2019 chega ao fim deixando fortes rastros de ódio e intolerância

 

O que vem por aí?

Enquanto os podres poderes lavam as mãos – e seguem com as mãos sujas – assistimos, praticamente sem voz e com poucas representações fortes e dignas, o aniquilamento de conquistas sociais significativas. Atônitos, estamos diante de um país sequestrado. E experimentamos um dos maiores e mais cruéis retrocessos da nossa história recente. Instituições da República falidas. Executivo, Legislativo e Judiciário ocupados por senhores de carreira, alienados e pouco comprometidos com as questões urgentes da vida do povo. Senadores e deputados federais no berço esplêndido da ilha da fantasia conhecida como Brasília. Assim como deputados estaduais e vereadores. Cada turma do seu jeito. Em Porto Alegre, além de reivindicar um aumento de 30%, os vereadores aprovaram o projeto Escola sem Partido, o que significa aprovar a censura, que nos espreita. Somos seres políticos, portanto o “sem” já define um partido, seja ele qual for.

Na esfera econômica, o triste destaque dos últimos dias é uma empresa que descaradamente faz chantagem, sonega impostos, além de assediar e intimidar moralmente seus funcionários. Mas ainda não basta. Agora, o proprietário discursa contra direitos básicos das pessoas, como acessibilidade e inclusão, e mantém a soberba graças aos favores trocados com quem detém o poder. Um toma lá, dá cá deplorável.

Já na esfera ambiental o que acontece na Amazônia escancara o descaso com o nosso patrimônio natural maior, nosso presente e nosso futuro. “A Amazônia é questão de vida ou morte. Precisamos lutar por ela”, escreveu recentemente a jornalista Eliane Brum, ao compartilhar um texto de Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do The Guardian, que ressaltou: “Não são brancos que estão morrendo, como de hábito, pelo menos não ainda. São os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e também agricultores familiares. Sei muito bem que a situação do país toda é terrível. Mas na Amazônia, é onde estão os interesses de Bolsonaro e seus amigos”. A integridade da nossa terra está nas mãos de governos que não se importam com a preservação, repudiam a diversidade e estimulam a violência.

O que está em jogo? Os direitos básicos de um povo muito sofrido – liberdade de expressão, justiça social, educação, saúde, segurança. A nossa dignidade e a nossa autonomia entregues para indivíduos sem escrúpulos. E boa parte da imprensa, como de hábito, segue unilateral, escorregadia, incapaz de uma análise plural, reflexiva e profunda.

Sob o ponto de vista pessoal, minhas dores inevitavelmente misturam-se às dores da sociedade. E nessa fusão de sentimentos vou percebendo, aos solavancos, o tanto que tiraram dos seres políticos e sociais que somos. Todos nós. As marcas são profundas. Necessitamos urgentemente de olhares sensíveis, de fluidez, de sabedoria, de uma humanidade que o poder que nos sufoca desconhece.

Sei que a época é de aliviar as tensões de um ano difícil, de um desmonte nunca antes imaginado, para viver com serenidade os rituais de passagem tão necessários. Sei que é preciso respirar profundamente entre familiares e amigos e brindar a vida com alegria. É fundamental seguir olhando para o outro com afeto, entre risos, abraços, lágrimas e brincadeiras, com a certeza de que é possível a mudança que sonhamos. Sem radicalismos e sem alimentar mágoas, buscar a harmonia, respeitando as diferenças que nos constituem.

O bando que hoje entrega o país ao capitalismo mais sórdido, resultado de um pacto fascista articulado por políticos e uma elite sem escrúpulos, é insaciável. Esse bando nos quer submissos e covardes. Nunca saberemos o quanto ainda vão sugar de todos nós. Os ataques à educação, à ciência, às artes, ao conhecimento e aos direitos das pessoas com deficiência não cessam e é uma maneira de nos tornar vulneráveis como cidadãos. Sem cultura, sem análise, sem reflexão, sem acolhimento, com ataques sistemáticos aos movimentos sociais, e com a desestruturação do ensino, o que temos pela frente é a ausência de pensamento crítico. Um povo sem história e sem memória é mais fácil de subjugar. A eliminação de direitos fundamentais interfere diretamente na formação de indivíduos livres, responsáveis e éticos.

Para fechar um ano duro, sombrio, de perdas nunca antes imaginadas, e em nome da minha saudável rebeldia, recuso a polaridade que não leva a lugar nenhum. Precisamos da palavra que nos coloque novamente em sintonia para divergir e buscar a mudança como seres civilizados que somos. Precisamos do olho no olho, do debate a céu aberto, livres do ódio insano autorizado, que contamina as redes sociais e as nossas relações com o mundo ao redor, plantando mentiras para nos desestruturar.

Apesar do cenário obscuro que vejo estampado no horizonte, meu desejo é que 2020 nos livre da ignorância que tomou conta do Brasil e nos devolva o prazer do conhecimento, a garra, a esperança, a capacidade de lutar pelos nossos sonhos. Recuperar a delicadeza perdida é o que me move neste momento polarizado, de tanto ódio. Quero de volta a nossa humanidade avassaladora e diversa, tão ameaçada neste cotidiano irracional. Quero a humanidade transgressora, libertária, saudável, solidária e rebelde no que tem de mais genuína, múltipla, íntegra e despojada.

Diferença, educação inclusiva, segurança e o fazer político – Busco respostas!

