Pra onde ir?

Há um sentimento devastador no ar. Um desânimo. Um cansaço. Um desencanto. Uma embriaguez que entorpece os sentidos, o corpo e a alma. Um vazio. Um medo. Uma tristeza. Um esperar pelo que já não é. E não vai voltar.

Há um reacender do preconceito, que sinto a cada andar pelas ruas. Olhares invasivos. Curiosidade desmedida. Risos disfarçados. Deboche. Piadas entre dentes. E o que mais inquieta e entristece é que essa discriminação vem de jovens normalmente bem vestidos, descolados, que andam em grupos.  Então, canto baixinho, quase como um lamento, a música de Caetano Veloso, “Dom de Iludir” – “Não me olhe / Como se a polícia andasse atrás de mim”. E sigo, mesmo que não tão forte e cheia de coragem como gostaria de seguir.

A pergunta é: O que está acontecendo, justamente agora, quando acessibilidade e inclusão são temas muito discutidos, que estão na pauta das escolas, das instituições, das famílias, da mídia? Justamente agora, quando conseguimos encarar o preconceito sem meias palavras?

É possível entender, apesar da indignação que esta tentativa de entendimento provoca. Quando nos damos conta de que há hoje no Brasil uma autorização explícita que não está voltada para a empatia, a resposta está dada. Para onde nos leva? Certamente não é para o diálogo e para uma convivência harmoniosa. Muito pelo contrário. O caminho é a barbárie, o armamento, o ódio. Acirra o que há de mais desumano nos humanos, o irracional. Precisamos mesmo nos defender uns dos outros? Andar como se nossas vidas fossem feitas de inimigos?

Estamos sem freio. Perdemos o rumo na tão festejada era da tecnologia, que faz automóveis voarem, possibilita investigações extraordinárias, conecta e vigia todo mundo, mas não consegue deter o mal estar do nosso dia a dia. Perdemos o sentido do humano, o olhar acolhedor, a solidariedade. No que estamos nos transformando? O que queremos? Por que queremos? Para onde vamos? Qual o sentido do nosso andar?

É um andar que tropeça em uma população miserável e triste, que anda pelas ruas, cresce assustadoramente, e fingimos não ver. Ou nos defendemos desta visão porque não suportamos. Olhares e corpos cansados, perdidos, famintos, enlouquecidos, jogados nas calçadas ou puxando carroças pesadas, em uma cidade bonita, ancorada por um rio imenso, com um pôr do sol maravilhoso. Cidade que parece ter perdido a noção do que chamamos de humanidade.

Sabemos que nem todos os que estão atirados pelos becos querem dali sair. Mas sabemos também que há muitos que precisam apenas de uma palavra, de um gesto, de uma nova oportunidade ou de alguém que os estimule a retomar o que largaram pelo caminho. A cidade que vejo hoje abandonou seus encantos, sua sensibilidade, suas ruas esquisitas cantadas pelo poeta e estampa uma pobreza nunca antes vista pelos meus olhos. Pisou nos versos, esqueceu as rimas e já não sabe da sua gente.

Não somos mais uma nação?

A notícia de que moradores do bairro Cabo Branco, de João Pessoa, querem proibir pessoas com deficiência de frequentar a praia para não tirar “a beleza de um bairro nobre da cidade” – é estarrecedora. Que elite prega tal segregação? A da raça pura do nazismo na Alemanha? A do fascismo de Mussolini na Itália? A dos escravocratas do Brasil colonial, que traziam negros da África para servi-los? A dos saudosos da ditadura que matou e torturou? A do poder econômico, achando que tudo pode porque detém o dinheiro que circula no país? Dinheiro que é fruto do trabalho da maioria da população, muitas vezes explorada. Dinheiro que é sonegado. Dinheiro que é desviado.

O que seria desta casta superior não fosse o suor de quem está na base da pirâmide?

