Era uma vez uma ruazinha bucólica

A propósito da chuva da última sexta-feira, dia 3 de maio, que alagou a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, atualizo um texto que publiquei no blog no dia 21 de novembro de 2017.

Em uma rua, o retrato do abandono da cidade

Quando cheguei em Porto Alegre no início dos anos 1970, para ser mais precisa em março de 1971, a rua Xavier Ferreira era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo amigos arquitetos – onde fomos morar.

Pouco depois, o Zaffari instalou-se na Bordini, em terreno que dá fundos para a Xavier Ferreira, quase esquina com a 24 de Outubro. Os caminhões que abasteciam o supermercado (tão bem-vindo!) começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. Mas o movimento foi aumentando em todos os sentidos. O consumo cresceu, os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito, às vezes ocupando parte da calçada. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou enorme e já não cabia na rua tortuosa. Na época, fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico, como sempre, falou mais alto. Alteraram a metragem e nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, rua e calçada começaram a ganhar mais e mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes e assustadores. Até que na esquina da Xavier Ferreira com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Forçado Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto desde o início: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto nas campanhas políticas, promessas, eleições. E assim que a construção começou ficou evidente que teríamos inúmeros embates. A construtora colocava e acumulava todo o lixo da obra na calçada, apesar dos nossos veementes protestos. Fomos xingadas muitas vezes pelos engenheiros e operários.

Nossa sensação, estimulada pelo receio que tínhamos dos alagamentos na rua, era que algo não estava correto, mas definitivamente não éramos ouvidas. E a primavera do ano de 2005 não deu tréguas e veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada

Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sairmos de casa para trabalhar, Kixi Dalzotto e eu vimos muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fomos até a obra alertar os trabalhadores e pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava nos olhou com deboche. Insistimos, argumentamos, mas ele não se deu ao trabalho de nos ouvir e responder. Tomamos nosso rumo. Um pouco angustiadas.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e da quantidade de lixo acumulado na esquina, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo, como a Kixi e o José Walter de Castro Alves que moravam no térreo do edifício. Marlene, minha irmã, e eu morávamos no terceiro andar. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Caos e abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura de Porto Alegre, completamente perdida, querendo saber o que tinha acontecido. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. Kixi e Zé precisaram de uma reforma geral e saíram dali por um bom tempo. O Conduto passou por vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e há algumas abandonadas, tomadas pelo mato e pelo lixo. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto, buracos e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e muitas vezes entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim.  Acessibilidade zero. O único órgão do governo que atendia os moradores com presteza era o DMAE. E é assim ainda hoje. Até porque devem saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável na região. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente na tentativa de manter a tranquilidade e recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parcerias! E eu me pergunto desde 2005: Por que o Zaffari não adota a rua Xavier Ferreira que hoje mais parece o quintal abandonado e o estacionamento dos caminhões do supermercado? Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.

Era uma vez uma ruazinha bucólica

Em uma rua, o retrato do abandono de uma cidade.

Foto de  José Walter de Castro Alves
Crédito das fotos: José Walter de Castro Alves

Quando vim para Porto Alegre no início dos anos 1970, a rua Xavier Ferreira, no bairro Auxiliadora, era harmoniosa, calma, com casas bem cuidadas e um único prédio – art decô, segundo um amigo – onde fomos morar.

Pouco depois, chegou o Zaffari da Bordini, que dá fundos para a Xavier Ferreira. Os caminhões que abasteciam o supermercado, muito bem vindo, começaram a transitar pela ruazinha. Civilizadamente, no início. O movimento foi aumentando. Os caminhões tornaram-se maiores, mais frequentes, menos civilizados. Estacionavam de qualquer jeito. A rua de paralelepípedos, tão bucólica, foi, aos poucos, se deteriorando. O que era pequeno ficou grande demais e já não cabia na rua tortuosa. Fizemos algumas denúncias para a EPTC/Empresa Pública de Transporte e Circulação, reuniões com gerentes do Zaffari e autoridades e fomos para os meios de comunicação. Aí, ficamos sabendo que a metragem de rua não permitia transporte pesado. Usamos o argumento exaustivamente, mas o poder econômico falou mais alto. Como sempre, nada de relevante aconteceu.

