O social, a acessibilidade e a inclusão no cotidiano da cidade

O discurso social, que hoje tem um viés voltado para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar o preconceito enfrentado por pessoas que têm uma deficiência ou um comportamento considerado “incomum”, corre sérios riscos de ser ofuscado pela onda obscurantista que se instalou no país. Em um mundo feito por e para pessoas “normais”, contaminado agora pelo conservadorismo, não podemos dar trégua aos olhares discriminatórios que rechaçam os direitos humanos.

Reivindicar políticas públicas que priorizem a inclusão e o respeito aos direitos e às limitações cotidianas de quem é jogado na miséria, tem uma deficiência ou um jeito de viver diverso da maioria são atitudes muito bem vindas sempre. Se forem impulsionadas de forma coletiva, sem violência, em sintonia com a administração municipal, as comunidades e o empresariado, melhor ainda.

Falar em acessibilidade no cotidiano das cidades é falar de forma ampla, com o foco no bem viver de todas as pessoas, como diz a arquiteta Flavia Boni Licht. Para ela, acessibilidade é “pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

Falar em inclusão e direitos humanos é falar de uma grande camada da população que vive à margem, rechaçada por políticas econômicas que as desconhecem, as empurram para a margem e as tratam como desqualificadas. Famílias pobres que são retiradas de qualquer jeito dos espaços urbanos que ocupam porque nada mais lhes restou e ali onde vivem vai se erguer um enorme empreendimento. Famílias que têm suas casas invadidas e filhos revistados pela polícia em paradas de ônibus, a caminho da escola, como se fossem bandidos.

Desconheço projetos sociais e de revitalização do espaço urbano voltados para a criação de ambientes acolhedores, seguros e integradores para quem vive nas periferias da cidade. Se existem, onde estão? Engavetados por conta de governos descomprometidos com o fazer coletivo, engolidos pela burocracia, pela falta de verba e pela voracidade das grandes empreiteiras?

Mas as barreiras, que impedem inúmeras vezes a paz de uma comunidade, estão aí para quem quiser ver, de toda a forma e qualidade. Não está contente? Vai lá e tira. Passa por cima. Pagando bem, por que não?

Há contradições? Claro que há! Ninguém é santo nesta paróquia. Mas há, especialmente, abuso de poder porque é inquestionável a força do dinheiro que compra tudo.

O bom espaço público

Ao pensar e repensar a cidade, sob o ponto de vista da qualidade de vida, da solidariedade, da segurança, da limpeza, da beleza, da inclusão e da acessibilidade, entre tantos outros aspectos, me inquieta também a maneira como tratamos o espaço urbano. Nem sempre agimos em sintonia com nossas críticas e nossos desejos. É grande o descontrole e a desumanização que percebo nas ruas, o que se soma ao evidente e cruel descaso dos governos.

Espaço urbano, por Tamar Matsafi
“Espaço urbano”, por Tamar Matsafi

Basta prestar atenção no lixo. As pessoas querem se ver livre do seu, como se não lhes pertencesse e pudesse, simplesmente, ser jogado em qualquer lugar. Não importa onde.

Basta prestar atenção na disputa dos motoristas por vagas para estacionar. A procura é desesperada. Se não encontram, colocam na calçada, sem o mínimo respeito pelos pedestres – mães com filhos nos carrinhos, pessoas em cadeira de rodas, cegos, idosos com dificuldade de andar, de bengala ou muletas. Não interessa.

Basta prestar atenção nas sinaleiras. O motorista que ultrapassa com sinal fechado, assim como o pedestre que atravessa a rua perigosamente. E um e outro reclamam grosseira e ruidosamente.

Basta prestar atenção no transporte público. Quando o ônibus para, é um entrar desvairado como se fossem perder a hora. Ninguém olha para ninguém. Dane-se quem tem uma dificuldade.

Basta prestar atenção nos parques, praças e ruas depois de uma festa popular. A sujeira que fica é chocante. Pouquíssimos entendem que os espaços são públicos e que também somos responsáveis por mantê-los limpos. Quem acompanhou um pouco do pós-carnaval na cidade viu o caos. Basta prestar atenção nos “mastodontes” que estão sendo construídos, revestidos de vidros espelhados, sem respeitar o entorno e a natureza, resultado de negócios entre empresários sagazes e governos que vendem a alma ao dinheiro fácil. Sem fiscalização.

clixo na rua
“Lixo na rua”, por José Walter de Castro Alves

Quem para e pensa que a humanização da cidade pode começar por nós? Transformá-la em espaço criativo, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver também é tarefa nossa.

As cidades são cheias de conflitos criados pelo poder público, pelo poder econômico, pela ganância humana. E são conflitos relacionados ao tratamento dado aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom ter consciência de que a responsabilidade é coletiva. Naturalmente, o exemplo deveria partir dos governos, mas a maioria assume sem projetos viáveis, ignora o que é público e só se queixa da falta de verba. Os empresários, por sua vez, só visam o lucro fácil. Acabam todos olhando para o próprio umbigo, exercendo o poder em benefício de muito poucos.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de prédios enormes, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem destruir seus centros históricos e sua memória, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta.