Pelo que sei, as areias e o mar são públicos. “Não fazem diferença de classe social, cor, etnia, origem, gênero. Inclusive os animais são bem-vindos”, como afirmou a vereadora Helena Holanda (PP), uma das autoras do projeto “Praia Acessível”. Projeto que provocou a ira dos endinheirados, chiques, bem vestidos e mal educados frequentadores do local. A ação inclusiva leva para a praia aos sábados pessoas com deficiência para participar de atividades musicais e esportivas na orla. Os moradores incomodados, segundo a vereadora, pediram a retirada do projeto porque “não estaria trazendo um ‘quadro belo’ para a vizinhança”. Helena reagiu e afirmou que vai ampliar o programa, “com o aval da prefeitura de João Pessoa, e levar ao Ministério Público a denúncia de discriminação de moradores”.

O que seria um ‘quadro belo’ para tais pessoas?

É fato. O ambiente social e político da contemporaneidade naturalizou a barbárie. A classe dominante gargalha e consome, enquanto a Amazônia arde. A classe política se acovarda no parlamento, enquanto o Brasil é humilhado. E o governo segue desgovernando. A educação foi abandonada. A ciência e o conhecimento viraram crimes. A previdência social começou a ser destruída. E a produção artística, feita por vagabundos que não querem trabalhar, perdeu patrocínios e apoios.

O preconceito e todo tipo de discriminação recrudesceram no Brasil, e no mundo, neste ano de 2019. Minha experiência, minhas andanças pelas ruas, meus ouvidos atentos, minhas leituras e minha sensibilidade confirmam. Vivemos tempos nada gentis por aqui. Nada acolhedores. Nada empáticos. Tempos de soberba. Tempos de prepotência. Tempos de descaso com o outro. Estamos todos fora dos armários, desvairados, sem limites, nos engalfinhando de um jeito assustador.

É o que nos sobra quando a violência é autorizada e apoiada por quem detém o poder. E insuflada por seus asseclas.

Não somos mais uma nação. Na pátria amada Brasil de hoje mais vale a sordidez, o deboche, as conversinhas hipócritas e banais nas redes, as notícias falsas, a provocação, a polarização. Enquanto o fogo queima o pulmão do mundo e a fumaça se espalha, sufoca, escurece, o país se desumaniza e é manchete que nos envergonha no mundo inteiro. E seguimos nos debatendo. Até quando? Quem se importa?

Recomendo a leitura do texto de Tarso Genro no Sul21 –

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2019/08/bolsonaro-sai-da-animalidade-e-entra-na-historia/

E a última coluna assinada por Fernanda Young em O Globo –

https://oglobo.globo.com/cultura/em-sua-ultima-coluna-fernanda-young-sentencia-cafonice-detesta-arte-23903168?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar&fbclid=IwAR0zaV1C4cDQuMZDrL_TFYbYFURu53QfAOQ8Zrb5SavKoeWmiJPIsevRQ

Leituras – entre a vida que se impõe e a vida possível

A vida que se impõe

Djamila Ribeiro abre o livro Quem tem medo do feminismo negro? (Cia das Letras, 2018) com um instigante ensaio sobre a sua vida. Ao se referir à infância e à adolescência, deixa evidente o silenciamento que sempre sofreu pela cor e pela condição social. Silêncio que só rompeu quando, aos 18 anos, foi trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra, organização não governamental que possibilitou que ela estudasse temas relacionados a gênero e raça e tomasse contato com escritoras que a fizeram ter orgulho das suas raízes, como as ativistas sociais norte-americanas bell hooks (Gloria Jean Watkins), Alice Walker e Toni Morrison e a escritora brasileira Conceição Evaristo. A relação com a militância teve início bem mais cedo, quando ainda era criança, por influência do pai, estivador, militante e comunista. Um homem culto, mesmo com pouco estudo formal.

A caminhada de Djamila foi contra o que seria natural na sua condição. Em 2012 graduou-se em Filosofia e em 2015 tornou-se mestre em Filosofia Política, com ênfase em Teoria Feminista pela Universidade Federal de São Paulo/Unifesp. Sua tese compara Simone de Beauvoir e Judith Butler ao feminismo negro. Filósofa, feminista, acadêmica e pesquisadora, Djamila hoje é conhecida no Brasil inteiro. Especialmente por seu ativismo e forte presença no ambiente digital, onde escreve sobre relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Para ela, é fundamental apropriar-se da internet como ferramenta na militância das mulheres negras porque a “mídia hegemônica costuma invisibilizá-las”.

