempo todo. Por esses e outros dissabores, deixei de frequentar as lojas do centro de Porto Alegre e do Shopping Iguatemi.

O “sirva-se você mesma e vá para o caixa pagar”, explícito na atitude, não me serve. Assim como não me servem o Self Made Man ou o We Can. Necessito da interação, não apenas pelos meus 1m10cm de estatura. Gosto de parceria, de um olhar, de um sorriso, de uma gentileza, de um “posso te ajudar?”. Fazer o quê!

No dia 6 de fevereiro, voltei à loja, no Shopping Total. Tratamento ainda mais impessoal. A sensação que ficou é que as pessoas que estão ali para atender o público, todas muito jovens, são orientadas para não sorrir, não perguntar “quer uma ajuda”, não interagir de forma alguma. Que dirá perceber que estão diante de um ser humano com necessidades especiais. Continuam monossilábicas e parecem fazer de tudo para não serem solicitadas.

Quase robôs! Assim como alguns atendentes de bancos, de laboratórios de exames, de repartições públicas e privadas. Virou norma agora? Que orientação esses profissionais recebem? O atendimento deixou de ser a alma do negócio? A tal qualidade total tão apregoada pelo marketing das empresas desandou ou é isso mesmo?

"Perplexidade", por Tamar Matsafi
“Perplexidade”, por Tamar Matsafi

*Mercado Público de Porto Alegre, onde pulsa freneticamente o coração da cidade.
Adoro o entra e sai. O burburinho. As bancas. O café. A padaria. As histórias. As vidas que cruzam cotidianamente por ali. A diversidade. Mas definitivamente não é um lugar para mim. Se estou sozinha, então, melhor nem tentar. Não alcanço em nada. E as pessoas tomam conta dos balcões como se fossem perder a última oportunidade de compra se fizerem uma gentileza. Não dão espaço. Não dão trégua. Salve-se quem puder! Quando, por ventura, consigo acessar um atendente, sou muito bem tratada em qualquer uma das bancas. Mas até conseguir são muitos empurrões, muitas admirações, muita mão na cabeça e as inevitáveis, para não dizer lamentáveis, observações: “Ah, pensei que fosse uma criança”. “Que engraçadinha!”. Haja paciência.

*E volto ao transporte público.
Na Praça 15, ônibus para o bairro. Fila enorme. As pessoas se empurrando, como se o ônibus fosse fugir e deixá-las ali plantadas para sempre. Resisto à pressa, aos apertos e aos comentários desagradáveis até entrar, sentar e observar, calmamente.

E a saga continua. Linha 10, carro número 6480, bairro Auxiliadora rumo ao centro, mais ou menos 11h15min. Uma senhora de muleta tenta entrar. Larga a muleta para se segurar. Quem ajuda? Uma senhora bem mais velha que também necessita de cuidado. O motorista olha. A cobradora, sorridente, também olha. E pede agilidade – “um passinho mais a frente, por favor”.

Relaxo e me pergunto: De onde vem esta ansiedade toda, este medo de perder o lugar, esta insistência em não ver o outro? Perdemos mesmo a delicadeza? É urgente evitar o encolhimento humano.