O Fazer Cotidiano

Quero fazer aqui uma rápida reflexão sobre o trabalho a partir da perspectiva humanista. As observações consideram a minha trajetória como profissional, e como chefe que fui em alguns momentos da vida. No centro da cena, trabalhadores e a complexidade do fazer cotidiano.

Não há, em qualquer atividade, uma simples execução de algo, por mais mecânica que seja. Há a convocação de um indivíduo único. Há subjetividade. Há singularidade. O fazer, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo. É impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o indivíduo, sua história e suas escolhas. As pessoas é que fazem a diferença.

Mesmo que as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, essenciais para a sobrevivência e a organização, elas não eliminam a necessidade de cada um produzir o saber. O sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares e promove negociações entre o instituído e o inesperado. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como definitivas correm o risco de desconsiderar a vida que surge a todo instante. As determinações que chegam unicamente por imposições do meio exterior podem afetar a autoestima dos indivíduos e são nocivas à saúde.

E a saúde do trabalhador começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em que vive, em função de normas próprias, elaboradas por sua história, que ninguém pode tirar. Por isso, a necessidade de um olhar amplo e pluridisciplinar, capaz de ver o trabalho e a atitude humana de forma indissociável. Um depende do outro. Há que se considerar a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, o saber investido por cada na atividade que executa, a criatividade e o bem estar dos indivíduos no desenvolvimento de suas tarefas.

Sempre me encantou esta possibilidade, que aprendi com a linguista Marlene Teixeira, minha irmã, e suas pesquisas e estudos sobre linguagem e trabalho, a partir da Ergologia, disciplina desenvolvida pelos franceses Yves Schwartz, filósofo, e Pierre Trinquet, sociólogo. Eles analisam a atividade de trabalho com o foco no humano, questão a ser pensada profundamente diante das mudanças anunciadas com a nova Previdência Social, em pauta no Planalto Central do país, cada vez mais distante do Brasil real.

Tempo de Saudade

Dia desses me peguei cantando “Só cai quem voa”, do Nico Nicolaiewsky, canção que gosto demais. Marlene Teixeira, minha irmã, e eu ouvíamos muito, antes e depois da morte do Nico. Senti uma saudade louca dos dois e redescobri o texto abaixo, que escrevi em abril de 2014.

 “Sou poeta analfabeto, sou maluco, sou profeta, sou palhaço e sou cantor”

Conheci Nico Nicolaiewsky nos anos 1970. Éramos um bando de jovens inquietos, movidos pela arte, e viramos “tietes” de um grupo formado por Chaminé, Sílvio Marques, Gata, depois Pezão, e Nico. Piano, baixo, violão, bateria, às vezes acordeon. Chamava-se “Saracura”. Músicos, compositores, cantores, eles criavam e recriavam canções, levando para o palco talento, inventividade, alegria, o que nos encantava. Não perdíamos nenhum show. Claudio Levitan escreveu na época: “A música do Saracura são sons que vagueiam no cotidiano”. A banda foi considerada a melhor do ano de 1979!

Reservado, parecendo tímido, Nico se transformava no palco. Era o seu lugar! Aos poucos, percebemos que estávamos diante de um grande artista que, ao piano ou com o acordeon, sempre trazia uma novidade, emocionava e fazia rir com sua interpretação teatralizada das canções. “O Ébrio”, de Vicente Celestino, era uma delas, assim como o “Tango da Mãe”, do Levitan. Aí, em um dado instante, a banda se desfez. Lamentamos, vivemos a tristeza necessária e cada um seguiu seu caminho.

Não demorou muito, talvez em meados dos anos 1980, redescobrimos Nico em um pequeno show, quase um esquete, absolutamente sensacional, em um micropalco, no bar do IAB, ao lado de Claudio Levitan e Hique Gomes. Chamava-se “Tangos e Tragédias”. Criavam e reinventavam canções através de interpretações incríveis, líricas, irônicas, românticas, nostálgicas. Do cômico ao trágico, cada apresentação mostrava muito mais do que excelência musical. Naquele espaço minúsculo estavam artistas genuínos que pareciam ter saído do teatro de rua, do meio dos trovadores, da commedia dell’arte, do circo, das serestas, das bandas de interior, dos filmes de Chaplin, misturados ao novo. Como artesãos, teciam as mambembices maravilhosas do mundo da arte, especialmente da música, transitando entre o popular, o erudito, o cafona ou brega, o teatro, o cinema, a ópera, a dança, com leveza e paixão.

