Cartilha Escola para todos! Nanismo

Lançamento dia 27 de janeiro, 21h, na 46ª Feira do Livro Da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a Cartilha Escola para Todos! Nanismo vai ser lançada neste domingo, 27 de janeiro, às 21h, na Feira do Livro de Rio Grande, onde pode ser adquirida até o dia 3 de fevereiro pelo valor de R$ 8,00. Com o objetivo de contribuir para uma sociedade inclusiva e justa, a publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. E trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.  A cartilha foi apresentada em uma audiência pública para a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, representantes do MEC e do senador Romário Faria, em junho de 2018, com o apoio do senador Paulo Paim. A proposta é que os municípios conheçam o projeto, abracem a ideia e distribuam nas suas escolas.

Vélvit Ferreira Severo, designer gráfica de Rio Grande/RS, mãe de Théo Severo Huckembeck, está na linha de frente do projeto e diz que “felicidade é o nome deste momento”. Ela contou com a contribuição de um grupo muito especial para chegar até aqui – Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Maria Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Djarlles Pierote. Somos Todos Gigantes. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas/RS. Familiares e amigos. Pessoas que convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm ou porque conhecem muitas pessoas que têm. Gente guerreira que, há mais de dois anos, se juntou para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Conheça este projeto e leve para seu município.

Escola para todos: Nanismo
Cartilhananismo@gmail.com
WhatsApp 53 99124.6632

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Em 15 de abril de 2018, publiquei um texto sobre a Cartilha no meu blog. A seguir um trecho: É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Qual é o nosso lugar?

Quero falar de um livro necessário para um tempo em que a diversidade está tão ameaçada e o preconceito se insurge de um jeito cruel, “Na Minha Pele” (Editora Objetiva, 2017), do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos. Em 145 páginas, ele compartilha, com sabedoria e simplicidade, experiências e percepções de um homem negro em um Brasil que insiste na supremacia do branco. É crítico, sensível, corajoso, bem humorado, generoso e firme. Coloca o dedo na ferida sem vitimização.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Eu, que tenho nanismo e enfrento a discriminação cotidianamente, encontrei muitos pontos de conexão com a escrita de Lázaro. “Não há vida com limite preestabelecido. Seu lugar é aquele em que você sonha estar”, diz ele, rompendo com tantas falas preconceituosas que cercam a vida de pessoas que têm uma diferença e que a sociedade não gostaria de ver onde estão.

“A empregada doméstica é uma figura muito presente nos lares brasileiros. É quase da família, como se diz. Mas este é um não lugar – porque ela de certa forma abandona sua família e nunca entra na outra”. A afirmação me fez lembrar muito do filme “Que horas ela volta?”, da Anna Muylaert, que mostra o incômodo provocado pela filha da empregada que, ao chegar à casa dos patrões, coloca em questão a submissão da mãe.

Em outro trecho do livro, ele é ainda mais enfático: “Minha mente entorta quando penso no tanto que a mentalidade escravagista ainda molda as relações patrão/empregado”. E essa mentalidade não está restrita aos lares, está também nas escolas, em toda parte. “Estudar numa escola de classe média, em que eu era um dos pouquíssimos negros, não foi nada fácil”. “Era a época dos bailes de quinze anos e das primeiras festinhas sem adultos por perto e eu não podia me sentir mais rejeitado”. “Adotei então o papel de melhor amigo”, confessa o ator. E eu, para driblar o nanismo, adotei o papel da colega inteligente e generosa e, assim, participava do círculo dos ditos “normais”.

Lázaro identifica com precisão o discurso hipócrita de que o Brasil não é um país preconceituoso, que aqui não há racismo porque fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como ele sabe que a cor é motivo de discriminação diária. Assim como quem tem uma deficiência sabe que, em um momento ou outro, vai enfrentar restrições de todo tipo e olhares inquisidores e constrangedores. “Os olhares reais e os de soslaio”, “os subtextos que se percebem nas entrelinhas”, “os medos e as sutilezas do preconceito, a solidão”, diz ele. “Será que consigo vencê-los?”, pergunta. Uma pergunta difícil de responder.

A discriminação muitas vezes nos afeta, mas não chegamos a perceber o mal que nos faz. “Curiosamente”, comenta o ator, “tem gente que nos trata como se fôssemos personagens de contos de fada”. Com o nanismo vivo isso no cotidiano – duende, figura mítica, circense e por aí afora.

