Intensidades. Brilho nos olhos. Faces

Semana intensa, inquietante, misto de esperança e desesperança, com picos de nem tudo está perdido e acho que tudo vai dar certo.

Brilho nos olhos                                                                                                    

Participei, no dia 23 de novembro, do TEDxYouth@PAS, evento organizado pelos alunos da Pan American School de Porto Alegre. No encontro, os convidados tinham até 18 minutos para dividir experiências com o público, crianças, jovens, pais, professores. O ilustrador Cadu, Carlos Augusto Pessoa de Brum, deixou dois recados fundamentais: “Desafie preconceitos”. “A arte salva”. A ONG Sol Maior, antes da apresentação do seu grupo musical, sublinhou o que disse Cadu: “Música e dança são agentes de transformação. A arte agrega valor à vida de jovens vulneráveis socialmente”.

Falei sobre meu cotidiano com o nanismo. E comecei fazendo algumas perguntas: Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? O que sentem quando encontram um anão? Que sentimentos afloram? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? No final, uma menina me procurou para responder minha pergunta. Disse: “Eu sinto orgulho porque os anões não se escondem”. Os olhos daquela garotada brilhando, atentos, somados a essa resposta, salvaram o meu dia. Reacenderam a esperança.

Na minha fala, citei a afirmação do jornalista Luiz Antônio Araújo, em artigo no jornal Zero Hora (28 de julho de 2014): “Ser anão não é para qualquer um”. E lembrei do anão Umberto do livro infantil A história mais triste do mundo, do psicanalista e escritor Mário Corso – “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

Contei pequenas histórias pessoais e enfatizei que é sob o eco do preconceito e da tal “raça pura”, perseguida pelos nazistas, que nós, os diferentes, os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, como escreveu Araújo, ainda vivemos.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 24.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 23.

Faces                                                                                                                                  

Um dia depois do TEDx, fui gravar uma entrevista para o programa “Faces” da TVE. Reencontrei amigos e profissionais que trabalham para além das adversidades em um espaço público que é de todos nós. Foi comovente o que vi, ouvi, falei.

Impossível, ali, naquele espaço em que trabalhei quatro anos, não ver com lucidez a indigência política, o absurdo que é propor fechar a TVE e a FM Cultura. Onde estão os olhares sensíveis, criativos, humanos? “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. Enquanto isso, vamos encarando esse admirável mundo “normal”, de políticos primários que impõem um desmonte nunca visto. Não conseguem ver na crise a possibilidade de sair do institucional, inventar, reinventar, facilitar, mudar. Apenas buscam culpados e penalizam os já penalizados. A desesperança bate!

A vida dói e pulsa                                                                                                        

Volto a dizer que necessitamos de olhares livres, não contaminados e viciados, para ir e vir com dignidade. Não queremos favores, benemerência, nem mãos na cabeça, fingir que está tudo bem, muito menos minimizar os problemas, desconhecer e negar a realidade. Queremos cidadania, direitos preservados, participação, independência e políticos capazes de ver o outro, dialogar e não fechar as portas da chamada “casa do povo”. Que casa?

Tenho convicção de que a arte salva e que a cultura nos dá identidade. Acredito na educação para a diferença, sem mordaça, e na riqueza da diversidade que constitui os indivíduos.

Para onde vamos com essa política que desconhece tudo isso?

 

Nanismo, mídia e preconceito

"I Encontro Estadual-sobre Nanismo"

“I Encontro Estadual-sobre Nanismo”

Mídia e Preconceito. Esse foi um dos temas do I Encontro Estadual sobre Nanismo, promovido pela Faders, que aconteceu em Porto Alegre no dia 3 de novembro. Participei ao lado de Amanda Sobuki, advogada com nanismo e do jornalista Manoel Soares. Saí com a certeza de que lançamos uma semente. Foi estimulante, foi produtivo, inquietou e emocionou. A seguir, um resumo da minha fala.

Somos poucos, mas o impacto que provocamos é grande, às vezes, assustador.

Desde a antiguidade, marcados pelo estigma de garantir a diversão de outros, pelo grotesco, pela fantasia e pelos tantos mitos que correm por aí, chamamos a atenção. Da chacota vulgar à admiração, da hipervalorização à rejeição, vivemos entre opostos. E neste universo contraditório e pouco acolhedor, cavamos nosso lugar social.

Portanto, é vital romper com os espaços constituídos e cômodos, montados pelos discursos já dados sobre a nossa condição. Só quando a sociedade encarar a possibilidade da imperfeição, que não quer ver, é que a diferença será assimilada e percebida de outra maneira. O confronto é necessário para desorganizar a frágil ordem social e mostrar a vulnerabilidade da perfeição.

Cabe a nós, com a nossa diferença, recusar os papéis que nos são atribuídos, como o do bufão, da vítima ou do herói. É importante também prestar atenção no ganho secundário, que vem através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, espécie de salvaguarda que pode mascarar uma condição que precisa ser enfrentada a olho nu.

A mídia, o estereótipo e o nanismo.

