Tudo dói!

Caetano Veloso tem uma canção chamada “Tudo dói”, quase um lamento, que inquieta como o mal estar e a aflição que vejo estampados por aí.

O canto de Caetano é certeiro. Tudo dói.

A radicalização grita. Os ares estão pesados. Os humores destemperados. E a vida cotidiana à mercê da violência. Nem a leveza natural, comum na entrada do outono, se fez sentir. A deterioração parece ter tomado conta de tudo, física e espiritualmente. A miséria explode nas esquinas como nunca, assim como a loucura de seres que andam sem rumo.

Dói ver o Brasil comandado por uma ralé política que compra tudo e se protege no foro privilegiado. A turma do baixo clero, da negociata, do favorzinho, do deixa pra lá, dos encontros furtivos se lambuza enquanto a dignidade do país vai ladeira abaixo.

Dói ver as pessoas sem perspectivas. Dói perceber os olhos esbugalhados e perdidos, que traduzem o desespero pelo abandono. Dói ver crescer nas ruas o número de mães, crianças e adolescentes pedindo dinheiro e comida. Dói ver o papeleiro puxar conversa, mas antes pedir desculpas pela abordagem dizendo que não é bandido – “Não tenha medo de mim, moça, tô fazendo o meu trabalho honestamente. Não faço mal a ninguém, gosto de conversar”.

Dói sentir medo de uma pessoa que se aproxima e que é gente como a gente. Dói ver a incapacidade do olho no olho. Dói perceber que quase já não temos condições de uma conversa franca, educada, gentil. Dói o impulso de fugir.

Dói a ausência de governos decentes e políticas públicas que realmente façam a diferença. Dói a falta de comprometimento de quem foi eleito há pouco tempo e de quem congelou no poder há anos e lá vive muito bem com benesses e discursos retrógrados. Dói o voto por causas próprias e não pelo coletivo. Dói ver que a corrupção espalhou-se como praga. Dói pensar que chegamos ao fundo do poço.

O que estamos fazendo com o processo civilizatório que construímos tão arduamente?

DÓI!

Mas é o que está posto.

Há uma distância intransponível entre a população, o poder público e o poder financeiro.  Não falamos a mesma linguagem. Não temos as mesmas aspirações. Não fazemos parte dos planos de quem está no comando da nação. Somos, na verdade, a pedra no caminho, o cisco no olho, o desconforto. Somos a voz dissonante de uma cidade, de um estado e de um país com políticos que acham que a livre manifestação de cidadania se resolve com relho ou chicote. Para quem governam esses senhores e senhoras que desconhecem direitos mínimos dos que constroem a vida cotidianamente com o seu trabalho?

O que temos hoje são governos que mostram um descaso absurdo pelo bem comum, pelo patrimônio e pelas riquezas naturais do país. Governos guiados por uma minoria que detém o poder financeiro e joga em causa própria. Uma elite gananciosa, escravocrata, que não abre mãos dos seus privilégios, que se inquieta com a redução da desigualdade, com qualquer tipo de projeto libertário, sonha com a volta da senzala e pisa no pouco que nos resta de dignidade.

Quem dá mais?

O que nos levou a esse retrocesso brutal?

DÓI!

Até quando?