Como viver com leveza na falta

Nestes tempos sombrios que nos absorvem por todos os lados, do pessoal ao profissional, passando pela questão política, busco jeitos de viver com leveza em meio às dores que me assaltam a qualquer hora. Sem pedir licença. Os caminhos, muitos, desdobram-se à minha frente, mas estou com dificuldades de achar o rumo nesta encruzilhada. Às vezes, entre a agitação e as cobranças que eu mesma me faço, produzo incessantemente. Em outras, paraliso. Ou viro um ponto de interrogação. Ou sou tomada por uma emoção tão grande, radicalmente humana, que se transforma em reflexão e acabam em lágrimas – “E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d´água”. Mas estou na estrada. Sempre estive. E continuo. Aos solavancos.

Com a Marlene, minha irmã, sempre tive algumas estratégias para encarar o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis, muitos bem difíceis. Em algumas situações ríamos muito. “Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era uma pergunta clássica, sempre que uma ou outra precisava encarar uma atividade que exigia mais do que o cotidiano banal de olhares invasivos: Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. E a resposta vinha firme: “Estás toda lorde, vai!”. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos códigos e frases simbólicas, além de uma cumplicidade deliciosa que ficou amorosamente na memória.

É com esse espírito que procuro assimilar a partida do meu amigo José Walter de Castro Alves, o Zé, no dia 12 de fevereiro de 2020, para o infinito que desconhecemos, por mais que tenhamos crenças e fé. O buraco que se abriu é enorme. E preciso me entender neste redemoinho. Espirituoso, crítico, revisor de texto preciso, firme e delicado nas suas ponderações, acolhedor, com um olhar absurdamente sério para as questões de trabalho, mas com um humor implacável nas suas observações, Zé deixa um vazio, da colocação de uma simples vírgula até uma conversa densa sobre religião, política ou um papo trivial.

Desde que nos conhecemos, discutimos muito, no bom sentido, é claro. E sei que aprendi com ele um olhar mais abrangente e pausado, que foi a nossa salvação em alguns momentos de trabalho, contando sempre com as observações e imitações implacáveis da Kixi Dalzotto. Zé era fã incondicional do humor da parceira, que chamávamos de “Inezinha” quando ela, por pura diversão, se comportava como uma “socialite”. Ríamos muito. E nos divertíamos com o uso de expressões como “é um diferencial da empresa”, “iniciativa única” ou “iniciativa ímpar”, entre tantos outros jargões, típicos da publicidade e do marketing que, inevitavelmente, usávamos no material enviado para os meios de comunicação. Enfim, tarefas de assessores de imprensa que somos.

Zé era músico, tocava violão muito bem e deixou canções lindas que fez para os netos Flora e Joaquim, para os filhos do Cassiano, meu sobrinho, e da Cláudia – Arthur, Eduardo e Laura, para as filhas dos sobrinhos Gonçalo/Magrão – a Bia, e do Gustavo/Guga – a Gabi. E “Bambuzais” que ele compôs em Bagé quando andou por lá trabalhando em uma campanha política, música que me emocionou desde a primeira vez que ouvi e hoje ainda mais.

E por falar em música, o trecho de uma canção chamada “Serenata”, na voz de Celso Sim, traduziu o meu sentimento dois anos depois da morte da Marlene – “Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”. Ouvimos juntas pela primeira vez no Theatro São Pedro, em show do José Miguel Wisnik. Essa mesma canção traduz hoje o meu sentimento em relação ao Zé. No link abaixo a versão de Arthur Nestrovski para a música, na voz de Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão – https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520. Integra o repertório do CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto muito bom e bem humorado, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que já me confortou e conforta agora: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”.

A música salva. Assim como a escrita me salvou ao me colocar em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Textos que fiz e que Zé sempre revisou, entre tantos outros, na busca por direitos sociais, voz, equilíbrio, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento, que sempre dividi e discuti com ele.

Assim, percebo agora que aprendemos juntos a falar, a entender os nossos tantos limites e ampliamos a discussão sobre o nosso estar no mundo. “Existirmos, a que será que se destina?” A pergunta do compositor Caetano Veloso na canção “Cajuína” sempre esteve no nosso horizonte. E está no ar. Por isso hoje, mais uma vez, confirmo que existir é perguntar, é questionar, é não fugir dos sentimentos, não se acomodar, é buscar forças e preencher os vazios que vão se acumulando. É viver o luto. É resistir, apesar da dor, abrir portas, ampliar os relacionamentos. O nosso estar no mundo é feito assim, até o ponto final. Fundamental, então, é sensibilizar ainda mais o olhar para o outro e entender que a falta que nos fragiliza é da condição humana.