A mídia, formadora de opinião para o bem e para o mal, tem um papel muito importante neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com dificuldade, não alimentar mitos, nem transformar as pessoas diferentes em vítimas, super-homem ou mulher-maravilha, guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a nossa condição. É necessário mostrar, instigar, fazer pensar, evitando o sensacionalismo e o desgastado discurso da superação, que não contribuem em nada para causa nenhuma.

Os anões são quase invisíveis e pouco lembrados pela sociedade, pelos governos e pela mídia como cidadãos e trabalhadores. É claro que temos boas reportagens. No dia 1º de novembro, o programa de Fátima Bernardes na TV Globo, veiculou uma entrevista com pessoas anãs, por conta do Primeiro Congresso Brasileiro sobre o Nanismo, na medida, sem apelos ou sensacionalismo. Mas esse tratamento não é comum. Em programas de rádio e TV, os comentários muitas vezes são cruéis e carregados de preconceito.

Por uma dessas falhas de memória, que Freud deve explicar, esqueci as datas, mas vale registrar. Comunicadores do programa Manhattan Connection, veiculado pelo GNT na época, fizeram comentários absolutamente infelizes e preconceituosos sobre os anões, o que acontece frequentemente com os apresentadores do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida. Só tratam do estereótipo, sem contraponto.

É o comportamento típico de profissionais que precisam ser interessantes o tempo todo para manter a audiência, fazendo humor a qualquer custo. Pela fala desses comunicadores, que buscam a gargalhada fácil, não é delegado ao anão um comportamento humano. Sem pensar ou questionar, ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

A palavra anão é também sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco. É o caso das expressões “salário com perna de anão”, “anão moral”, “anão diplomático”, “anões do orçamento”, “anões do poder”, que ratificam o preconceito. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Cabe a nós, saltar fora. Só assim construiremos relações mais humanas e agregadoras, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Para finalizar, relembro uma afirmação do jornalista Luiz Antônio Araujo no ótimo artigo publicado no jornal Zero Hora do dia 28 de julho de 2014, sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio: “Ser anão não é para qualquer um”. Segundo Araújo, o poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, escreve ele ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Assim se discrimina.

Ainda vivemos sob esse eco. E é contra essa subjugação que lutamos.

Não é para qualquer um – Orçamento, diplomacia, moral e anões

Chegando lá, por Tamar Matsafi

Chegando lá, por Tamar Matsafi

O que uma coisa tem a ver com a outra? Explico.

“Ser anão não é para qualquer um”. Assim o jornalista Luiz Antônio Araujo termina um artigo publicado no jornal Zero Hora no dia 28 de julho de 2014. Um belo texto em que ele lembra do primeiro anão que conheceu e escreve sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio. Ao ler, pensei na condição de tantas pessoas mundo afora que suportam algum tipo de discriminação pela condição física, mental, intelectual, social, de comportamento, gênero, raça ou cor. Não é para qualquer um, mesmo.

Falando especificamente dos anões, somos muito poucos, segundo velhas estatísticas, mas o impacto que provocamos é grande e, às vezes, assustador. Para o bem e para o mal. Dos mitos que correm por aí, passando pelo grotesco, pelo universo das histórias infantis, pela chacota vulgar, pelo espanto e pela hipervalorização, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório, pouco acolhedor, que cavamos um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte para uma vida natural.

Temos dificuldades. Muitas. E repito: a sociedade não está preparada para a singularidade, mesmo com as políticas de inclusão e acessibilidade. Necessárias, é claro, mas de pouco efeito se não entendidas e aplicadas com sensibilidade. A educação para a diferença precisa vir bem antes. O preconceito está entranhado na pele, no olhar, na atitude, nas situações sociais. Está no inconsciente coletivo. É inerente aos humanos.

Em relação aos anões é tão desolador que a palavra virou sinônimo do que é considerado indigno, torpe, pouco e é usada de forma pejorativa, indigesta. É o caso de expressões como “salário com perna de anão” (referência ao salário considerado baixo), “anão moral” (usada por Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha), “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). E, ainda, “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).

Por conta disso, andando pelas ruas, já ouvi e ouço muita piada infame. E não sou apegada ao politicamente correto.  De modo geral, encaro essas situações com bom humor. Acontece que tais expressões, ao apontar o que há de pior no cenário político deteriorado do país, acabam ratificando o preconceito. São sentenças que reverberam no ir e vir cotidiano e na autoestima, por mais preparados que estejamos para encarar a afronta e a rejeição. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Mas, como tudo na vida tem o seu contrário, é impossível ignorar o ganho secundário através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, muito frequentes, espécies de salvaguardas que podem ser perigosas, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Desde que o mundo é mundo, a diferença existe. Não somos iguais. Mesmo que a regra seja impor uma perfeição estabelecida pela ambição do homem, no sentido de eliminar tudo o que aponte para a possibilidade do imperfeito, ou seja, para a sua fragilidade, é na diversidade que está a nossa grande riqueza.

O poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, que Araújo refere no artigo ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”.

Ainda vivemos sob esse eco. É assim que se discrimina. E é contra essa subjugação que lutamos.