Fragmentos do cotidiano de quem busca a inclusão

A inclusão pode ser simples assim
O menino parou e me olhou com os lindos olhinhos arregalados e curiosos. Olhou para a mãe, sério, e disse: “Tô achando essa pessoa muito estranha”. Parecia ter uns 5 anos. A mãe, delicadamente, falou: “Então, conversa com ela”. Perguntei: “O que tu estás achando estranho?”. Ele: “O tamanho”. Eu: “Somos quase do mesmo tamanho”. Ele: “Mas é diferente. Tu tá sozinha?”. Respondi que sim e completei: “É que eu sou uma adulta pequena”. Ele puxou a mãe pela mão e disse, aliviado: “Ela é uma adulta pequena, mamãe!”. A mãe, sábia, comentou: “Pois é! Vocês podem ser amigos. Dá um beijo nela”. Ele veio, sorrindo, me deu um beijo e um abraço. E se foi, me abanando. Encarar com naturalidade a fala da criança, responder e explicar afasta os fantasmas e aponta para a riqueza da diversidade humana.

"Incluídas", por Tamar Matsafi

“Incluídas”, por Tamar Matsafi

A inclusão pode ser complicada assim
A menina me olhou assustada, puxou a mãe pelo vestido, apontou o dedinho para mim e foi dizendo: “Olha, olha!”. A mãe não me olhou, deu um safanão na criança e foi saindo e falando rispidamente: “Onde está o respeito? Tu sabes que não se deve fazer isso”. Não tive tempo para dizer nada. E elas se foram. Fazer o quê? Fiquei pensando com os meus botões. A criança foi reprimida na sua espontaneidade. Não falar é abrir uma fresta para que o preconceito entre e vá se acomodando, quieto e perigosamente.

Nossa diferença é a nossa fortaleza
Lute como uma menina. Nesta quinta-feira, 16 de março de 2017, às 17h, na sede do Coletivo Feminino Plural (Andrade Neves, 159, sala 85, Centro Histórico de Porto Alegre), uma roda de conversa com jovens estudantes que participaram das ocupações das escolas em 2016 marca o lançamento do projeto “Mandala da Diversidade – Nossas Diferenças, Nossa Fortaleza”. O projeto busca dar visibilidade a jovens ativistas de 13 a 18 anos, aprofundando questões de gênero, etnia e raça, diversidade, mulheres com deficiência, sexualidade, comunicação e política. Informações pelo email pontodeculturafeminista@gmail.com. Cada vez mais, precisamos colocar esses temas nas nossas rodas de conversa.

Ícaro desejou voar
“Ícaro” coloca em cena um cadeirante, Luciano Mallmann, que sofreu uma lesão na medula ao cair durante uma acrobacia aérea em tecido no Rio de Janeiro, em 2004. Entre o real e a ficção, a montagem nasceu da experiência do ator e de pessoas que conheceu depois que passou a usar cadeira de rodas. As histórias tratam de temas universais, resiliência, relacionamento entre pais e filhos, relações amorosas, suicídio, preconceito, gravidez e maternidade. “Se eu não fizer a minha história e simplesmente esperar alguém me chamar para um trabalho não faço quase nada. Já é difícil para quem tem todas as possibilidades ser chamado”, assinala Luciano, produtor, intérprete e autor dos textos. A direção é da atriz Liane Venturella. A iluminação de Fabrício Simões e a trilha sonora de Monica Tomasi sublinham cada cena da peça que está em cartaz no Instituto Goethe até 26 de março. “Ícaro” é, acima de tudo, um espetáculo sobre a condição humana. “Somos todos iguais, cadeirantes ou não, temos dificuldades em relacionamentos, medos etc. Espero contribuir com essa peça para o debate”.

