Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.

 

Vamos falar sobre preconceito? – Pela diversidade, pela tolerância, pelas diferenças todas que nos desafiam, nos fazem melhores, nos tornam livres e múltiplos.

No dia 13 de junho, no Santander Cultural, participei de um encontro com estudantes de segundo grau que integram o programa Cidadania e Talento.com do CIEE-RS, módulo Comunicação. Falei e respondi muitas perguntas da garotada durante uma hora e meia. Mais uma vez, saí estimulada. Jovens atentos e curiosos acompanharam e participaram da conversa. A proposta que fiz foi falar de preconceito a partir da minha condição, ampliando para outros segmentos.

A seguir um pouco do que dividi com esse público especial

Conversa_Foto CIEE-RS

Se o nosso desejo é provocar a mudança, precisamos pensar coletivamente sobre o preconceito que nos ronda. Está em nós. Que sentimento hostil e grosseiro é esse que intimida, maltrata, humilha, vira piada, agressão, bullying? O que nos leva a rejeitar uma pessoa? É fundamental questionar os motivos que nos fazem discriminar e afastar alguém de um convívio que deveria ser natural. Quem tem uma deficiência física, mental, emocional, intelectual, por dificuldades auditivas ou de visão, é ignorada e, muitas vezes, jogada na solidão.

Lamentamos as barreiras físicas que encontramos no cotidiano, mas a pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Uma sociedade hierarquizada, dividida em categorias absurdas, alimentada por uma elite cruel. Em nome de quê?

Esse comportamento está tão entranhado no inconsciente de todos nós que, às vezes, até parece normal. É o que sofrem as pessoas chamadas de deficientes, mas também os negros, os índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos” e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe.

Como os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito.

Meus pais tiveram duas filhas com nanismo. Contavam que o comentário que ouviam de muita gente era: “Não vão se criar”. Morando no interior, numa época de informação mínima, procuraram um médico. “Suas filhas têm nanismo”, foi o diagnóstico, seguido de uma observação, “o que não interfere no desenvolvimento intelectual”. Fomos para vida. Escola, faculdade, trabalho. Para espanto de muitos, nos criamos. Dificuldades? Fora do núcleo familiar, muitas! Especialmente na rua. Olhares curiosos, risos, dedos apontando, piadas, invasão da privacidade, perguntas indiscretas, brincadeiras indelicadas, toques desrespeitosos.

Comentários do tipo “isso é tamanho de gente”, “levanta do chão”, “não sabia que alguém como você se divertia”. Até já me deram parabéns por eu estar em um show com amigos. Como se para pessoas como eu isso não fosse permitido!

Avançamos muito pouco nas questões de acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. É desolador perceber que, em pleno século XXI, sejamos ainda incapazes de ver e aceitar o outro naturalmente, sem pré-julgamentos.

Necessitamos de olhares livres, não contaminados, para ir e vir com dignidade

Insisto sempre em dizer que o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos. Olhares que reconheçam e acolham a diferença. As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, mudar, quebrar rotinas.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social. Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir. Acredito que educar para a diferença que constitui os indivíduos ainda é o melhor caminho, em casa e na escola.

Procurem olhar para quem é diferente. Não fujam desse enfrentamento. Falem sobre a diferença. Ouçam o que essa pessoa tem a dizer. Este é o recado que quero deixar para jovens como vocês, que logo vão estar no mercado de trabalho, constituir família, ter filhos. Ninguém é coitado, vítima, herói. Nem mais, nem menos. Temos comportamentos diversos, limites, sonhos, aptidões, convicções, direitos. É nosso dever lutar pela cidadania, livres das amarras do preconceito.

Com estudantes do Programa_Foto CIEE-RS

Acessibilidade e inclusão para quê? Entre desabafos e constatações

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

Pra onde ir, por Tamar Matsafi.

Alguém que me lê em algum momento já parou para pensar efetivamente nos banheiros de ônibus e de aviões? Acessibilidade zero para qualquer pessoa que tenha uma necessidade física especial. Eu, com 1m10cm de altura, quase não consigo me movimentar nesses minúsculos banheiros.

Mas não é só o nanismo. E as pessoas altas e acima do peso, como se acomodam nesses cubículos? E as que têm dificuldades de movimento ou de se segurar? E quem está em cadeira de rodas?  E as crianças?

A questão não é simples.

Mais acentos, mais passagens vendidas, mais lucro? É essa a lógica? Dane-se o conforto e a acessibilidade. Afinal todos precisam viajar e, se não há melhores opções, que assim seja. É uma hipótese. A sociedade do “quero sempre mais” é desumana. E poucos pensam em minimizar as dificuldades, que dirá resolver!

O dinheiro dos impostos pagos regularmente pelo cidadão para garantir algum serviço de qualidade vaza pela corrupção miúda e farta que percorre as veias abertas das administrações sem escrúpulos de muitos governos. E sangra muitas vidas, especialmente a vida de milhares de brasileiros que trabalham eticamente e dizem não ao ilícito, ao abuso de poder, ao dinheiro fácil.