Como o protagonismo é dos brancos, a condição do branco não é um assunto porque corresponde à normalidade. Enquanto isso, o negro vai se dando conta da sua etnia e da rejeição a cada olhar que recebe. E esse olhar dificilmente é natural e acolhedor. Dependendo do lugar que o negro ocupa na sociedade, vem carregado de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de admiração, de pena.

Foto: José Walter de Castro Alves
Foto: José Walter de Castro Alves

Lázaro fala sobre o corpo e sobre a pele que habita. Fala de conflitos de opinião e das dores do racismo. Fala da necessidade do enfrentamento dessas questões e lembra que também é militância cuidar de si e buscar a harmonia nas relações. Para ele, “o Estado brasileiro deve se lançar ao desafio da refundação da unidade nacional, com a valorização da diversidade e com a efetiva consagração dos direitos de todos”.

 

2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.

Cartilha Escola para todos! Nanismo

"Abrindo portas", por Tamar Matsafi
“Abrindo portas”, por Tamar Matsafi

Vélvit Ferreira Severo, 32 anos, designer gráfica em Rio Grande, mãe de Théo Severo Huckembeck, 4 anos. Flávia Berti Hoffmann, proprietária de uma editora de livros em Caxias do Sul, mãe de Bernardo. Kênia Rio, presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio Janeiro/ANAERJ. Liana Hones, representante do Nanismo em Santa Catarina. Lilian e Vanderlei Link, de Pelotas.  Essas pessoas convivem cotidianamente com o nanismo, ou porque têm ou porque os filhos têm. São guerreiras e há quase dois anos se juntaram para criar a Cartilha Escola para todos! Nanismo. Há muita gente de luz, que faz a sua parte, neste Brasil desgovernado, onde os trabalhadores e as pessoas de bem perdem direitos a cada minuto.

Criada a partir da experiência de famílias e pessoas que vivem o nanismo no dia a dia, a cartilha tem como objetivo primeiro uma sociedade inclusiva e justa. A publicação mostra que o respeito às diferenças é fundamental para que cada um viva bem e em harmonia com a sua singularidade. Para isso, trabalhar a conscientização na escola, de forma simples e lúdica, a partir do cotidiano de uma criança com nanismo, é o caminho natural, saudável e efetivo para o entendimento de que todos são diferentes de alguma maneira.

A expectativa da equipe de criação é que o material impresso esteja disponível até outubro deste ano, o mês do Nanismo, pois ainda está na fase de ilustração e busca de apoio para finalizar e fazer a tiragem necessária da primeira edição.

É preciso esclarecer, informar e falar sem medo para espantar o preconceito, que está no adulto e não na criança. Vélvit Ferreira Severo, idealizadora da cartilha, diz que “as crianças são puras e veem ao mundo de forma leve e singular”. Abordar o assunto dessa maneira torna mais fácil a compreensão da necessidade do respeito às diversidades. São muitas as iniciativas que rondam esse universo. Vélvit, que atua em várias frentes, acredita que “espalhar conhecimento, acabar com a discriminação e, com isso, tornar a vida melhor para todos, tem que partir do respeito à diferença”. O projeto defende a aprovação de uma Lei Nacional de Inclusão da Cartilha nas Escolas para conscientizar, multiplicar e fazer com que as pessoas vejam o mundo de outra maneira.

Enquanto o projeto está nas mãos de deputados e senadores, quem quiser contribuir pode fazer através da conta da ANAERJ no Bradesco, agência 3176, conta 445533-9.

Recomendo também consultar o site – https://somostodosgigantes.com.br/ – que tem informações muito úteis para quem tem nanismo e ótimas dicas de livros e filmes sobre o tema.

A dificuldade de ver com olhos livres

Um dos meus primeiros artigos sobre questões importantes para a vida de pessoas com nanismo falava sobre a difícil luta por inclusão e apontava para os tantos limites de uma sociedade minada de preconceitos. Foi em 2010, quando a palavra acessibilidade passou a ser muita usada, no sentido de alertar e sensibilizar a população, governos e instituições para o universo da deficiência física e mental. Para amenizar o que veio à tona, muitos projetos foram criados e a fala em defesa das pessoas com algum tipo de deficiência foi para as ruas. Além de ocupar palanques e tribunas, o assunto foi tema de amplas discussões em palestras, seminários, congressos, encontros e reportagens nos meios de comunicação.