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Luciano Mallmann em Icaro, foto de Jonathan Heckler

Uma pessoa não pode ser definida pela sua deficiência
Ednilson Sacramento faz Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal da Bahia. Por uma dessas felizes coincidências, um e-mail dele me foi encaminhado por um amigo. Ednilson é cego, condição que o impulsionou a fazer o trabalho de conclusão de curso voltado para a linguagem. Mais especificamente, para o vocabulário usado quando o assunto é a pessoa com deficiência. As novas abordagens e nomenclaturas pertinentes, o que deve ou não ser usado, o peso de uma expressão, de uma palavra, para quem já é estigmatizado. Um trabalho necessário que, com certeza, será muito bem-vindo. Uma reflexão singular sobre um assunto pouco pensado. Estou aguardando ansiosa.

 

Em tempos ásperos Há que…

Há que ter paciência para enfrentar a cidade, sua concretude explícita e agressiva no verão de extremos e seus humanos que vão e vêm atordoados, às vezes tão impermeáveis. Há que desviar os olhos dos espigões azulados, disfarçados de céu, e das marcas de empreiteiras sem escrúpulos que descaracterizam o espaço urbano, com o aval de governos e administradores públicos que se corrompem por um punhado de reais.

"Tempos ásperos", por Tamar Matsafi

“Tempos ásperos”, por Tamar Matsafi

Há que tomar o ônibus no ponto escaldante, mesmo que pare longe da calçada e seja difícil o acesso e o equilíbrio ao subir.                                                                                 Há que suportar o olhar do motorista que, apesar de piedoso, não percebe que estacionou de forma inadequada e não consegue ver a diferença. Já é muito para ele carregar os cansados passageiros do cotidiano pelas ruas tumultuadas da metrópole.
Há que esticar ao máximo as pernas curtas para acessar os balcões de bancos e outros tantos balcões. Os atendentes, distraídos no cumprimento mecânico de suas tarefas, pouco sabem de acolhimento e inclusão.
Há que encarar os sorrisos e os discursos protocolares que louvam a “superação” e nada fazem pela acessibilidade.

Há que desviar dos carros estacionados irresponsavelmente nas calçadas. O espaço público, sem fiscalização, é mais das máquinas do que das pessoas.
Há que caminhar pelas ruas com o lixo transbordando na volta. Os próprios moradores colocam nos containers, misturando tudo e mostrando total descaso com a cidade, já tão abandonada. Há que ter cuidado para cruzar nas faixas de segurança. São poucos os motoristas que consideram a faixa um sinal de alerta e respeito aos pedestres.
Há que respeitar os sinais de trânsito, criados para disciplinar o movimento urbano. Mas muitos pedestres e motoristas pouco se importam com isso.

Há que enfrentar o medo de sair de casa e a inquietude que acompanha cada passo. É um medo real e é também o medo de gente como a gente que anda por aí.

Há que não se submeter ao que é imposto e ao que humilha, como falou o cidadão Eduardo Marinho, que abriu mão do conforto do mundo burguês, foi viver na rua e descobriu a arte para se manifestar (https://voosubterraneo.wordpress.com/2013/12/06/eduardo-marinho/). Como ele, penso que é preciso simplesmente viver e não cultivar o desejo insólito de vencer na vida.

O que é mesmo vencer na vida?                                                                                      Há que abandonar as “expectativas mercadológicas da excelência” e uma vida “sob estresse e sob uma cobrança que nunca irá ser satisfeita porque todos nós, seres humanos, temos singularidades, com possibilidades e limitações, sendo estas mais evidentes (como é o caso de uma pessoa com deficiência) ou não”, como escreveu Carla Abreu, que tem nanismo, no seu blog (https://www.facebook.com/abreucacau?fref=ts).

"Inocência", por Tamar Matsafi

“Inocência”, por Tamar Matsafi

Há que estimular o afeto, a dignidade, a delicadeza, o encontro, a diversidade, a tolerância.
Há que se brincar com as crianças e se cercar dos amigos e de gente do bem.
Em nome de tempos menos ásperos, acessíveis e inclusivos!

