É preciso remar contra a corrente

Na escuridão desses tempos, busco brechas luminosas para respirar. E me abastecer.

O texto de Mia Couto, enviado pela amiga Flavia Boni Licht, chegou como um presente, enchendo de luz o cotidiano. A escrita, lúcida e simples do escritor, dá voz ao que penso, apontando alguns equívocos da educação que vemos brotar hoje.

Para Mia, há muita preocupação com o fato dos jovens entrarem para a universidade com um fraco desempenho acadêmico, enquanto a preocupação maior deveria ser com o crescer sem referências morais. Há um discurso pelo empreendedorismo e pela liderança, como se toda uma geração estivesse destinada à vida política ou empresarial. Mas não há, segundo ele, interesse em preparar os filhos para serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo. E fazerem suas opções!

E segue: “Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações e que está bem patente nos vídeo clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem”.

E conclui: “É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros.”

É preciso cultivar o conhecimento, a convivência e a reflexão

Ao tomar contato com o trabalho da Nova Acrópole, organização internacional de caráter filosófico, cultural e social, sem fins lucrativos, que completa 60 anos no mundo e 30 anos em Porto Alegre, fiquei surpresa e me senti instigada. Totalmente mantida por voluntários, a instituição orienta-se pela Filosofia, Cultura e Voluntariado, e sua atuação é pontuada pela independência de interesses políticos, religiosos ou financeiros. Há um comprometimento com a educação humanista em todos os cursos que oferece, nas atividades culturais e artísticas e nas ações sociais e ambientais. É um espaço singular de ação, reflexão e convivência.

O movimento, fundado em 1957, tem forte presença em mais de 60 países, com mais de 400 sedes, sempre cultivando o conhecimento individual e coletivo e a qualidade de vida a partir de uma visão universal voltada para a transformação. Além de Porto Alegre, a Nova Acrópole está presente em Caxias do Sul, Gravataí, São Leopoldo, Santa Maria, Santa Cruz do Sul e Alegrete. Os associados voluntários participam de todas as atividades educacionais e culturais, que priorizam a ética, a filosofia à maneira clássica, a sociopolítica, filosofia da história, arte, cultura e voluntariado. As aulas, expositivas e práticas, estimulam, ao mesmo tempo, a reflexão e o uso do conhecimento no dia a dia para a construção de uma vida melhor.

É preciso que as palavras tenham mais força que as metralhadoras

“O homem morre em todos aqueles que se calam”. A frase é de Wole Soyinka, dramaturgo, poeta, ensaísta e professor nigeriano, primeiro africano Nobel de Literatura, uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre neste ano. É um guerreiro incansável, como Ogum, “sua divindade companheira”. A Escola de Poesia, que tem a obra do dramaturgo como referência em seus estudos, desenvolveu um projeto para homenagear sua passagem pela cidade – Escola de Poesia & Wole Soyinka – Para que as palavras tenham mais força que as metralhadoras. O ponto alto é o lançamento do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum, no dia 18 de novembro, às 17h, na Tenda de Pasárgada, na Praça da Alfândega.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros.

Soyinka em desenho de Emanuele de Quadros

O documentário mostra um pouco da vida e da obra de Soyinka e conta com a participação de artistas e integrantes da comunidade local que se articulam, de algum modo, com a ancestralidade africana, como o grupo musical Alabê Ôni, o grupo teatral Pretagô, e seu diretor Thiago Pirajira, o Africanamente Ponto de Cultura e Escola de Capoeira Angola, e seu Contramestre Guto, o poeta Ronald Augusto, o escritor Jeferson Tenório, o pintor Paulo Montiel, os escultores Jonas e Marcos, a Iyalorixá Sandrali de Oxum, a Iyalorixá Bete Omidewa, a artista visual Manuzita, a poeta e psicanalista Lúcia Bins Ely e a psicanalista e poeta argentina Marcela Villavella.