Ludmila foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo na gestão de Fernando Haddad. É presença marcante e requisitada em eventos internacionais que tratam das questões que defende. E se posiciona sempre, apesar dos riscos. Para ela, o assassinato chocante da vereadora Marielle Franco coloca em risco a vida das mulheres negras ativistas do Brasil, o que provoca medo, não desistência, nem covardia, porque não é possível cessar esta luta.

É autora também do livro O que é lugar de fala?(2017), que aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo para o conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da nossa história. Escreveu ainda o prefácio de Mulheres, raça e classe, da filósofa negra e feminista Angela Davis. Sua escrita e publicações pontuam o movimento negro e o movimento feminista negro no Brasil. Coordena a edição da coleção Feminismos Plurais, da editora Letramento no Brasil, com títulos como O racismo recreativo, onde o autor Adilson Moreira, doutor em Direito pela Universidade de Harvard, discute os nomes pejorativos dado a negros no Brasil, sob o disfarce da “brincadeira”. Para Ludmila, “resistimos, porque não temos outra opção, mas não dá para negar que estamos vivendo um período muito preocupante em relação à nossa segurança”. Segundo ela, o Brasil é o país que mais mata ativistas de direitos humanos no mundo.

A vida possível

A vida possível, a partir de um ambiente na maioria das vezes hostil e com poucas perspectivas. Uma vida que nasce marcada, em um bairro de periferia, empobrecido, com uma sentença da mãe: Se a sorte não te sorrir até os 45 anos, só vai te restar o destino das pessoas medíocres – “Não, não abaixe a cabeça, não desvie o olhar para as pontas dos seus sapatos gastos. Não há do que se envergonhar, os simples são a maioria na Terra”.

Uma infância de perdas, traumas familiares, limitações sociais, lugares marcados. Não avance – “Você é só o filho do limpador de janelas, não devia ter esperado nada diferente”. Não há heróis, nem vilões. Não há esperança. Há o cotidiano em um ambiente de pobreza e limites já traçados – “Minha mãe e meu irmão, Tom, não se cansavam desse negócio de dividir a humanidade em duas partes incomensuravelmente díspares: uma grande maioria medíocre dominada por poucos privilegiados geniais”. Há a necessidade de sobreviver. Há vida real, que pulsa e aponta para o amadurecimento em meio a possível ascensão no submundo. É o que está dado.

Esta é a melancólica trajetória de Vico, que perde o pai e a mãe e vê o irmão ir embora, e seu encontro definitivo com o turco Farik no denso romance Cavalos e Armas (Pubblicato Editora, 2018) do jornalista e escritor Gustavo Machado. É uma história dura, feita de humanidade. Feita de gente que nasceu e vive no andar de baixo, onde toca a vida, do jeito possível – “Passar para o outro lado, passar para o outro andar. É uma ilusão. Sua mãe estava certa numa coisa apenas: dividir a vida em duas partes. Mas se você nasce em uma delas, nunca passa para a outra, por mais que tente, por mais que trabalhe. É como as coisas são”. Um romance comovente sobre a complexa condição humana.

Gustavo Machado também escreveu Sob o Céu de Agosto, já traduzido na Alemanha, e Marcha de Inverno.

Escrever é uma forma de resistência

Nestes tempos de desmonte e descaso com o outro, muitas pessoas me perguntam se, a partir do que escrevo sobre deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, já recebi retorno do poder público ou de algum órgão governamental que trate de questões que envolvam a diferença, seja ela qual for. Minha resposta: Nenhum retorno.  Outra pergunta: Alguma coisa mudou neste período? Resposta: Quase nada. Mais uma pergunta: Não é desestimulante? Resposta: É! Mas desistir seria desolador.