Por espaços urbanos acessíveis e inclusivos

Alertar a população e os gestores públicos para as limitações cotidianas das pessoas que têm uma deficiência e sensibilizá-los para as conquistas é compromisso de todos nós, assim como reivindicar políticas que priorizem a inclusão e a acessibilidade é um direito. Repensar a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

"Acessibilidade para que?", por Tamar Matsafi

“Acessibilidade para que?”, por Tamar Matsafi

Em 2016 esse foi o foco principal dos meus comentários, assunto que vai seguir no centro das minhas atenções em 2017. O objetivo é estimular a reflexão, provocar conversas coletivas em nome dos direitos humanos e da não-discriminação e impulsionar atitudes transformadoras. Não podemos deixar que essa luta caia no esquecimento ou seja ofuscada pelo descaso ou pela inércia.

Começo relembrando trechos de um texto que compartilhei no blog sobre a cidade no início da campanha eleitoral para prefeito.

A jornalista e consultora em audiodescrição Mariana Baiarle, que tem baixa visão, escreveu: “O olho às vezes me atrapalha. A visão embaraçada muitas vezes me trai. Minha retina desvairada me leva a tropeços constantes em ruas e calçadas esburacadas. Mas a rotina de tombos e tropicões me ensina também a levantar, a re-levantar e encarar a vida de diferentes maneiras”.

De forma poética, Mariana deixa claro que o espaço urbano precisa de intervenções que facilitem a vida, em perfeita sintonia com o que diz a arquiteta Flavia Boni Licht: “Acessibilidade é pensar, edificar e adequar espaços e equipamentos para a diversidade humana. Em algum momento da vida, uma parcela significativa da população tem sua mobilidade reduzida: idosos, gestantes, crianças, mães que carregam bebês no colo e/ou carrinhos, pessoas em processo de reabilitação, vítimas leves de acidentes de trânsito e/ou de trabalho”.

O difícil cotidiano da cidade

*Proliferam calçadas irregulares e quebradas, sem rebaixos do meio-fio, sem piso tátil, um problema para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, cidadãos que precisam usar cadeira de rodas ou bengalas, idosos com alguma dificuldade de locomoção.

"Calçada para carros", por Tamar Matsafi

“Calçada para carros”, por Tamar Matsafi

*Carros que ocupam as calçadas, sem deixar espaço para o pedestre passar.

*Obras de toda forma e qualidade que invadem calçadas, representando risco para o pedestre.

*Sinaleiras que necessitam de revisão dos tempos para a travessia de pedestres. Afinal, não são apenas para os veículos, mas para quem anda na cidade.

*Linhas de ônibus urbanos sem áudio interno que oriente os usuários sobre as paradas e sem um sistema adequado para acolher cadeiras de rodas.

*Paradas de ônibus que também necessitam de um sistema de áudio, avisando a linha que está chegando.

*Balcões muito altos de bancos, repartições públicas, hospitais e caixas eletrônicos de um modo geral, o que dificulta a autonomia de pessoas com nanismo e cadeirantes.

E as leis? E a fiscalização? E a ética?

E a pergunta que não quer calar: Que projetos de revitalização possíveis, voltados para acessibilidade, criação de ambientes acolhedores, livres de barreiras físicas, têm os novos prefeitos das nossas cidades?

“A eliminação das barreiras físicas da estrutura da cidade, de todo o mobiliário urbano, das edificações, dos meios de transporte e de comunicação enriquece e amplia a qualidade de vida dos moradores e visitantes, possibilitando, além disso, a inclusão das pessoas com deficiência no cotidiano. Isso significa uma cidade efetivamente democrática” – Flavia Boni Licht.

A busca pelas margens que ampliam o olhar

Muitas palavras me movem. E algumas, como diversidade e inclusão, pedem olhares mais livres. Não viciados, não domesticados ou menos contaminados. Olhares compridos que conseguem se encantar com a poesia “cheia de desperdícios” de Manoel de Barros, sem saber a razão.

