Ao trabalho, então!

O que me desencanta ainda mais nesses tempos obscuros, de desmonte do que é voltado para a dignidade humana, é perceber que mesmo algumas pessoas que se intitulam democratas não conseguem respeitar o trabalhador. Os discursos libertários em nome dos cidadãos ficam no plano teórico quando se trata de mostrar serviço a qualquer custo. É produção, renda, dinheiro, exploração, lucro, aparência. Já vi muito e sigo percebendo essa tamanha distorção. Na prática, trabalha-se hoje muito mais do que as horas estipuladas, se é que ainda se estipulam horário e função.

Aliás, os trabalhadores, nesta era insana de celulares e rede social que não têm limites, devem estar sempre disponíveis porque, inevitavelmente, serão convocados. A qualquer hora do dia ou da noite, feriados e finais de semana. Isto porque tudo, mesmo a ação mais banal e óbvia, corriqueira, precisa estar na rede. Todos precisam se mostrar. Para quem mesmo? Dane-se a vida pessoal, o ócio necessário para a criação, o afastamento saudável para renovar energias e olhares.

“A tecnologia nos fará trabalhar menos.” Quem foi mesmo que disse isso?

Os discursos, tão sociais e politicamente corretos, foram esquecidos. A empresa, o executivo, o chefe ou quem quer que seja, precisa garantir poder e status. Tu serás acionado, sim, nas vinte e quatro horas disponíveis porque a ansiedade pela ansiedade de quem te banca, empresários, patrões, chefias, e a tua própria, já não reconhece outra forma de gerir um negócio, de trabalhar.

Poucos conseguem admitir que, em muitos casos, o que poderia ser feito hoje pode ficar para amanhã. Nada vai se perder. Reside aí uma grande dificuldade de ver o subjetivo que há em qualquer ação de trabalho, uma questão humana por excelência. E volto à nossa incapacidade de olhar para o outro, de sair do burocrático, da norma, e reinventar o fazer cotidiano.

Ao trabalho, então! Mesmo com os salários vergonhosamente atrasados e reduzidos, o que não importa. Afinal, os governos – pobres governos! – têm sérios problemas. E por conta desses problemas, sempre os mesmos, conseguem passar quatro anos se lamentando, de um jeito heroico, claro – “estamos fazendo o possível para colocar as contas em dia”.

Definitivamente, não entendo por que os políticos ainda se dispõem a concorrer para um cargo público. É muito sacrifício, minha gente! Mas certamente seus salários polpudos não atrasam. Está certo. Vereadores, deputados, senadores e seus comparsas precisam ser bem remunerados para justificar tanta dedicação!

Limites da tecnologia

O discurso tecnológico e os avanços do festejado mundo virtual às vezes me parecem barbaramente incompatíveis com a miséria física e moral desses tempos obscuros. A tão apregoada evolução não combina com um país hoje cruel e mesquinho, que nos joga em uma miséria de valores éticos, potencializada pelas redes sociais, que geram uma polarização sem medidas. Falo isso porque há um fosso enorme entre as pessoas. Mesmo com os tantos talentos que temos ao redor, os tantos recursos disponíveis e as infinitas facilidades de comunicação, a qualidade de vida é mínima, as periferias empobrecem e se marginalizam cada vez mais, enquanto políticos sem escrúpulos e elites soberbas continuam acumulando capital e poder.

A educação, única forma de oferecer autonomia, raízes e possibilidades de voos a crianças e jovens, está à deriva, sem recursos, sucateada. Os professores são desprezados pelos governos. Enquanto os juízes ganham todo tipo de penduricalhos em salários já polpudos, os mestres têm parcos salários e enfrentam escolas sem as mínimas condições para exercer a tão necessária função de ensinar.

Paralelamente, a lei trabalhista passa por reformas que abalam a sua essência e o Ministério do Trabalho está nas mãos de senhores de reconhecido caráter corrupto. A saúde, por sua vez já tão precária, sofre abusos de todo tipo, como as ameaças de dar fim ao SUS, o abandono de centros que atendem a população mais carente, a superlotação dos hospitais e a falta de verbas. A insegurança assusta e o abandono das cidades é um fato. Só ouvimos queixas dos governos que, sem um rasgo de criatividade e invenção, repetem incessantemente o discurso da falta de verbas. E, em ano político, abusam das negociatas para manter privilégios. A corrupção avança e o dinheiro que falta é visto logo ali, desviado, nas mãos de quem não precisa, sem o mínimo controle.