Pensar, escrever e conversar sobre acessibilidade, inclusão, deficiência, preconceito, direitos humanos é uma forma de resistência. É uma recusa aos clichês repetidos exaustivamente para justificar descaso e desconhecimento. É um jeito de mostrar que cansamos dos discursos, das promessas vazias, da hipocrisia social. É uma maneira de não sucumbir diante das adversidades do cotidiano e seguir firme porque a discriminação dói. E, além de doer, carrega um não avassalador. Afronta nossa sensibilidade, nosso desejo de acolhimento, nossa inteligência. Estamos no lugar errado? Somos inferiores? Nossas vidas são indesejadas, tortas, erradas?

Na maioria das vezes, os espaços só se abrem se, por alguma razão, a pessoa com deficiência assume um protagonismo qualquer e vira um exemplo de superação. Passa a ser ovacionada vida afora, como se sua existência só tivesse sentido a partir disso. Nada mais.

Quase ninguém vê a singularidade de uma pessoa anônima com deficiência que transpõe infinitas barreiras físicas e sociais todos os dias. Em especial o olhar do outro, daquele que olha e a vê como um sub-humano, impulsionado pelo olhar de uma sociedade despreparada que ergue barreiras quando deveria derrubá-las. No sentido prático, o que realmente esses olhares fazem por nós, a não ser nos depreciar? O que entendem por inclusão? Apontam algum tipo de acessibilidade? Quem está preocupado com estas questões? O que pensam autoridades, governos, profissionais de Engenharia e Arquitetura, se é que conseguem pensar para além do seu quadrado!

Fora do institucional, temos muitas organizações trabalhando, refletindo sobre estes assuntos, mas as frestas do cotidiano, segundo a filósofa Djamila Ribeiro, autora do livro “O que é Lugar de Fala?”, são violentas. Precisamos estar atentos ao que escapa por elas. Qual é o nosso lugar de fala no Brasil hoje? Como não alertar as pessoas diante do vem por aí no campo da educação? Até porque quem assumiu o poder diz, em alto e bom tom, sem nenhum pudor, que acha desnecessária uma Lei de Acessibilidade e Inclusão. Afinal, criança com problema tem é que ficar em casa. Querem indivíduos ágeis, eficientes, perfeitos e servis, é claro.

A invisibilidade está novamente decretada, apesar de nossas tão suadas lutas e conquistas. Não reconhecemos tais criaturas, parece dizer, toscamente, quem comanda a nação, enquanto o preconceito autorizado vai se alastrando. Diante deste cenário, nossa luta precisa de mais fôlego. Não podemos perder a possibilidade incrível de fazer o mundo avançar, ampliando os horizontes na convivência com as diferenças. É na diversidade que libertamos nossos olhares e fazemos as vozes ecoar. Já disse e repito: é na diversidade que está a grande riqueza humana.

Não somos regidos pela excelência, pela agilidade, pela produção em massa até o esgotamento físico e mental. Não estamos em competição. Não somos heróis, nem heroínas.  Reconhecemos nossos limites (todos temos limites!) e possibilidades e vamos ajustando a vida cotidiana a partir da nossa singularidade. Sem rótulos – “Pequena Grande Mulher”, “É nos pequenos frascos que se encontram as grandes essências”, ou outro qualquer. Não queremos compensação. Não queremos ser exemplo de nada. Está tudo certo, por exemplo, com os meus 1m10cm, minhas pernas curtas, meus braços pequenos e meus dedos gordinhos.

Queremos sim é que as pessoas nos respeitem, sem subestimar nosso jeito de ser. Recolham, por favor, os risos debochados, os dedos apontando, as mãos que nos tocam de qualquer jeito, as perguntas infames, as imitações ridículas, os olhares piedosos, o constrangimento e nos deixem passar.

