Precários e hipócritas

Vivemos em um país de terceiro mundo, escandalosamente injusto, sucateado por políticos, empresários e outras tantas inescrupulosas criaturas, com uma elite soberba, cruel, voraz e medíocre. Gente que tudo pode, tudo tem e tudo quer. Tentamos reagir, mas ainda nos submetemos. Por uns bons trocados fazemos valer a máxima “cada um tem seu preço”. E acabamos servindo a quem nos tira a dignidade. Criamos falsas ilusões cotidianamente. Aplaudimos e damos voz aos algozes.

Louvamos a supremacia das máquinas, da automação, da tecnologia que vai substituir o fazer humano, em um país miserável, de homens e mulheres desempregados ou em subempregos, crianças abandonadas e prostituídas, trabalho escravo. Admiramos os grandes centros urbanos nevrálgicos, que fazem girar o capital financeiro e insuflam as negociações milionárias. Ao mesmo tempo, lamentamos a periferia que sustenta a ostentação, é explorada e mergulha cada vez mais na pobreza.

Saudamos os bem-sucedidos, os espertos, os que estão no topo da pirâmide social e nos estendem a mão, benevolentes. E desprezamos a maioria que vive a dura vida real, mas é vista pelos olhos dos afortunados como gente que não deu certo, é preguiçosa, não gosta de trabalhar.

Enganamos o outro sempre que possível. Cometemos inúmeras infrações e pequenos delitos dia a dia, mas discursamos convictos pelo politicamente correto.
Sofremos de uma precariedade moral assustadora, mas não nos cansamos de falar no bem comum. E achamos que a razão sempre nos pertence.

Somos imperfeitos, mas temos a arrogância da perfeição.

Somos hipócritas.