Olhares contaminados

O que quero mesmo dizer quando uso essa expressão?

São olhares de muitíssimos anos, seculares, que fomos herdando. Quando, em um dado momento, ainda na Antiguidade, foram se definindo os critérios de beleza. Ou quando, na Idade Média, ficou estabelecido que toda criança que nascesse com problema físico ou mental, vista como uma “aberração”, deveria ser eliminada. Naqueles tempos tão distantes dos nossos dias, já se amaldiçoavam os humanos diferentes – feios? defeituosos? estranhos? loucos? – os sem lugar entre os normais – perfeitos?

Assim se disseminou uma rede discriminatória cruel. De alguma forma, todo o indivíduo que fugia dos parâmetros consagrados de beleza, normalidade, raça, comportamento, status social, criados por seus próprios semelhantes, passou a ser marginalizado. Não correspondia ao sonhado desejo da perfeição humana, portanto não seria útil à sociedade e deveria ser ignorado.

Os olhares foram sendo doutrinados e contaminados pouco a pouco, em casa, na escola, nas ruas, nas empresas, sem que as pessoas se dessem conta e sem contraponto. E o preconceito se instituiu barbaramente.

Assim se definiu que algumas raças são inferiores e devem servir às raças consideradas superiores, que se impõem pela força, pela exploração, pelo poder econômico. Assim os índios foram expulsos das terras que habitavam para dar lugar aos colonizadores. Assim os negros foram carregados em navios e escravizados em terras distantes das suas, servindo aos senhores brancos.

Também foi assim quando milhares de cidadãos – homens, mulheres e crianças – foram levados sem piedade para os campos de concentração na Alemanha de Hitler porque não eram de uma raça pura.

Assim é ainda hoje
O abuso de poder, a ambição e a força do dinheiro criaram uma elite predadora, que se vê perfeita e dona do mundo. Ávida por ser servida a qualquer custo, precisou levar para dentro da sua casa esses imperfeitos. Eram inferiores, é certo, por vezes desprezados, mas, ironicamente, podiam fazer a comida cotidiana dos superiores e cuidar de seus bens mais preciosos, os filhos, mantendo sempre a devida distância.

São séculos e séculos de olhares que segregam, que ignoram, que humilham, que hierarquizam e que normalizam a discriminação. O preconceito já nasce colado na gente. Está na pele, latente, basta um impulso. Impulso que esses tempos polarizados, sem limites, pautados pelo senso comum banal, acentuam de todas as maneiras. Quanto mais o cidadão vulnerável socialmente se revela, se impõe, conquista espaços e direitos, mais o preconceito mostra suas garras.

Muito poucos conseguem driblar esse olhar viciado, questionar o que tanto o contamina, sacudir todas as certezas e sair em busca de um olhar livre que deixe a vida fluir naturalmente, com todas as suas diferenças.

Da série Acessibilidade para quê? Fragmentos do absurdo cotidiano

Há sempre um desejo de ser olhada e quem sabe admirada sem o “mas” que se interfere no cotidiano, desajeitado e sem modos, dando asas a um olhar interno crítico, muitas vezes cruel. Que olhar é esse que de dentro de mim me espreita? Os olhares todos do mundo são prolongamentos desse olhar primeiro, fundador, inquietante? Será que vem da relação que estabelecemos com esses olhares estranhos, invasores, a autorização para o ingresso efetivo no universo dos chamados “normais”? Há um quê indecifrável nesse “mas” que ergue barreiras, aprisiona e celebra a intolerância, acobertado pela feliz possibilidade de ignorarmos o que não queremos ver.

Grades, por Tamar Matsafi

Grades, por Tamar Matsafi

Eles vinham conversando animadamente pela calçada. Jovens, muito jovens. Quando me viram, pararam, trocaram olhares e caíram numa gargalhada farta, debochada e infindável. Fazer o quê? A vida é mesmo assim! Expressão que aprendi com um amigo muito querido. Ou, assim é a vida! – como dizia um rapaz que fazia consertos no meu apartamento.

Entro em uma agência da Caixa Econômica Federal. Não alcanço em nada, o que é muito comum nas instituições bancárias. Nem no buraco para colocar o celular e os metais todos para depois, desarmada, ser autorizada a passar pela porta giratória. Do lado de lá, o guarda me olha intrigado. Do lado de cá, abro meus pequenos braços querendo dizer “e agora, o que fazer”? Ele, atrapalhado, grita, “o que a senhora tem na bolsa?”. A resposta, óbvia: celular, agenda, caneta, carteira, chave, colírio… Abro a bolsa, ele estica o pescoço, mas acho que não vê nada. Finalmente, do lado onde estou, aparece outro guarda. Admirado, faz a mesmo pergunta. Repito, abro novamente a bolsa, ele espia e diz “Pode liberar a entrada”. Inúmeros olhares e nenhum questionamento sobre acessibilidade, inclusão, dificuldade, qualquer coisa neste sentido. Todos tropeçam na burocracia. Mudar o script para quê?

Em um prédio, no centro de Porto Alegre. Cheguei, dei bom dia e pedi: “Por favor, podes chamar o elevador porque não alcanço no botão?” Sem levantar a cabeça para me olhar, ele respondeu, automaticamente: “Fique à vontade!”. Eu: “Ahn!?” E falei um pouco mais alto, com firmeza. Ele, com uma rabiada de olho na minha direção, resmungou um “ah!”, levantou com o celular em punho, foi até o elevador, tocou no botão e já ia voltar quando expliquei: “Por favor, preciso que o senhor toque no botão de dentro também. Vou no 10º andar e o painel é muito alto”. Ele parou, olhos grudados no celular, até o elevador chegar. Tocou. E voltou para o seu brinquedinho. Nenhum rasgo de olhar um pouco humano! Muitos porteiros de prédios da contemporaneidade distraem suas longas horas de trabalho mergulhados no vasto universo descortinado pelos celulares. Isso é fato. E ponto!