Esse mundo dos diferentes! Por mais atitudes

Por Tamar Matsafi

Por Tamar Matsafi

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

 Ao dar voz ao anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra, mais uma vez, o quanto uma pessoa com dificuldades específicas depende do olhar e da atitude do outro e o quanto incluir não se resolve apenas com leis.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com um adulto em um corpo tão pequeno? As perguntas espantam e quase não se tem respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que insiste em não nos reconhecer.

Ouse, então, pedir um banco para alcançar na pia do banheiro de um hotel! Não importa quantas estrelas, o espanto é de quem parece ouvir alguém pedindo uma cadeira com design dos irmãos Campana e a resposta, quase sempre é: Não temos! Até aparecerem com uma caixa de maçã ou um engradado de bebidas. Ou, ainda, com uma cadeira de dois braços, que ocupa todo o banheiro. A situação se repete em instituições financeiras, balcões de atendimento e por aí afora.

Insisto em escrever sobre isso e estou sempre buscando respostas para questões que envolvem leis, acessibilidade e inclusão. Ao reler, recentemente, um artigo da arquiteta Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, uma afirmação do também arquiteto João Filgueiras Lima chamou minha atenção: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um.”

A frase sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos e tudo o que é criado para colocar uma certa ordem na vida dos humanos. Leis são necessárias. Regulam, dão garantias. Apontam a preocupação da sociedade. Mas fundamental mesmo é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro e mudar a regra, se a situação pede. Empresas e instituições, públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma deficiência.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo “normal”. Um mundo tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares sensíveis, capazes de ver o invisível, acolher e ousar.

 Por Tamar Matsafi

Por Tamar Matsafi