É evidente que as cidades são de quem nelas vive.

Lembro aqui o que diz meu amigo Vitor Mesquita, Pubblicato, idealizador do projeto URBE: “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas. A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar”.

 

Em tempos ásperos Há que…

Há que ter paciência para enfrentar a cidade, sua concretude explícita e agressiva no verão de extremos e seus humanos que vão e vêm atordoados, às vezes tão impermeáveis. Há que desviar os olhos dos espigões azulados, disfarçados de céu, e das marcas de empreiteiras sem escrúpulos que descaracterizam o espaço urbano, com o aval de governos e administradores públicos que se corrompem por um punhado de reais.

"Tempos ásperos", por Tamar Matsafi
“Tempos ásperos”, por Tamar Matsafi

Há que tomar o ônibus no ponto escaldante, mesmo que pare longe da calçada e seja difícil o acesso e o equilíbrio ao subir.                                                                                 Há que suportar o olhar do motorista que, apesar de piedoso, não percebe que estacionou de forma inadequada e não consegue ver a diferença. Já é muito para ele carregar os cansados passageiros do cotidiano pelas ruas tumultuadas da metrópole.
Há que esticar ao máximo as pernas curtas para acessar os balcões de bancos e outros tantos balcões. Os atendentes, distraídos no cumprimento mecânico de suas tarefas, pouco sabem de acolhimento e inclusão.
Há que encarar os sorrisos e os discursos protocolares que louvam a “superação” e nada fazem pela acessibilidade.

Há que desviar dos carros estacionados irresponsavelmente nas calçadas. O espaço público, sem fiscalização, é mais das máquinas do que das pessoas.
Há que caminhar pelas ruas com o lixo transbordando na volta. Os próprios moradores colocam nos containers, misturando tudo e mostrando total descaso com a cidade, já tão abandonada. Há que ter cuidado para cruzar nas faixas de segurança. São poucos os motoristas que consideram a faixa um sinal de alerta e respeito aos pedestres.
Há que respeitar os sinais de trânsito, criados para disciplinar o movimento urbano. Mas muitos pedestres e motoristas pouco se importam com isso.

Há que enfrentar o medo de sair de casa e a inquietude que acompanha cada passo. É um medo real e é também o medo de gente como a gente que anda por aí.

Há que não se submeter ao que é imposto e ao que humilha, como falou o cidadão Eduardo Marinho, que abriu mão do conforto do mundo burguês, foi viver na rua e descobriu a arte para se manifestar (https://voosubterraneo.wordpress.com/2013/12/06/eduardo-marinho/). Como ele, penso que é preciso simplesmente viver e não cultivar o desejo insólito de vencer na vida.

O que é mesmo vencer na vida?                                                                                      Há que abandonar as “expectativas mercadológicas da excelência” e uma vida “sob estresse e sob uma cobrança que nunca irá ser satisfeita porque todos nós, seres humanos, temos singularidades, com possibilidades e limitações, sendo estas mais evidentes (como é o caso de uma pessoa com deficiência) ou não”, como escreveu Carla Abreu, que tem nanismo, no seu blog (https://www.facebook.com/abreucacau?fref=ts).

"Inocência", por Tamar Matsafi
“Inocência”, por Tamar Matsafi

Há que estimular o afeto, a dignidade, a delicadeza, o encontro, a diversidade, a tolerância.
Há que se brincar com as crianças e se cercar dos amigos e de gente do bem.
Em nome de tempos menos ásperos, acessíveis e inclusivos!

Por espaços urbanos acessíveis e inclusivos

Alertar a população e os gestores públicos para as limitações cotidianas das pessoas que têm uma deficiência e sensibilizá-los para as conquistas é compromisso de todos nós, assim como reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade é um direito. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

"Acessibilidade para que?", por Tamar Matsafi
“Acessibilidade para que?”, por Tamar Matsafi

Em 2016 esse foi o foco principal dos meus comentários, assunto que vai seguir no centro das minhas atenções em 2017. O objetivo é estimular a reflexão, provocar conversas coletivas em nome dos direitos humanos e da não-discriminação e impulsionar atitudes transformadoras. Não podemos deixar que essa luta caia no esquecimento ou seja ofuscada pelo descaso ou pela inércia.

Começo relembrando trechos de um texto que compartilhei no blog sobre a cidade no início da campanha eleitoral para prefeito.

A jornalista e consultora em audiodescrição Mariana Baiarle, que tem baixa visão, escreveu: “O olho às vezes me atrapalha. A visão embaraçada muitas vezes me trai. Minha retina desvairada me leva a tropeços constantes em ruas e calçadas esburacadas. Mas a rotina de tombos e tropicões me ensina também a levantar, a re-levantar e encarar a vida de diferentes maneiras”.

