Amaro Abreu na Bahia com Vida Paralela e Habitat

Retomo aqui uma história de 2016, quando encontrei, por acaso, Amaro Abreu no centro de Porto Alegre e paramos para um café. Ele contou que estava finalizando um livro e me convidou para escrever um texto. Fiquei surpresa, emocionada e feliz. O pedido vinha de um cara que conheci criança no início dos anos 1990. Já não era mais uma criança, claro, mas os olhos e o sorriso ainda guardavam o brilho da infância. Aquela infância que não abandona quem segue brincando através da arte.

Descobri que Amaro já havia desvendado um vasto mundo. Articulado, criativo, observador, levou seus olhos para outras paragens. Bisbilhotou, desenhou, pintou, grafitou. Rabiscou a vida diversa que pulsa em todo lugar com seus lápis, tintas, sonhos, sprays, emoções, nanquim, fantasias, aquarelas e desejos. Desvendou novos cenários. Compartilhou outros jeitos de viver e foi deixando em muros e painéis suas criaturas inusitadas.

Naquele encontro disse que havia lido alguns textos do meu blog e gostado muito. Quando me conectei com suas criações, entendi o que nos sintonizava. As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí fazem parte de um universo vasto e inquieto.

Amaro Abreu é um artista urbano, grafiteiro, aquarelista. Está apresentando no Instituto Goethe, em Salvador/Bahia, a exposição “Vida Paralela” com o lançamento do livro “Habitat” (Libretos, Porto Alegre, 2016). A seguir, o texto que escrevi para o livro.

O Habitat de Amaro Abreu

Das mãos de Amaro Abreu nascem figuras que dizem muito da vida vertiginosa que levamos, das raízes que nos amparam, das ilhas que formamos para nos proteger, da diferença e da fragilidade que desacomodam nossas certezas, da diversidade que nos constitui como sujeitos únicos, das luzes e das sombras do cotidiano, da liberdade que buscamos.

As criaturas que Amaro vai desenhando e espalhando por aí desconsertam, inquietam, alegram, preenchem, fazem rir, emocionam. Coloridas e disformes, delicadas e fortes, às vezes são incrivelmente líricas, pura suavidade e leveza, e nos convidam a bailar. Em outras, surgem como fortalezas que guardam tesouros humanos preciosos, provocando um pensar incessante. Fazem parte de um vasto universo fora da ordem, que sempre me fez refletir, falar e escrever, hoje quase que cotidianamente, na tentativa de entender os humanos e seu Habitat.

Que segredos guardam esses seres do Habitat de Amaro, ao mesmo tempo circenses e melancólicos, brutos e lúdicos, enraizados e soltos, frágeis e fortes, nesse misto de tristeza e alegria? Saltitantes, voadores, lisérgicos, à beira do abismo, amordaçados, à espreita, olhos arregalados, despedaçados e inteiros, ingênuos e intrépidos, suaves, carnavalescos, genuínos na sua adorável imperfeição, o que querem dizer assim tão inconstantes?

Dizem de nós, seres fragmentados, assustados, urgentes, às vezes dilacerados, felizes e infelizes que somos. Humanos?

Dizem dos outros que nos habitam. Revelam nossas tantas faces, nossa polaridade, nossos sentimentos divididos diante do mundo multifacetado, encantador e cruel, que descobrimos, exploramos, construímos, destruímos, reconstruímos. Habitável?

Dizem da frágil condição humana e das vidas paralelas que, estranhamente, tentamos equilibrar.

Dizem de nós, tão coletivos e tão solitários nessa caminhada frenética em busca de um final feliz.

Férias, amigos, Bahia

Sempre gostei de férias, desde os tempos escolares, mesmo ficando em casa, o que era comum, sem perspectivas de algo muito novo no horizonte. Quando entrei para o mercado de trabalho e as férias precisavam ser solicitadas e autorizadas, eu procurava períodos que possibilitassem uma viagem, geralmente no verão. Planejava e juntava dinheiro para abrir as asas e voar.

Foi assim que entrei em um ônibus da Penha na rodoviária de Porto Alegre rumo a Salvador/Bahia, com uma parada estratégica de dois dias no Rio de Janeiro para descansar. Sentar ao lado da janela, olhar a paisagem, ler as placas que iam me localizando ao longo do caminho era uma emoção muito grande. Certamente não maior do que a emoção que tomou conta de mim quando pisei pela primeira vez no Pelourinho, em janeiro de 1974, e entrei no prédio de número 16. Lá morava meu primo/irmão Júlio, que dividia um apartamento com baianos que ficaram nas nossas vidas para sempre, João e Ronaldo. E os tantos outros que foram se somando, num ir e vir constante.