O discurso em nome de quem precisava de acesso e inclusão estava na ordem do dia e apontava para muitas questões. Na época, tomei a palavra acessibilidade – difícil de dizer, difícil de escrever, difícil de entender, difícil de executar – para estimular a reflexão. O assunto, que perturbava olhares carregados daquela piedade mórbida que faz mal, colocava em discussão o direito a uma vida digna, menos complicada e mais humana. Direito de toda mulher, homem, criança, jovem e velho, não importa sua condição ou opção.

Como a importância desse debate é indiscutível, a mobilização foi grande. Muitos grupos se organizaram. As reivindicações aumentaram e algumas conquistas foram efetivadas, especialmente a autoestima de muita gente que se sentia discriminada. Mas é uma luta que não cessa. Precisamos estar sempre alertas. As adaptações físicas do meio, que a princípio pareciam fáceis de executar, ficaram, na sua maioria, no campo da promessa. Basta observar as instituições bancárias, de lucros homéricos e propagados aos quatro ventos. Não oferecem nem um mísero banquinho, no caso de pessoas com nanismo como eu, para um mínimo de independência. E quando solicitado, se espantam incrivelmente.

La Nana - Picasso, Paris, 1901
La Nana – Picasso, Paris, 1901

É por isso que repito, hoje com muito mais propriedade, que há algo vital a ser feito urgentemente para que a acessibilidade e a inclusão se tornem atitudes naturais: Educar para a diversidade que constitui cada um de nós como seres plurais e únicos. Educar para o respeito, a solidariedade e o acolhimento. Mostrar que a verdadeira riqueza humana está no encontro das diferenças, com suas múltiplas possibilidades e capacidades.

Por mais que tenhamos equipamentos urbanos acessíveis, rampas, calçadas, balcões, banheiros, elevadores e ônibus, campanhas pela inclusão, cotas, emprego, tudo ainda será precário se o preconceito, seja qual for – deficiência, cor da pele, opção sexual, classe social – persistir. Encarar as dificuldades cotidianas e a repercussão da diferença física, mental, monetária, religiosa, comportamental na sociedade em que vivemos nunca foi tarefa fácil. E hoje parece ainda mais cruel.

Para além do que é material, todo indivíduo precisa ser acolhido. Precisamos encarar essa incapacidade de ver o outro em todas as esferas da sociedade, tão sem escrúpulos. Não há nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo: ver com olhos livres – Oswald de Andrade. Poucos conseguem!

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bufão D. Sebastião de Morra, de Velázquez

Nanismo e a novela global

O que dizer de Estela, a personagem com nanismo da novela do horário nobre da TV Globo, interpretada pela atriz Juliana Caldas? Um equívoco? Procuro acompanhar sua história, mas, lamentavelmente, não me diz nada. Assim como não diz para muitas outras pessoas que, como eu, lutam contra o preconceito e batalham por inclusão e acessibilidade. Não pertencemos ao mesmo universo. E se perde uma oportunidade preciosa para discutir questões vitais do cotidiano de quem é discriminado.

A pergunta que fica é: o autor Walcyr Carrasco se perdeu ou queria isso mesmo?

A trama poderia ter muitos outros olhares para a personagem. Olhares mais densos, críticos e realistas. Para além de uma mãe megera e de uma jovem mimada e maltratada ao mesmo tempo. Para além do dinheiro que pode mascarar ou esconder a filha “monstrenga” e indesejada. Por que não tratar da rotina de uma pessoa com nanismo mostrando que tem vontade própria, toma conta da sua vida, trabalha, enfrenta inúmeros obstáculos, a discriminação, sofre, mas busca ajuda, tenta se entender e entender a reação do outro? Por que não aprofundar o tema retratando uma pessoa com deficiência que combate o preconceito, busca por seus direitos e amplia uma luta que é de tanta gente?