Engraçados e sérios, Nico e Hique sabiam como prender o público por todos os lados – pela qualidade da música que faziam, pelas performances inesperadas, pelo figurino, pela maquiagem, pela postura, ora sisuda, ora meio clown, ora meio seresteira, ora operística, um tanto românticos, outro tanto irônicos, singelos e grandiosos, com uma cumplicidade e um jeito de quem definitivamente estava ali para brincar, levando a arte que faziam com muita seriedade e prazer.

Tangos e Tragédias virou um fenômeno jamais visto no Rio Grande do Sul. Atravessou fronteiras. Em Porto Alegre, a consagrada temporada de janeiro no Theatro São Pedro era um frescor no verão escaldante da cidade. Mas eles jamais se entregaram ao sucesso fácil. Intrépidos e irreverentes, sempre garimpavam uma novidade para o espetáculo e, paralelamente, dedicavam-se a projetos artísticos individuais.

Foi assim que depois de três discos solo, em meio a apresentações Brasil afora, Nico mais uma vez nos surpreendeu com o show “Música de Camelô”. Revelou por inteiro sua alma de cantor-poeta-artista popular, capaz de criar, sem preconceitos. “Sensível, emotivo e poético, forte e rápido ao transfigurar a realidade numa gargalhada, com um riso que acariciava nossa dor e nos transportava para a vida”, na bela definição de Claudio Levitan.  (Lelei – 16 de abril de 2014)

Nico nos deixou em 7 de fevereiro de 2014, dia de uma profunda tristeza em que Marlene e eu revisitamos as suas criações e cantamos muito.

Marlene partiu em 5 de abril de 2015, dia em que fiquei dilacerada, sem chão. Mas a arte está aí para nos salvar, nos fazer tirar os pés do chão, voar, cair, levantar, voar – “Pois só cai quem voa / só quem tira os pés do chão”.

Um ano do blog – descobertas e uma pequena história

Há um ano escrevo neste blog que, intuitivamente, ganhou o nome de “Isso não é comum”. Há um ano percebo que essa escrita foi me colocando em contato com movimentos e coletivos engajados na luta por acessibilidade e inclusão. Grupos formados por pessoas absolutamente incomuns, éticas, generosas e guerreiras na sua busca por direitos sociais, voz, respeito, cidadania, reconhecimento, independência, acolhimento.

A proposta de falar sobre o impacto da diferença, e do quanto ser diferente pode machucar e afastar do convívio, era um desejo que Marlene, minha irmã, e eu estávamos concretizando quando ela nos deixou. Queríamos entender os limites que o nanismo nos impôs e os limites de tantas outras pessoas com dificuldades marcantes que geram preconceito, segregam e intimidam. Queríamos refletir sobre um assunto que nos inquietava e estava nas nossas vidas desde que nascemos. Queríamos ampliar a discussão. Não deu tempo! Passei, então, a escrever muito, uma maneira de não desistir, seguir conversando com ela, preencher um vazio insuportável, não sucumbir.

Assim encarei este blog e publiquei o primeiro texto no dia em que fez um ano da morte da Marlene – 5 de abril de 2016. E, quase sem perceber, fui abrindo portas. Passei a conviver com pessoas que, como eu, são diferentes e estigmatizadas cotidianamente. Ampliei meus relacionamentos, me fortaleci. Sensibilizei ainda mais o olhar para o outro e entendi que falar da diferença é encarar a fragilidade da condição humana. E se contrapor ao preconceito de qualquer natureza é saudar a diversidade tão necessária para uma vida libertária.

Há um ano escrevi: “O caminho é longo, mas estou na estrada. Sempre estive”. E continuo.