Marlene, minha irmã, que já havia morado em Salvador, levada pelo Júlio, foi quem me estimulou muito a fazer esta travessia. A casa era vertiginosa. Com esses amigos aprendi muito e me reconheci como uma pessoa que poderia andar pelo mundo, com o meu jeito singular, que provocava tanto estranhamento. Entendi o entusiasmo e o desejo da Marlene para que eu vivesse aquela experiência. A diferença, que constituía cada um de nós, era explícita. Foi a partir daí que entendemos um pouco mais da nossa condição de mulheres com nanismo, que poderiam ter uma vida plena. A diversidade, motivo de tantas lutas hoje, já fazia parte daquele ambiente de forma espontânea.

Vivíamos ingenuamente livres, leves e soltos, na contramão de uma ditadura feroz, que perseguia, torturava e matava quem ousasse pensar de um jeito que não o da voz cruel dos militares no poder. Pulamos atrás do trio elétrico de Dodô e Osmar. Cantamos com Caetano, Gil, Moraes Moreira e Baby Consuelo. Acompanhamos a preparação e a saída das baianas, a organização e o desfile dos Filhos de Gandhi, do bloco afro Ilê Aiyê, a criação do Olodum. Nos carnavais, brincamos e dançamos no espaço libertário da Praça Castro Alves, que “é do povo como o céu é do avião”.

Éramos de uma geração que pregava paz e amor e acampava na Aldeia Hippie de Arembepe. Uma geração que queria ser, não ter. E assim vivemos o que foi possível,voltando todos os anos à Bahia e trazendo os amigos para Porto Alegre e São Francisco de Paula sempre que dava. Até criamos um termo que nos definia – “baiúchos”.

Neste verão voltei à Bahia – Arembepe e Salvador – de férias e à flor da pele. Fiquei no apartamento do João, em cima do restaurante Mar Aberto. Um lugar onde Marlene e eu sempre ficávamos. A saudade pulsou forte, mas desta vez de uma forma serena. E fiquei bem. João estava comigo.

E lá estavam meus primos Júlio, Olita, Otília e Joene, que hoje têm uma hospedaria muito aconchegante e charmosa, a Casa das Águas. E lá estavam Ronaldo, Thierry, Luara e Narayan. Minha família baiana.

Arembepe é uma vila privilegiada que luta para manter a integridade do meio ambiente,uma luta necessária e urgente contra a ganância das grandes empresas que só pensam no concreto e no lucro fácil.

Em Salvador fiquei no apartamento do Pelourinho e com os amigos queridos Rita Chagas Ortiz e Freddy Ortiz, mais um pedaço dessa grande família, com quem fiz vários passeios e conheci o Mercado Iaô, da cantora Margareth Menezes. A emoção sempre me sacudindo.

O centro histórico, do Pelourinho até a Rua Chile, está lindo, com vários prédios restaurados e ocupados por redes hoteleiras poderosas, como o do jornal A Tarde, hoje sede do Hotel Fasano.

Lelei em frente ao prédio restaurado em Salvador

Foi muito bom ver a cidade renovada, bonita, com a arte pulsando forte através das várias manifestações genuínas, na rua, mostrando a força indiscutível da cultura negra.

Além da arte nas ruas, conferi um pouco da estimulante produção teatral baiana em três peças solo. No espaço de Aninha Franco, que ela define como “uma casa de encontros,de celebração da vida e da arte, porque sem arte é impossível sobreviver”, vi “Surf no Caos”, com a atriz Rita Assemany, uma reflexão contundente e atual sobre os caminhos da humanidade, que emociona, faz rir e bota a gente para pensar. E “R$ 1,99”, escrito,dirigido, produzido e interpretado por Ricardo Castro, também uma reflexão sobre o cotidiano brasileiro que diverte e inquieta. A casa de Aninha chama-se Republicanos e é realmente “um laboratório de ideias para fazer poesia, pensar, representar, comer e beber”, com uma biblioteca que tem um acervo de 14 mil livros, com muitas raridades.

No Teatro Módulo vi o diretor Fernando Guerreiro no palco em “Revele – Um Desabafo Cômico”, um rasga coração incrível, dinâmico, com texto, produção e direção dele. Todos os espetáculos são contundentes e bem humorados, falam do estado das coisas, da arte e dos artistas em um Brasil à deriva. E, ainda, Adriana Calcanhoto e Baby Consuelo no Teatro Castro Alves, mais o filme “Fevereiros”, documentário com Maria Bethânia no Espaço Glauber Rocha.

Foi um tempo incrível de relax, conhecimento, novas experiências, boas conversas e alegrias. Afetos e aconchegos que me fazem cantar com Milton Nascimento “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”. Ou poetar com Guimarães Rosa “amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado”.