“Dou respeito às coisas desimportantes / e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade / das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.”
(O apanhador de desperdícios, do livro Memórias Inventadas – A Infância).

Vivo buscando esse olhar em poemas, pequenas frases, textos e ações para que a vida cotidiana seja mais fácil, democrática e plural. E para me encher de leveza e esperança.

– *A resposta enfática que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie deu ao jornalista R. Emmet Tyrell, editor-chefe da revista ‘American Spectator’, no programa BBC Newsnight, foi reconfortante. Ele negava que Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos, fosse racista, tentando minimizar a crítica da escritora. “Me desculpe, mas se você é um homem branco, você não pode definir o que é racismo”. “Isso não é sobre a sua opinião, o racismo é objetivamente real e Donald Trump tem reforçado essa realidade”, afirmou a autora de “Americanah” e “Sejamos Todos Feministas”. (Fonte: Carta Capital, por Ingrid Matuoka, em 15/11/2016).

"Racismo não", por Tamar Matsafi

“Racismo não”, por Tamar Matsafi

Sabemos que uma família homofóbica e preconceituosa pode tornar insustentável a relação com o filho/filha diferente, assim como uma sociedade intolerante pode fazer o mesmo. Muitos jovens, que lutam pela sua verdade e identidade, são estigmatizados. E, muitas vezes, pela opção sexual, nega-se a eles uma vida digna. São punidos por todos os lados, emocionalmente, socialmente e economicamente. “De 20 a 30% dos jovens em situação de rua no mundo são LGBT, essa é uma taxa superior à de LGBTs na sociedade”, afirma o coordenador do Departamento de Ciências Humanas e Educação da UFSCAR/Universidade Federal de São Carlos, São Paulo.

– *Por isso, a exposição Uma cidade pelas margens, que abre no dia 18 de novembro, 19h, no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, é muito bem vinda. Ao trazer o tema LGBTT para um espaço cultural público, os organizadores estimulam a inclusão e fazem uma ponte com a 20ª Parada Livre, que aconteceu recentemente, no dia 13 de novembro, aqui em Porto Alegre. O projeto, que coloca em evidência a trajetória de pessoas e organizações que lutaram pela visibilidade e pelo direito à diversidade na capital gaúcha, é resultado da parceria do Museu com o Nuances – Grupo pela livre expressão sexual; Liga Brasileira de Lésbicas do Rio Grande do Sul (LBL- RS); Curso de Graduação em Museologia, do Laboratório de Políticas Públicas Ações Coletivas e Saúde (LAPPACS) e com o Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIST), todos vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"Pela diversidade", por Tamar Matsafi

“Pela diversidade”, por Tamar Matsafi

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de dezembro e divide-se em dois eixos. A cartografia da cidade, sob a perspectiva LGBTT – sigla para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que identifica espaços de sociabilidade fundamentais para a construção dessa narrativa. E o destaque para a luta, a resistência, a conquista de direitos e os avanços nas questões jurídicas. A iniciativa prevê ainda duas mesas redondas e um Piquenique Cultural temático.

– *Piquenique inclusivo e lançamento do calendário Cada Mês um Mundo do Instituto Autismo & Vida/IA&V, dia 19 de novembro, das 15h às 19h, no Parque Getúlio Vargas/Capão do Corvo, em Canoas, soma-se às ações que acolhem, conscientizam e trazem esperança. A tarde promete ser animada, com muitas brincadeiras inclusivas.

O objetivo do calendário é valorizar as pessoas com autismo e suas famílias, que sofrem muito desgaste pelo seu comportamento diferente e pelas suas limitações, dando forma e cor a crianças que também sonham, têm planos, amigos, amores e dores. A partir de situações do cotidiano, convivendo e brincando com irmãos e irmãs, jogando bola, criou-se um mosaico de tipos físicos, condição social e familiar, para mostrar que o autismo está em todas as classes sociais, raças, credos e ideologias, e que há muita vida e amor em cada história.