Na sociedade do lucro acima de tudo, o outro só é considerado se contribuir para aumentá-lo e para o acúmulo de quem já tem em demasia. É o que temos. Gastos para atender uma demanda específica de quem tem uma dificuldade são vistos como desnecessários. Não dão “ibope” a ninguém. Conquistas? Só com muita luta. Algumas reivindicações voltadas para a acessibilidade esbarram no quesito verba. “Não está previsto”. “Não foi orçado”.  Estanca na burocracia. “Não podemos fazer sem autorização”. Morre no desinteresse generalizado. “O que eu ganho brigando pela sua causa?”

Enquanto isso, a sonegação de impostos corre solta, governos aprovam obras desnecessárias, fecham os olhos para o superfaturamento e o caixa dois, não fiscalizam, trocam benesses por votos, perdoam dívidas de grandes empresários em troca de apoio e fazem o mínimo pelas pessoas, o que custa muito pouco na maioria das vezes.

Enquanto isso, muitos políticos eleitos para cuidar dos interesses da população, que deveriam ser olhados e tratados como trabalhadores do país, acumulam regalias. Além dos salários polpudos, têm uma série de auxílios. Trabalham em causa própria. Criam projetos desnecessários. Transformam mandatos em empregos. Só pensam na próxima eleição para garantir mais quatro anos. Facilitam o trânsito dos corruptos. Enriquecem ilicitamente. E, como se não bastasse, ainda são tratados como seres especiais, fazendo uso do tal “foro privilegiado”.

Assim é o Brasil dos deitados em berço esplêndido que aí está, escancarado, para quem quiser ver.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Quando se fala de acessibilidade e do que pode ser feito efetivamente, de ordem prática, para incluir as pessoas, se cai no vazio.

Vou dar um exemplo simples, que diz muito dessa realidade.

Sempre que entro em um banco, público ou privado, e procuro um mínimo de acesso, não encontro. A única exceção é a agência do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde tenho conta, e que já comentei aqui. As pessoas que atendem são gentis, mas burocráticas. Não sabem o que fazer comigo, muito menos propor uma alternativa que me dê autonomia. A pergunta “Vocês têm um banquinho ou uma cadeira onde eu possa subir?” desnorteia. E a resposta, invariavelmente, é “só temos com rodinhas”. Não dá!

Às vezes, a situação é tão vulnerável, e tão humilhante, que a vontade é virar as costas e não voltar. De modo geral, as pessoas com alguma dificuldade física quando pedem ajuda são tratadas de forma infantil, como se fossem ignorantes, senis, tontas, seres de outra galáxia.

A solução? Neste caso específico, revelar as senhas para conseguir pagar uma conta, tirar um extrato, pegar algum dinheiro.

Volto à velha tecla, já batida: de que adiantam discursos e leis se ninguém é preparado para acolher a diferença? Se poucos conseguem ver que é possível andar na direção contrária da padronização e da burocracia? A melhor maneira de combater o espanto, que vem com o preconceito, é a informação, o conhecimento, a vivência. Mas ainda estamos longe disso, lamentavelmente.

Quando falo de padronização, burocracia, preconceito, falo desses pequenos descasos cotidianos, lamentavelmente já incorporados no dia-a-dia de muitos. Falo da intolerância absurda que provoca tanta violência, medo e morte. Falo do silêncio.

O episódio do senhor que tentava pegar uma calça e uma blusa em uma caixa de doações da campanha do agasalho, em um supermercado de Porto Alegre, é um exemplo triste desse tipo de descaso. A noite era gelada, mas ele foi impedido porque só a Defesa Civil poderia retirar as peças.  Assim funciona a burocracia.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

E o massacre violento em Orlando, nos EUA, na madrugada do dia 12 de junho, em uma boate gay? Tragédia motivada pela homofobia. “Não aceito, então mato”. Assim se manifesta o preconceito radical.

Foi um atentado contra todos os que lutam pela diversidade, pelo diálogo, pelos direitos humanos. Os que se calam e se recusam a ouvir a voz da comunidade LGBT, entre outras tantas vozes dissonantes, preocupados apenas em responsabilizar alguém rapidamente para encerrar o assunto, não querem o debate. Preferem o silêncio. E silenciar é consentir, deixando brechas para que outras formas de violência se manifestem.

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

Possibilidade, uma  escada, por Tamar Matsafi

Possibilidade, uma escada, por Tamar Matsafi

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados. A sociedade trata de afastar aqueles que fogem aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada.

Assim se construiu uma teoria da normalidade, sem que se saiba exatamente de que modo e sob que fundamentos. Superficialmente, tem-se um padrão já inscrito na cultura a que todos, de algum modo, se conformam. Os que se afastam ou não correspondem sofrem vários tipos de discriminação.

