Entre o bem e o mal, a perfeição que paralisa e a imperfeição que dá asas

Se não está do meu lado, não me reverencia e não assina embaixo, é inimigo. Mas se está comigo, me reverencia e assina embaixo, é dos meus. Assim, organizo o poder que me cabe. Dane-se a ética!

Essa engrenagem cruel, que coloco aqui de forma tosca, para mostrar que ainda vivemos polarizados, divididos entre o bem e o mal, diz muito da humanidade. Parte de uma lógica primária, que limita o entendimento da perplexidade que nos cerca.

Esse denso coletivo humano que formamos é capaz de uma generosidade absurda e de uma maldade na mesma medida. Assim como tenta o equilíbrio entre a cruz e a espada. Nem lá nem cá, salvando a pele, simplesmente. Condenamos, redimimos, matamos e salvamos cotidianamente. Sem compromisso.

Amamos para sempre e odiamos de forma igual. Ou não amamos, nem odiamos. Preferimos o meio termo. Somos tão imprevisíveis e loucos quanto prováveis, burocráticos e normativos. Inusitados e óbvios. Criativos e banais.

Podemos nos corromper por muito pouco, assim como não abrimos mão da honestidade mesmo que nos ofereçam o ouro do mundo. Ou escolhemos a neutralidade e servimos a todos os senhores.

"Seguranca", por Tamar Matsafi
“Seguranca”, por Tamar Matsafi

Somos contraditórios, impulsivos e irresponsáveis. Somos também objetivos, certeiros, parcimoniosos e responsáveis. Pesamos e medimos nossas atitudes, agimos premeditadamente, assim como jogamos tudo pelos ares. Encantadores e desprezíveis.

Libertários e escravagistas. Guerreiros e pacíficos. Tiranos e democratas. Sonhadores e realistas. Vadios e trabalhadores. Mocinhos e bandidos.
Somos feitos de infinitos sentimentos, só não somos essa polarização simplista que divide o mundo entre o bem e o mal. Somos o que podemos ser diante do imponderável.

O que detém o nosso desejo?
O que nos forma? O que nos joga fora dos trilhos? O que nos dá régua e compasso? O que nos insere na cultura e nos torna seres sociais, que vivem coletivamente, respeitando limites? O que nos torna capazes de ver o outro? Reconhecer, acolher, dividir, entender?

O núcleo familiar é o ninho, o aconchego que nos dá limite, o ponto de partida. A convivência saudável nesse núcleo torna natural a sua extensão. Os amigos e a escola.

O cotidiano dividido com professores e colegas. As brincadeiras, as trocas, o conhecimento, o aprendizado partilhado. As noções de limite expandidas, na prática, de cara com o mundo, traduzidas no respeito pelo outro e pela diferença. O crescer no convívio com a diversidade.

"Lazer", por Tamar Matsafi
“Lazer”, por Tamar Matsafi

Depois, o trabalho, a inserção social na vida adulta responsável, para muito além do núcleo inicial. O exercício da liberdade plena, as escolhas, os desafios, as parcerias, as conquistas, os sucessos, os embates, os fracassos, as trocas. E as novas famílias que vamos constituindo, amorosamente, vida afora.

É nesse círculo que construímos o nosso estar no mundo, um ensaio contínuo porque nunca estamos prontos. É desse círculo ampliado, biológico ou não, que alimentamos nosso ser e tiramos o equilíbrio necessário para abrir as asas. É nessa trama que, por vezes, perseguimos uma perfeição doentia, que nos torna arrogantes, autoritários, sem limites, predadores. Perfeição que paralisa, porque só os seres imperfeitos, logo humanos, estão abertos para aprender e arriscar sempre novos voos.

Quero dizer, então, que dá um cansaço danado ouvir os discursos políticos tão perfeitos nesses tempos de um Brasil quase sem rosto. Só se ouvem respostas prontas, soluções mágicas, acusações, sem autocrítica, sem dúvidas, sem diálogos consistentes. Nenhum questionamento mais profundo. A disputa toma o caminho mais fácil, centrada no bem e no mal, em uma via de apenas duas mãos, onde circulam unicamente mocinhos e bandidos.

Para quem falam os candidatos se somos tão múltiplos?