O calendário traz 12 fotos de crianças sendo crianças, feitas pela fotógrafa Paloma Fantini, mãe de uma menina com autismo. Na contracapa, fotos de outras crianças e adolescentes, enviadas pelos pais. O valor arrecadado com a venda será revertido ao Instituto Autismo & Vida e utilizado em outras ações de conscientização sobre o autismo. O projeto foi idealizado por Diego Ambrózio e Samantha Konorath, assessorado e produzido pela TD8 Design e Comunicação e realizado pelo IA&V. (Fonte: http://www.autismoevida.org.br/).

 

O que faz a diferença quando o filho é estrangeiro

“Todo filho é, de certa maneira, estrangeiro para seus pais”. “Mas alguns são mais estrangeiros do que outros”. Essas são palavras do publicitário Gustavo Mini em uma corajosa e afetiva palestra, em setembro de 2015, sobre a sua relação com o filho, que tem Síndrome de Prader Willi. Na época, vi/ouvi várias vezes a apresentação do Mini, que está no youtube – https://www.youtube.com/watch?v=cgr3nHhpRJA. Sua fala, serena, mas contundente, ao mesmo tempo me encantava e inquietava.

Por alguma razão, voltei a ver/ouvir o Mini nesta semana, algumas vezes. Passado um tempo e somado ao que leio, vejo, ouço e me dou conta escrevendo no blog e participando de ações voltadas para acessibilidade e inclusão, sinto o encanto desmontar a inquietude. Assim como Mini buscou e encontrou na cultura pop uma maneira comovente de entender e reduzir a distância que se interpôs entre ele e o filho, a partir do diagnóstico médico, fazendo conexões surpreendentes, eu busquei na arte um jeito de me entender e viver entre as pessoas ditas “normais”, com a minha diferença. Às vezes, absurdamente estrangeira! E fico imaginando que meus pais, depois de ouvir do médico que minha irmã e eu tínhamos nanismo, o que não afetaria nosso desenvolvimento intelectual, apostaram na educação para tornar nossas vidas menos estranhas e mais leves e nos fazer independentes.

As dificuldades, físicas, mentais, intelectuais, cognitivas, qualquer que sejam, nos fazem estrangeiros, sim! Sempre há uma grande expectativa em relação ao filho que vai nascer. Filhos são pautados pela perfeição, especialmente nesses tempos contemporâneos, tão competitivos. Ao falar sobre a busca de caminhos para chegar ao filho, Mini mostra com naturalidade o quanto a diferença exige dos pais, das crianças, das famílias, sempre perseguindo algo que reduza as distâncias e aproxime.

“Me ajuda a olhar!”

"Pai me ajuda a olhar", por Tamar Matsafi

“Pai me ajuda a olhar”, por Tamar Matsafi

Diante do inexorável, é fundamental olhar, admitir, assimilar, quebrar tabus, abrir portas, construir pontes e estabelecer as conexões necessárias para as trocas possíveis e uma vida com o mínimo de preconceito e o máximo de inclusão, tranquilidade e conforto.

A não adequação, que perturba a ordem, exclui, inibe e acirra o preconceito, ao mesmo tempo rompe com o determinismo e as verdades absolutas. Ao produzir a dúvida, abre um universo de possibilidades, estimula o conhecimento, impulsiona a criatividade, aponta para a riqueza da diversidade e do inusitado e promove novos olhares. Restaura a utopia que nos faz caminhar firmes no contrafluxo, em direção à luz.

Essa é a grande batalha, não só dos pais que têm filhos diferentes, mas dos filhos que precisam entender o movimento dos pais, encarar o mundo lá fora e conviver com as limitações humanas diante de alguém que, definitivamente, não corresponde ao sonhado/planejado ou à vida como gostaríamos que fosse. São alguns dos muitos desafios de pais que precisam descobrir um meio de se comunicar com seus filhos estrangeiros, filhos esses que, por sua vez, precisam dessa conexão para viver.

