Vai passar!

Vai passar. A expressão que virou mantra neste tempo sombrio e inquietante de pandemia me faz lembrar a canção de Chico Buarque de Holanda. Composta em meados dos anos 1980, período conturbado em que vislumbrávamos o fim da cruel ditadura militar instaurada no Brasil no fatídico 31 de março de 1964, a música fala da nossa história ainda tão recente. Uma história cravada de injustiças, contradições, tortura e morte. E que neste início de 2020, se mostra tão ou mais injusta e contraditória.

As terras deslumbrantes descobertas por Pedro Álvares Cabral viraram colônia de Portugal. E seus donatários, os privilegiados de sempre, seguindo o exemplo do colonizador/doador, passaram a capturar negros na África para transformá-los em escravos. Arrancados da terra mãe, eles foram jogados nas mãos de gente sem escrúpulos que, por ser branca e poderosa, achava que podia tudo. Gente obcecada por uma perfeição discriminatória e alimentada por uma ambição desmedida que, assim como destrói o meio ambiente, dissemina preconceito de toda ordem.

“Aqui sambaram nossos ancestrais”. Marginalizados em um lugar que só os via como seres para servir, os negros foram obrigados a abrir mão das suas origens e da cultura que os constituía para atender os desejos do senhor dono da terra. “Erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”. Mas um dia perceberam que era possível subverter essa ordem. Entenderam que “tinham direito a uma alegria fugaz”. E fizeram dessa possibilidade uma grande luta pelo direito de ser e manter sua identidade.

Aos poucos, mesmo sem liberdade, retomaram suas vozes genuínas, seus cantos, seus tambores, suas danças, sua história, sua alegria. Excluídos das festas da casa grande, que abrigava, e abriga ainda hoje, a elite soberba, os escravos tomaram becos e ruelas com uma festa popular que acabou contagiando o país inteiro. E “que se chama carnaval”.

Mas a “terra brasilis” seguiu distraída – dominada por senhores sem escrúpulos, os donos do dinheiro – sem entender “que era subtraída em tenebrosas transações”. A elite econômica, desumana e sem freios, que se formou seguiu impávida a liturgia da escravidão, ancorada em discursos hipócritas. O que ficou escancarado em alguns momentos da pandemia do coronavírus. Ao atender aos apelos do presidente insano, alguns empresários manifestaram o desejo de ver seus empregados trabalhando, ignorando determinações dos governos dos estados e municípios.

Apesar das vozes da Organização Mundial da Saúde, de cientistas, pesquisadores e médicos, o poder financeiro tentou falar mais alto, mas recuou. E o poder político, nas mãos de indecisos, sem preparo para comandar um país que vive uma crise sem precedentes na história mundial, assinou embaixo. Para mudar de postura logo depois. Já não há dúvidas. Vivemos uma situação complexa, que exige discernimento, respeito e maturidade de todos os lados. Já não há espaço para brigas político-partidárias. Assim como também não há dúvidas de que estamos diante de um governo incapaz de olhar para a população. Em momento algum, o outro coube neste olhar.

O Brasil, os trabalhadores, as mulheres, a gente comum, o povo, nós todos estamos nas canções de Chico Buarque, compositor que tão bem fala da nossa história, dos tempos inocentes em que víamos a banda passar, passando pelo exílio e o sofrimento imposto pela ditadura militar, pelas diretas já, pela nossa jovem democracia, hoje tão sucateada – https://www.ouvirmusica.com.br/chico-buarque/77259/

E lá me vem outra canção, lembrada recentemente por Jorge Furtado – “Pessoa Nefasta”, de Gilberto Gil – “Tu, pessoa nefasta / Vê se afasta teu mal / Teu astral que se arrasta tão baixo no chão / Tu, pessoa nefasta / Tens a aura da besta / Essa alma bissexta, essa cara de cão”. Vai passar!

Mas é carnaval!

Sempre fui carnavalesca. Do salão da Sociedade Cruzeiro em São Francisco de Paula, à Praça Castro Alves em Salvador/Bahia, ao som das marchinhas de bandas do interior ou dos trios elétricos na cidade grande.

Quem sabe ainda teremos a chance, como escreveu e cantou Vinícius de Moraes, de “viver e brincar outros carnavais / com a beleza / dos velhos carnavais / que marchas tão lindas / e o povo cantando / seu canto de paz”. Não sou saudosista, mas adoraria tomar as ruas com um canto de paz, celebrando a vida em um país digno, que respeita sua gente.

A seguir boas lembranças de muitos carnavais.

Conheci o carnaval baiano, ápice do ciclo de festas que caracterizam o verão, nos anos 1970/1980. Lá passei os melhores carnavais da minha vida, encantada com a maior e mais popular festa de rua brasileira. Transbordando de euforia e molhados de suor e cerveja, todos brincavam espontaneamente ao som dos trios, afoxés, blocos e cordões.