"Solidão suave", por Tamar Matsafi
“Solidão suave”, por Tamar Matsafi

Pequena história de como criar jeitos de viver com leveza

“Estou bem para enfrentar os olhares críticos do povo?”. Esta era a pergunta recorrente que nos fazíamos sempre que íamos sair para uma atividade que exigia de nós um pouco mais do que o cotidiano de enfrentamentos inevitáveis. Uma aula com turma nova. Uma coletiva de imprensa. Uma banca de mestrado ou doutorado. Um cliente novo. Uma palestra. A abertura de um evento. Um encontro de trabalho. Uma entrevista. Respondíamos uma para a outra: “Vai firme. Estás toda lorde”. E ríamos muito. Era uma forma de diluir a ansiedade e o medo, descontrair, tirar a importância. Tínhamos muitos códigos. Muitas frases simbólicas. Cumplicidade deliciosa de uma convivência que fica carinhosamente e amorosamente na memória.

É assim que tenho lembrado da Marlene ultimamente – espirituosa, com um humor incrível, forte e delicada, precisa e acolhedora nos conflitos, com um olhar absurdamente sensível para a condição do outro. Aprendemos juntas, no dia a dia, esse olhar que, provavelmente, foi a nossa salvação.

“Um sabiá, na palmeira, longe / Canta, canta pra ti / Ele bem sabe a dor da saudade / E canta, canta pra ti”.

Essa canção traduz o meu sentimento neste dia 5 de abril de 2017, dois anos da morte da Marlene. Ouvimos pela primeira vez no Theatro São Pedro, na voz de Celso Sim, em show do José Miguel Wisnik.

Aqui quem canta a versão de Arthur Nestrovski para “Serenata” é Lívia, sua filha, acompanhada por ele ao violão (https://www.youtube.com/watch?v=iQVTCp6x520). A música está no CD “Pós você e eu”, com os dois. No encarte, um texto bem humorado, muito bom, assinado pela irmã caçula de Lívia, Sofia, diz algo que me conforta muito: “A música ensina a transformar o tempo vazio em tempo interior”. A música salva.

Atravessando os fantasmas

O Projeto TODAS SÃO TODAS do Grupo Inclusivas, em parceria com a ONG Coletivo Feminino Plural e com o apoio do Fundo Fale sem Medo, promove nos dias 15 e 16 de julho, no City Hotel, o Curso de Capacitação sobre a Inclusão de Mulheres com Deficiência nas Políticas de Enfrentamento à Violência Doméstica e demais políticas. Em pauta, os direitos das mulheres com deficiência, que deveriam estar assegurados em todas as políticas públicas. Sem políticas públicas voltadas às suas especificidades, as mulheres com deficiência ficam sujeitas à invisibilidade na sociedade e no Estado, o que faz com que sejam excluídas do acesso aos direitos humanos e à cidadania. Informações no blog todassaotodas.blogspot.com.

Ao receber o convite pensei na importância da fala para dar visibilidade às pessoas com alguma deficiência. A palavra pode dizer mais ou dizer menos, mas diz. Produz sentidos que não se acabam e não se detêm. E se a fala não é ‘satisfatória’, a palavra ‘justa’ sempre vai insistir em se dizer. E é para encontrá-la que não podemos nos calar. O silêncio consente.
A ação das Inclusivas inspirou a minha escrita sobre a dificuldade em falar do nanismo que eu e minha irmã Marlene tínhamos, lá bem no início. Será que procurávamos a palavra justa?

Fale. Falemos, sempre!

Por que não falar, por Tamar Matsafi
Por que não falar, por Tamar Matsafi

A negação do nanismo na fala foi significativa no nosso cotidiano. Sabíamos desde a infância. E sabíamos que todos sabiam, mas não foi um assunto conversado na nossa adolescência e juventude. Simplesmente, deixamos de lado. Não falávamos sobre o que sentíamos com os colegas de escola e nem com os amigos. Na família, só o estritamente necessário. Era como se tudo fosse muito natural – e era! – mas havia sofrimento naquele silêncio.