Como a pequena história contada pelo escritor Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”, sobre o menino Diego, levado pelo pai para conhecer o mar. Foi uma longa caminhada. “E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!”.

A cidade e seu corpo – Por mais acessibilidade e inclusão

Em tempo de eleições municipais, abrimos aqui uma conversa sobre Porto Alegre, suas condições atuais, suas possibilidades e o futuro que ousamos sonhar. O que nos move é o desejo de viver em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, generosa e bonita.

Queremos participar desse momento com algumas ideias sobre o espaço urbano, contribuindo de alguma maneira para que os possíveis candidatos a prefeito e vereador façam a diferença necessária ao assumir essa grande responsabilidade que é administrar um município e dar voz aos cidadãos que nele habitam.

A inspiração para iniciar essa conversa vem do poema “O Mapa”, de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Mapa de Porto AlegreokOlhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.
Do seu corpo.
Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.
Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças.
Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.
Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.
De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.
De toda a forma e qualidade.
Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.
Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?
Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?
Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.
“Tanta nuança de paredes”.
Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas.
Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.
Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.
Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.
São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.
A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?
São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

“A cidade é para quem vive NELA ou para quem vive DELA?”
Essa é uma pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, pergunta que precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua importância.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?

Que essa seja uma conversa permanente, intensa e de trocas úteis para a anatomia do nosso corpo urbano!

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

Possibilidade, uma  escada, por Tamar Matsafi

Possibilidade, uma escada, por Tamar Matsafi

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados. A sociedade trata de afastar aqueles que fogem aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada.

Assim se construiu uma teoria da normalidade, sem que se saiba exatamente de que modo e sob que fundamentos. Superficialmente, tem-se um padrão já inscrito na cultura a que todos, de algum modo, se conformam. Os que se afastam ou não correspondem sofrem vários tipos de discriminação.

A mensagem socialmente instituída é clara: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel para evitar o conflito. Essa é a condição para que negros, homossexuais, mulheres, índios, pobres, assim como pessoas que apresentam alguma deficiência, sejam aceitas. É necessário que cumpram os papéis que a ordem social historicamente lhes aponta. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de conviver com a diversidade e que, para aliviar sua culpa, reserva “generosamente” alguns espaços aos diferentes.

Excluídos, po Tamar Matsafi

Excluídos, po Tamar Matsafi

O impulso primeiro de todo o excluído é ocupar esses espaços, respondendo passivamente às expectativas. Não responder é recusar o lugar da vítima, do coitado, e assumir-se como sujeito diferente, capaz e com direitos, instaurando uma desordem necessária. Minha reflexão se faz justamente sobre esse deslocamento fundamental das imagens pré-construídas.

Como se constitui esse sujeito diferente? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, revolta-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas a seu respeito? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma aos padrões estabelecidos. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam prioritariamente pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é interessante, mas também pode mascarar o problema.

A questão pode ser vista por outro prisma. Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem, nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. É preciso muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

O que desejo aqui é alertar o sujeito excluído para a necessidade de vigiar os efeitos sobre ele próprio das noções que apreende e incorpora culturalmente desde um ponto de vista padronizado. Essas noções tendem a torná-lo intimamente suscetível ao que aparece como seu “defeito”, levando-o muitas vezes a concordar que está aquém do que realmente deveria ser.

O caso do estupro coletivo de uma jovem, recentemente, no Brasil, é um exemplo contundente do que falo. Muita gente culpa a menina pela violência absurda que sofreu.

Em uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo, as limitações são muitas. Nesse contexto, as pessoas dependem muito da solidariedade, da boa vontade, do bom humor e da disponibilidade dos outros e, claro, dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social, de gênero ou comportamento pode e deve impor o seu jeito de ser, subvertendo o estigma e a vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, essa discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos perdem espaço e importância no cenário nacional e praticamente já não têm nenhuma representação efetiva no governo que aí está.

Fragmentos da possível delicadeza cotidiana – Por que incluir?

Incluir para que todos tenham, na medida do possível, uma vida autônoma, segura, livre, em condições de usufruir com dignidade tudo o que aí está para ser curtido, não importa o tipo de deficiência, a raça, a cor, a opção sexual.

Equipe do filme Mulheres no Poder. Crédito: Divulgação

Equipe do filme Mulheres no Poder. Divulgação

É o que propõe o filme Mulheres no Poder, escrito e dirigido por Gustavo Acioli, que estreia no dia 12 de maio com a inserção de recursos inclusivos de audiodescrição, legendas e de LIBRAS, por meio do aplicativo MovieReading. Em parceria com a Lavoro Produções, a Iguale Comunicação e Acessibilidade é a responsável pela produção e aplicação desses recursos, disponíveis para as produções audiovisuais, beneficiando pessoas com deficiência intelectual, visual e auditiva. Segundo Mauricio Santana, diretor da Iguale, o download do aplicativo é gratuito para IOS e Android. Depois de instalado no celular ou tablet, o usuário baixa o arquivo referente ao recurso que necessita para assistir ao filme em tempo real ao exibido na tela do cinema.

Para usar o app com o recurso da audiodescrição é necessário ter fones de ouvido conectados ao telefone celular. O MovieReading consegue sincronizar os arquivos de acessibilidade com o som do filme em exibição através do reconhecimento do áudio, portanto é preciso tomar cuidado para não obstruir a captação do microfone do celular ou tablet. Este microfone é o mesmo que transmite a voz para outra pessoa quando se está numa ligação telefônica. O app poderá ser experimentado em todas as salas de cinema onde o filme estiver em cartaz. A Iguale é a responsável pelo aplicativo MovieReading no Brasil e na América Latina.

O filme entra em cartaz em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul/RS, São Paulo/SP, Rio de Janeiro e São Gonçalo/RJ, Belo Horizonte/MG e Salvador/BA. A produção é da Lavoro Produções, coordenada por Lara Pozzobon.

Incluir para que a educação em casa, na escola, na rua, em qualquer ambiente, seja realmente múltipla, livre de preconceitos, transformadora.

Frame do teaser disponível no YouTube.

Teaser do filme está disponível no YouTube.

Assim é o trabalho realizado pela Fadem/Fundação de Atendimento de Deficiência Múltipla, instituição sem fins lucrativos, especializada no atendimento a bebês, crianças e adolescentes de baixa renda, portadores de necessidades especiais. O documentário Vamos Falar de Inclusão? O case FADEM, dirigido por Bibiana Xausa-Bosak, lançado no dia 4 de maio no Teatro Bruno Kiefer, lotado, da Casa de Cultura Mario Quintana, mostra, de um jeito leve e comovente, o cotidiano de uma equipe interdisciplinar que atende um público com vários tipos de deficiência e atrasos no desenvolvimento, e suas famílias. A produção vai contribuir para a reflexão de todos nós sobre a inclusão. Ali estão profissionais que investem no potencial das pessoas e no direito que cada um tem de viver a infância e a adolescência da melhor maneira possível, incluídas não só na escola, mas na vida.

Assista aqui ao teaser do filme que logo estará no YouTube.

Para o psicanalista Alfredo Jerusalinsky, do Centro Lydia Coriat, que participou de um painel após a exibição do documentário, “a inclusão é na família, na praça, na escola, na sociedade. Nós humanos voamos sem saber voar. Estamos sempre além do limite que nosso corpo nos impõe. Permitir que nossos semelhantes cheguem a voar para além dos limites é a ética da civilização”.

Incluir para que mais historinhas como a que conto a seguir aconteçam.

Foto: Arquivo Pessoal.

