Tempo de Saudade

Dia desses me peguei cantando “Só cai quem voa”, do Nico Nicolaiewsky, canção que gosto demais. Marlene Teixeira, minha irmã, e eu ouvíamos muito, antes e depois da morte do Nico. Senti uma saudade louca dos dois e redescobri o texto abaixo, que escrevi em abril de 2014.

 “Sou poeta analfabeto, sou maluco, sou profeta, sou palhaço e sou cantor”

Conheci Nico Nicolaiewsky nos anos 1970. Éramos um bando de jovens inquietos, movidos pela arte, e viramos “tietes” de um grupo formado por Chaminé, Sílvio Marques, Gata, depois Pezão, e Nico. Piano, baixo, violão, bateria, às vezes acordeon. Chamava-se “Saracura”. Músicos, compositores, cantores, eles criavam e recriavam canções, levando para o palco talento, inventividade, alegria, o que nos encantava. Não perdíamos nenhum show. Claudio Levitan escreveu na época: “A música do Saracura são sons que vagueiam no cotidiano”. A banda foi considerada a melhor do ano de 1979!

Reservado, parecendo tímido, Nico se transformava no palco. Era o seu lugar! Aos poucos, percebemos que estávamos diante de um grande artista que, ao piano ou com o acordeon, sempre trazia uma novidade, emocionava e fazia rir com sua interpretação teatralizada das canções. “O Ébrio”, de Vicente Celestino, era uma delas, assim como o “Tango da Mãe”, do Levitan. Aí, em um dado instante, a banda se desfez. Lamentamos, vivemos a tristeza necessária e cada um seguiu seu caminho.

Não demorou muito, talvez em meados dos anos 1980, redescobrimos Nico em um pequeno show, quase um esquete, absolutamente sensacional, em um micropalco, no bar do IAB, ao lado de Claudio Levitan e Hique Gomes. Chamava-se “Tangos e Tragédias”. Criavam e reinventavam canções através de interpretações incríveis, líricas, irônicas, românticas, nostálgicas. Do cômico ao trágico, cada apresentação mostrava muito mais do que excelência musical. Naquele espaço minúsculo estavam artistas genuínos que pareciam ter saído do teatro de rua, do meio dos trovadores, da commedia dell’arte, do circo, das serestas, das bandas de interior, dos filmes de Chaplin, misturados ao novo. Como artesãos, teciam as mambembices maravilhosas do mundo da arte, especialmente da música, transitando entre o popular, o erudito, o cafona ou brega, o teatro, o cinema, a ópera, a dança, com leveza e paixão.

Engraçados e sérios, Nico e Hique sabiam como prender o público por todos os lados – pela qualidade da música que faziam, pelas performances inesperadas, pelo figurino, pela maquiagem, pela postura, ora sisuda, ora meio clown, ora meio seresteira, ora operística, um tanto românticos, outro tanto irônicos, singelos e grandiosos, com uma cumplicidade e um jeito de quem definitivamente estava ali para brincar, levando a arte que faziam com muita seriedade e prazer.

Tangos e Tragédias virou um fenômeno jamais visto no Rio Grande do Sul. Atravessou fronteiras. Em Porto Alegre, a consagrada temporada de janeiro no Theatro São Pedro era um frescor no verão escaldante da cidade. Mas eles jamais se entregaram ao sucesso fácil. Intrépidos e irreverentes, sempre garimpavam uma novidade para o espetáculo e, paralelamente, dedicavam-se a projetos artísticos individuais.

Foi assim que depois de três discos solo, em meio a apresentações Brasil afora, Nico mais uma vez nos surpreendeu com o show “Música de Camelô”. Revelou por inteiro sua alma de cantor-poeta-artista popular, capaz de criar, sem preconceitos. “Sensível, emotivo e poético, forte e rápido ao transfigurar a realidade numa gargalhada, com um riso que acariciava nossa dor e nos transportava para a vida”, na bela definição de Claudio Levitan.  (Lelei – 16 de abril de 2014)

Nico nos deixou em 7 de fevereiro de 2014, dia de uma profunda tristeza em que Marlene e eu revisitamos as suas criações e cantamos muito.

Marlene partiu em 5 de abril de 2015, dia em que fiquei dilacerada, sem chão. Mas a arte está aí para nos salvar, nos fazer tirar os pés do chão, voar, cair, levantar, voar – “Pois só cai quem voa / só quem tira os pés do chão”.