Estela vive fora do mundo real. Não se dedica a nada. Não estuda. Não sai. Não anda pelas ruas. Não tem amigos. Não se relaciona com ninguém de forma natural. Não reivindica. Não é crítica. Estela parece não ter vida interior. Não deseja. Não sonha. Não pensa. Não fala abertamente. Já mostrou em várias cenas dificuldade de lidar com o seu tamanho, mas não questiona este sentimento. E só acorda para a sua condição, vez que outra, quando a inconveniente cuidadora, se é que se pode chamar assim, faz um alerta. Em seguida, volta à sonolência.

Estela parece não se importar com o cotidiano, o que é inverossímil, pois já viveu sozinha na Europa. Quem sabe tinha por lá uma babá que supria tudo. Os possíveis romances que aparecem para ela na novela deveriam ser consequência de uma vida livre e natural e não o foco mal desenhado da sua história. Há tanto para mostrar sobre o dia a dia das pessoas com nanismo. E o que se vê na tela é uma jovem sem a mínima reflexão, que vive em uma bolha.

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Foto divulgação

De um modo geral as pessoas com nanismo não se perdem em “mimimis”. Não acumulam recalques, não se importam se ganham “ursinhos”, miniaturas ou salto alto. Especialmente nos dias de hoje, criam grupos e promovem encontros para discutir questões importantes, como o preconceito e o reconhecimento de suas reivindicações. Lutam por dignidade e independência, o que passa necessariamente por respeito, inclusão e equipamentos urbanos adequados, fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não é o que se vê em “O outro lado do paraíso”, que reduz a quase nada o universo de Estela.

A novela tem muitos outros equívocos, como o tratamento que dá aos gays e aos negros, e é feita de clichês lamentáveis, mas fico por aqui.

 

Conexões – saindo do armário

O Nanismo é pouco estudado e pesquisado. Há um grande desconhecimento sobre a deficiência, se é que podemos chamar assim, e suas consequências. Essa negação explícita possivelmente tem suas raízes no preconceito que gera desinteresse e falta de seriedade em relação ao assunto, desde a antiguidade. Somos ainda motivo de riso e piada, mesmo nos meios mais bem informados e ditos politizados. Fazemos parte de um imaginário popular que nos vê ora como figuras mágicas e cheias de poderes, ora como seres à margem, que vieram para divertir a “plebe rude”.

Por isso, é muito estimulante perceber que nos últimos anos há uma busca por outros olhares. As pessoas com nanismo não são mais escondidas pelas famílias e nem se escondem mais. Em agosto de 2016 participei de um debate durante a XX Semana da Pessoa com Deficiência, promovida pelo Tribunal de Justiça do RS, e falei sobre essas questões. No mesmo ano, em novembro, fui convidada pela FADERS, órgão estadual de política pública de acessibilidade e inclusão, para falar no I Encontro Estadual sobre Nanismo. Paralelamente, fiz algumas palestras em escolas e instituições e escrevo muito sobre a minha experiência.

Nesse período, foi criado o Dia Estadual da Pessoa com Nanismo, 25 de outubro. E também o Dia Nacional de Combate ao Preconceito contra as Pessoas com Nanismo. Particularmente, tenho muitas dúvidas em relação a essas datas. Especialmente pelo lamentável uso político-partidário de um assunto muito sério, que requer atitude, não discurso. Enfim, aposto que gerem acessibilidade e esqueçam a exigência da superação!

Recentemente, realizou-se no Rio de Janeiro o 2º Congresso Brasileiro de Pessoas com Nanismo que, por tudo o que li, vi e pelas pessoas envolvidas, foi um encontro de debates pertinentes, alegria e sucesso. E na próxima novela do horário nobre por excelência da TV, a Globo apresenta uma atriz com nanismo, que vai viver uma personagem real.

congresso

Esses movimentos todos tornam a causa mais conhecida pela sociedade, além de estimular a inclusão e a troca de experiências. A participação ativa das famílias e de profissionais da área médica, entre outros, na discussão sobre saúde, políticas públicas adequadas e preconceito é essencial para a qualidade de vida de quem luta cotidianamente para ultrapassar barreiras sociais, culturais, científicas, e, sobretudo, barreiras reais da discriminação.

Saindo do armário

Literalmente, estamos saindo do armário, expressão muito usada pelos homossexuais há bem mais tempo, ao expor nossos problemas e buscar alternativas, fazendo o que é possível por respeito e dignidade.