Folia definida pelo sociólogo baiano Antônio Risério como “um baile imenso, colorido, feérico e frenético”, que se espalha pelos becos, praças, avenidas, orla e contagia até a mais empedernida das criaturas. Do Largo do Pelourinho, passando pelo Terreiro de Jesus, Praças da Sé, Castro Alves e Municipal, Avenida Sete de Setembro, até o Farol da Barra são mais de 15 quilômetros de chão totalmente tomado por uma massa enlouquecida. Um roteiro carnavalesco por onde cruzam os tipos mais incríveis, levados pela magia e pelo calor humano que tomam conta da cidade nesta época. Todos pulam, cantam, dançam, vivem o carnaval na sua plenitude, noite e dia, como se não houvesse amanhã.

Salvador foi descoberta pelo turismo na década de 1970 e se transformou num atraente polo no verão. Turistas, curiosos e curtidores, hippies e viajantes do Brasil e do mundo, chegavam lá a procura do paraíso perdido à beira mar ou de uma sonhada “capital do prazer”, onde tudo fosse permitido. Uma invasão que mudou a fisionomia da cidade. A anarquia, o delírio, a catarse geral provocada pelo carnaval, constituem a essência desta busca desenfreada.

Foi na Praça Castro Alves que vi, senti e participei intensamente do carnaval de rua de Salvador. Lá se juntavam artistas, intelectuais, turistas, comerciantes, homossexuais, mulheres, homens, velhos e jovens. Tipos física e socialmente diferentes que brincavam juntos como se sempre tivesse sido assim.

“A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”, canta Caetano Veloso, que define como poucos o espírito do carnaval baiano. Um espetáculo de rara beleza plástica e humana, pelo qual ninguém passa impunemente. Para Gilberto Gil, o carnaval é uma manifestação séria e complexa, “um espaço muito curto para a transfiguração, para a loucura, para a reconciliação total com a carne, que é ignorada o ano todo”. Há uma explosão total de vida. E todos os vícios e virtudes do ser humano fluem naturalmente. Afinal, tudo é permitido.

Além da conotação de festa popular e de prazer, o carnaval da Bahia, especialmente em Salvador, é uma vitoriosa afirmação cultural dos negros. São eles os responsáveis pela essência do carnaval. Proibidos de frequentar os salões do branco, pela condição de escravos, os negros dançavam e cantavam na rua, na tentativa de manter viva sua origem africana. Com graça, magia, sensualidade e muita pulsação, eles passavam noites inteiras entregues a rituais típicos das regiões de onde vinham.

E é nas ruas que pulsa a alma do carnaval baiano. E nas ruas estão os negros com seus blocos afros, o som ijexá, a percussão, o batuque, os metais dos afoxés, mostrando a autenticidade da sua arte, inteira e envolvente, apesar de todo tipo de repressão a que foi submetida. É uma exibição rica em originalidade, beleza e força, que flui através de uma coreografia harmoniosa. E todos são convidados a dançar.

Participação é a característica fundamental desta festa colorida, cheia de ritmo, que os negros levaram para as ruas e que hoje é de todo mundo. Com ou sem dinheiro. Com ou sem fantasia. O luxo, a pompa e a riqueza também podem fazer parte, mas não são características essenciais. O que importa são as pessoas que se deixam levar ruas afora, integrando-se deliberadamente no mais autêntico e democrático salão de baile do país.

Os antropólogos afirmam que o carnaval é o momento em que esquecemos a seriedade. É um espaço ritualístico onde as diferenças culturais, sociais e comportamentais se dissolvem. Pobres, ricos, homossexuais, machos, fêmeas, todos se irmanam na avenida. Em um país como o Brasil, onde uma minoria concentra poder e dinheiro e a maioria se debate na miséria, está cada vez mais difícil ignorar as diferenças. Mas no carnaval que brinquei nos anos 1970/1980 ainda era possível a ilusão de que somos todos irmãos. Que se dane a política, a crise, a desgraça cotidiana. Quem está na rua quer se entorpecer um pouco. E são milhares e milhares de pessoas que suspendem delirantemente o cotidiano para perder-se de alegria e liberdade. E volto à música de Caetano Veloso – “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”. E o povo está vivo e faz a festa com brilho nos olhos. “Amanhã há de ser outro dia”, cantou Chico Buarque.

Nestas duas décadas, o carnaval de Salvador contava com a presença de homossexuais que vinham de todas as partes e aproveitavam a loucura geral para liberar sua opção sexual, tão reprimida e condenada pela sociedade. No início, a manifestação era disfarçada e eles saíam às ruas mascarados, dando um toque especial aos dias de folia. Aos poucos, foram conquistando espaço e já não precisavam se esconder. Tornaram-se comuns os desfiles das “bichas” na Praça Castro Alves. A escadaria era a passarela. Ali faziam o espetáculo, exibindo-se, tirando a roupa, mostrando em tom irônico que eram homens que desejavam homens e queriam manifestar seus sentimentos livremente.

Entre risos, espanto, agressão e afirmação, os gays se fizeram respeitar. Sem máscara, sem medo e sem bloqueios tomaram conta da Praça, das ruas, abraçando, beijando, amando ao som dos afoxés. Nos cinco dias de catarse coletiva, tudo parecia natural. O carnaval era terreno livre para o bem de todos.  E foi assim que comecei a entender a riqueza das diferenças. Salve o carnaval baiano!