Releitura de crônica de abril de 1991

A vida é feita misturadamente de dor e prazer. E de um irremediável desejo que mantém na humanidade o fascínio pelo viver. Esse desejo – que é falta – é o que nos impulsiona na busca do que em nós é essência. Para nos preencher, nos fazer inteiros e, quem sabe, para nos apaziguar.

A seguir, a atualização de uma crônica muito triste que escrevi em abril de 1991. Encontrei ao mexer em uma pasta de escritos guardada no fundo de uma gaveta. Provavelmente, ao escrevê-la, eu estava no meu inferno zodiacal. Quem sabe em todos os infernos.

Quem é ela?

Tudo indicava que vinha de caminhos diversos. Truncados, acolhedores, tortuosos, amorosos, onde sempre construiu ninhos. E biombos para esconder, quem sabe, o medo e a insegurança. Vinha do não social. Fantasias, ilusões, decepções, histórias outras que não a sua própria história. Vinha cercada de proteções que foram levantadas ao longo dos anos – muros que salvavam e, ao mesmo tempo, segregavam.

Mas o mundo que definitivamente escolheu frequentar não oferecia guarida. Muito menos bálsamo para os males da existência. Levou tempo para ver a vida lá fora, absolutamente nua, para além dos muros. A visão atordoava. E doía a nudez que se instalava de um jeito assustador, potencializada pelos olhares estranhos que a observavam. Até nos momentos em que se via linda, cheia de coragem, pronta para pedir socorro.

Depois de um tempo, e ainda no meio dos muitos temporais, juntou todos os elementos que a fizeram, fazem e desfazem, e passou a escrever sobre os vastos e intensos sentimentos tão intimamente incrustados. Uma tentativa de traduzir, conhecer, entender e, talvez, se redimir do que negou e deixou de ser. Textos doces e agridoces, que a ampararam nos períodos de esconderijo – quando nada era dito, mas era sentido – e a amparam e libertam ainda hoje quando a palavra já não se esconde e possibilita a travessia dos fantasmas do viver.

O que fez esta mulher? Onde se escondeu e com que chaves que mesmo ouvindo o seu grito foi difícil achar seu rastro?

São perguntas que a jogam novamente no útero da mãe e a fazem nascer mais uma vez. Sem disfarces. Já foi ao fundo do poço. Colocou os pingos nos is. Deu nome aos bois. Escreveu certo por linhas tortas. E torta por linhas certas. Entrou na contramão. Atrapalhou o trânsito. Dançou. Perdeu-se. Fragmentou-se. E se refez. Como um quebra cabeças. Foi atrás dos pedaços espalhados. Juntou-os. Encarou a inundação da tristeza oceânica, que doeu como o romper da onda contra o rochedo. Foi e voltou. Estilhaçou. Assumiu disfarces de luz e brilhos de sol. E provou da solidão inacessível do horizonte no mar.

Comeu o pão que o diabo amassou? Não. Recusou consumir o alimento amassado pelo senhor das trevas. E olhou para o pequeno universo que a rodeava, tão bonito! Olhou para a família e para os amigos que seguiam inteiros e intensos. Olhou para o amor que mobiliza tanta gente e para o amor que sempre carregou internamente.

Hoje vive alimentada por esse amor. A dor ainda dói, mas não sufoca e não a impede de desejar e enfrentar o desconhecido. Não seria possível sobreviver de outra maneira. Desnuda, buscou o que nela é essência, o que tem que ser, com a certeza de que é possível ser plena na imperfeição.

Constatações

Em alguns momentos, a solidão bate inexoravelmente. A independência, tão batalhada e conquistada, não é o suficiente. Precisamos do outro. Ao mesmo tempo, não queremos ser um peso para quem nos cerca ou nos cuida. Neste sentido, a convivência com a tia de 91 anos, que me criou, foi muito emocionante no final do ano. Impossível não pensar na fragilidade da condição humana. Impossível não concluir que, venha o que vier, é fundamental a convivência, a troca, o diálogo, a boa conversa, a solidariedade.

É urgente voltar a acreditar que é possível, apesar do enorme vazio e da desesperança que me cercaram em 2018 e permanecem neste início de 2019.

Fiquei especialmente à flor da pele com as chegadas e partidas, os finais e os recomeços. O velho e pesado ano de 2018 foi para a história política e social do país com todas as suas idiossincrasias, injustiças e antagonismos, deixando rastros vorazes e inquietantes. O jovem e já desgastado 2019 sinaliza tempos nada amenos. Ficamos mais intolerantes, raivosos, violentos, cheios de um ódio autorizado que se disseminou feito praga. A cultura, “que nos define e nos salva da mediocridade”, como escreveu Cláudia Laitano no artigo “A Arte Contra-Ataca” (ZH DOC, 29 e 30 de dezembro de 2018), é desprezada. Nunca imaginei ser possível acreditar mais nas armas do que na arte e na educação, o que me assusta muito. O horizonte é turvo e sombrio.

