Foi e é possível – Minha experiência na TVE

1987. Pedro Simon é eleito governador do Rio Grande do Sul. O jornalista e publicitário Alfredo Fedrizzi assume a presidência da TVE. Eu o conhecia pouco. Sabia que era um dos diretores da agência Escala e que tinha trabalhado na RBSTV. Vez que outra a gente se encontrava em eventos culturais, seminários, lançamentos de livros, filmes, palestras.

Minha vontade de trabalhar na TVE era grande, inspirada por Jorge Furtado, pela ousadia do programa “Quizumba”, Eduardo Peninha Bueno, Zé Pedro Goulart, o programa “Pra começo de conversa”, Ana Luiza Azevedo e tantos outros. Fui falar com o Fedrizzi. Alguns anos antes, quando o jornalista Luiz Figueredo, meu amigo e comprade, era diretor de programação, eu já havia tentado. Ele foi gentil, mas não tinha vaga. Recolhi o desejo e segui trabalhando onde estava.

Desengavetei o desejo e, como o Figueredo, Fedrizzi foi gentil, me ouviu, quis saber da minha experiência em TV, não me perguntou sobre partido político. Estava iniciando a gestão e não sabia se teria como me contratar. Na saída encontrei Tânia Carvalho, com quem já havia trabalhado e virou uma grande amiga. Expliquei a ela porque estava ali. Por coincidência, o novo diretor de programação Luiz Eduardo Crescente passava pelo corredor e Tânia me apresentou a ele. Conversamos um pouco e me fui para o Correio do Povo, onde trabalhava.

No final de julho de 1987, Fedrizzi me convidou para chefiar os setores de Divulgação, Chamadas, Arte e Cenografia. Eu, que nunca quis ser chefe de nada, seria responsável pelas equipes de divulgação da programação, interna e externamente, de criação de vinhetas e gravação e edição de chamadas e pelos cenários. Argumentei, disse que só queria ser produtora, que não tinha vocação para chefia. Em vão. Assumi. Enfrentei alguns boicotes no início, tive muita ansiedade, quis desistir, mas, com o apoio de gente boa que trabalhava muito bem, fui ganhando experiência e segurança.

Formamos uma equipe cheia de garra, que se somava às equipes da produção e do jornalismo. Foram 4 anos de ações e invenções incríveis, realizadas com profissionalismo e entusiasmo. Conteúdo, qualidade técnica e intercâmbios faziam parte dos projetos. Tínhamos total apoio da presidência e da direção, sempre presentes, tanto para criticar, como para conversar, trocar ideias e aplaudir. Muitos programas locais foram criados – Palcos da Vida, Menor questão Maior, Radar, Pandorga, para citar alguns. A TVE fez parcerias com a TV Cultura de São Paulo e passou a exibir programas como Roda Viva, Metrópolis e Jornal da Cultura. Da TVE Rio, exibia o Sem Censura. As discussões que envolviam o trabalho eram acaloradas. E quase ninguém se omitia.

Nesse período, 1989, foi fundada a FM Cultura, muito festejada por todo mundo. Sob a direção da jornalista Liana Milanez, a rádio virou referência para as artes no Rio Grande do Sul, especialmente a música.

Essa movimentação fez parte do sonho de profissionais que queriam abrir cada vez mais espaços para a informação, a arte e a cultura do meio em que viviam, transformando a TVE e a FM Cultura em emissoras que refletissem, com talento, ousadia, liberdade e crítica, a produção local e nacional.

Foi e é possível
Por isso, não dá para entender o desmonte desses verdadeiros patrimônios públicos pelo governo Sartori e a tortura psicológica a que submete os funcionários da TV e da rádio (tortura sofrida também por trabalhadores de outras fundações em processo de extinção), ameaçados por demissão na véspera do Natal.

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