Quem realmente está preocupado em resolver os problemas que a população enfrenta cotidianamente?

Se o uso da tecnologia não consegue contribuir minimamente para a mudança deste triste panorama, criaremos um fosso imenso em um mundo cada vez mais verticalizado, reduzido a pequenos celulares de última geração. Isso porque esses são os valores que vigoram na sociedade de hoje. Uma sociedade vertical, incapaz de melhorar o mundo porque aprisionou o olhar, eliminou a horizontalidade e, assim, eliminou também a possibilidade de olhar em todas as direções. Uma sociedade que esqueceu que somos humanos e multifacetados, portanto, vulneráveis.

Uma bela entrevista com Paulo Flores, ator, diretor e fundador do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, no Caderno DOC da ZH do final de semana de 16 e 17 de junho de 2018, toca neste tema com sabedoria. “Vivemos em um mundo eletrônico, nos comunicamos através desses meios, não nos encontramos. Onde está o olho no olho? A vivacidade das expressões?”, pergunta ele.

Onde está o corpo a corpo? Onde está a tribo? Onde estamos? O que queremos?

Ficam as perguntas para pensarmos. E responder.

A vida que surge a todo instante – Trabalho e diferença

Trabalho, por Tamar Matsafi

Quando falo de diversidade, inclusão, diferença, falo de um universo humano muito vasto e muito rico que vou desvendando aos poucos. E que contou com a colaboração da Marlene e dos estudos que fazia sobre discurso e linguagem e, mais recentemente, sobre a interlocução entre linguagem, psicanálise e ergologia. Por conta disso, no Dia do Trabalho retomei alguns artigos da Marlene e do filósofo francês Yves Schwartz, um pensador da subjetividade no trabalho, que refletem sobre a complexidade embutida no fazer cotidiano, o que está muito próximo do que proponho neste blog. Minha escrita de hoje é inspirada nessas leituras.

Não há na atividade de trabalho uma simples execução de algo, por mais mecânico que seja. Há a convocação de um indivíduo único, com capacidades bem mais amplas, ou não, do que as enumeradas ou exigidas pela tarefa que executa. Há singularidade. E a cada tarefa, cria-se uma nova situação que nenhuma racionalidade anterior é capaz de dar conta. Na perspectiva ergológica de Schwartz, por exemplo, o homem na atividade de trabalho coloca em marcha um saber pessoal que vem da sua história, da soma da experiência familiar, social, cultural e profissional. Há sempre um dado subjetivo indissociável a ser considerado.

Logo, é impossível pensar o exercício profissional sem levar em conta o trabalhador e sua subjetividade, suas escolhas, suas ideias, seus conhecimentos práticos, seus valores, seus dramas interiores. Mesmo que normas gerais regulem o agir social e sejam essenciais à sobrevivência humana, elas não dissipam a maneira com que cada um dá conta do seu saber. Sempre teremos pontos de fuga, oriundos de um conhecimento não explícito. Até porque ser determinado unicamente pelas normas, pelas imposições do meio exterior, não é viver. Ao contrário, é algo patológico, nocivo à saúde.

Há sempre um saber-fazer (norma) e um saber-agir (renormalização) que interagem e se somam na atividade de trabalho. Há que se olhar para o sujeito, então, sob o pressuposto de que aspectos subjetivos são aí inevitavelmente mobilizados. Embora as ações humanas sejam pautadas pela regularidade, o sujeito, ao agir, mobiliza escolhas particulares, promovendo uma negociação entre o que está instituído e o que é da ordem do inesperado. A vida é sempre tentativa de criar, de ser. As normas são conquistas da sociedade, mas se olhadas como “um fim em si”, apresentam o risco de desconsiderar “a vida que surge a todo instante”.

Segundo Yves Schwartz, “a saúde começa com a tentativa de redesenhar parcialmente o meio em se vive”. Ao perceber o trabalho a partir de uma perspectiva humana, evita-se a coisificação das pessoas porque são elas com o seu talento, a sua vivência e a sua sabedoria que fazem a diferença. O fazer só, repetida e mecanicamente, não é a definição do que dá certo.