Eu pensava sobre isso quando comecei a ler “Pai, Pai” (Alfaguara), livro do jornalista, escritor, tradutor e ativista LGBT, João Silvério Trevisan, lançado em Porto Alegre, na Livraria Baleia, no dia 14 de outubro – com direito a ver “Lampião da Esquina”, documentário de Lívia Perez que conta a história do jornal voltado para o movimento homossexual no Brasil no final dos anos 1970, além de uma conversa boa com o autor, os amigos, mais o autógrafo.

Pois não é que encontro muitos pontos de conexão na leitura!

Foi a partir de uma depressão aos 70 anos que Trevisan olhou para a sua história, viu as marcas profundas deixadas pelo pai – um homem ausente, violento e infeliz – e começou a escrever. Um mergulho radical em situações difíceis da sua vida, como as que se referem à sexualidade. Pouco antes de completar 73 anos, em junho de 2017, ele finaliza o livro. Um dos criadores do jornal “Lampião da esquina” e do “Grupo Somos”, Trevisan praticamente retrata uma geração libertária, que sofreu todo tipo de violência e preconceito.

“As violências que a criança sofre dificilmente são superadas sem que fiquem cicatrizes que se abrem”, confessa. E acrescenta: “A criança é de uma delicadeza assustadora”. O livro, segundo ele, mostra o processo da descoberta do perdão: “Como nasce a ideia do perdão numa selva de dores, mágoas e ressentimentos”.

Em um dado momento, escreve: “Quando pequeno, eu me comovia até as lágrimas diante de uma pessoa com deficiência física. Demorei a entender que eu não chorava por ela, mas por mim. O fato é que eu me identificava com aquela falha, falta ou incompletude”.

paipai

Pois é! Inevitavelmente, de um jeito ou de outro, nós humanos somos seres em falta! Se todos entendessem que a falta nos constitui, a vida seria bem melhor!

 

Olhares contaminados

O que quero mesmo dizer quando uso essa expressão?

São olhares de muitíssimos anos, seculares, que fomos herdando. Quando, em um dado momento, ainda na Antiguidade, foram se definindo os critérios de beleza. Ou quando, na Idade Média, ficou estabelecido que toda criança que nascesse com problema físico ou mental, vista como uma “aberração”, deveria ser eliminada. Naqueles tempos tão distantes dos nossos dias, já se amaldiçoavam os humanos diferentes – feios? defeituosos? estranhos? loucos? – os sem lugar entre os normais – perfeitos?

Assim se disseminou uma rede discriminatória cruel. De alguma forma, todo o indivíduo que fugia dos parâmetros consagrados de beleza, normalidade, raça, comportamento, status social, criados por seus próprios semelhantes, passou a ser marginalizado. Não correspondia ao sonhado desejo da perfeição humana, portanto não seria útil à sociedade e deveria ser ignorado.

Os olhares foram sendo doutrinados e contaminados pouco a pouco, em casa, na escola, nas ruas, nas empresas, sem que as pessoas se dessem conta e sem contraponto. E o preconceito se instituiu barbaramente.

Assim se definiu que algumas raças são inferiores e devem servir às raças consideradas superiores, que se impõem pela força, pela exploração, pelo poder econômico. Assim os índios foram expulsos das terras que habitavam para dar lugar aos colonizadores. Assim os negros foram carregados em navios e escravizados em terras distantes das suas, servindo aos senhores brancos.

Também foi assim quando milhares de cidadãos – homens, mulheres e crianças – foram levados sem piedade para os campos de concentração na Alemanha de Hitler porque não eram de uma raça pura.

Assim é ainda hoje
O abuso de poder, a ambição e a força do dinheiro criaram uma elite predadora, que se vê perfeita e dona do mundo. Ávida por ser servida a qualquer custo, precisou levar para dentro da sua casa esses imperfeitos. Eram inferiores, é certo, por vezes desprezados, mas, ironicamente, podiam fazer a comida cotidiana dos superiores e cuidar de seus bens mais preciosos, os filhos, mantendo sempre a devida distância.

São séculos e séculos de olhares que segregam, que ignoram, que humilham, que hierarquizam e que normalizam a discriminação. O preconceito já nasce colado na gente. Está na pele, latente, basta um impulso. Impulso que esses tempos polarizados, sem limites, pautados pelo senso comum banal, acentuam de todas as maneiras. Quanto mais o cidadão vulnerável socialmente se revela, se impõe, conquista espaços e direitos, mais o preconceito mostra suas garras.