Hora do voto – dessa hora tenho medo

A propósito das eleições que já estão no ar, lembro um comentário recente da minha amiga Tânia Carvalho no facebook: “Estamos entre os indecisos e ressentidos. A fertilidade dos idiotas está em alta! Não deixem que o ressentimento ganhe as eleições”.

Pois é! Nas mais variadas esferas, há visíveis manipulações de quem detém o poder. A corrupção não encolheu suas garras. Há disfarces e conchavos de toda ordem. Os políticos de carreira seguem na luta para manter seus privilégios. A paisagem parece ser a de sempre, plena de discursos pomposos, promessas inviáveis, nenhuma análise palpável em sintonia com a dura realidade que o país oferece ao seu povo. Em alguns momentos, ouvindo os candidatos, com a pouca paciência que me resta, sinto um distanciamento muito grande. Ou me vejo como uma perfeita idiota, em busca de alguma voz que faça sentido. Quem percebe o inquietante desencanto permeando quase tudo?

Volto, então, há um texto que já publiquei aqui há dois anos, impulsionada pelo desejo de respirar ares mais leves e puros.

O jeito é não acomodar o olhar. É esticá-lo para além dos botões, janelas, esquinas, ruas, avenidas, becos, em busca de um rasgo de esperança. OK! As cidades desgovernadas e povoadas de uma miséria assustadora não oferecem nenhum alento. Muito menos o país que perdeu o rumo pelas mãos traiçoeiras de golpistas. Mas o mantra é não desanimar. Organizar o delírio. Perseguir o equilíbrio. Entre o caos e uma possível ordem, alguma coisa há de fazer sentido. Mais uma vez, a arte me socorre.

“Linhas Paralelas”, do mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, a ação política na prática, aqui, lá, acolá.

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria dos versos do poeta, que encontrei na “Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira – para crianças de qualquer idade”, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhoto (Casa da Palavra), me faz ruminar o fazer político como é, e como não queremos.

É nosso direito e dever acompanhar e participar da administração pública, conhecer cada projeto dos governos no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno em que vivemos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e boeiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças nas leis trabalhistas, na educação e na saúde, a reutilização dos espaços, a urbanização.

Cada ação deveria valorizar a vida, a inclusão, a acessibilidade, a cidadania. Mas, definitivamente, não é assim. As atitudes dos administradores seriam fundamentais se as almas não fossem tão pequenas!

A política partidária praticada no Brasil é velha e torpe. Tem caráter autoritário, redutor e revanchista. Desmantela ao invés de construir. É mais predatória do que civilizadora. Mais empresarial do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Simplesmente acomoda os eleitos e seus apadrinhados no poder para não abrir mão dos privilégios.

Em 1968, o artista plástico Hélio Oiticica, em carta para a pintora e escultora Lygia Clark, já sinalizava: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. Comentário que diz muito do momento que vivemos.

Hora do voto

“Desta hora, sim, tenho medo”, diz a canção “Anoitecer”, de José Miguel Wisnik.

O momento é delicado e o jogo egocêntrico. Estamos mergulhados na superficialidade e na mesquinharia da pequena política eleitoreira. Poucos parecem interessados em olhar de frente para as ações ou omissões que geram desigualdade, degradação, miséria, abandono, violência, medo. Poucos falam em uma nova política, livre das amarras dos conchavos e da corrupção, tenha ela o tamanho que tiver. Muito poucos!

Mesmo assim, e apesar de todas as falcatruas, ainda aposto no voto. É um meio de manifestar nosso desejo de um governo conduzido por homens íntegros. Um governo que não tenha medo da diversidade, da nossa capacidade de pensar, da nossa criatividade, da memória que nos constitui, da arte que nos representa, do aprendizado múltiplo e libertário. Um governo voltado para a inclusão, que não nos roube direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

A arte e as artimanhas que nos salvam

Já escrevi em algum momento que o jeito é esticar o olhar para além dos nossos umbigos, botões, janelas, esquinas, ruas, cidades em busca de luz, horizontes limpos, esperança. Não desanimar. Organizar o delírio. Dar um trato na ansiedade. Buscar um equilíbrio razoável entre o caos e uma possível ordem que faça sentido. E lá vem a arte mais uma vez a me socorrer.

O mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, resume, com a simplicidade da poesia, o que é o cotidiano político, aqui, lá, acolá, em “Linhas Paralelas”:

Um presidente resolve

Construir uma boa escola

Numa vila bem distante.

Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estradas pra lá.

Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa

Numa outra vila do Estado.

Ninguém se muda pra lá.

Porque lá não tem escola.