Foto: Arquivo Pessoal

Há alguns anos, em uma agência do Banrisul, a surpresa do gerente. “Não alcanças no caixa, o que vamos fazer”? Respondo com outra pergunta e uma solução: Tens um banco, uma escadinha ou uma cadeira mesmo? Pausa. Ele sai. Demora um pouco. E lá vem com uma cadeira toda desengonçada, de rodinhas. É o que o banco – instituição financeira muito rica, que cobra até o suspiro dos clientes! – oferece. Corro o risco de subir e cair, mas isso não importa. O problema foi resolvido! E seguiram me olhando como se estivessem vendo um cavalo verde.

Algum tempo depois, o guarda do mesmo Banrisul nos olha – estávamos lá eu e minha irmã Marlene – e afirma que vai conseguir uma escada pra nós. Um belo dia chegamos no banco e ele, todo orgulhoso, nos apresenta uma escadinha decente, inteira, nova. Felicidade estampada no rosto dele e nos nossos! De onde a gente menos espera, vem uma solução, inclusiva e sensível.

O gerente, em outro momento, nos disse: “Viram a escada que eu consegui para vocês?” Resposta: “Vimos e agradecemos muito ao guarda da agência. Se ele não tivesse ouvido o nosso pedido, que tanto espanto provocou em vocês, a escada não estaria aqui”. Olhos esbugalhados nos olhando. Desde então, sempre que preciso tenho a minha escada quando vou ao banco.

Dores e delícias de ser o que se é

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Lelei e MarleneA proposta é compartilhar neste espaço ideias, experiências, sonhos e inquietações, no sentido de refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma diferença marcante. Diferença que exclui e provoca o preconceito, limite triste de uma sociedade linear, que não está preparada para perceber e aceitar o outro na sua dimensão. Encarar a exclusão é tarefa difícil porque todo ser humano busca o acolhimento. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo ou alimentar fetiches, heroísmos ou clichês. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada que, às vezes, é jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável pela dificuldade do enfrentamento. Em resumo, é fundamental evitar os estereótipos. Por isso, falar da diferença, encarando a fragilidade da condição humana, contrapor-se ao preconceito e saudar a diversidade, é desafio necessário e urgente.

É o que queremos aqui neste blog que nasceu de muitas conversas instigantes. Especialmente do estímulo da arquiteta Flavia Boni Licht, que provocou meu encontro com a jornalista Núbia Silveira, mais adiante com Carmen Crochemore, diretora executiva do portal Sul21 e, recentemente, com o editor Milton Ribeiro. E, claro, do apoio de amigos que acompanham tudo com entusiasmo.

O desejo de falar sobre o impacto da diferença e do quanto o convívio é duro muitas vezes já fazia parte das muitas conversas que Marlene, minha irmã, e eu tínhamos quase cotidianamente. Encarar uma vida a ser vivida com o nanismo, portanto cheia de limites, em uma época em que não se falava em inclusão e acessibilidade, foi desafiador desde a infância. Ainda é! E para mim é muito emocionante que este blog seja lançado justamente no dia 5 de abril de 2016, quando faz um ano da morte da Marlene.

Pensar a diferença de maneira ampla, a partir da perspectiva da acessibilidade e da inclusão, ampliou nossos horizontes. Quando Flavia me pediu para escrever algo sobre as dificuldades enfrentadas pelos anões no dia a dia, nosso interesse aumentou. A proposta desacomodava conceitos clássicos, enraizados, e apontava para uma sociedade como soma de diferenças e não de homens hipoteticamente iguais – tudo o que queríamos para potencializar um debate que já estava nas nossas vidas há muito tempo.

Para além da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é cidadania, direito social, independência, capacidade de olhar o outro e de acolher, “porque o olhar nunca termina de aprender a ver”, como escreveu a psicanalista Diana Corso em algum momento e anotei em um dos tantos blocos que carrego comigo.

O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive.