Só para estrangeiro ver!

Como desenhamos e construímos nossas cidades? Sob o princípio do bem estar dos cidadãos ou apenas sob a lógica do mercado? A partir de ambientes naturais, vivos, atraentes e inclusivos, que estimulam os sentidos e a respiração e alargam o olhar ou a partir de grandes torres espelhadas, frias, de fachadas enormes e vazias, que não despertam nenhum sentimento?

Volto ao arquiteto dinamarquês Jan Gehl e somo às suas reflexões estudos do neurocientista e psicólogo ambiental Colin Ellard. Ambos concluíram que as pessoas tendem a caminhar mais rápido ao passar por lugares de fachadas enormes e rígidas, enquanto desaceleram o andar em bairros de baixa verticalidade, com fachadas ativas, quentes e acolhedoras. Gehl já dizia em 2006 que “uma boa rua precisa ser desenhada a fim de que os pedestres, que caminham a uma média de 5km/h, vejam algo interessante pelo menos uma vez a cada cinco segundos”, o que, segundo Colin, “não acontece em frente a grandes edifícios, sejam hipermercados, bancos ou torres empresariais”.

Em 1905 o escritor brasileiro João do Rio falava em ‘flanar’ pela cidade. Mais de cem anos depois, percebemos que a palavra ganhou novos sentidos. Flanar é hoje mais do que um convite ao caminhar. É um jeito de sentir, esbarrar, reconhecer e aprofundar a experiência urbana. É na cidade que vivemos e é com ela que nos relacionamos cotidianamente.

"Harmonia", por Tamar Matsafi
“Harmonia”, por Tamar Matsafi

Por isso, insisto que, ao assumir o comando de uma cidade, todo gestor deveria ter por princípio cercar-se de profissionais que valorizam a vida urbana e a relação da cidade com homens, mulheres e crianças, os habitantes, que por ela circulam no dia a dia. Suas ruas, calçadas e praças devem ser seguras, acessíveis e agradáveis e seus prédios harmonizar-se com a natureza, possibilitando a ampliação do olhar, para que o andar em direção ao trabalho, à escola, às compras, aos negócios e ao lazer seja leve, prazeroso.

Em relação à inclusão, já me referi em outros textos ao que diz a arquiteta Flavia Boni Licht e repito: “Independente da idade ou da condição física, a acessibilidade é o direito que todos devem ter de compreender um espaço, relacionar-se com os seus conteúdos e usar os seus elementos com autonomia e independência”. Estamos todos de acordo, não?

"Buscando", por Tamar Matsafi
“Buscando”, por Tamar Matsafi

Muitos desafios e pouco interesse
É indiscutível o grande desafio que os candidatos têm pela frente, mas eles me parecem muito pouco interessados em aprofundar qualquer questão. O desafio passa, inevitavelmente, por um entendimento contemporâneo da criação e da diversidade humana que habita os espaços urbanos.

O ponto de partida está em jogar no lixo a velha política do “toma lá, dá cá”, que facilita a corrupção.

É necessário conhecer a cidade profundamente, seus pontos positivos e negativos, entender as demandas da população e planejar.

Mudar a relação com o poder econômico, deter a especulação abusiva, que dita regras e troca uma população inteira pelo concreto sem sentido, e inaugurar um jeito diferente de ativar a economia, os negócios, o crescimento.

Abandonar as carapaças ortodoxas, como Flávia escreveu em 2009, para estabelecer um diálogo franco que compatibilize conceitos, encontre identidades, equilibre posições e construa um novo caminho na direção do respeito ao ser humano e às suas criações.

Desburocratizar os serviços e fazer um bom uso do dinheiro público. Caso contrário, sempre teremos discursos vazios e paliativos, que nunca resolveram nada.

Vejam o Rio de Janeiro, que recém encerrou uma Olimpíada de sucesso e começa a Paralimpíada. O jornal O Estado de São Paulo acompanhou no dia 5 de setembro um cadeirante e um deficiente visual pelas ruas da cidade. Faço referência à reportagem porque é a cara do Brasil e da maneira irresponsável como nossos governos falam, discursam e usam as verbas públicas nas suas administrações.

“Em contraste com a infraestrutura oferecida aos atletas paralímpicos, os deficientes físicos enfrentam no Rio dificuldades de locomoção e circulação decorrentes da carência de equipamentos facilitadores de acessibilidade. Para eles, circular com autonomia pela cidade ainda é uma realidade distante”, escreveu a repórter Constança Rezende na matéria que pode ser acessada no link http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,acessibilidade-continua-sendo-grande-problema-na-cidade-olimpica,10000074049

Há um desleixo triste, quase total! E quando investem em obras para promover a acessibilidade não se dão ao trabalho de consultar técnicos no assunto e muito menos as pessoas com deficiência para fazer o que é mais adequado. A falta de conhecimento e de informação é assustadora. Preocupam-se apenas em mostrar o que fizeram. Vivemos de verdades que não se sustentam, em uma cruel e cotidiana corrida de obstáculos. É tudo para estrangeiro ver!