Muito poucos conseguem driblar esse olhar viciado, questionar o que tanto o contamina, sacudir todas as certezas e sair em busca de um olhar livre que deixe a vida fluir naturalmente, com todas as suas diferenças.

Sempre é interessante voltar ao tema

Em abril de 2016 escrevi um artigo para o portal da cidade de Cachoeirinha, que ainda seria lançado. Não consegui acompanhar o andamento. Não sei se foi publicado. Reli o texto um dia desses. É um apanhado de quase tudo o que tenho falado sobre as minhas inquietações relacionadas à diferença, inclusão e acessibilidade. Mexi um pouco no texto e achei oportuno trazê-lo para o blog. É bom voltar ao assunto que me colocou entre os blogueiros do Sul21.

Inclusão e Acessibilidade

Assim que a causa das pessoas com deficiência física, visual, auditiva, mental ou intelectual conquistou a visibilidade necessária, a fala em defesa dessas pessoas foi para as ruas. Os discursos vieram para o centro da cena, instigando o debate sobre temas como acessibilidade, inclusão, respeito e diversidade, e projetos e leis foram criados para amenizar as dificuldades. Muitos olhares se voltaram para os diferentes e passaram a perceber suas carências e sua luta em busca de uma vida menos complicada e mais humana.

Não tenho dúvidas sobre a importância dessa conscientização, no sentido de sensibilizar, fazer pensar e estimular a mudança. Mas é bom ter claro que há algo mais urgente a ser feito para que as diferenças não causem tanto espanto, a superação não vire bandeira, a inclusão se incorpore naturalmente ao cotidiano das pessoas e o convívio se torne solidário. A educação, tão sucateada pelos governos atuais, é o caminho.

Educar para a diferença

É preciso educar, em casa e na escola, para a diversidade que constitui os indivíduos. Mostrar que a grande riqueza humana está no encontro das diferenças, nas múltiplas possibilidades e capacidades de cada um, na cooperação e na troca. Mas para isso é necessário falar sobre o preconceito com a criança, não sonegar informações, tratar com naturalidade suas perguntas, não contaminar seus olhares infantis tão livres e curiosos.

Para ir e vir com dignidade, precisamos muito mais do que discursos, leis e projetos. Por mais que tenhamos rampas, calçadas adequadas, balcões e banheiros adaptados, elevadores e ônibus acessíveis, equipamentos de toda ordem, difusão da língua de sinais e do sistema braile, campanhas pela inclusão e emprego através de cotas – conquistas sem dúvida fundamentais – tudo ainda será precário se a discriminação persistir. Não basta o cumprimento burocrático das leis. É fundamental desacomodar posturas sacralizadas e aprender cotidianamente a conviver com a diferença.

Não basta cumprir protocolos

Sabemos que as bem-vindas adaptações físicas do meio, que em princípio parecem fáceis de executar, são lentas, mal feitas muitas vezes e, se não houver fiscalização, ficam no campo da promessa. As empresas, o público e o privado de modo geral, acordaram para a importância do acolhimento, mas não sabem como fazer. Cumprem o protocolo. Apenas.

Acolher não significa passar a mão na cabeça, fingir que está tudo bem, minimizar a capacidade de trabalho. Acolher é compreender, orientar e exigir. As pessoas com deficiência necessitam ser percebidas na sua dimensão. Jogá-las em alguma atividade, sem saber das suas potencialidades, sem o devido preparo e sem o preparo dos colegas de jornada, é desconhecer o que significa efetivamente a palavra inclusão. Só encarando os limites, e todo temos limites, será possível subverter a ordem e mudar comportamentos. Nada muda por decreto. Há um caminho a ser trilhado com afeto e firmeza. E o princípio, como já disse, está na educação para a diferença.

 

Vamos falar sobre preconceito? – Pela diversidade, pela tolerância, pelas diferenças todas que nos desafiam, nos fazem melhores, nos tornam livres e múltiplos.

