Reflexos do baile neoliberal em Porto Alegre e Paris

Pelo olhar fotográfico do jornalista José Walter de Castro Alves, em Porto Alegre, e da arquiteta Flavia Boni Licht, em Paris.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Dormindo na rua – Paris, 2019”, por Flavia Boni Licht

E pelas palavras da produtora cultural Valência Lousada, em 21 de janeiro de 2019 – “Palavras ausentes no vocabulário do atual governo: cidadania, políticas públicas, educação, igualdade, cultura, ética, miscigenação, trabalhadores, liberdade, desenvolvimento, proteção ambiental. E palavras que andam pálidas de exaustão: disciplina, armas, Deus, militarização, vagabundo, corrupção, bandido, doutrinação, agronegócio, cidadão de bem, isso daí”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris – 2019”, de Flavia Boni Litcht

E da cantora Cida Moreira, também em 21 de janeiro de 2019 – “Tenho evitado falar do momento político, por todas as razões, a começar por respeito a mim mesma, sendo fiel às minhas decisões. Mas hoje não consegui deixar de pensar que estamos de muitas formas desesperados com o que estamos vendo acontecer. É um limbo tenebroso onde as poucas esperanças afundam dia a dia. É a fala de uma brasileira comum, mas consciente. Não me vitimizo, mas não tenho como dizer o que tem sido viver estes dias horrendos, piorados por este calor infernal que maltrata a todos. As ruas estão cheias de brasileiros maltratados e tristes. A visão cotidiana disso tudo apequena meu coração e a minha vida. Um teatro pobre, falido, mentiroso, que deixa nossa bandeira aviltada e com escarro de um cretino que não merece ter nas mãos um símbolo fundamental do nosso país e de nós todos”.

“Dormindo na rua – Porto Alegre”, por José Walter de Castro Alves
“Ruas de Paris 2019”, por Flavia Boni Licht

Tristicidade

Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

O olhar agudo de Leandro Selister escancara o abandono e o mal-estar de um porto que esqueceu a alegria e largou sua gente ao deus-dará. E quem anda de olhos, sensibilidade e peito aberto pelos becos e esquinas de Porto Alegre hoje não tem como não ver e sofrer com a miséria e a precariedade que proliferam assustadoramente, estampadas em cada canto. É abandono e mal-estar, como mostra o artista visual no projeto Tristicidade – cartografias do abandono e da (in)visibilidade.

O que fizemos, pergunta ele?

Em dezembro deste ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos.

Pouco antes, teremos eleições gerais no Brasil.

O que faremos com o nosso voto?

Como viver impunemente diante do desemprego, da fome, de pessoas que andam por aí e se alimentam nas latas de lixo, dormem nas calçadas, das ruas sujas e esburacadas, de uma cidade desamparada? Esses e tantos outros questionamentos inquietantes levaram Leandro Selister a registrar em fotografia a triste realidade da capital gaúcha, que se agrava assustadoramente, e não é apenas nossa, mas do Brasil e do mundo.

Tristicidade é uma denúncia, um alerta para que as pessoas despertem, pressionem os governos para juntos pensar em alternativas. Mostra o que não queremos ver e fazemos de conta que não é da nossa conta. Mas é! Somos todos responsáveis, sim. Vivemos em uma comunidade e olhar para o outro é fundamental.

"Tristicidade", de Leandro Selister
“Tristicidade”, de Leandro Selister

Para dar vazão a essa angústia, Leandro Selister criou uma palavra – definindo-a como um verbete de dicionário: “Tristicidade. 1. Qualidade ou estado de desilusão em relação aos acontecimentos do cotidiano; abandono, mal-estar”. O projeto começou em janeiro deste ano a partir de uma conta específica criada no Instagram, @tristicidade, onde as imagens estão sendo compartilhadas. A partir da exposição INSULARES, o projeto convidou as pessoas a participarem também com registros próprios de sua visão da cidade a partir desse tema.

