O Fazer Cotidiano

Quero fazer aqui uma rápida reflexão sobre o trabalho a partir da perspectiva humanista. As observações consideram a minha trajetória como profissional, e como chefe que fui em alguns momentos da vida. No centro da cena, trabalhadores e a complexidade do fazer cotidiano.

Não há, em qualquer atividade, uma simples execução de algo, por mais mecânica que seja. Há a convocação de um indivíduo único. Há subjetividade. Há singularidade. O fazer, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo. É impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o indivíduo, sua história e suas escolhas. As pessoas é que fazem a diferença.

Mesmo que as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, essenciais para a sobrevivência e a organização, elas não eliminam a necessidade de cada um produzir o saber. O sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares e promove negociações entre o instituído e o inesperado. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como definitivas correm o risco de desconsiderar a vida que surge a todo instante. As determinações que chegam unicamente por imposições do meio exterior podem afetar a autoestima dos indivíduos e são nocivas à saúde.

E a saúde do trabalhador começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em que vive, em função de normas próprias, elaboradas por sua história, que ninguém pode tirar. Por isso, a necessidade de um olhar amplo e pluridisciplinar, capaz de ver o trabalho e a atitude humana de forma indissociável. Um depende do outro. Há que se considerar a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, o saber investido por cada na atividade que executa, a criatividade e o bem estar dos indivíduos no desenvolvimento de suas tarefas.

Sempre me encantou esta possibilidade, que aprendi com a linguista Marlene Teixeira, minha irmã, e suas pesquisas e estudos sobre linguagem e trabalho, a partir da Ergologia, disciplina desenvolvida pelos franceses Yves Schwartz, filósofo, e Pierre Trinquet, sociólogo. Eles analisam a atividade de trabalho com o foco no humano, questão a ser pensada profundamente diante das mudanças anunciadas com a nova Previdência Social, em pauta no Planalto Central do país, cada vez mais distante do Brasil real.

Ainda é tempo de recuperar a delicadeza perdida

Olhares do cotidiano, por Tamar Matsafi

A condição humana me comove muito. O ir e vir na busca de um lugar de dignidade. O desejo de significar. A vontade de um olhar que acolha a diversidade e dê sentido à perplexidade da vida. A desenfreada luta cotidiana.

Tantas faces. Tantas máscaras. Tantas incertezas. Tantos desafios. Tantas repetições.
Remexendo em guardados, encontrei escritos que falam da minha inquietude. São pequenos relatos sobre o país dos sonhos e o país real. Pincei um de 1990 e um de 2015 para dividir com os leitores do meu blog. Incrível constatar a repetição e a dificuldade de fazer diferente.

Dezembro de 1990. Depois de ver na TV Manchete um programa sobre Chico Buarque, que tinha como cenário o Rio de Janeiro e o Brasil da época, chamado O País da Delicadeza Perdida, escrevi:

No País da Delicadeza Perdida

Ruminando, por Tamar Matsafi

“Me dei conta mais uma vez do país onde vivo. A violência, a miséria, a injustiça social, a impunidade e o abuso de poder parecem estar impregnados na nossa pele e combinar com o nosso desejo. Já não nos espantamos.
Nossos olhos estão habituados com o desespero de alguns olhares e a apatia de milhares de rostos. Nossos ouvidos não estranham o atordoamento de algumas vozes e o silêncio da maioria. Nossa boca acostumou-se a dizer o óbvio, repetir frases feitas ou calar. Nosso corpo absorve o cansaço dos corpos famintos e desesperançados que cruzam as ruas em busca de quase nada. Nossa consciência, às vezes, lateja, mas logo arruma um jeito de amortecer.
Nosso amor não resiste ao menor contratempo. Já não temos quase fôlego. Sonhamos com o amanhã, só que de braços cruzados. Satisfazemos nossos egos com discursos inflamados. Mergulhamos nas causas além de nós, debruçados nas nossas janelas floridas, enquanto disfarçamos a implacável impotência que nos assalta.
Também perdemos uma certa delicadeza. Estamos embrutecidos diante de tanta impossibilidade e nos escondemos. Só conseguimos chegar até a janela, de onde vemos tudo, passiva e dolorosamente.”

Outubro de 2015. Tempos difíceis, escrevi:

Transbordamentos de um país à deriva

Qual a saída, por Tamar Matsafi

“E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água! – diz a emblemática canção de Chico Buarque. Fizeram! E tanto que o pote transbordou. Vozes indignadas sacudiram o berço esplêndido. Era junho de 2013! Acostumados à cordialidade e à alegria do povo heróico, todos se espantaram. A pátria mãe gentil desatinou. Na raiz dos protestos, desejos simples e vitais – respeito, dignidade, participação – de homens e mulheres que queriam ser percebidos para além da moeda de troca vulgar em que transformaram a política e a vida de cada brasileiro.

Descaso, farra financiada por dinheiro público, deboche, impunidade, corrupção. O toma lá dá cá, o vale tudo e o deixa pra lá indiscriminados levaram a população às ruas. Atônitos, governos, políticos, partidos, empresários e instituições foram incapazes de uma resposta. Impávidos, seguiram jogando o sedutor e corrosivo jogo do poder com discursos protocolares de quem não se compromete com a sociedade que representa.

Entramos em 2014! Oposição medíocre, sem alternativas viáveis para os erros que apontava. Governo sem respostas para as críticas que recebia. Copa do Mundo, campanhas e eleições vergonhosas, cheias de dinheiro e promessas vazias. Uma indigesta falta de limites. Comprometimento com projetos para melhorar o país para quê? Uma “boa grana”, lícita ou ilícita, compra votos, adesão, cargos, silêncio.

Veio 2015! No poder, políticos de carreira eleitos com dinheiro ilícito e mantidos por verbas públicas. Partidos sem ideologia, reféns uns dos outros, que só entendem do venha a mim esse reino, de preferência com súditos sem voz. Governos sem autoridade, enredados em alianças oportunistas. Empresários incapazes de liderar um movimento pela ética nos negócios e pela saúde financeira do país. Indivíduos corruptos, desfilando impunes em cargos públicos. Bajuladores de plantão, que tudo veem e tudo ouvem, mas o silêncio é cômodo e tem preço. Burocracia. Violência. Corrupção desenfreada.”

Junho de 2016. E agora?

Desamparo e desencanto

Mesmo diante de tanta desesperança, não estamos inertes. Como em 2013, a vontade de mudar nos move. Se tudo está escancarado, se as máscaras estão caindo uma a uma, a hora é de recomeçar, sem medo, de rosto sereno e com firmeza, outra história, com os pés fincados na transparência e na justiça.