O Zaffari cresceu sem o mínimo cuidado com o entorno. Além de detonadas, a rua e a calçada começaram a ganhar mais lixo. Alguns moradores foram embora. Algumas casas ficaram abandonadas. E os alagamentos tornaram-se cada vez mais frequentes. Até que na esquina com a Mata Bacelar começou a construção do sonhado Conduto Álvaro Chaves.

Segundo a Wikipédia, “O Conduto Álvaro Chaves-Goethe é uma grande obra de engenharia que teve início em 2005 e término em 2008, com a finalidade de reverter o problema crônico de alagamentos devido à má drenagem da Avenida Goethe, rua Álvaro Chaves e regiões próximas, e que se intensificam com o asfaltamento das ruas, diminuindo a infiltração da água e aumentando o seu escoamento superficial”.

Acompanhamos tudo de perto: plantas do projeto, visitas dos técnicos e autoridades, uso do projeto na campanha política. Eleições. E assim que a obra começou sentimos que teríamos inúmeros embates. A construtora acumulava lixo e mais lixo na calçada, apesar dos protestos. E a primavera daquele ano veio com temporais intensos nos finais de tarde.

Crônica da tragédia anunciada
Na manhã do dia 5 de novembro de 2005, ao sair de casa para trabalhar, vi muito lixo obstruindo as bocas de lobo da rua. Fui até a obra pedir que tirassem. O engenheiro que lá estava me olhou com deboche. Insisti, argumentei, mas ele não se deu ao trabalho de responder.

O Resultado? No final do dia caiu uma chuva torrencial. A água, sem evasão diante do concreto e do lixo, invadiu furiosamente casas e apartamentos. Alguns moradores perderam tudo. E naquele fatídico anoitecer ninguém do governo municipal apareceu. Abandono total.

Passamos a noite e o dia seguinte limpando tudo. Só no final da tarde do dia após o temporal apareceu uma engenheira da prefeitura, completamente perdida. Os responsáveis pela obra também chegaram e nos chamaram de escandalosas. Descaso absurdo. Os moradores mais atingidos trataram de reformar suas casas e resolver suas vidas. O Conduto passou por várias vistorias e reformas. Mas ninguém assumiu nada. Até hoje.

A rua continua com casas bem cuidadas. Outras foram vendidas e os terrenos estão tomados pelo mato. O leito da rua de paralelepípedos está cheio de emendas de asfalto e os bueiros e bocas de lobo estão destruídos, sujos e entupidos. A calçada? Nem pensar em passar ali de cadeira de rodas, bengala, carrinho de bebê, bicicleta, enfim. O único órgão do governo que atende os moradores com presteza é o DMAE. Até porque deve saber que os esgotos, que a gente não vê, estão misturados e, às vezes, transbordam e deixam um cheiro insuportável. Os moradores continuam guerreiros e reivindicam seus direitos cotidianamente para recuperar a ruazinha linda.

Falam tanto em parceria público-privada. Será que é isso? O Zaffari tomou conta da Xavier Ferreira. Além de quintal abandonado, é o estacionamento dos caminhões. Dane-se a população! Para o privado tudo. Para o público, nada. Acho que entendi a tal parceria.
clixo na rua

O cotidiano e o sonho que se distancia

Sempre ouvi dizer que quando um assunto vira tema de muitas conversas, discussões, artigos, encontros, enfim, é porque o seu conteúdo está em falta. Estamos, então, absurdamente carentes de respeito, direitos, liberdade. É sobre isso que falamos e escrevemos vertiginosamente. É o que lamentamos sem parar. É o que nos falta.