O desdobramento do projeto levou o artista para um quarto de hotel no Centro Histórico da cidade, em um sábado do início de abril. Ali ele ficou 24 horas fotografando o que via pelas ruas. Em uma entrevista para o site de Roger Lerina, que publicou em primeira mão uma galeria com as fotos captadas nessa jornada pela miséria urbana porto-alegrense, ele desabafou : “Foi uma das experiências mais tristes da minha vida. Imagina o que eu senti ficando 24 horas acordado, percorrendo as ruas da cidade e registrando a fome, a miséria, pessoas drogadas, dormindo no chão, comendo em latas de lixo, famílias de ambulantes com crianças pequenas, homens, mulheres, crianças…  É um quadro desesperador e que precisa ser revertido, senão as pessoas vão morrer e nós vamos assistir a isso tudo. É impossível viver em um mundo assim. Chegamos ao fundo do poço mesmo.”

O movimento tem na sua essência o desejo de mostrar aos governantes que o mundo não é bem aquele que eles estão noticiando. E que não é esse o mundo que queremos!

Leandro Selister "Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros"
Leandro Selister “Tristicidade, viaduto da Borges de Medeiros”

Participe do projeto postando no Instagram como está a tua cidade utilizando a hashtag #tristicidade. #tristicidade #declaraçãouniversaldosdireitoshumanos #MUAC

A cidade que habitamos

Acabou o carnaval. As férias estão terminando. O cotidiano volta a pulsar intensamente. E 2018 chega na precária capital gaúcha.

“A cidade é para quem vive nela ou para quem vive dela?” Esta pergunta do ator e diretor Amir Haddad, do grupo teatral Tá na Rua, precisa ser ouvida e pensada na dimensão da sua pertinência.

Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, ensaiei aqui neste espaço uma conversa sobre a cidade, suas condições, possibilidades, futuro. Ingenuamente, alimentava a esperança de contribuir para que os eleitos, ao assumir a grande responsabilidade de administrar um município, dando voz aos cidadãos que nele vivem, fizessem a diferença. O que me movia nessa romântica tentativa era o desejo de participar. Pensava em uma troca permanente para melhorar o espaço urbano. Pensava em uma cidade mais inclusiva, leve, acessível, saudável, segura, generosa, limpa, bonita.

Hoje, ao andar por Porto Alegre, a esperança foge. Dói perceber o descaso de quem governa e o abandono da cidade que habitamos. Por isso, publico novamente o recado que escrevi na época inspirada no poema “O Mapa” de Mario Quintana, o escritor das nossas ruas e esquinas.

Olhe o mapa da cidade como se examinasse a anatomia de um corpo.

Do seu corpo.

Dos corpos de milhares de indivíduos que cruzam as ruas cotidianamente.

Trabalhadores. Estudantes. Aposentados. Desempregados. Jovens. Crianças. Loucos.

Lindos, elegantes, saudáveis, alegres, confiantes.

Curvados, dilacerados, abandonados, desesperados, desencantados.

De todos os tipos. De todas as raças. De todas as cores. De todas as crenças.

De toda a forma e qualidade.

Anônimos? Não! Seres humanos.

Examine esse mapa com atenção, desprendimento, carinho, generosidade.

Que anatomia é essa? Que tecido a envolve?

Que sonhos, esperanças, pesadelos e doenças estão impregnados na pele desse corpo urbano?

Procure entender como tratar esse corpo que pulsa incessante por uma vida digna.

“Há tanta esquina esquisita”, diz o poeta.

“Tanta nuança de paredes”.

Tantas buscas, desejos, dores, alegrias, desistências, conquistas, fracassos.

Há tanta miséria, tanta violência, tanta opulência, tanto desperdício na cidade de longos e muitos já cansados andares.

Há beleza, justiça, bondade, vontade de acertar.

Mas há tanta injustiça, tanta precariedade, tanto abuso de poder, tanto descaso.

São muitas as vozes sufocadas na cidade onde construímos nossas vidas.

A cidade que escolhemos? Ou a cidade que nos restou?

São muitas e vitais as questões nessa concretude urbana.

O corpo dessa cidade precisa de quê? E os corpos que por ela andam?