Quando saímos do ninho e começamos a trabalhar, nos enfrentamos com o tamanho da nossa diferença. Sentíamos necessidade de nos posicionar. Havia no ar uma convocação, mas alguma coisa não deixava fluir. Falávamos de tudo, menos do nanismo, assunto urgente. Aquele silêncio cheio de medo, às vezes constrangedor, de uma defesa indefensável, queria esconder algo já explícito. Estava no nosso corpo e nos tantos limites que o pequeno corpo impunha. Mais assumíamos uma vida por nossa conta e risco, mais as dificuldades apareciam. Mais entrávamos no mercado de trabalho, mais provocávamos admiração, espanto, observações, questionamentos. Mais caíamos no mundo, mais a fala se fazia fundamental.

E foi assim, diante do inadiável, que atravessamos o fantasma. A palavra é anã e pode morder, mas a condição estava dada desde o começo. Os espelhos estavam por todos os lados e os olhos viam, mesmo que não quiséssemos. E falar certamente amenizaria o olhar porque a fala organiza, afasta os mistérios, encara as impossibilidades, entende as dificuldades, admite as qualidades, absorve as críticas, medos, angústias e ansiedades para o enfrentamento de um viver pleno, dentro do que é possível.

Ao falar, nos vimos por inteiro, com dor, mas sem piedade. Liberadas, não paramos mais de pensar, dizer, questionar. Inicialmente, muito entre nós. Depois, com os amigos, no trabalho, entre conhecidos. Até encararmos o público, com medo, mas com leveza.

Primeira entrevista
Nos anos 1980, fomos convidadas para participar do Guaíba Feminina, da TV Guaíba da família Caldas Júnior, que ousou criar uma TV com programação local. Seria a exposição total – corpo e voz. Um susto, mas aceitamos.

Além da entrevista ao vivo, no estúdio, a produção fez imagens nossas, em casa, para mostrar como fazíamos para dar conta do dia a dia. E nós preocupadas com o que iriam perguntar. Como responder? O que realmente pensávamos sobre a nossa dificuldade física? Em que sentido nos limitava e inquietava?

O raciocínio foi prático. Nosso cotidiano não era diferente da rotina de pessoas consideradas normais – “Trabalhamos, nos sustentamos, mantemos a casa, lavamos louça, fazemos comida, pegamos ônibus, vamos ao supermercado, teatro, cinema, bares, visitamos amigos, enfim, tudo isso com uma dificuldade: a de nos adaptarmos a um mundo que não foi feito para nós”.

Em casa, procurávamos adaptar o que era possível. Na rua, isso era impraticável. “Ônibus, balcões de bancos, orelhões, lancherias, porteiros eletrônicos, campainhas, botões de luz, elevadores, tudo era alto”. Dependíamos da boa vontade e da solidariedade das pessoas, o que nem sempre era fácil. Não queríamos paternalismo e sim humanidade. Não queríamos ser tratadas como criaturas especiais e sim nos integrarmos.

E seguimos falando do preconceito escamoteado no Brasil da época e ainda hoje. Não apenas com os anões, mas com todas as pessoas que têm uma diferença. No nosso caso, o preconceito, de uma forma ou de outra, se manifestava, conforme comentamos na entrevista. “As pessoas têm dificuldade de abstrair a questão da altura. É muito difícil entender uma cabeça adulta perfeitamente instalada num tamanho de criança de 4, 5, 6 anos”.

“Ou te mimam demais ou ficam tensas, sem saber exatamente que atitude tomar. Ou te tratam formalmente ou te julgam excessivamente inteligente ou te ignoram. Mas o comportamento mais comum é não levar a gente a sério. Enfrentamos muito isso, especialmente quando queríamos abrir crediário em alguma loja, por exemplo. O olhar das atendentes é uma história a parte. Sempre causava espanto o fato de termos uma profissão. São raras as pessoas que te deixam à vontade, têm naturalidade para falar contigo e respeitam as tuas dificuldades. Às vezes, até por te tratar bem demais as pessoas demonstram preconceito”.

Lembramos filmes como O Tambor e O Homem Elefante, emblemáticos na época.

“É impossível passar despercebida. Toda vez que saímos na rua, chamamos atenção e estamos sujeitas a todo tipo de reação. Pela admiração ou pela rejeição, as pessoas acabam te colocando no centro da cena. E a curiosidade, às vezes cruel, pode se traduzir em riso, ironia, piedade, carinho, agressão, deboche. Tradicionalmente o anão é visto como figura engraçada, grotesca e, em alguns casos, maldita. Ouve-se piada de todo tipo, de bom e de péssimo gosto”.