Conquistas como as que se referem às questões de gênero estão ameaçadas. A flexibilização dos papéis tradicionais, com as novas formações familiares que dão mais verdade e transparência às relações humanas, provoca medo em quem detém o poder. Melhor viver na hipocrisia do que conhecemos como “tradição, família e propriedade”, um dos bordões da ditadura militar brasileira, do que apostar na riqueza da diversidade.

Estamos mais vulneráveis, é certo.  Resta-nos, agora, a resistência. Com a arte sempre. Com ética. Com argumentos. Sem barganhas. Sem toma lá, dá cá. Com justiça. Com dignidade.

Enquanto isso…

Falo tanto em acessibilidade, mas nunca me referi aos ônibus de linha.

Falo tanto em inclusão, mas nunca mencionei o tratamento recebido em rodoviárias e nos ônibus de um modo geral.

Falo tanto em alteridade, mas nunca comentei a ausência de um olhar acolhedor nestes espaços.

Nas estações rodoviárias é um salve-se quem puder. Parece que todo mundo está a um passo de perder a viagem. No interior dos ônibus, acesso zero. Nem a tradicional perguntinha: Precisas de ajuda?

É duro reconhecer, mas tudo ainda é primário e a precariedade do cotidiano é grande.

Recuar, virar, mexer – descortinar o avesso

A solidão é minha, não é de mais ninguém! Assim como “a dor é minha só, não é de mais ninguém”, que ecoa nos meus ouvidos na voz de Marisa Monte. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”. Ponto.

Quando se perde uma guerra, depois de algumas batalhas espinhosas, a recomendação é avaliar e, se necessário, recuar. Sinto que perdi e que é coerente no momento o recuo. Ao mesmo tempo, ao olhar pelo avesso, percebo que nada foi em vão. Sem dó. O que fiz foi por mim. Pelos meus valores e crenças, pelo que entendo por respeito, ética, solidariedade, amor, humanidade. Pelo que aprendi de um jeito muito natural com meus pais, avós, tios, amigos.

Pelo que aprendi vida afora, com a minha diferença. Não me encolhi diante do preconceito, mas soube me retirar em determinadas situações para evitar a exposição excessiva, às vezes cruel. E hoje poder falar com naturalidade sobre preconceito, invisibilidade social e inclusão no sentido de contribuir de forma efetiva para uma sociedade múltipla e libertária.

Se o aprendizado primeiro veio do ninho familiar, as asas ganharam ainda mais força na vida lá fora, no mundo do trabalho e nos tantos enfrentamentos. Na responsabilidade às vezes absurda, no cuidado que sempre tive com o outro, na maneira de levar a vida e de lidar com o conhecimento, o poder e o dinheiro. Nunca dei ousadia ao ter, mas ao ser. Desde sempre. Agora, com a maturidade, mais ainda.

Então, pronto!

"Travessias", por Tamar Matsafi
“Travessias”, por Tamar Matsafi

Dia desses, ao me sentir um Dom Quixote desesperado, uma visionária querendo mudar o mundo ao redor, parei para encarar os fantasmas que me atordoavam. E voltei alguns passos. Só assim para recuperar o fôlego e seguir acreditando que é possível, sim, mudar alguma coisa.

“Ande e olhe / Vire e mexa / Não se incomode / Com essa falta de assunto / Ande muito / Veja tudo / Não diga nada além / De dois minutos”, canta Gal Costa.

Andei, olhei, virei e mexi nas muitas linhas da vida, retas e curvas. Há tantos atalhos que podem nos levar por outros caminhos, formulando novas questões para não enferrujar, não acumular mágoas inúteis, não estagnar burramente. Ou, como disse o Diego Titello, há a possibilidade de olhar pelo avesso, considerar o contrário, o inusitado, para não cair no perigo da história única. “Ler o avesso do bordado é fundamental para entender os sentidos do desenho das linhas para além da superfície”.

Ler o avesso do avesso do avesso do avesso
A canção “Sampa”, que Caetano Veloso fez para São Paulo, cidade onde chegou muito jovem para impulsionar sua carreira, diz muito de tudo o que sinto.

“E quem vem de outro sonho feliz de cidade / Aprende depressa a chamar-te de realidade /Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso / Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva / Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / Mais possível novo quilombo de Zumbi / E os Novos Baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.”

"O avesso", por Tamar Matsafi
“O avesso”, por Tamar Matsafi