De forma poética, Mariana deixa claro que o espaço urbano precisa de intervenções que facilitem a vida, em perfeita sintonia com o que diz a arquiteta Flavia Boni Licht: “Acessibilidade é pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

O difícil cotidiano da cidade

*Proliferam calçadas irregulares e quebradas, sem rebaixos do meio-fio, sem piso tátil, um problema para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, cidadãos que precisam usar cadeira de rodas ou bengalas, idosos com alguma dificuldade de locomoção.

"Calçada para carros", por Tamar Matsafi
“Calçada para carros”, por Tamar Matsafi

*Carros que ocupam as calçadas, sem deixar espaço para o pedestre passar.

*Obras de toda forma e qualidade que invadem calçadas, representando risco para o pedestre.

*Sinaleiras que necessitam de revisão dos tempos para a travessia de pedestres. Afinal, não são apenas para os veículos, mas para quem anda na cidade.

*Linhas de ônibus urbanos sem áudio interno que oriente os usuários sobre as paradas e sem um sistema adequado para acolher cadeiras de rodas.

*Paradas de ônibus que também necessitam de um sistema de áudio, avisando a linha que está chegando.

*Balcões muito altos de bancos, repartições públicas, hospitais e caixas eletrônicos de um modo geral, o que dificulta a autonomia de pessoas com nanismo e cadeirantes.

E as leis? E a fiscalização? E a ética?

E a pergunta que não quer calar: Que projetos de revitalização possíveis, voltados para acessibilidade, criação de ambientes acolhedores, livres de barreiras físicas, têm os novos prefeitos das nossas cidades?

“A eliminação das barreiras físicas da estrutura da cidade, de todo o mobiliário urbano, das edificações, dos meios de transporte e de comunicação enriquece e amplia a qualidade de vida dos moradores e visitantes, possibilitando, além disso, a inclusão das pessoas com deficiência no cotidiano. Isso significa uma cidade efetivamente democrática” – Flavia Boni Licht.

Pensando e repensando a cidade

– Em tempo de eleições, o espaço urbano deve estar no centro das reflexões –

 

Com a missão de colocar em pauta algumas ideias, opiniões e interpretações, sugerimos aos que querem legislar e governar a cidade um olhar mais agudo e analítico para o ambiente urbano, sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade, no sentido de repensá-lo em sintonia com as demais inquietações que mobilizam os moradores.

Porto Alegre e o Guaíba

O meio ambiente urbano, a qualidade de vida dos homens e o perfil das cidades na contemporaneidade são temas que ocupam o cotidiano das populações devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos hoje nas ruas. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são atualmente um bom lugar para se estar? É possível humanizá-las e transformá-las em espaços criativos, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver?

Vivemos em cidades cheias de conflitos criados por nós, habitantes, pelo poder público e pelo poder econômico, relacionados ao tratamento que damos aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta e que as cidades são de quem nelas vive.

Algumas ideias para o bom espaço público
Para o designer visual Vitor Mesquita, idealizador do projeto URBE, cuja revista conquistou o Prêmio Açorianos de Artes Visuais (Especial do Júri, 2013) e, por duas vezes, o Prêmio Abrigraf de Excelência Gráfica (2012 e 2913), a reflexão sobre o espaço urbano, no sentido de torná-lo mais criativo e convidativo ao convívio, está cada vez mais latente. “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas”.

Vitor destaca que os cidadãos estão preocupados com a sua cidade, com a revitalização de áreas deterioradas, com a ocupação de espaços. Prova disso é que o tema domina desde os noticiários do horário nobre e redes sociais até reuniões de moradores de bairros. “A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar.”

Nessa direção, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, um estudioso das cidades e da vida das pessoas nos grandes centros, referência mundial em desenho urbano e espaços públicos, levantou 12 critérios para o Bom Espaço Público. Dizem respeito a todos nós e, claro, aos governos e aos empresários que, na maioria das vezes, ignoram o público – o urbano e o humano – e exercem o poder em nome do lucro e do benefício de muito poucos. E se os gestores urbanos procurassem ouvir o que diz Gehl e adaptassem algumas de suas ideias aos espaços sob sua responsabilidade?

1 – Proteção contra o tráfego
2 – Segurança nos espaços públicos
3 – Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis
4 – Espaços para caminhar
5 – Espaços de permanência
6 – Lugares para sentar
7 – Possibilidade de observar
8 – Oportunidade de conversar
9 – Locais para se exercitar
10 – Escala humana
11 – Possibilidade de aproveitar o clima
12 – Boa experiência sensorial

Jan Gehl dá ainda cinco conselhos para cidades habitáveis, saudáveis, seguras e sustentáveis.

1. Parar de construir cidades pensando em “facilitar a vida dos automóveis”.
2. Fazer dos espaços públicos o foco dos projetos urbanos.
3. Projetar experiências multisensoriais.
4. Fazer com que o transporte público seja para todos.
5. Proibir o uso de automóveis.