Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.

Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi
“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi
“O avesso”, por Tamar Matsafi