A mensagem socialmente instituída é clara: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel para evitar o conflito. Essa é a condição para que negros, homossexuais, mulheres, índios, pobres, assim como pessoas que apresentam alguma deficiência, sejam aceitas. É necessário que cumpram os papéis que a ordem social historicamente lhes aponta. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de conviver com a diversidade e que, para aliviar sua culpa, reserva “generosamente” alguns espaços aos diferentes.

Excluídos, po Tamar Matsafi

Excluídos, po Tamar Matsafi

O impulso primeiro de todo o excluído é ocupar esses espaços, respondendo passivamente às expectativas. Não responder é recusar o lugar da vítima, do coitado, e assumir-se como sujeito diferente, capaz e com direitos, instaurando uma desordem necessária. Minha reflexão se faz justamente sobre esse deslocamento fundamental das imagens pré-construídas.

Como se constitui esse sujeito diferente? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, revolta-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas a seu respeito? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma aos padrões estabelecidos. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam prioritariamente pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é interessante, mas também pode mascarar o problema.

A questão pode ser vista por outro prisma. Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem, nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. É preciso muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

O que desejo aqui é alertar o sujeito excluído para a necessidade de vigiar os efeitos sobre ele próprio das noções que apreende e incorpora culturalmente desde um ponto de vista padronizado. Essas noções tendem a torná-lo intimamente suscetível ao que aparece como seu “defeito”, levando-o muitas vezes a concordar que está aquém do que realmente deveria ser.

O caso do estupro coletivo de uma jovem, recentemente, no Brasil, é um exemplo contundente do que falo. Muita gente culpa a menina pela violência absurda que sofreu.

Em uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo, as limitações são muitas. Nesse contexto, as pessoas dependem muito da solidariedade, da boa vontade, do bom humor e da disponibilidade dos outros e, claro, dos mecanismos que cria para a sua sobrevivência, defesa, bem-estar.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social, de gênero ou comportamento pode e deve impor o seu jeito de ser, subvertendo o estigma e a vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de repensá-la e não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, essa discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos perdem espaço e importância no cenário nacional e praticamente já não têm nenhuma representação efetiva no governo que aí está.

Mais ou menos assim

Foto: Criança na janela, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

A solidão do excluído, por Tamar Matsafi

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para aqueles que fogem dos padrões sobre os quais está estruturada. Nesse lugar estão hipoteticamente protegidos, não desafiam a ordem e não desacomodam conceitos e pré-conceitos.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como cabeleireiro, costureiro, fazendo o gênero pitoresco, de humor fino/ferino também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, alvo de chacota, divertindo as pessoas, parece tão normal! Tudo certo com a mulher comandando um fogão, mas daí a dirigir os destinos do país…

Da mesma forma, ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma outra diferença,física, intelectual ou mental. É o caso de crianças com síndrome de Down e autismo que têm matrícula negada   em   escolas   regulares.   Muitos   jovens   que   procuram   emprego   são   barrados   na   primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo, mesmo que não seja.

É o que cabe aos diferentes nesse latifúndio da dita normalidade. E isso não pode ser comum!

Ao ignorar, excluir ou rotular as diferenças toma-se o caminho mais fácil e mais curto para a anulação do humano, da cidadania, do caráter criativo e inusitado dos indivíduos que estão no encontro de suas múltiplas   possibilidades   e   capacidades.   E   é   nesse   não   querer   ver   que   reside   o   perigo   para   o acirramento da intolerância em todos os níveis.

Não reagir e assim responder a um discurso já dado não desafia nenhuma norma, logo não inquieta ninguém e não muda nada.

O espanto necessário surge no momento em que as margens desse latifúndio são extrapoladas.

É quando a diferença fala mais alto e a sociedade obriga-se a lidar com o que não sabe, não quer saber e não quer ver. Já não está mais diante do estereótipo, mas da pessoa real, de carne e osso, com sentimentos, contradições e a sua diferença. A desordem aparece, desarticulando a frágil perfeição da ordem social. Então começa a mudança.

Cabe,  portanto,   a  nós,   com  a   nossa  diferença,   seguir  subvertendo   a  ordem.   Recusar  os   lugares determinados. Não se acomodar no papel de coitados, vítimas ou heróis em busca da superação. Só assim construiremos relações mais humanas, agregadoras, libertárias, fundamentais para a eliminação do   preconceito.   É   vital  fazer   com   que   a   sociedade   entenda   as   múltiplas   possibilidades   que   as diferenças trazem, fora dos discursos instituídos, ultrapassados e redutores.

Não somos nem coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com os nossos limites, os nossos sonhos e as nossas aptidões. A frase de uma canção de Caetano Veloso,“Dom de Iludir”, define bem esse sentimento: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Porque, então, não falar abertamente do que somos, com nossos medos, preconceitos, vontade de mudar e viver livres, leves e soltos?