A sabedoria desses singelos versos é o retrato da política que não serve. A política do desconhecimento e do descaso.

Por isso, a importância de acompanhar e participar da administração pública no país, no estado, no município, na cidade, na vila, no bairro, no entorno das nossas residências, na rua em que vivemos. É nosso direito e dever conhecer os projetos e ações dos governos. A reforma de uma praça, a limpeza de ruas e de bueiros, a canalização de um córrego, a chegada do asfalto, a melhoria dos serviços, as mudanças na educação e na saúde, a reutilização dos espaços públicos, a acessibilidade, a urbanização.

"Ao ar livre", por Tamar Matsafi
“Ao ar livre”, por Tamar Matsafi

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, escreveu Fernando Pessoa. Mas a política praticada hoje no Brasil não tem alma. É mais predatória do que civilizadora. Mais escusa do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais pessoal do que coletiva. Simplesmente acomoda os seus eleitos no poder para não abrir mão dos privilégios. E lá em 1968, Hélio Oiticica, em carta para Lygia Clark, já percebia isso: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”. O comentário diz muito dessa geleia geral que vivemos.

O ano é de eleições e copa do mundo. Hora do voto.

“Dessa hora tenho medo”, diz uma canção de José Miguel Wisnik. O momento é delicado e o jogo cruel e egoísta. Estamos mesmo interessados em investigar as ações ou omissões que geram a degradação da vida, a desigualdade, a miséria, a violência, o medo? Ainda sonhamos em construir uma nova política, voltada para o bem comum, sem privilégios? Ou estamos mergulhados na superficialidade da pequena política eleitoreira?

Mas essa é a hora de manifestar o desejo de uma política contemporânea, feita por homens de bem. Uma política que não tenha medo do pensamento crítico, do aprendizado múltiplo, da diversidade, da memória, da arte, da liberdade, do nosso corpo e do nosso espírito, da criatividade. Uma política que não nos tire direitos legítimos para nos matar aos pouquinhos.

Vestígios de uma manhã de sábado

Saio cedo de casa. O tempo é ameno e impreciso. Muitas nuvens. Eventualmente, alguns raios de sol. O contato com a vida que pulsa nas ruas na manhã de sábado é duro.

Na Félix da Cunha, entre a Praça Maurício Cardoso e a Padre Chagas, dois rapazes e uma moça, provavelmente ainda saindo da noite, caminham desvairados. Chutam o que veem pela frente de um jeito raivoso. A rua quase vazia. Param. Olham. Seguem. Inquietos e agressivos. Apreensiva, desacerelo o passo. Ao passar em frente ao lindo conjunto de casas tombadas, eles abordam uma mulher que abre as portas de um café. Ela conversa firme. Eles seguem, gesticulando agressivos. Tomo mais distância. Deixo que sumam. E vou. Com medo!

Ao chegar na rua Padre Chagas, estranho o silêncio. Alguns limpam as calçadas marcadas pelas festas noturnas. Outros, recolhem o lixo, farto. Um jovem sentado em um pequeno muro ainda bebe. E fala. Sozinho.

Na esquina da Florêncio Ygartua com a 24 de Outubro, dois catadores de lixo dormem placidamente, bem próximos à marquise de uma loja, protegidos por suas carroças abarrotadas. Vencidos. Entregues.

Mais adiante, um rapaz passa por mim dizendo coisas desconexas, olhos muito arregalados. Ao me ver, para, um tanto espantado. Fico apreensiva, mas ele ri e diz: “Cuidado tia, crianças não andam sozinhas nesta hora”. E segue, falando e gesticulando ruidosamente.

Do outro lado da rua, mais uma criatura fala sozinha.

Faço as unhas.

Ao voltar, encontro os catadores bem acordados, sentados na entrada da loja onde se abrigavam, comendo pão. Eles me cumprimentam animadamente. Mais um dia de buscas pelo lixo começa.

A manhã ainda tem pouco movimento. Mas a miséria humana já está nas ruas, exposta cruelmente.

Impossível não pensar nas tantas malas e caixas de dinheiro desviado que circulam por esse Brasil, nos deputados tão bem pagos para salvar Temer das denúncias e na descarada miséria moral em que nos fizeram mergulhar. Enquanto isso, a miséria física, da pobreza extrema, da indigência que degrada, humilha, dói no corpo e na alma e enlouquece, aumenta assustadoramente.

Em casa, uma canção de José Miguel Wisnik, músico, compositor e ensaísta, professor de Literatura, mestre, doutor, um artista brasileiro que admiro muito, me sacode: “Se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”. Há que se aprender e lutar cotidianamente contra a miséria moral que nos agride e faz crescer a miséria de gente como a gente.