Foi assim que falamos publicamente pela primeira vez!

A entrevista teve muita repercussão, boa e ruim. Um vereador logo saiu pedindo orelhões para anões, até nos procurou para apoiá-lo, e as piadas foram infames. Carlos Nobre, que escrevia no jornal Zero Hora, não perdeu a oportunidade de fazer humor. Disse que ia dar o maior arranca-rabo na Câmara, pois se um vereador queria orelhão, outro certamente iria sugerir que anão tem é que levar um banquinho pra subir e telefonar.

E disse mais: “O anão, quando casa com uma anã, se completa”. Até a Branca de Neve, sensibilizada, enviou um telegrama agradecendo a preocupação do vereador com seus companheiros.

Fomos muito procuradas por conta disso, mas não entramos em nenhuma provocação. Aceitamos alguns convites e recusamos outros tantos.

Hoje, mais experiente e madura, não tenho dúvidas de que a fala nos salvou. Percebo que sempre tentamos levar essa discussão adiante, não isoladamente. A necessidade de vincular nossa batalha à luta das minorias, tornando públicas nossas questões no sentido de buscar coletivamente uma sociedade mais justa, só cresceu. Falar é necessário por muitas razões, especialmente para dialogar, participar e levar adiante o desejo de um mundo sem preconceitos.

A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença

Trabalho, por Tamar Matsafi

Quando falo de diversidade, inclusão, diferença, falo de um universo humano muito vasto e muito rico que vou desvendando aos poucos. E que contou com a colaboração da Marlene e dos estudos que fazia sobre discurso e linguagem e, mais recentemente, sobre a interlocução entre linguagem, psicanálise e ergologia. Por conta disso, no Dia do Trabalho retomei alguns artigos da Marlene e do filósofo francês Yves Schwartz, um pensador da subjetividade no trabalho, que refletem sobre a complexidade embutida no fazer cotidiano, o que está muito próximo do que proponho neste blog. Minha escrita de hoje é inspirada nessas leituras.

Não há na atividade de trabalho uma simples execução de algo, por mais mecânico que seja. Há a convocação de um indivíduo único, com capacidades bem mais amplas, ou não, do que as enumeradas ou exigidas pela tarefa que executa. Há singularidade. E a cada tarefa, cria-se uma nova situação que nenhuma racionalidade anterior é capaz de dar conta. Na perspectiva ergológica de Schwartz, por exemplo, o homem na atividade de trabalho coloca em marcha um saber pessoal que vem da sua história, da soma da experiência familiar, social, cultural e profissional. Há sempre um dado subjetivo indissociável a ser considerado.

Logo, é impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o trabalhador e sua subjetividade, suas escolhas, suas ideias, seus conhecimentos práticos, seus valores, seus dramas interiores. Mesmo que normas gerais regulem o agir social e sejam essenciais à sobrevivência humana, elas não dissipam a maneira com que cada um dá conta do seu saber. Sempre teremos pontos de fuga, oriundos de um conhecimento não explícito. Até porque ser determinado unicamente pelas normas, pelas imposições do meio exterior, não é viver. Ao contrário, é algo patológico, nocivo à saúde.

Há sempre um saber-fazer (norma) e um saber-agir (renormalização) que interagem e se somam na atividade de trabalho. Há que se olhar para o sujeito, então, sob o pressuposto de que aspectos subjetivos são aí inevitavelmente mobilizados. Embora as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promovendo uma negociação entre o que está instituído e o que é da ordem do inesperado. A vida é sempre tentativa de criar, de ser. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como “um fim em si”, apresentam o risco de desconsiderar “a vida que surge a todo instante”.

Segundo Yves Schwartz, “a saúde começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em se vive”. Ao perceber o trabalho a partir de uma perspectiva humana, evita-se a coisificação das pessoas porque são elas com o seu talento, a sua vivência e a sua sabedoria que fazem a diferença. O fazer só, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo.