Voltando a falar de inclusão

No dia 10 de agosto deste ano o jornal Zero Hora publicou artigo meu com o título “Voltando a Falar de Inclusão”. Trago agora o texto para o blog porque o tema está longe de se esgotar. Pelo olhar de quem se preocupa com o outro e com a questão social, inclusão é uma busca sem fim – contra o abandono da maioria da população brasileira, jogada na miséria. Velhos, jovens e crianças esquecidos nas ruas, drogados e desprezados, ou em abrigos sem condições. Invisíveis para uma sociedade pautada pelo lucro desenfreado, com políticos sem caráter e uma elite preconceituosa, separatista e cruel, que sustenta o desgoverno. Não importam mais a história, a memória, a cultura, o desejo, o sonho, a singularidade, a diversidade, a arte.

O Brasil deste momento é um exemplo doloroso de exclusão dos que já não têm nada e vivem na miséria quase absoluta, dos que se diferenciam, dos que não se adaptam ao autoritarismo e ousam buscar democracia e liberdade. Nosso país escancarou a violência sem medidas e se abre para o armamento e a inclusão dos que já têm demais e querem mais e mais e mais. Quase não se vê mais aquela chama de esperança a impulsionar a vida.

Há um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que já não encontra guarida diante da profunda crise ética, política, humana em que mergulhamos. Crise que fez renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho, discriminatório e torpe, e deu asas a uma extrema-direita fascista, racista, intolerante, violenta, avessa à diversidade de comportamentos, opiniões, e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contamina o país de norte a sul, mas não abriu mão do podre poder. Há quem lhe dê guarida! Sustentada por empresários, partidos e seus vassalos submissos, mesquinhos e covardes, segue mantendo seus domínios e comprando apoio. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas dos governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas, ignorando questões vitais para o desenvolvimento real, como investimentos em educação, saúde, trabalho digno e saneamento básico.

Há uma devastação moral orquestrada por políticos sem caráter, indivíduos oportunistas e por uma lamentável mídia de mão única, voraz, autoritária, incapaz de análises mais profundas e amplas, focadas na realidade e na diversidade, que faz um antijornalismo. Por sua vez, o poder econômico ignora solenemente os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Quero lembrar, mais uma vez, pequenas atitudes dos bancos, que dizem muito do perfil do mundo financeiro quando está diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

Poucos falam sobre o assunto e a mídia só tangencia, não questiona. Bancos/banqueiros disfarçam sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana, que é absurdamente evidente. Fui proibida, por exemplo, de fotografar as minhas artes e manhas em busca da independência necessária para dar conta da vida e acessar minha conta. Alcançar um caixa eletrônico, por exemplo.

É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de cada um de nós. Falo de governos e empresários que ditam leis e regras, mas são incapazes de olhar fora do seu quadrado. E nossas vozes não ecoam. Ninguém escuta.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.   

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu peça a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

São inúmeros os olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos inevitavelmente tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? Melhor que os invisíveis permaneçam invisíveis.

Que valores nos sobram depois de um sombrio primeiro turno, humanos ou monetários?

O que ficou do processo eleitoral e desse primeiro turno? O que revelam os votos em branco, os nulos e as dissidências? Estamos diante de um escancarado rastro de insatisfação social de parte significativa da população que não encontrou guarida diante da profunda crise ética e política em que o Brasil mergulhou. Crise que faz renascer o conservadorismo, com o que há de mais velho e torpe, e dá asas a uma extrema-direita intolerante, violenta, avessa à diversidade de opiniões e às liberdades conquistadas com a democracia.

A classe política perdeu a credibilidade diante da farra da corrupção que contaminou o país de norte a sul, sustentada por empresários, partidos e vassalos de toda sorte. Soma-se a esse quadro deplorável a falta de respostas de governos e seus quadros que, sem escrúpulos, mesmo depois de tantas denúncias, seguem suas práticas nefastas.

Há uma devastação orquestrada por políticos sem caráter e por uma lamentável mídia de mão única e incapaz de análises amplas e descomprometidas, que trazem nas mãos a hegemonia do poder econômico em detrimento de direitos sociais e trabalhistas de cidadãos do bem. Entramos em um tempo de total negação do outro. O valor maior agora não é o humano. É o capital.

Diante desse valor maior, e voltando ao objetivo específico dos meus textos para o blog, que é falar de acessibilidade e inclusão, segue uma constatação sobre a mesquinharia monetária. Mais uma vez, vou lembrar de uma pequena atitude dos bancos, que diz muito do perfil das instituições financeiras, quando estão diante de uma pessoa com dificuldades físicas, como eu.

A intenção primeira era falar sobre o assunto a partir de imagens feitas nos locais, mas os bancos/banqueiros têm muito medo de mostrar a sua incapacidade de lidar com a fragilidade humana. Então, fui proibida de fotografar as minhas artimanhas em busca da independência necessária para dar conta da vida. É bom esclarecer que quando falo em banco estou me referindo a quem detém o poder sobre essas instituições que muito lucram sobre o dinheiro de todos nós, governos e empresários que ditam leis e regras.

Tenho 1m10cm. Vivo de enfrentamentos e batalhas cotidianas pela autonomia possível.

"Banco necessário", por José Walter de Castro Alves
“Banco necessário”, por José Walter de Castro Alves

Toda vez que entro em um banco, dou de cara com essa limitação. E com a incapacidade da instituição de pensar fora da norma para me auxiliar e auxiliar outras pessoas com dificuldades, o que considero grave. No meu caso, bastaria uma escada ou um banquinho, mas parece algo absurdo. A cada reivindicação que faço, os rostos viram pontos de interrogação. E sou lembrada que preciso ir até à superintendência ou ao gerente com a minha singela proposta.

Há também uma necessidade de se livrar do problema. Alguns sugerem que eu solicite a ajuda de desconhecidos. Outros me pedem a senha, mesmo que recomendem que o cliente preserve as informações sobre sua conta. Ou me olham com espanto, incapazes de um gesto solidário.

É claro que sempre encontro algum funcionário capaz de uma atitude fora do protocolo, mas normalmente ele não tem poder. Relembro dois episódios já publicados aqui.

Acessibilidade para quê?

Fragmento do absurdo cotidiano                                                                                 Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é comum nas instituições bancárias. Nem no “buraco” para colocar o celular, metais, moedas e outros objetos que possam barrar o meu acesso e, “desarmada”, ser autorizada a entrar. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Atrapalhado, ele grita: “O que a senhora tem na bolsa?”. A resposta é óbvia. Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Do lado onde estou, aparece outro guarda, que faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz: “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade e inclusão. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê? (Postado em 26 de abril de 2016).

Fragmento da delicadeza cotidiana                                                                                 Há alguns anos, o guarda do Banrisul, onde tenho conta desde a década de 1980, depois de muito ouvir reivindicações minhas e da minha irmã (Marlene Teixeira, que enfrentava as mesmas dificuldades), afirmou que iria conseguir uma escada para acessarmos os caixas. Logo depois, para nosso espanto, sorrindo e feliz, ele nos apresentou uma escadinha ótima. De onde a gente menos espera, vem uma solução fora da norma, inclusiva e sensível. (Postado em 10 de maio de 2016).

"Escada, uma extensão necessária", por José Walter de Castro Alves
“Escada, uma extensão necessária”, por José Walter de Castro Alves