Wole Soyinka – A forja de Ogum foi produzido pela Escola de Poesia em coprodução com o Coletivo Catarse. Concepção, roteiro e direção da poeta Eliane Marques (Prêmio Açorianos de Literatura/2016) e do poeta e tradutor Adriano Migliavacca, estudioso da obra do nigeriano. Apoio de Gustavo Türck (documentarista e produtor audiovisual), Billy Valdez (operação de câmera) e Marcelo Cougo (operação de áudio). Documentação de Lúcia Bins Ely e Anelore Schumann. Pesquisa de imagens de Priscila Pasko.

Nesta época em que a arte está sendo tão abandonada pelos governos, é estimulante o que diz Soyinka: “O meu horizonte sobre a humanidade é ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma música, alguma ópera, e isso não tem nada a ver com a volátil condição humana, ou luta, ou algo assim. Isso me enriquece como ser humano”.

 

Antídotos para a desesperança

Intolerância e preconceito de toda forma e qualidade invadiram nosso cotidiano, já tão massacrado. Os embates inquietam. Alguns provocam boas reflexões, é certo, mas assinalam que extrapolamos infinitamente a civilidade, a ética, o respeito pelo outro. O pensamento único, sem nuances, insiste em nos guiar. Mais uma vez, o bem e o mal.
Diante de um panorama indigente, só vejo uma saída: buscar antídotos para arrefecer essa quase desesperança. Urgentemente! E seguir na luta.

Aleatoriamente, ouço uma fala de José Pepe Mujica, quando ainda era presidente do Uruguai. Um alerta para a necessidade de uma América Latina solidária, capaz de um olhar para as potencialidades de seus países e da união de forças para combater as desigualdades sociais. A civilização em que vivemos põe o dinheiro como o mais alto objetivo de vida, mas só uma política que se ocupe do ser humano pode ter crédito, disse ele. Um sonhador?

Em seguida, revisito as canções de Adriana Calcanhoto Partimpim, que gosto muito, e dou de cara com uma declaração dela em uma entrevista: “Não devemos matar o artista que cada criança é”. Uma sonhadora?

E acabo encontrando anotações que fiz de uma aula magna de Mia Couto, na UFRGS, em setembro de 2014. O escritor moçambicano dividiu histórias, memórias, vivências e leveza com mais de mil e quinhentas pessoas ávidas por ouvi-lo. Entre as preciosidades da sua fala, disse que é fundamental manter uma ponte entre o tradicional e o novo. É no passado que carregamos nossa vida futura. Para ele, não precisamos de mais tempo, mas de um tempo que seja nosso, para viver e não apenas registrar a vida. Precisamos restituir a dimensão humana aos territórios e devolver à vida as pequenas histórias. Um sonhador?

É justamente essa dimensão do humano que estamos perdendo ao não reconhecer a diversidade e a singularidade que nos constituem como sujeitos. Este início de primavera pode ser um bom momento para entendermos que o tempo hoje é de ressignificação. Navegamos em mares turbulentos e desconhecemos a força das águas. Ao mesmo tempo, esquecemos ou minimizamos nossos direitos e responsabilidade. Deixamos de sonhar?

Essa engrenagem política, com suas milícias sem escrúpulos espalhadas por aí, é dilacerante. Assustada, às vezes atordoada, mas firme nos meus propósitos e nas minhas crenças, intacta no ser que sou, sinto que é necessário nos mantermos em alerta – “cuidado, há um morcego na porta principal” – e de olhos bem abertos. “Senhoras e senhores, ele põe os olhos grandes sobre mim”. Como diz a canção de Jards Macalé, “Gotham City”.

Nesse percurso, a ancoragem vem da presença, física ou não, dos amigos e dessa grande família que formamos e ampliamos a partir de tantos sonhos coletivos, lutas, realizações, decepções, alegrias, generosidade, afeto, coragem, cuidados. Essa gota de mel que vem de cada um, com delicadeza, sem invasão, nem polaridades inúteis, restabelece minha energia interior.

Sonhadora? Sim! Como tantos, não quero abrir mão dessa capacidade de sonhar que ainda me habita.

"Ainda há luz", por Tamar Matsafi

“Ainda há luz”, por Tamar Matsafi