No dia 13 de junho, no Santander Cultural, participei de um encontro com estudantes de segundo grau que integram o programa Cidadania e Talento.com do CIEE-RS, módulo Comunicação. Falei e respondi muitas perguntas da garotada durante uma hora e meia. Mais uma vez, saí estimulada. Jovens atentos e curiosos acompanharam e participaram da conversa. A proposta que fiz foi falar de preconceito a partir da minha condição, ampliando para outros segmentos.

A seguir um pouco do que dividi com esse público especial

Conversa_Foto CIEE-RS

Se o nosso desejo é provocar a mudança, precisamos pensar coletivamente sobre o preconceito que nos ronda. Está em nós. Que sentimento hostil e grosseiro é esse que intimida, maltrata, humilha, vira piada, agressão, bullying? O que nos leva a rejeitar uma pessoa? É fundamental questionar os motivos que nos fazem discriminar e afastar alguém de um convívio que deveria ser natural. Quem tem uma deficiência física, mental, emocional, intelectual, por dificuldades auditivas ou de visão, é ignorada e, muitas vezes, jogada na solidão.

Lamentamos as barreiras físicas que encontramos no cotidiano, mas a pior barreira é o preconceito, fruto de uma sociedade prepotente, maniqueísta, que segrega e humilha quem não corresponde a um padrão de normalidade sem sentido. Uma sociedade hierarquizada, dividida em categorias absurdas, alimentada por uma elite cruel. Em nome de quê?

Esse comportamento está tão entranhado no inconsciente de todos nós que, às vezes, até parece normal. É o que sofrem as pessoas chamadas de deficientes, mas também os negros, os índios, a comunidade LGBT e tantos outros grupos. A presença desses seres “imperfeitos” e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores, incomoda muito. Eles são a certeza de que a perfeição, assim como a tal “raça pura”, não existe.

Como os discursos já vêm prontos e embalados para serem assimilados sem crítica, é nossa obrigação desmanchar os pacotes e desorganizar a ordem social imposta, que alimenta o preconceito.

Meus pais tiveram duas filhas com nanismo. Contavam que o comentário que ouviam de muita gente era: “Não vão se criar”. Morando no interior, numa época de informação mínima, procuraram um médico. “Suas filhas têm nanismo”, foi o diagnóstico, seguido de uma observação, “o que não interfere no desenvolvimento intelectual”. Fomos para vida. Escola, faculdade, trabalho. Para espanto de muitos, nos criamos. Dificuldades? Fora do núcleo familiar, muitas! Especialmente na rua. Olhares curiosos, risos, dedos apontando, piadas, invasão da privacidade, perguntas indiscretas, brincadeiras indelicadas, toques desrespeitosos.

Comentários do tipo “isso é tamanho de gente”, “levanta do chão”, “não sabia que alguém como você se divertia”. Até já me deram parabéns por eu estar em um show com amigos. Como se para pessoas como eu isso não fosse permitido!

Avançamos muito pouco nas questões de acolhimento da diferença, da mais banal a mais complexa. É desolador perceber que, em pleno século XXI, sejamos ainda incapazes de ver e aceitar o outro naturalmente, sem pré-julgamentos.

Necessitamos de olhares livres, não contaminados, para ir e vir com dignidade

Insisto sempre em dizer que o preconceito não se resolve apenas com leis, normas e equipamentos. Necessitamos de olhares sensíveis e humanos. Olhares que reconheçam e acolham a diferença. As instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de entender a diversidade, inventar, reinventar, facilitar, mudar, quebrar rotinas.

Para além da condição física e intelectual, da profissão, da eliminação de barreiras físicas, acessibilidade é direito social. Inclusão é cidadania. Acolher não é favor. É perceber o que o outro precisa. É se abrir para outras capacidades. É estar atento para entender os limites, orientar e exigir. Acredito que educar para a diferença que constitui os indivíduos ainda é o melhor caminho, em casa e na escola.

Procurem olhar para quem é diferente. Não fujam desse enfrentamento. Falem sobre a diferença. Ouçam o que essa pessoa tem a dizer. Este é o recado que quero deixar para jovens como vocês, que logo vão estar no mercado de trabalho, constituir família, ter filhos. Ninguém é coitado, vítima, herói. Nem mais, nem menos. Temos comportamentos diversos, limites, sonhos, aptidões, convicções, direitos. É nosso dever lutar pela cidadania, livres das amarras do preconceito.

Com estudantes do Programa_Foto CIEE-RS