Antídotos para a desesperança

Intolerância e preconceito de toda forma e qualidade invadiram nosso cotidiano, já tão massacrado. Os embates inquietam. Alguns provocam boas reflexões, é certo, mas assinalam que extrapolamos infinitamente a civilidade, a ética, o respeito pelo outro. O pensamento único, sem nuances, insiste em nos guiar. Mais uma vez, o bem e o mal.
Diante de um panorama indigente, só vejo uma saída: buscar antídotos para arrefecer essa quase desesperança. Urgentemente! E seguir na luta.

Aleatoriamente, ouço uma fala de José Pepe Mujica, quando ainda era presidente do Uruguai. Um alerta para a necessidade de uma América Latina solidária, capaz de um olhar para as potencialidades de seus países e da união de forças para combater as desigualdades sociais. A civilização em que vivemos põe o dinheiro como o mais alto objetivo de vida, mas só uma política que se ocupe do ser humano pode ter crédito, disse ele. Um sonhador?

Em seguida, revisito as canções de Adriana Calcanhoto Partimpim, que gosto muito, e dou de cara com uma declaração dela em uma entrevista: “Não devemos matar o artista que cada criança é”. Uma sonhadora?

E acabo encontrando anotações que fiz de uma aula magna de Mia Couto, na UFRGS, em setembro de 2014. O escritor moçambicano dividiu histórias, memórias, vivências e leveza com mais de mil e quinhentas pessoas ávidas por ouvi-lo. Entre as preciosidades da sua fala, disse que é fundamental manter uma ponte entre o tradicional e o novo. É no passado que carregamos nossa vida futura. Para ele, não precisamos de mais tempo, mas de um tempo que seja nosso, para viver e não apenas registrar a vida. Precisamos restituir a dimensão humana aos territórios e devolver à vida as pequenas histórias. Um sonhador?

É justamente essa dimensão do humano que estamos perdendo ao não reconhecer a diversidade e a singularidade que nos constituem como sujeitos. Este início de primavera pode ser um bom momento para entendermos que o tempo hoje é de ressignificação. Navegamos em mares turbulentos e desconhecemos a força das águas. Ao mesmo tempo, esquecemos ou minimizamos nossos direitos e responsabilidade. Deixamos de sonhar?

Essa engrenagem política, com suas milícias sem escrúpulos espalhadas por aí, é dilacerante. Assustada, às vezes atordoada, mas firme nos meus propósitos e nas minhas crenças, intacta no ser que sou, sinto que é necessário nos mantermos em alerta – “cuidado, há um morcego na porta principal” – e de olhos bem abertos. “Senhoras e senhores, ele põe os olhos grandes sobre mim”. Como diz a canção de Jards Macalé, “Gotham City”.

Nesse percurso, a ancoragem vem da presença, física ou não, dos amigos e dessa grande família que formamos e ampliamos a partir de tantos sonhos coletivos, lutas, realizações, decepções, alegrias, generosidade, afeto, coragem, cuidados. Essa gota de mel que vem de cada um, com delicadeza, sem invasão, nem polaridades inúteis, restabelece minha energia interior.

Sonhadora? Sim! Como tantos, não quero abrir mão dessa capacidade de sonhar que ainda me habita.

"Ainda há luz", por Tamar Matsafi

“Ainda há luz”, por Tamar Matsafi