Primeiro foi o livro do norte-americano Andrew Solomon, “Longe da Árvore – pais, filhos e a busca da identidade” (Cia das Letras, 2012). Depois, “O que é que ele tem”, de Olivia Byington (Objetiva, 2016). Ambos chegaram às minhas mãos pelas mãos do amigo Alfredo Fedrizzi.

longe-da-árvore

o que é que ele tem

 

 

 

 

 

 

 

 

Li o intenso, instigante, corajoso e comovente relato de Olivia sobre sua vida com o filho João, que nasceu com a rara Síndrome de Apert, completamente entregue e emocionada. Em um dado momento, ela comenta o livro de Solomon, que fala sobre dez tipos de diversidade, traçando um mosaico incrível sobre a experiência de criar filhos não enquadrados ao que chamam de “normalidade”. Estou lendo aos poucos e já chorei muito no capítulo em que ele trata do nanismo.

Para Olivia, o livro de Solomon, com mais de mil páginas, é um tratado sobre as diferenças. “Ensina sobre a própria vida, sobre como lidar com a diversidade humana, como fazer parte desse universo rico, com tantas histórias semelhantes e plenas de amor”. Ela assinala uma constatação muito verdadeira do autor: “Pessoas longe da árvore devem criar grupos de identificação a partir de suas próprias necessidades”. Assim, reconhecem suas semelhanças, compartilham experiências e afirmam suas identidades, muitas vezes tão distintas e tão distantes do que está ao seu redor.

É tão bom quando a gente encontra eco na fala do outro, se identifica, se sente fazendo parte de uma tribo e, mesmo longe, reconhece sentimentos comuns, como amor, sofrimento, dores e delícias que a vida, sob o signo da diversidade, pode tirar, provocando solidão e desamparo.

A identidade necessária na diversidade, foto de arquivo pessoal
A identidade necessária na diversidade, foto de arquivo pessoal

O que ecoa na nossa aldeia?
É o que gostaríamos sempre de sentir e ouvir na aldeia que habitamos. Um eco repercutindo positivamente, sinalizando mudanças, transformando pessoas e o modo de fazer política.

Hoje vivemos sob o signo do medo, da incerteza e do espanto em relação ao futuro da cidade, do estado e do país. A vulnerabilidade das nossas vidas gera insegurança e amedronta o nosso ir e vir cotidianos.

O que os candidatos que estão por aí fazendo campanhas, às vezes óbvias, com discursos ultrapassados e cheios de clichês, têm a dizer concretamente sobre educação inclusiva, que acolha todas as diferenças, físicas, mentais, intelectuais, comportamentais e sociais? Que acolha crianças e jovens abandonados e contribua para diminuir a marginalidade, o preconceito e a criminalidade? Como os poderes estão conversando sobre esse momento delicado que enfrentamos?

Temos um Executivo, um Judiciário e um Legislativo. Temos instituições, empresas, associações de bairros, comunidades organizadas e comunidades inteiras à deriva, enclausuradas, ameaçadas e abandonadas. Enquanto isso, os podres poderes se agigantam, banalizando vida e ferindo, inexoravelmente, a ética e a confiança de cada um de nós.

Somos todos responsáveis, sim! Mas quem governa, legisla e decide é muito mais responsável. Foram eleitos e têm o dever de cumprir suas promessas, respeitar a constituição e estimular a população para ações do bem. É fundamental que deixem de lado os egos inflados, as constantes picuinhas político-partidárias e a mesquinharia que domina o poder.

O fazer político
O que sempre me inquietou, e hoje me inquieta ainda mais, é a dificuldade que os políticos de plantão e os postulantes a qualquer cargo, de vereador a presidente, têm de conversar e agir em nome de uma causa maior, que envolve a vida e os direitos dos cidadãos.

Quem está no poder, pelo partido X, e perde as eleições para o partido Y, transforma-se em vilão, enquanto o vencedor assume com sua vara mágica de solução para qualquer problema. Um e outro só conseguem chegar aos gestos e encontros protocolares da passagem do cetro. O resto são farpas! Estabelecem uma relação de mão única, primária, subestimando eleitores, o que é inadmissível em um século tecnológico, de comunicação avassaladora, onde tudo se vê e tudo se sabe.

Aquele que assume, com o bolso cheio de soluções, lá pelas tantas não dá conta do que prometeu em campanha, mas não se responsabiliza. A culpa é sempre do outro. E a ladainha segue até o final do mandato. A cena se repete de quatro em quatro anos, de partido para partido, de candidato para candidato e, assim, indefinidamente. Mas quase ninguém abre mão da possibilidade de se candidatar novamente ou dos cargos já conquistados. Por quê? Apesar dos discursos queixosos, que apontam para o caos deixado pelo outro, ainda querem o poder. Alguma vantagem certamente todos têm!

É impossível que uns só acertem e outros só errem e que um governo, por mais equivocado e ruim, não contabilize nenhum acerto. Por que não reconhecer os méritos? Por que não dar continuidade às ações que tiveram bons resultados na administração anterior? Por que não somar? Por que essa voracidade em destruir o outro e o que ele fez? Por que só governar com e para os seus? Por que não uma coalizão ética?
Por que ninguém tem coragem de mudar e fazer diferente? Por que a maioria que se candidata não sabe exatamente o que está fazendo? Por que não temos mais líderes que surgem naturalmente, da militância estudantil, social e política? Por que inventar candidatos, buscando comunicadores populares que dominam os microfones, mas nada entendem da questão social? O que realmente mobiliza partidos, candidatos, eleitores e políticos?

Não tenho respostas. Estou buscando, lamentavelmente com uma certeza: são bem poucos os que têm ideais e pensam no bem comum ao assumir uma candidatura.