Cartilha Escola para todos! Nanismo

Lançamento dia 27 de janeiro, 21h, na 46ª Feira do Livro Da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a Cartilha Escola para Todos! Nanismo vai ser lançada neste domingo, 27 de janeiro, às 21h, na Feira do Livro de Rio Grande, onde pode ser adquirida até o dia 3 de fevereiro pelo valor de R$ 8,00. Com o objetivo de contribuir para uma sociedade inclusiva e justa, a publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. E trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.  A cartilha foi apresentada em uma audiência pública para a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, representantes do MEC e do senador Romário Faria, em junho de 2018, com o apoio do senador Paulo Paim. A proposta é que os municípios conheçam o projeto, abracem a ideia e distribuam nas suas escolas.

Vélvit Ferreira Severo, designer gráfica de Rio Grande/RS, mãe de Théo Severo Huckembeck, está na linha de frente do projeto e diz que “felicidade é o nome deste momento”. Ela contou com a contribuição de um grupo muito especial para chegar até aqui – Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Maria Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Djarlles Pierote. Somos Todos Gigantes. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas/RS. Familiares e amigos. Pessoas que convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm ou porque conhecem muitas pessoas que têm. Gente guerreira que, há mais de dois anos, se juntou para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Conheça este projeto e leve para seu município.

Escola para todos: Nanismo
Cartilhananismo@gmail.com
WhatsApp 53 99124.6632

#escolaparatodosnanismo
#feiradolivrofurg
#nanismo

Em 15 de abril de 2018, publiquei um texto sobre a Cartilha no meu blog. A seguir um trecho: É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Qual é o nosso lugar?

Quero falar de um livro necessário para um tempo em que a diversidade está tão ameaçada e o preconceito se insurge de um jeito cruel, “Na Minha Pele” (Editora Objetiva, 2017), do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos. Em 145 páginas, ele compartilha, com sabedoria e simplicidade, experiências e percepções de um homem negro em um Brasil que insiste na supremacia do branco. É crítico, sensível, corajoso, bem humorado, generoso e firme. Coloca o dedo na ferida sem vitimização.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Eu, que tenho nanismo e enfrento a discriminação cotidianamente, encontrei muitos pontos de conexão com a escrita de Lázaro. “Não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonha estar”, diz ele, rompendo com tantas falas preconceituosas que cercam a vida de pessoas que têm uma diferença e que a sociedade não gostaria de ver onde estão.

“A empregada doméstica é uma figura muito presente nos lares brasileiros. É quase da família, como se diz. Mas este é um não lugar – porque ela de certa forma abandona sua família e nunca entra na outra”. A afirmação me fez lembrar muito do filme “Que horas ela volta?”, da Anna Muylaert, que mostra o incômodo provocado pela filha da empregada que, ao chegar à casa dos patrões, coloca em questão a submissão da mãe.

Em outro trecho do livro, ele é ainda mais enfático: “Minha mente entorta quando penso no tanto que a mentalidade escravagista ainda molda as relações patrão/empregado”. E essa mentalidade não está restrita aos lares, está também nas escolas, em toda parte. “Estudar numa escola de classe média, em que eu era um dos pouquíssimos negros, não foi nada fácil”. “Era a época dos bailes de quinze anos e das primeiras festinhas sem adultos por perto e eu não podia me sentir mais rejeitado”. “Adotei então o papel de melhor amigo”, confessa o ator. E eu, para driblar o nanismo, adotei o papel da colega inteligente e generosa e, assim, participava do círculo dos ditos “normais”.

Lázaro identifica com precisão o discurso hipócrita de que o Brasil não é um país preconceituoso, que aqui não há racismo porque fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como ele sabe que a cor é motivo de discriminação diária. Assim como quem tem uma deficiência sabe que, em um momento ou outro, vai enfrentar restrições de todo tipo e olhares inquisidores e constrangedores. “Os olhares reais e os de soslaio”, “os subtextos que se percebem nas entrelinhas”, “os medos e as sutilezas do preconceito, a solidão”, diz ele. “Será que consigo vencê-los?”, pergunta. Uma pergunta difícil de responder.

A discriminação muitas vezes nos afeta, mas não chegamos a perceber o mal que nos faz. “Curiosamente”, comenta o ator, “tem gente que nos trata como se fôssemos personagens de contos de fada”. Com o nanismo vivo isso no cotidiano – duende, figura mítica, circense e por aí afora.

Como o protagonismo é dos brancos, a condição do branco não é um assunto porque corresponde à normalidade. Enquanto isso, o negro vai se dando conta da sua etnia e da rejeição a cada olhar que recebe. E esse olhar dificilmente é natural e acolhedor. Dependendo do lugar que o negro ocupa na sociedade, vem carregado de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de admiração, de pena.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Lázaro fala sobre o corpo e sobre a pele que habita. Fala de conflitos de opinião e das dores do racismo. Fala da necessidade do enfrentamento dessas questões e lembra que também é militância cuidar de si e buscar a harmonia nas relações. Para ele, “o Estado brasileiro deve se lançar ao desafio da refundação da unidade nacional, com a valorização da diversidade e com a efetiva consagração dos direitos de todos”.

 

2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.

Cartilha Escola para todos! Nanismo

"Abrindo portas", por Tamar Matsafi
“Abrindo portas”, por Tamar Matsafi

Vélvit Ferreira Severo, 32 anos, designer gráfica em Rio Grande, mãe de Théo Severo Huckembeck, 4 anos. Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas.  Essas pessoas convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm. São guerreiras e há quase dois anos se juntaram para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Há muita gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a cartilha tem como objetivo primeiro uma sociedade inclusiva e justa. A publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. Para isso, trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.

A expectativa da equipe de criação é que o material impresso esteja disponível até outubro deste ano, o mês do Nanismo, pois ainda está na fase de ilustração e busca de apoio para finalizar e fazer a tiragem necessária da primeira edição.

É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Enquanto o projeto está nas mãos de deputados e senadores, quem quiser contribuir pode fazer através da conta da ANAERJ no Bradesco, agência 3176, conta 445533-9.

Recomendo também consultar o site – https://somostodosgigantes.com.br/ – que tem informações muito úteis para quem tem nanismo e ótimas dicas de livros e filmes sobre o tema.

A dificuldade de ver com olhos livres

Um dos meus primeiros artigos sobre questões importantes para a vida de pessoas com nanismo falava sobre a difícil luta por inclusão e apontava para os tantos limites de uma sociedade minada de preconceitos. Foi em 2010, quando a palavra acessibilidade passou a ser muita usada, no sentido de alertar e sensibilizar a população, governos e instituições para o universo da deficiência física e mental. Para amenizar o que veio à tona, muitos projetos foram criados e a fala em defesa das pessoas com algum tipo de deficiência foi para as ruas. Além de ocupar palanques e tribunas, o assunto foi tema de amplas discussões em palestras, seminários, congressos, encontros e reportagens nos meios de comunicação.

O discurso em nome de quem precisava de acesso e inclusão estava na ordem do dia e apontava para muitas questões. Na época, tomei a palavra acessibilidade – difícil de dizer, difícil de escrever, difícil de entender, difícil de executar – para estimular a reflexão. O assunto, que perturbava olhares carregados daquela piedade mórbida que faz mal, colocava em discussão o direito a uma vida digna, menos complicada e mais humana. Direito de toda mulher, homem, criança, jovem e velho, não importa sua condição ou opção.

Como a importância desse debate é indiscutível, a mobilização foi grande. Muitos grupos se organizaram. As reivindicações aumentaram e algumas conquistas foram efetivadas, especialmente a autoestima de muita gente que se sentia discriminada. Mas é uma luta que não cessa. Precisamos estar sempre alertas. As adaptações físicas do meio, que a princípio pareciam fáceis de executar, ficaram, na sua maioria, no campo da promessa. Basta observar as instituições bancárias, de lucros homéricos e propagados aos quatro ventos. Não oferecem nem um mísero banquinho, no caso de pessoas com nanismo como eu, para um mínimo de independência. E quando solicitado, se espantam incrivelmente.

La Nana - Picasso, Paris, 1901
La Nana – Picasso, Paris, 1901

É por isso que repito, hoje com muito mais propriedade, que há algo vital a ser feito urgentemente para que a acessibilidade e a inclusão se tornem atitudes naturais: Educar para a diversidade que constitui cada um de nós como seres plurais e únicos. Educar para o respeito, a solidariedade e o acolhimento. Mostrar que a verdadeira riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades.

Por mais que tenhamos equipamentos urbanos acessíveis, rampas, calçadas, balcões, banheiros, elevadores e ônibus, campanhas pela inclusão, cotas, emprego, tudo ainda será precário se o preconceito, seja qual for – deficiência, cor da pele, opção sexual, classe social – persistir. Encarar as dificuldades cotidianas e a repercussão da diferença física, mental, monetária, religiosa, comportamental na sociedade em que vivemos nunca foi tarefa fácil. E hoje parece ainda mais cruel.

Para além do que é material, todo indivíduo precisa ser acolhido. Precisamos encarar essa incapacidade de ver o outro em todas as esferas da sociedade, tão sem escrúpulos. Não há nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo: ver com olhos livres – Oswald de Andrade. Poucos conseguem!

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bufão D. Sebastião de Morra, de Velázquez

Nanismo e a novela global

O que dizer de Estela, a personagem com nanismo da novela do horário nobre da TV Globo, interpretada pela atriz Juliana Caldas? Um equívoco? Procuro acompanhar sua história, mas, lamentavelmente, não me diz nada. Assim como não diz para muitas outras pessoas que, como eu, lutam contra o preconceito e batalham por inclusão e acessibilidade. Não pertencemos ao mesmo universo. E se perde uma oportunidade preciosa para discutir questões vitais do cotidiano de quem é discriminado.

A pergunta que fica é: o autor Walcyr Carrasco se perdeu ou queria isso mesmo?

A trama poderia ter muitos outros olhares para a personagem. Olhares mais densos, críticos e realistas. Para além de uma mãe megera e de uma jovem mimada e maltratada ao mesmo tempo. Para além do dinheiro que pode mascarar ou esconder a filha “monstrenga” e indesejada. Por que não tratar da rotina de uma pessoa com nanismo mostrando que tem vontade própria, toma conta da sua vida, trabalha, enfrenta inúmeros obstáculos, a discriminação, sofre, mas busca ajuda, tenta se entender e entender a reação do outro? Por que não aprofundar o tema retratando uma pessoa com deficiência que combate o preconceito, busca por seus direitos e amplia uma luta que é de tanta gente?

Estela vive fora do mundo real. Não se dedica a nada. Não estuda. Não sai. Não anda pelas ruas. Não tem amigos. Não se relaciona com ninguém de forma natural. Não reivindica. Não é crítica. Estela parece não ter vida interior. Não deseja. Não sonha. Não pensa. Não fala abertamente. Já mostrou em várias cenas dificuldade de lidar com o seu tamanho, mas não questiona este sentimento. E só acorda para a sua condição, vez que outra, quando a inconveniente cuidadora, se é que se pode chamar assim, faz um alerta. Em seguida, volta à sonolência.

Estela parece não se importar com o cotidiano, o que é inverossímil, pois já viveu sozinha na Europa. Quem sabe tinha por lá uma babá que supria tudo. Os possíveis romances que aparecem para ela na novela deveriam ser consequência de uma vida livre e natural e não o foco mal desenhado da sua história. Há tanto para mostrar sobre o dia a dia das pessoas com nanismo. E o que se vê na tela é uma jovem sem a mínima reflexão, que vive em uma bolha.

pedrojulianaeanderson
Foto divulgação

De um modo geral as pessoas com nanismo não se perdem em “mimimis”. Não acumulam recalques, não se importam se ganham “ursinhos”, miniaturas ou salto alto. Especialmente nos dias de hoje, criam grupos e promovem encontros para discutir questões importantes, como o preconceito e o reconhecimento de suas reivindicações. Lutam por dignidade e independência, o que passa necessariamente por respeito, inclusão e equipamentos urbanos adequados, fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não é o que se vê em “O outro lado do paraíso”, que reduz a quase nada o universo de Estela.

A novela tem muitos outros equívocos, como o tratamento que dá aos gays e aos negros, e é feita de clichês lamentáveis, mas fico por aqui.