A diversidade humana segue espantando e a intolerância mostra suas garras afiadas nas situações mais cotidianas. Machuca. Fere. Os movimentos sociais, sempre tão estimulantes, são rechaçados e a força bruta dos governos se impõe com violência. Sem pudor.

Queremos a democracia e lutamos por igualdade e dignidade, em todas as esferas. Repudiamos todas as matrizes que alimentam o preconceito, ignoram nossa memória e roubam direitos básicos das pessoas. Nosso desejo genuíno e sensato é, ao mesmo tempo, incompatível com o Brasil de hoje.

Na estranha semana que passou, alguns acontecimentos deixaram evidente que ainda estamos longe do sonho de viver entre pessoas que respeitem outras pessoas e seu direito de ser quem são. E tristemente vemos o país se distanciando do mínimo de dignidade que uma nação precisa para acolher sua gente.

Memória da ditadura em risco

Mais uma ação nefasta do desgoverno federal é tema de reportagem do jornal Extra Classe online – http://www.extraclasse.org.br/edicoes/2017/08/nem-memoria-nem-verdade-nem-justica/. A prova de que Temer e seus aliados trabalham incessantemente por um Brasil sem rosto, uma educação sem memória e um povo subjugado porque quem não conhece sua história verdadeira é fácil de enganar/dominar.

A Comissão da Anistia, criada para ‘reparar moral e economicamente as vítimas de atos de exceção, arbítrio e violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988’, corre sérios riscos, assim como as Comissões da Verdade, que trabalharam para recuperar essa memória. ‘Os anistiados não estão tendo suas portarias assinadas. Muitos estão com idade avançada, com doenças até de sequelas das torturas que sofreram, e não têm acesso à reparação. E outros não têm o processo apreciado porque a comissão não está funcionando’. A denúncia é feita por Moreira da Silva Filho, professor da Escola de Direito da PUCRS e do Pós-Graduação em Ciências Criminais. Antes da ruptura institucional em 2016, com a deposição da presidenta Dilma Rousseff, a Comissão estava também construindo políticas de memória’.

Homofobia em Porto Alegre

Celebração vira caso de polícia motivado por preconceito, na Associação Leopoldina Juvenil, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Marcos Vinicio Beccon e o namorado Raul Weiss foram vítimas de discriminação em uma festa de formatura. As pessoas se divertiam, tudo parecia normal, até que um beijo entre os dois desestabilizou a frágil harmonia da celebração. A intolerância brotou de todos os lados. Não vou entrar nos detalhes do que aconteceu, mas a atitude é o retrato da covardia e do preconceito velado – “tudo bem ser gay, mas não aqui na minha festa”.

Comportamentos assim estão tão entranhados no inconsciente de todos nós que, às vezes, até soam como normais, mas não são! A presença de pessoas naturalmente livres, que não têm medo de assumir a sua condição, incomoda. Elas nos desafiam, especialmente se vivemos engavetados, de costas para a diversidade, consumindo sem críticas os discursos discriminatórios que já vêm prontos e tabelados. É necessário desmascarar a hipocrisia e desorganizar essa ordem social que alimenta o preconceito.

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Chico Buarque crucificado e endeusado

A pergunta é: Por que Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque, compositor, dramaturgo e escritor brasileiro, provoca tanto amor e tanto ódio? É tão difícil deixá-lo viver, amar, desamar, compor, descompor, escrever, ser politicamente correto ou incorreto? O que querem dele?

O recuo das águas mostra descaso com a natureza

O que dizer do lixo que ficou escancarado às margens do Guaíba com o recuo das águas? Definitivamente, temos discurso, mas não temos prática. Cobramos das autoridades, mas não participamos. Não cuidamos do mínimo necessário para a vida saudável que tanto queremos. Os governos são indigestos, sim. E a população – eu, tu, ele, nós, vós, eles – é hipócrita. Prega, cobra, mas nada faz. Até quando?