Diferença, Inclusão, Acessibilidade

Seminário Inclusão: Direitos das Pessoas com Deficiência

23 de novembro de 2018 – Rio de Janeiro

Minha fala no Painel Inclusão e Acessibilidade

Diferença, inclusão, acessibilidade

 – debate urgente em tempos de desmonte –

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora, 2014), o psicanalista e escritor gaúcho Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir e respeitar são atitudes necessárias.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não há respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece e insiste em não nos ver.

Agradeço aos organizadores deste Seminário, especialmente ao Marcos Bliacheris por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão. É fundamental refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante. Questões que envolvem direitos, políticas públicas, leis, mas dependem especialmente de sensibilidade.

Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht com o título “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase do carioca João Filgueiras Lima, também arquiteto: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente, porque regulam, oferecem alguma garantia, apontam a preocupação da sociedade, mas raramente são colocadas em prática com a seriedade que a situação pede.

Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, apenas cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença. Pouco ou nada entendem e não conseguem colocar-se no lugar do outro e mudar a regra, se o momento pede.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionais e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher e de ousar.

Historicamente, a formação de grupos humanos sempre apontou para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre os integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem vindos e outros repudiados. A sociedade reserva um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim, admitimos uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Por isso, precisamos fazer essa travessia e eliminar o fantasma cruel da exclusão. Precisamos falar sobre a diferença e o impacto que provoca. Enfrentar o preconceito que carregamos é não ter medo das palavras. Só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos seculares e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às pessoas, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão são combustíveis para o preconceito porque se conformam à mensagem já instituída: Cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, grupos LGBTs, população indígena, quilombolas, pobres e toda e qualquer pessoa que apresente alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas.

Nossa experiência cotidiana deixa isso muito claro. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende, assim como o anão divertindo as pessoas, de forma grotesca ou mágica.

Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de nos olhar de outro jeito, falar e acolher.

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeiras. Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã. Precisamos de espaços para trabalhar a cidadania e a crítica. Precisamos de sujeitos conscientes, comprometidos com a valorização da vida, do humano. Precisamos desacomodar certezas sacralizadas porque só a partir da incerteza, da dúvida, do questionamento que crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência.

Só a educação para a diversidade vai libertar o excluído, freando o seu impulso primeiro de calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos, instaurando a desordem cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque tem um comportamento diverso, oriundo de diversas questões. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Submete-se, acomodado, ou resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção aos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta. O preconceito está enraizado em cada um de nós e se revela de todas as maneiras, especialmente através da linguagem. Portanto, a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela respeito ou discriminação. Nesse contexto, as pessoas que têm uma deficiência ficam muito vulneráveis e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou pelo tipo de comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar. No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa.

Precisamos refletir sobre nossos papéis. Não podemos contribuir para a criação de estereótipos. Não é a pessoa com deficiência que deve simplesmente descobrir maneiras de se adaptar. Ou se transformar em vítima, heroína, guerreira a ser admirada em busca de aceitação. A sociedade tem seus deveres e precisa cumpri-los. Não podemos também cair nas artimanhas da superação. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para uma vida solidária. SEM SUPERAÇÃO!

Nossa luta é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o abuso de autoridade, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características.

“A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. Não precisamos “matar um leão por dia” para viver em harmonia com nossa deficiência no meio social em que estamos inseridos. Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, sem cair em velhos clichês? No estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada e, ao fazerem isso, apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

É preciso falar. É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas, especialmente das crianças. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que devem andar em harmonia, respeitando direitos, deveres, opiniões. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluir, então? Por que penalizar aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro. O eu sem o tu não existe.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”.

Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com as nossas dificuldades, as nossas aptidões, a nossa sabedoria e os nossos sonhos. Muito obrigada!