Ainda é tempo de recuperar a delicadeza perdida

Olhares do cotidiano, por Tamar Matsafi

A condição humana me comove muito. O ir e vir na busca de um lugar de dignidade. O desejo de significar. A vontade de um olhar que acolha a diversidade e dê sentido à perplexidade da vida. A desenfreada luta cotidiana.

Tantas faces. Tantas máscaras. Tantas incertezas. Tantos desafios. Tantas repetições.
Remexendo em guardados, encontrei escritos que falam da minha inquietude. São pequenos relatos sobre o país dos sonhos e o país real. Pincei um de 1990 e um de 2015 para dividir com os leitores do meu blog. Incrível constatar a repetição e a dificuldade de fazer diferente.

Dezembro de 1990. Depois de ver na TV Manchete um programa sobre Chico Buarque, que tinha como cenário o Rio de Janeiro e o Brasil da época, chamado O País da Delicadeza Perdida, escrevi:

No País da Delicadeza Perdida

Ruminando, por Tamar Matsafi

“Me dei conta mais uma vez do país onde vivo. A violência, a miséria, a injustiça social, a impunidade e o abuso de poder parecem estar impregnados na nossa pele e combinar com o nosso desejo. Já não nos espantamos.
Nossos olhos estão habituados com o desespero de alguns olhares e a apatia de milhares de rostos. Nossos ouvidos não estranham o atordoamento de algumas vozes e o silêncio da maioria. Nossa boca acostumou-se a dizer o óbvio, repetir frases feitas ou calar. Nosso corpo absorve o cansaço dos corpos famintos e desesperançados que cruzam as ruas em busca de quase nada. Nossa consciência, às vezes, lateja, mas logo arruma um jeito de amortecer.
Nosso amor não resiste ao menor contratempo. Já não temos quase fôlego. Sonhamos com o amanhã, só que de braços cruzados. Satisfazemos nossos egos com discursos inflamados. Mergulhamos nas causas além de nós, debruçados nas nossas janelas floridas, enquanto disfarçamos a implacável impotência que nos assalta.
Também perdemos uma certa delicadeza. Estamos embrutecidos diante de tanta impossibilidade e nos escondemos. Só conseguimos chegar até a janela, de onde vemos tudo, passiva e dolorosamente.”

Outubro de 2015. Tempos difíceis, escrevi:

Transbordamentos de um país à deriva

Qual a saída, por Tamar Matsafi

“E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água! – diz a emblemática canção de Chico Buarque. Fizeram! E tanto que o pote transbordou. Vozes indignadas sacudiram o berço esplêndido. Era junho de 2013! Acostumados à cordialidade e à alegria do povo heróico, todos se espantaram. A pátria mãe gentil desatinou. Na raiz dos protestos, desejos simples e vitais – respeito, dignidade, participação – de homens e mulheres que queriam ser percebidos para além da moeda de troca vulgar em que transformaram a política e a vida de cada brasileiro.

Descaso, farra financiada por dinheiro público, deboche, impunidade, corrupção. O toma lá dá cá, o vale tudo e o deixa pra lá indiscriminados levaram a população às ruas. Atônitos, governos, políticos, partidos, empresários e instituições foram incapazes de uma resposta. Impávidos, seguiram jogando o sedutor e corrosivo jogo do poder com discursos protocolares de quem não se compromete com a sociedade que representa.

Entramos em 2014! Oposição medíocre, sem alternativas viáveis para os erros que apontava. Governo sem respostas para as críticas que recebia. Copa do Mundo, campanhas e eleições vergonhosas, cheias de dinheiro e promessas vazias. Uma indigesta falta de limites. Comprometimento com projetos para melhorar o país para quê? Uma “boa grana”, lícita ou ilícita, compra votos, adesão, cargos, silêncio.

Veio 2015! No poder, políticos de carreira eleitos com dinheiro ilícito e mantidos por verbas públicas. Partidos sem ideologia, reféns uns dos outros, que só entendem do venha a mim esse reino, de preferência com súditos sem voz. Governos sem autoridade, enredados em alianças oportunistas. Empresários incapazes de liderar um movimento pela ética nos negócios e pela saúde financeira do país. Indivíduos corruptos, desfilando impunes em cargos públicos. Bajuladores de plantão, que tudo veem e tudo ouvem, mas o silêncio é cômodo e tem preço. Burocracia. Violência. Corrupção desenfreada.”

Junho de 2016. E agora?

Desamparo e desencanto

Mesmo diante de tanta desesperança, não estamos inertes. Como em 2013, a vontade de mudar nos move. Se tudo está escancarado, se as máscaras estão caindo uma a uma, a hora é de recomeçar, sem medo, de rosto sereno e com firmeza, outra história, com os pés fincados na transparência e na justiça.

Mais ou menos assim

Foto: Criança na janela, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para aqueles que fogem dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar estão hipoteticamente protegidos, não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal! Tudo certo com a mulher comandando um fogão, mas daí a dirigir os destinos do país…

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença,física, intelectual ou mental. É o caso de crianças com síndrome de Down e autismo que têm matrícula negada   em   escolas   regulares.   Muitos   jovens   que   procuram   emprego   são   barrados   na   primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo, mesmo que não seja.

É o que cabe aos diferentes nesse latifúndio da dita normalidade. E isso não pode ser comum!

Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, da cidadania, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos que estão no encontro de suas múltiplas   possibilidades   e   capacidades.   E   é   nesse   não   querer   ver   que   reside   o   perigo   para   o acirramento da intolerância em todos os níveis.

Não reagir e assim responder a um discurso já dado não desafia nenhuma norma, logo não inquieta ninguém e não muda nada.

O espanto necessário surge no momento em que as margens desse latifúndio são extrapoladas.

É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua diferença. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social. Então começa a mudança.

Cabe,  portanto,   a  nós,   com  a   nossa  diferença,   seguir  subvertendo   a  ordem.   Recusar  os   lugares determinados. Não se acomodar no papel de coitados, vítimas ou heróis em busca da superação. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do   preconceito.   É   vital  fazer   com   que   a   sociedade   entenda   as   múltiplas   possibilidades   que   as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Não somos nem coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com os nossos limites, os nossos sonhos e as nossas aptidões. A frase de uma canção de Caetano Veloso,“Dom de Iludir”, define bem esse sentimento: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Porque, então, não falar abertamente do que somos, com nossos medos, preconceitos, vontade de mudar e viver livres, leves e soltos?